TUDO VALE NO AMOR Eloisa James (2023)

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18 de março de 1809
Berkley Square, 45
Residência de Londres do duque de Ashbrook
–Terás de casar com ela. Não me importo que penses nela como tua irmã: a partir de agora, passará a ser para ti o Velo de Ouro.
James Ryburn, conde de Islay e herdeiro do ducado de Ashbrook, abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas um misto de fúria e incredulidade sufocou-lhe as palavras.
O pai deu meia volta e encaminhou-se para a parede oposta da biblioteca, agindo como se não tivesse dito nada de extraordinário.
– Precisamos da fortuna dela para reparar a propriedade de Staffordshire e pagar algumas dívidas, de contrário perderemos tudo, incluindo esta casa.
– O que fez o senhor? – James cuspiu as palavras. Uma horrível sensação de medo invadia-lhe os membros.
Ashbrook voltou-se rapidamente.
– Não te atrevas a falar-me nesse tom!


TUDO VALE NO AMOR Eloisa James (9)


James respirou fundo antes de responder. Uma das suas resoluções era dominar o seu temperamento antes de fazer vinte anos – e faltavam apenas três semanas para o aniversário.

– Peço desculpa, meu pai – conseguiu dizer. – Mas como foi exatamente que as propriedades chegaram a uma tão precária situação? Se me permite a pergunta.

– Não permito. – O duque fitou o seu único filho e o seu nariz comprido e aquilino estremeceu de raiva. James tinha aquele temperamento de nascença: herdara-o diretamente do seu irascível e imprudente.

– Nesse caso, tenha um bom dia – disse James mantendo um tom cordato.

– Não será, a menos que vás lá abaixo fazer olhinhos a essa rapariga. Recusei um pedido da mão dela esta semana, de Briscott, que é tão simplório que nem me dei ao trabalho de dizer à mãe dela. Mas sabes muito bem que o pai deixou à mulher a decisão de com quem ela se casa...

– Não conheço os termos do testamento de Mister Saxby – declarou James. – E não percebo por que razão essa decisão lhe causa tanto aborrecimento.

– Porque precisamos da fortuna dela. – Ashbrook enfureceu-se e dirigiu-se à lareira para dar um pontapé nos troncos apagados. – Tens de convencer a Theodora que estás apaixonado por ela, ou a mãe nunca concordará com o casamento. Imagina que, na semana passada, Mistress Saxby interrogou-me acerca dos meus investimentos de um modo que me desagradou. Não saberá qual é o lugar de uma mulher?

– Não farei nada disso.

– Vais fazer exatamente o que eu te ordenei.

– Ordenou-me que corteje uma jovem de quem fui ensinado a gostar como uma irmã.

– Histórias! Podem ter andado os dois a fazer disparates em crianças, mas isso não deverá impedir-te de dormires com ela.

– Não posso.

Pela primeira vez, o duque mostrou um pouco de solidariedade.

– A Theodora não é uma beleza. Mas todas as mulheres são iguais na...

– Não diga isso – irritou-se James. – Já estou chocado, não me obrigue a ficar também enojado.

O pai semicerrou os olhos e uma cor avermelhada subiu-lhe ao rosto, sinal certo de perigo. Claro que a voz de Ashbrook se fez ouvir num berro.

– Não quero saber que a miúda seja feia como o pecado, mas vais ficar com ela. E vais fazer com que se apaixone por ti. De contrário, não terás casa de campo para herdar. Nenhuma!

– O que fez o senhor? – repetiu James com os dentes cerrados.

– Perdi-a – gritou o pai, com os olhos esbugalhados. – Perdi-a e não precisas de saber mais nada!

– Não o farei. – James levantou-se.

Um ornamento de porcelana passou-lhe junto a um ombro e estilhaçou-se de encontro à parede. James nem estremeceu. Já estava habituado aos ataques de mau génio; crescera baixando-se para não ser atingido por várias coisas, desde livros a estatuetas de mármore.

– Farás ou deserdo-te e nomeio herdeiro o Pinkler-Ryburn!

James baixou a mão e voltou-se, prestes a perder a cabeça. Embora nunca tivesse sentido o impulso de lançar objetos à parede – ou ao pai –, a sua capacidade para lançar comentários cortantes era igualmente destrutiva. Respirou fundo mais uma vez.

– Embora hesite em dar-lhe lições acerca do sistema legal, meu pai, posso garantir-lhe que é impossível deserdar um filho legítimo.

– Digo na Câmara dos Lordes que não és meu filho – gritou o duque. As veias incharam-lhe na testa e as faces passaram de vermelhas a púrpura. – Digo-lhes que a tua mãe era uma sem-vergonha e que descobri que tu não passavas de um bastardo.

Ao ouvi-lo insultar a mãe, James sentiu que perdia o autodomínio já tão frágil.

– O senhor pode ser um cobarde, um jogador idiota, mas não vai manchar a minha mãe com desculpas destinadas a esconder a sua própria idiotice!

– Como te atreves? – gritou o duque com o rosto da cor da crista de um galo.

– Digo apenas aquilo que todos sabem neste reino – disse James, as palavras explodindo-lhe na boca. – O senhor é um idiota. Tenho ideia do que aconteceu à propriedade; só queria ver se tinha coragem de o admitir. Mas não tem, o que não me surpreende. Hipotecou todas as parcelas de terra que podia, pelo menos as que não vendeu imediatamente, e enfiou todo o dinheiro na Bolsa. Investiu em vários esquemas ridículos. O canal que construiu e que ficava a menos de uma légua de outro canal? Por amor de Deus, em que estava o senhor a pensar?

– Só o soube quando já era demasiado tarde! Os meus sócios enganaram-me. Um duque não sai para inspecionar o local onde deverá ser construído um canal. Tem de confiar noutros e eu nem sempre tive sorte.

– Eu teria pelo menos visitado o dito canal uma vez antes de afundar milhares de libras num caminho de água sem esperança de ter trânsito.

– Como não tens vergonha? Como te atreves? – A mão do duque apertou um castiçal de prata que se encontrava sobre a lareira.

– Atire isso e deixo-o aqui nesta sala com o seu medo. Quer casar-me com uma jovem, que me considera irmão dela, para lhe deitar a mão à fortuna, para que o senhor a possa perder? Sabe como o tratam nas suas costas, meu pai? Certamente já ouviu. O Duque Louco.

Ambos respiravam pesadamente, mas o pai resfolegava como um touro, a mancha púrpura das faces destacando-se do branco do colarinho.

Os dedos do duque apertaram-se de novo na peça de prata.

– Atire-me o castiçal e eu atiro-o pelo quarto – ameaçou James. – Vossa Graça.

O duque baixou a mão e voltou o ombro olhando para a parede.

– E se tivesse perdido? – resmungou com a beligerância a acentuar-lhe as palavras. – O facto é que perdi tudo. O canal era uma coisa, mas as vinhas eram seguras. Como iria adivinhar que a Inglaterra é um solo fértil para a podridão negra?

– O senhor é um imbecil! – exclamou James e deu meia volta para sair da sala.

– A propriedade de Staffordshire está na nossa família há seis gerações. Tens de a salvar. A tua mãe ficaria arrasada se se vendesse a propriedade. E a sepultura dela...? Já pensaste? O cemitério está ao lado da capela, como sabes.

James sentia o coração bater-lhe furiosamente na garganta. Levou um momento a conseguir uma resposta que não incluísse lançar as mãos ao pescoço do pai.

– Isso é muito baixo, mesmo vindo da sua parte – disse por fim.

O duque não deu atenção à resposta.

– Vais permitir a venda do corpo da tua mãe?

– Vou pensar cortejar qualquer outra herdeira – respondeu James, por fim. – Mas não me casarei com a Daisy. – Theodora Saxby, a quem apenas James chamava Daisy, era a sua amiga mais querida, a sua companheira de infância. – Merece melhor que eu, melhor do que alguém desta bendita família.

Fez-se silêncio atrás dele. Um silêncio terrível, distorcido, que fez com que James se voltasse.

– Não. Impossível. Nem o senhor faria tal coisa.

– Pensei que poderia repô-lo numa questão de semanas – disse o pai, empalidecendo de tal forma que parecia envelhecido.

James sentiu as pernas tão fracas que teve de se encostar à porta.

– Quanto desapareceu da fortuna dela?

– Bastante. – Ashbrook baixou os olhos, mostrando, pelo menos, sinais de vergonha. – Se ela casar com outra pessoa, serei... serei levado a tribunal. Não sei se podem prender duques. A Câmara dos Lordes, suponho. Mas não será nada bonito.

– Oh, claro que podem levar duques a tribunal – respondeu James, num tom pesado. – Apoderou-se do dote de uma jovem que lhe foi confiada desde criança. A mãe dela era a mulher do seu melhor amigo. Saxby pediu-lhe no seu leito de morte que cuidasse da filha.

– E cuidei – replicou o pai, mas sem o seu génio habitual. – Criei-a como se fosse minha.

– Criou-a como minha irmã – disse James. Obrigou-se a atravessar a sala e a sentar-se. – E roubava-a ao mesmo tempo.

– Não foi sempre – ripostou o pai. – Só no último ano. Mais ou menos. Grande parte da fortuna dela está em fundos e não podia tocar-lhes. Apenas... apenas..., bom... pedi algum dinheiro emprestado. Tive azar e isso é um facto. Tinha a certeza absoluta de que não chegaria a isto.

– Azar? – repetiu James, a voz líquida de desagrado.

– Agora a menina começou a receber propostas de casamento e não tenho tempo de repor. Tens de ficar com ela. Não será só ficarmos sem as propriedades e a casa da cidade; depois do escândalo, o nosso nome de nada valerá. Mesmo que eu pague tudo o que pedi emprestado vendendo a propriedade, o total não cobrirá as minhas dívidas.

James não replicou. As únicas palavras que lhe passavam pela cabeça eram simples blasfémias.

– Foi mais simples quando a tua mãe era viva – disse o duque após um ou dois minutos. – Ela ajudava, sabes. Tinha a cabeça bem assente nos ombros.

James também não conseguiu responder àquilo. A mãe morrera havia nove anos e assim, o pai, em menos de uma década conseguira empobrecer os domínios da família que iam da Escócia a Staffordshire e a Londres. E desviara a fortuna de Daisy.

– Vais fazer com que te ame – encorajou-o o pai, deixando-se cair numa cadeira diante de James. – E já te adora. Sempre adorou. Temos a sorte de a pobre Theodora ser muito feia. Os únicos homens que pediram a mão dela eram caçadores de fortunas tão óbvios que nem a mãe os quis ter em conta. Mas isso vai mudar à medida que a temporada avance. Ela é bastante aproveitável, é só preciso conhecê-la.

James rangeu os dentes.

– Ela nunca gostará de mim dessa maneira. Pensa em mim como seu irmão, como seu amigo. E não pode dizer que ela seja feia.

– Não sejas tonto. Herdaste o meu perfil. – Uma centelha de vaidade sublinhou as palavras do duque. – A tua mãe sempre me disse que eu era o homem mais belo da minha geração.

James engoliu um comentário que em nada ajudaria a situação. Sentia uma incrível onda de náusea a invadi-lo.

– Podíamos contar à Daisy o que aconteceu. O que o senhor fez. Ela compreenderia.

O pai soltou uma exclamação de desdém.

– Julgas que a mãe dela compreenderia? O meu velho amigo Saxby não sabia no que se estava a meter quando casou com aquela mulher. É uma megera. Uma tártara.

Nos dezassete anos em que Mrs. Saxby e a filha pequena fizeram parte da casa do duque, ela e Ashbrook conseguiram manter ralações suficientemente cordiais – principalmente porque Sua Graça nunca lançara qualquer objeto na direção da viúva. Mas James soube instantaneamente que o pai tinha razão. Se a mãe de Daisy tivesse a mais leve suspeita de que o tutor da filha se apropriara indevidamente da herança, um exército de advogados bateria à porta da casa, antes do cair da noite. Só de pensar nisso, James sentiu a bílis subir-lhe à garganta.

Por outro lado, o pai parecia animar-se. Tinha um espírito capaz de saltar de um assunto para o outro, as suas fúrias eram ferozes, mas de pouca duração.

– Umas flores, talvez um poema, e a Theodora cairá na tua mão tão doce como uma ameixa madura. Afinal, a menina não recebe muitos elogios. Diz-lhe que é muito bela e tê-la-ás a teus pés.

– Não posso fazê-lo – declarou James, sem sequer se incomodar a imaginar tal coisa. Não seria questão de não desejar dizer esses disparates à própria Daisy; odiava situações em que dava por si confundindo-se com a linguagem e a tropeçar nos salões de baile. A temporada começara havia três semanas e ele não fora a um único baile.

O pai interpretou mal a recusa.

– Claro que terás de mentir, mas é o tipo de mentira que um cavalheiro não poderá evitar. Pode não ser a mais bonita jovem casadoira... e certamente não é tão agradável como a bailarina de ópera com que te vi na outra noite, mas não terias qualquer vantagem em apontar-lhe a verdade. – O duque soltou uma pequena gargalhada ao imaginar a situação.

James mal o ouviu. Concentrava-se para não vomitar enquanto pensava no dilema que tinha diante de si.

O duque prosseguia, divertindo-se a estabelecer a diferença entre esposas e amantes.

– Em compensação, podes arranjar uma amante que seja duas vezes mais bela do que a tua mulher. Será um contraste interessante.

Ocorreu a James, e não pela primeira vez, que não havia no mundo ser humano que ele mais desprezasse do que o pai.

– Se me casar com a Daisy, não arranjarei uma amante – disse ele, frenético, tentando imaginar uma saída. – Nunca lhe faria tal coisa.

– Bom, espero que mudes de ideias acerca desse assunto, após alguns anos de casamento, mas cada um faz o que quer. – A voz do duque era tão forte e alegre como sempre. – Bom, não há grande coisa a pensar, pois não? Foi o azar e a doença das vinhas, mas não estou a ver que eu ou tu tenhamos alternativa em relação a isso. A vantagem é que um homem pode sempre cumprir as suas obrigações no quarto, quer queira quer não.

A única coisa que James desejava naquele momento era sair da sala, para se afastar do pai que tanto lhe desagradava. Mas perdera a batalha e obrigou-se a estabelecer regras.

– Caso com uma condição. – A voz parecia estranha aos seus próprios ouvidos, como se um desconhecido pronunciasse as palavras.

– O que quiseres, meu rapaz, o que quiseres! Sei que te peço um sacrifício. Como te disse, temos de admitir aqui entre nós que a pequena Theodora não é a mais bonita do ramalhete.

– No dia que eu casar com ela, o senhor entrega-me os domínios... a casa de Staffordshire e as terras, esta casa e a ilha na Escócia.

O duque abriu a boca de espanto.

– O quê?

– Tudo – repetiu James. – Passo a pagar-lhe uma renda e ninguém precisará de saber, exceto os advogados. Mas não serei responsável por si e pelos seus esquemas irresponsáveis. Nunca mais me responsabilizarei pelas dívidas em que possa futuramente incorrer... nem por qualquer roubo. Da próxima vez, irá para a prisão.

– Isso é absurdo – gaguejou o pai. – Não pode ser... tu não podes... não!

– Então diga adeus a Staffordshire – retorquiu James. – Talvez queira fazer uma visita especial à campa da minha mãe, se tem assim tanta certeza de que ela ficaria aflita com a venda da casa e ainda por cima do cemitério.

O pai abriu a boca, mas James levantou a mão.

– Se o deixasse manter as propriedades, apropriar-se-ia da herança da Daisy, depois do que já perdeu. Dentro de dois anos, nada restaria e eu teria traído a minha melhor amiga, sem qualquer razão.

– A tua melhor amiga, é? – O pai divergiu imediatamente para outra ideia. – Nunca tive uma mulher como amiga, mas a Theodora parece um homem, claro e...

– Pai!

O duque pigarreou.

– Não posso dizer que gosto da maneira como me interrompes. Suponho que, se concordar com esse teu esquema ridículo, posso esperar uma humilhação diária.

Era uma concessão implícita.

– Sabes – disse o pai, com um sorriso no rosto, agora que a conversa terminara. – Afinal está tudo bem. Era o que a tua mãe dizia sempre: «Tudo está bem quando acaba bem.»

James não pôde evitar perguntar mais uma coisa embora, Deus sabia, estivesse já ciente da resposta.

– Não se importa mesmo nada com o que está a fazer? A mim e à Daisy?

Um leve rubor voltou às faces do pai.

– A menina não podia esperar melhor do que casar contigo!

– A Daisy casar-se-á comigo acreditando que estou apaixonado por ela e não o estou. Merece ser cortejada e genuinamente amada pelo marido.

– O amor e o casamento não deveriam ser mencionados na mesma frase – disse o pai, dando o assunto por terminado. Mas desviou o olhar do filho.

– Fez o mesmo comigo. O amor e o casamento podem não andar juntos com muita frequência, mas assim não terei qualquer possibilidade. E mais ainda, começarei o meu casamento com uma mentira que destruirá a Daisy se ela alguma vez descobrir. Apercebe-se disso? Se ela vier a saber que a traí desta maneira tão insensível... não só o meu casamento, mas a nossa amizade terminarão.

– Se pensas mesmo que ela vai fazer uma birra, o melhor será que lhe arranjes um herdeiro nos primeiros meses – aconselhou o pai como ar de quem oferece um conselho prático. – Uma mulher enganada e tudo o mais. Se ficar muito furiosa, suponho que possa fugir com outro homem, mas se já tiverem um herdeiro... e um sobresselente, se conseguires... podes deixá-la ir.

– A minha mulher nunca fugirá com outro homem! – Aquilo surgiu do peito de James como um rugido de um local de que nem mesmo ele conhecia a existência.

O pai levantou-se da cadeira.

– Chamaste-me louco. Pois bem, vou fazer-te o mesmo. Nenhum homem no seu juízo perfeito pensa que o casamento se compõe de carícias e arrulhos. A tua mãe e eu casámo-nos pelas razões certas, que tinham a ver com as obrigações familiares e negociações financeiras. Fizemos o necessário para que nascesses e deixámos as coisas por aí. A tua mãe não conseguiu enfrentar o esforço para um sobresselente, mas também não chorámos por causa disso. Sempre foste um rapaz saudável. Exceto naquela altura em que quase ficaste cego – acrescentou. – Teríamos tentado arranjar outro se o pior acontecesse.

James pôs-se de pé, mal ouvindo a voz do pai através de um emaranhado de horrorosos pensamentos a que não se atrevia a dar voz.

– Nenhum de nós te educou para teres essas disparatadas ideias românticas – atirou-lhe o duque, voltando-se para trás, ao sair da sala.

Ao chegar à idade de dezanove anos, James pensara ter compreendido o seu lugar na vida. Aprendera as lições mais importantes: montar a cavalo, não beber demasiado e defender-se num duelo.

Ninguém lhe ensinara – e também nunca imaginara a necessidade de aprender – como trair uma pessoa de quem realmente se gostava. A única pessoa que gostava verdadeiramente dele. Como partir-lhe o coração, quer fosse no dia seguinte, daí a cinco ou a dez anos.

Porque em breve Daisy viria a saber a verdade. Sabia com toda a certeza que haveria de descobrir que ele fingira apaixonar-se para que ela casasse com ele... e nunca lhe perdoaria.


Dois

Theodora Saxby, a quem James chamava Daisy, tentava a todo o custo não pensar no baile de Lady Corning, que se realizara na noite anterior. Mas, como muitas vezes acontece quando se quer evitar o assunto, a única coisa que o seu espírito parecia disposto a rever era uma cena do dito baile.

As meninas que ouvira cochicharem acerca da sua parecença com um rapaz, nem sequer estavam a ser especialmente indelicadas. Afinal, não estavam a falar com ela. E não se teria importado com os seus comentários, se não tivesse tido a impressão de que os cavalheiros presentes no baile estavam de acordo com elas.

Mas o que poderia fazer? Olhava, desesperada para o espelho. O receio da mãe de que isso acontecesse – embora a mamã se recusasse a reconhecê-lo – fizera com que o cabelo de Theo fosse encaracolado com um ferro. O vestido, como tudo o que existia no seu guarda-vestidos, era branco e com folhos e muito feminino. Fora escolhido com pérolas e toques rosados, uma combinação que (na sua opinião) nada fazia senão acentuar a pouca feminilidade da sua pessoa.

Odiava o seu aspeto, tanto como odiava o vestido. Se não se preocupasse em que as pessoas a tomassem por um rapaz – não que o fizessem, mas não poderiam deixar de notar a semelhança; de qualquer forma, se não tivesse de se preocupar com isso – nunca mais usaria o cor-de-rosa. Ou pérolas. Havia algo incrivelmente banal no modo como as pérolas brilhavam.

Distraiu-se por momentos a imaginar-se a rasgar o vestido em tiras, arrancando-lhe os folhos e as pérolas e as pequenas mangas. Se pudesse escolher, usaria gorgorão de seda cor de ameixa e afastaria o cabelo do rosto, sem qualquer caracol. O único ornamento seria uma pena enorme, negra, arqueada de modo a quase tocar-lhe o ombro. Se as mangas fossem pela altura do cotovelo, debruá-las-ia com uma tira fina de pele negra. Ou talvez um rebordo de pelúcia que também enfeitaria o pescoço. Ou um debrum de penas no pescoço; o branco faria um contraste exagerado com o veludo cor de ameixa.

Pensou então que poderia colocar uma gola de canudos enfeitada com uma tira estreita de pelúcia. Seria ainda melhor se as mangas não fossem de tecido opaco, mas transparentes, como a nova seda indiana que a sua amiga Lucinda usara na noite anterior, e fá-las-ia bem largas para que tufassem e depois apertassem no cotovelo. Ou talvez no pulso fossem mais dramáticas......

Podia ver-se a entrar na sala de baile vestida dessa mentira. Ninguém soltaria risos nervosos, duvidando se parecia um rapaz ou uma rapariga. Faria uma pausa por momentos no cimo da escada, lançando um olhar sobre os convidados e depois abriria bruscamente o leque. Não, os leques eram enfadonhos e estavam a passar de moda. Teria de aparecer com algo que fosse uma novidade.

O primeiro homem que lhe pedisse para dançar, dirigindo-se a ela como Miss Saxby, seria tratado com um sorriso levemente cansado, mas divertido. «Trate-me por Theo», diria e todas as matronas se escandalizariam a ponto de não falarem senão desse assunto durante toda a noite.

Theo era a chave: o nome jogava com todas as paixonetas que os homens tinham uns pelos outros, o modo como as suas relações mais íntimas eram com os amigos e não com as mulheres. Vira o que acontecera com James, que, aos treze anos adorava positivamente o capitão da equipa de críquete de Eton. Não havia dúvida de que se puxasse bem o cabelo para trás e usasse um vestido vagamente semelhante ao equipamento de críquete, todos os homens que tinham adorado os seus capitães cairiam a seus pés.

Estava tão entusiasmada com a visão de si mesma num casaco de corte severo, semelhante a uma casaca de Eton, que, a princípio, nem ouviu as pancadas na porta. Mas um insistente «Daisy!» quebrou por fim o transe e obrigou-a a levantar-se de um salto do sofá e a abrir a porta do quarto.

– Oh, olá, James – disse, incapaz de mostrar grande entusiasmo ao vê-lo. A última pessoa que se quer ver, quando se sofre de um ataque de melancolia, é um amigo que se recusa a acompanhá-la aos bailes, mesmo sabendo perfeitamente que as três primeiras semanas da sua primeira temporada tinham sido horríveis. Não fazia ideia de como fora. Como haveria de fazer? Era arrasadoramente belo quando não se mostrava uma besta e além do mais um futuro duque. Este embaraço dos ricos, de facto não era justo. – Não tinha percebido que eras tu.

– Como não percebeste que era eu? – perguntou James abrindo a porta com força e obrigando-a a recuar, agora que se apercebera de que ela estava decente. – Sou a única pessoa neste mundo que te chama Daisy. Deixa-me entrar, por favor.

Theo suspirou e afastou-se para o lado.

– Não poderás esforçar-te por me tratar por Theo? Já te devo ter pedido talvez cem vezes. Não quero que me tratem por Theodora nem por Dora, e nem sequer por Daisy.

James atirou-se para cima de uma cadeira e passou a mão pelo cabelo. Pelos vistos, estivera de mau humor toda a manhã, pois metade do seu cabelo estava em pé. Era um cabelo lindo, espesso e pesado. Por vezes, parecia negro, mas, ao sol, viam-se também fios cor de mogno. Mais razões para se ressentir com a presença dele. O seu cabelo nada tinha de subtil. Também era espesso, mas de um tom loiro-acastanhado, que não estava na moda.

– Não – respondeu ele, simplesmente. – Para mim és Daisy e o nome fica bem.

– Não me fica bem – retorquiu ela. – As margaridas são bonitas e frescas e eu não sou nem uma coisa nem outra.

– És bonita – disse ele, sem se incomodar a olhá-la.

Ela ergueu os olhos, mas, de facto, não havia razões para insistir no assunto. James nunca a olhava de perto para poder reparar se ela de repente passara a ser bonita... e porque haveria de o fazer? Apenas com dois anos de diferença, tinham partilhado o quarto das crianças quase desde o nascimento, o que significava que ele se recordava dela a correr por ali de fralda e a levar palmadas da ama Wiggan por fazer asneiras.

– Como correu ontem à noite? – perguntou de repente.

– Terrível.

– O Trevelyan não apareceu?

– O Geoffrey esteve lá, de facto. – Mas nem olhou para mim. Dançou duas vezes... duas... com aquela Claribel que tem olhos de vaca. Não a suporto e não acredito que ele goste dela, o que significa que anda à procura de fortuna. Mas, se assim é, então porque não dança comigo? A minha herança deve ser duas vezes maior que a dela. Pensas que ele não sabe. E se não sabe – continuou ela, sem parar para respirar –, não poderias mencioná-lo de forma que não fosse muito óbvio?

– Com certeza – disse James. – Já estou a ouvir a conversa. – Então, Trevelyan, meu paspalho de pés chatos, sabias que a herança da Theodora chega a milhares de libras por ano. E, a propósito, conta-me lá como compraste essa parelha de cavalos cinzentos.

– Podias pensar num modo mais habilidoso de o mencionares – sugeriu Theo, embora não o conseguisse imaginar. – O Geoffrey não tem os pés chatos. É gracioso como uma folha. Devias tê-lo visto dançar com a Claribel.

James franziu a testa.

– Foi essa que foi educada na Índia?

– Sim. E não percebo por que razão um tigre simpático não a terá engolido. Aquelas curvas gordas... Teria sido um rico almoço de domingo.

– Ora, ora – comentou James, pela primeira vez com uma centelha de riso nos olhos. – As jovens damas em busca de marido devem ser dóceis e amáveis. Tu continuas a fazer esses comentários espantosamente maliciosos. Se não te portas bem, todas as matronas te considerarão incapaz e vais ver-te às aranhas.

– Suponho que isso seja parte do meu problema.

– E qual é a outra parte?

– Não sou feminina, nem delicada, nem sequer deliciosamente curvilínea. Ninguém parece reparar em mim.

– E tu detestas que não o façam – respondeu James com um sorriso.

– Pois bem, detesto. Não me importo de o admitir. Creio que conseguiria atrair muitos homens se ao menos me deixassem ser como sou. Mas folhos cor-de-rosa e enfeites de pérolas fazem-me parecer ainda mais masculina. E sinto-me feia, que é o pior de tudo.

– Não acho que pareças um homem – assegurou James por fim, inspecionando-a dos pés à cabeça.

– Conheces a bailarina da ópera com quem tens andado.

– Não devias saber da existência da Bella!

– E por que diabo não haveria de saber? A minha mãe e eu estávamos em Oxford Street quando passaste numa carruagem aberta, por isso a minha mãe explicou-me tudo. Até sabia que a tua amante era bailarina da ópera. Devo dizer-te, James, que acho incrível que tenhas arranjado uma amante que toda a gente conhece, até mesmo a minha mãe.

– Não posso acreditar que Mistress Saxby tenha dito uma coisa dessas.

– Porquê? Ela não é bailarina da ópera?

James fez má cara.

– Não devias saber que existem mulheres como ela.

– Não sejas parvo, James. As senhoras sabem tudo acerca das amantes. E não é o mesmo que se fosses casado. Se continuares assim depois de casado, vou aborrecer-me contigo. E podes ter a certeza de que contarei à tua mulher. Por isso acautela-te. Não concordo.

– Com a Bella ou com o casamento?

– Com os homens casados que se passeiam por Londres com mulheres voluptuosas com o cabelo da cor do linho e moral em desalinho.

Fez uma pausa por um momento, mas James revirou os olhos.

– Não é fácil fazer rimas de improviso, sabes – disse-lhe ela.

Era evidente que ele não se preocupava, por isso Theodora voltou ao assunto.

– Agora está tudo muito bem, mas terás de deixar a Bella quando te casares. Ou qualquer que seja o nome da sua substituta nessa ocasião.

– Não quero casar-me – declarou James.

Na voz dele havia uma tensão tão acentuada que fez com que Theo o observasse mais de perto.

– Discutiste com o teu pai, não é verdade?

Ele assentiu.

– Na biblioteca?

James repetiu o gesto.

– Tentou atirar-te o castiçal de prata? – perguntou. – O Cramble disse-me que o ia guardar, mas reparei que ontem ainda lá estava.

– Partiu uma pastora de porcelana.

– Oh, não faz mal. O Cramble comprou várias em Haymarket e espalhou-as pela casa, em sítios óbvios, na esperança de que o teu pai as partisse e poupasse assim as coisas de valor. Vai ficar satisfeito quando souber que o plano está a dar resultado. Então, sobre que foi a vossa discussão?

– Quer que eu me case.

– Deveras? – Theo sentiu um choque e a surpresa foi pouco agradável. Claro que James teria de se casar... um dia. Mas, de momento gostava dele como era: seu. Bem, seu e de Bella. – És muito novo – disse em tom protetor.

– Tens apenas dezassete anos e andas à procura de marido.

– Mas essa é a idade certa para uma mulher se casar. A minha mãe não deixou que me apresentasse à sociedade senão este ano, precisamente por isso. Os homens devem ser bastante mais velhos do que tu que só tens dezanove anos. Suponho que trinta ou trinta e um seja a idade certa. E ainda por cima és demasiado jovem para a tua idade – acrescentou.

James semicerrou os olhos.

– Não sou.

– És sim – afirmou ela em tom presunçoso. – Bem vi como te passeavas com a Bella, exibindo-a como se ela fosse um casaco novo. Provavelmente, instalaste-a numa casinha incrível, com cortinas vermelhas de cetim.

A expressão de James era feroz, o que, em vez de assustar Theo, confirmou que ela tinha razão.

– Pelo menos podias ter escolhido um tom de azul. As mulheres de cabelo amarelo pensam sempre que as cortinas vermelhas lhe são favoráveis à pele. Mas, pelo contrário, o azul, talvez o azul-celeste ou até mesmo o violeta seriam muito mais agradáveis.

– Vou dizer-lhe. Daisy, percebes que não deves mencionar mulheres como a Bella quando estás em companhia de certas pessoas delicadas e muito menos ofereceres os teus conselhos acerca de como devem decorar os seus ninhos?

– Desde quando és uma pessoa delicada? E não me chames Daisy – retorquiu Theo. – Com quem estás a pensar casar-te? – Não lhe agradava fazer aquela pergunta. Sentia uma certa tendência possessiva quando se tratava de James.

– Não tenho ninguém em vista. – Porém o canto da sua boca estremeceu.

– Estás a mentir! – exclamou ela insistente. – Tens alguém em vista! Quem é ela?

James suspirou.

– Não é ninguém.

– Como este ano não foste a um único baile, não posso imaginar em cima de quem puseste os olhos. Foste a algum baile o ano passado enquanto eu ainda estava confinada ao quarto de estudos? Claro que tenho de ter um papel importante na escolha da tua prometida – declarou Theo entrando no espírito da coisa. – Conheço-te melhor que ninguém. Terá de ser uma jovem musical, pois tu tens uma bela voz.

– Não estou interessado numa mulher que saiba cantar. – Os olhos de James cintilaram na sua direção, de um modo que Theo secretamente apreciava. A maior parte do tempo, ele era apenas o «irmão» divertido e irónico que toda a vida tivera, mas de vez em quando ficava elétrico de fúria e via-o sob uma luz completamente diferente. Como um homem, concluíra. Que ideia estranha.

Agitou as mãos.

– Por amor de Deus, James, acalma-te. Devo ter percebido mal o sinal de que estavas a mentir – sorriu. – Pensas que troçaria da tua escolha? Eu que te confessei a minha adoração pelo Geoffrey? Pelo menos não tens de te preocupar em ser completamente desprezado pela tua amada. És muito bem-parecido; as jovens não te conhecem suficientemente bem para adivinharem os teus defeitos; cantas como um anjo e um dia terás um título. Ontem teriam morrido de desejo de dançar contigo e eu teria visto tudo à parte.

– Odeio bailes – afirmou James, mas não estava de facto a tomar atenção. Estava a tentar deslindar qualquer coisa; reconheceu-lhe a expressão do olhar.

– Não será casada, pois não? – perguntou Theo.

– Casada? Quem é casada?

– A mulher em quem fixaste a tua atenção!

– Não é ninguém. – O canto da boca dele não se ergueu, pelo que provavelmente diria a verdade.

– A Petra Abbot-Sheffield tem uma bela voz para cantar – disse Theo, pensativa.

– Detesto cantar.

Theo sabia-o, mas certamente ele acabaria por deixar de pensar assim. Quando ouvia James cantar «Lives again our glorious king!» na igreja, estremecia com a beleza daquela voz que se erguia às traves do teto e se assemelhava à trompeta de um anjo quando cantava «Where, O death, is now thy sting?». Sempre que James pensava, Theo pensava nas folhas verdes do fim da primavera.

– Não é interessante que eu pense em termos de cor e tu em termos de música – perguntou-lhe.

– De maneira nenhuma, porque eu não penso em termos de música.

– Então devias – retorquiu Theo. – Com a voz que tens.

Mas era óbvio que ele estava de mau humor e ela aprendera com o passar dos anos que a melhor tática era não se envolver quando ele se mostrava rabugento.

– Quem me dera ter as tuas vantagens – sentou-se na cama, puxou os joelhos para si e abraçou-os de encontro ao peito.

– Se eu estivesse no teu lugar, já teria o Geoffrey aos meus pés.

– Duvido. Ele não há de querer uma mulher que tem de se barbear duas vezes por dia.

– Percebeste o que eu queria dizer. Só preciso que as pessoas comecem a dar-me atenção – disse Theo balançando-se um pouco. – Se eu ao menos tivesse um pequeno público, podia ser divertida. Sabes que podia, James. Sou muito melhor que a Claribel. Preciso apenas de um pretendente como deve ser, uma pessoa que não seja um caçador de fortunas. Uma pessoa que seja... – A ideia surgiu-lhe, completamente formada e bela.

– James!

– O que foi? – Ergueu a cabeça.

Por instantes, ao olhar para ele, quase desistiu da ideia. Viu-lhe os olhos positivamente trágicos, as faces cavadas como se ultimamente não comesse bem. Parecia extenuado.

– Sentes-te bem? Que diabo fizeste ontem à noite? Pareces um bêbado que passou a noite num beco.

– Estou bem.

Seria de supor que passara a noite anterior afogado em conhaque. A mãe era de opinião que era lógico que os cavalheiros estivessem conservados pela bebida quando chegavam aos trinta anos.

– Tenho uma ideia – disse ela, voltando ao que estava a dizer. – Mas isso significa que, no presente imediato, terias de retardar o teu plano de casar.

– Não tenho esse plano. Não quero casar-me, independentemente do que o meu pai diga a esse respeito. – Quando queria, James conseguia ser irritante e teimoso. Melhorara depois dos quinze anos, mas não muito. – Sabes o que mais detesto no mundo?

– Tenho a certeza de que me vais dizer que é o teu pai, mas não acredito que estejas a ser sincero.

– Para além disso. Detesto sentir-me culpado.

– E quem neste mundo te faz sentir culpado? És o perfeito descendente da casa de Ashbrook.

James passou de novo a mão pelo cabelo.

– É exatamente o que todos pensam. Por vezes, era capaz de matar para me ir embora para um sítio onde nunca tivessem ouvido falar de condes, de noblesse oblige e tudo o resto. Onde um homem pudesse ser julgado por aquilo que é e não pelo seu título e por todos os outros disparates.

Theo olhou-o de testa franzida.

– Não estou a ver onde entra a culpa.

– Nunca serei suficientemente bom – levantou-se e dirigiu-se a um extremo do quarto para olhar pela janela.

– Estás a ser absurdo! Todos gostam de ti, incluindo eu, e se isso nada significa, não sei o que queres. Conheço-te melhor que qualquer outra pessoa neste mundo e se digo que és suficientemente bom é porque és.

James voltou-se e, para seu alívio, Theo viu-lhe um meio-sorriso no rosto.

– Daisy, julgas que um dia poderás mandar nas Câmaras do Parlamento?

– Era a sorte dele! – retorquiu ela. – Mas, a sério, James, queres pelo menos ouvir o meu plano?

– Para conquistares o mundo?

– Para conquistar o Geoffrey, que é muito mais importante. Se fingisses cortejar-me, apenas pelo tempo necessário para eu ser notada, significaria muito para mim. Nunca vais a bailes e, se começares a acompanhar-me, então todos perguntarão porquê e num instante conseguirei falar com o Geoffrey acerca de qualquer coisa... conseguirei enfeitiçá-lo de modo que se esqueça da minha figura e depois será meu. – Sentou-se triunfante. – Não é um plano brilhante?

James semicerrou os olhos.

– Tem algumas vantagens.

– Como por exemplo?

– O meu pai pensará que te cortejo e vai deixar-me em paz durante algum tempo.

Theo bateu as palmas.

– Perfeito! Tenho a certeza absoluta de que o Geoffrey falará contigo. Não foi o delegado dos alunos no teu último ano de Eton?

– Sim. E, por isso mesmo, posso dizer-te que o Trevelyan não será um marido muito confortável. É demasiado esperto. Tem uma maneira muito desagradável de contar piadas acerca das pessoas.

– É isso que eu gosto nele.

– Já para não dizer que é feio como o pecado – acrescentou James.

– Não é! É deliciosamente alto e tem os olhos castanhos cor de bronze. Fazem-me pensar em...

– Não me digas – impediu-a James com uma expressão do mais completo desagrado. – Não quero saber.

– Chocolate de manhã – continuou Theo, ignorando-o. – Ou nos olhos do Tyb quando era um cachorrinho.

– O Tyb é um cão – argumentou James, afirmando o que era óbvio. – Pensas que o amor da tua vida se parece com um cão obeso de dez anos? – James assumiu uma atitude fingidamente preocupada. – Tens razão! O Trevelyan tem um certo ar canino! Porque será que nunca reparei?

Demonstrando que não passara dezassete anos na casa do duque de Ashbrook e nada aprendera, Theo atirou um dos seus sapatinhos à cabeça de James. Raspou-lhe a orelha, o que provocou uma cena pouco graciosa (e bastante juvenil) em que ele a perseguiu pelo quarto. Quando a apanhou, prendeu-a pela cintura, inclinou-a para a frente e esfregou-lhe os nós dos dedos na cabeça enquanto ela gritava em protesto.

Era uma cena a que o quarto de Theo, e muitos outros aposentos nas várias propriedades de Ashbrook, tinham assistido muitas vezes.

Mas, mesmo enquanto Theo gritava e lhe desferia pontapés nos tornozelos, James apercebeu-se subitamente de que prendia o corpo perfumado de uma mulher. Que os seios dela estavam junto ao seu braço. Que o traseiro redondo de Daisy se agitava encostado a ele e sentia....

Abriu as mãos inconscientemente e ela caiu no chão com um ruído surdo. Quando se levantou, esfregando um joelho, falou num tom de verdadeiro enfado.

– Que se passa contigo? – perguntou zangada. – Nunca me tinhas deixado cair.

– Não devíamos ter estas brincadeiras. Somos... afinal serás em breve uma mulher casada.

Theo semicerrou os olhos.

– E dói-me o braço – acrescentou James rapidamente, sentindo-se corar. Detestava mentir. E detestava especialmente mentir a Daisy.

– Pareces-me bem – disse ela, olhando-o de alto a baixo. – Não vejo ferimentos que justifiquem teres-me deixado cair como uma chávena.

Só quando James praticamente fugiu do quarto Theo se deixou cair na cama e pensou no que vira.

Já observara aquele volume especial nas calças dos homens. Porém, fora um choque vê-lo em James. Nunca pensara nele naqueles termos.

Mas depois, de repente, pensou.


Três

Oito horas depois...

–Theodora, minha querida, estás pronta? – Mrs. Saxby entrou no quarto de Theo a toda a velocidade. Muitas vezes, Theo pensava na sua querida mãe como uma avestruz, toda ela pescoço e pernas compridas em movimento constante.

Nesse momento, tinha o pescoço em grande evidência, pois nele cintilavam muitos diamantes.

– Diz-me que tal estou – pediu a mãe.

– Como a Catedral de São Paulo no Natal – respondeu Theo, dando-lhe um beijo. – Cintilante e bela como se usasses um colar de estrelas.

A mãe corou um pouco.

– São muitos diamantes, não é verdade? Mas o baile da condessa acontece apenas uma vez por ano. Temos de usar as nossas melhores galas.

– Ou os nossos melhores diamantes, conforme o caso – concordou Theo.

– Deixa-me ver-te, querida – pediu a mãe, recuando um pouco. – Esse vestido é muito bonito.

– Odeio coisas bonitas – disse Theo, sabendo que a sua opinião de nada valia. – O que é «bonito» fica-me muito mal, mãe.

– Creio que estás simplesmente adorável – respondeu a mãe, com a franqueza a iluminar-lhe o rosto. – És a menina mais bonita, mais doce de toda a cidade de Londres.

– Não crê que possa estar ligeiramente cega pelas suas sensibilidades maternais? – perguntou Theo, submetendo-se a um abraço perfumado.

– De modo algum. Nem um pouco.

– Ontem à noite ouvi duas jovens comentarem que me parecia com um rapaz – disse Theo e a recordação era como um dente que lhe doesse. – E não devemos acalentar a ideia de que sou doce, mãe.

A mãe fez uma expressão zangada.

– Que absurdo. Como pode alguém pensar tal coisa? Provavelmente, são cegas como a pobre Genevieve Heppler. A mãe não lhe permite usar óculos e ontem à noite esbarrou comigo.

– Pensam isso, porque eu tenho mesmo ar de rapaz – retorquiu Theo. Mas não esperava que a mãe concordasse e de facto assim foi. – De qualquer forma – continuou –, eu e o James já arranjámos um esquema que me fará notada pelo extraordinariamente delicioso Geoffrey.

Sabe-se lá porquê, mas Mrs. Saxby não pensava que o jovem Lorde Geoffrey Trevelyan fosse tão perfeito como Theo o considerava. Mas também não passara as últimas semanas a examiná-lo escrupulosamente como Theo fizera. De longe, claro, pois mal tinham trocado uma palavra.

– O James vai fingir cortejar-me – explicou Theo, voltando-se para o espelho e dando umas palmadinhas nos caracóis que a criada levara uma boa hora a arranjar.

A boca de Mrs. Saxby abriu-se de um modo pouco elegante.

– Ele vai o quê?

– Fingir... só fingir, obviamente... fazer-me a corte. O pai dele decidiu que chegou o momento de ele procurar esposa. Mas o James não quer. Sabe como ele odeia até aparecer num baile, muito menos envolver-se numa conversa elegante com uma senhora. Mas, se parecer que ele me acompanha pelo salão, não só o duque será apaziguado, como todos notarão porque James nunca frequenta esses eventos. E isso significa que vão reparar em mim.

– Ah, claro que vão.

– E se de facto estiverem a olhar para mim, posso atrair a atenção do Geoffrey – concluiu Theo. O esquema parecia um pouco idiota quando o explicou em voz alta. Um homem como Lorde Geoffrey Trevelyan provavelmente não se incomodaria que uma jovem com cara de cavalo como ela fizesse comentários inteligentes acerca dele.

Mas a mãe parecia surpreendentemente recetiva, porém franziu a cara.

– De quem foi a ideia? – perguntou em tom severo.

– Minha – admitiu Theo. – Não creio que o James quisesse, mas não lhe dei a possibilidade de recusar. Além do mais, é a solução perfeita para a exigência que o duque lhe fez para que se casasse. É demasiado jovem, não acha, mãe? Nem tem ainda vinte anos.

– Isso não sei – respondeu a mãe. – Em termos de maturidade, é pelo menos dez anos mais velho que o pai. E pelo que ouvi dizer, será melhor que case com uma jovem com dinheiro para poder reparar os domínios assim que o Ashbrook cair para o lado com uma apoplexia. Suponho que seja por isso que o duque o esteja a empurrar para o casamento.

– A mãe diz-me sempre que não faça comentários desagradáveis – declarou Theo. – Mas oiça o que está a dizer. Mãe, tenho mesmo de levar estas pérolas? Detesto pérolas.

– As meninas jovens usam pérolas. Que estás a fazer, minha querida?

Theo ergueu os olhos da sua escrivaninha.

– Estou a emendar a minha lista. Para o caso de alguma vez conseguir vestir-me como quero.

– Alguma coisa acerca das pérolas?

– Sim. Acrescentei duas regras nos últimos dias. Pérolas são para os porcos.

– E para as debutantes – acrescentou a mãe. – Qual é a outra?

– Não vai gostar desta – observou Theo. – Os ex-alunos de Eton merecem consideração.

– Não me desagrada. Mas creio que a linhagem é melhor juiz num homem do que a sua educação. Além disso, há outras escolas para além de Eton, minha querida.

– Mãe! Esta lista nada tem a ver com a escolha de marido; apenas reflete como me vestirei quando tiver a possibilidade de ser eu mesma. Isto é, assim que me casar. A casaca de Eton é uma delícia. Não quero saber dos corpos que estão dentro dela, a menos que um deles seja meu.

– Espero não viver o suficiente para te ver vestida como um estudante – respondeu a mãe estremecendo. – Nem quero imaginar.

– Não se recorda da desesperada adoração que James teve pelo capitão da equipa de críquete depois do primeiro período? Há um enorme glamour em parecer um estudante, se eu conseguir aproveitar bem o estilo. Pelo menos, impediria as meninas de terem tanta pena da minha figura.

– Vou dar-te um conselho – disse a mãe afastando-se do espelho. – De cada vez que detetares a mínima sugestão de pena da parte dessas meninas de cabeça oca, levanta a mão e toca nas pérolas da tua avó. Podes detestá-las, Theodora, mas valem mais do que a maior parte dos dotes delas. Há muito que dizer acerca da propriedade pessoal não vinculada quando se trata de atrativos.

– Se conseguir chegar junto do Geoffrey, pode ter a certeza de que atrairei a atenção dele para as pérolas. Talvez meta o colar entre os dentes para ter a certeza de que ele o vê. – Aproximou-se da mãe e abraçou-a por trás. – Não sei porque não saí tão bonita como a mãe.

– Tu és...

Theo interrompeu-a.

– Não diga nada. Tenho um nariz e um queixo compridos e um ar masculino. Mas posso viver com isso, ou pelo menos poderia se não tivesse de usar tantos folhos que me fazem parecer um balde de leite cheio de espuma.

A mãe sorriu-lhe no espelho.

– Não há uma jovem de dezassete anos em toda a cidade de Londres que não deseje usar vestidos de cor à noite. Em breve poderás fazê-lo.

– Assim que for Lady Geoffrey Trevelyan – disse Theo com uma gargalhada.


Quatro


Devonshire House

Baile da duquesa de Devonshire

Quando a carruagem ducal se deteve diante de Devonshire House, Theo saltou de lá atrás da mãe, seguida por um obediente, embora vagaroso, James. Detiveram-se durante vários momentos à porta do salão de baile depois de terem sido anunciados, mas, para grande desilusão de Theo, ninguém pareceu reparar que ela vinha acompanhada pelo mais esquivo partido matrimonial do ano.

Não que até àquele instante alguém se tivesse lembrado da possibilidade de apanhar James.

– Que multidão tão triste – comentou Mrs. Saxby em tom de reprovação ao lançar os olhos pela sala. – Certamente a condessa não podou a lista dos convidados. Vou retirar-me lá para cima para jogar uma ou duas partidas de piquet.

Era exatamente aquilo que Theo esperava e planeara.

– O James acompanha-me a casa – disse instantaneamente. – Duvido que concorde em ficar muito tempo. Temos de o introduzir aos poucos na sociedade.

De facto, James começara já a puxar pelo colarinho.

– Está um calor infernal aqui. Vou cá ficar meia hora no máximo.

A mãe de Theo lançou um último olhar ao salão cheio de gente e partiu para uma sala no primeiro andar, onde poderia jogar piquet com as amigas durante toda a noite.

– Afasta-te – sussurrou Theo a James, assim que a mãe se afastou o suficiente.

– O quê?

Theo empurrou-o para o vestíbulo.

– Agora que a minha mãe se foi embora, preciso de uns momentos.

Empurrou-o pelo corredor e voltou na primeira porta aberta que viu e que por acaso era a de uma bonita salinha que, felizmente, tinha um espelho por cima da lareira. Theo tirou as pérolas e meteu-as no bolso de James.

– Vão estragar-me o bolso do casaco – protestou.

– Como se te importasses com isso. A minha mãe diz que valem mais do que um dote, por isso, por favor, tenta não as perder.

James fez uma careta mas cedeu. Depois, Theo deu um puxão no folho cor-de-rosa que lhe debruava o decote e – como nessa tarde tinha soltado os pontos – este, obediente, soltou-se do vestido.

– Mas então? O que estás a fazer? – perguntou James, assustado. – Não podes usar um vestido tão decotado. Não tens nada que cubra o... que te cubra.

– Porque não? Nem é tão ousado como o de algumas mulheres ali fora. E têm seios do tamanho de ovos de avestruz comparados com os meus. Não tenho grande coisa para mostrar, por isso posso muito bem exibir aquilo que tenho.

– E de facto é o que estás a fazer – disse James traindo um certo fascínio.

Theo olhou para cima.

– É o colo, James.

Ele franziu a testa, recuou e tossiu.

– E repara que bem bonito – disse ela, lançando-lhe um sorriso malicioso. Não há dúvida que é uma das minhas melhores qualidades.

Com um puxão, arrancou o folho cor-de-rosa do pulso esquerdo, a que rapidamente se seguiu o do pulso direito. A seguir puxou os ganchos dos seus caracóis cuidadosamente arranjados, para soltar o cabelo sobre os ombros. Retirou da bolsinha uma fita de renda cor de cobre que entrelaçou no cabelo, afastando-o da testa e prendendo-o com os ganchos no alto da cabeça para que não caísse. Formou um carrapito imperfeito, mas o contraste do cabelo dela com a renda de cobre era bastante interessante.

– Pareces diferente – disse James, semicerrando os olhos para o reflexo no espelho.

– Pareço melhor – respondeu-lhe Theo, com a confiança de quem tinha praticado o efeito cabelo-e-renda cinco vezes nessa tarde. – Achas que ele vai gostar?

James olhou-lhe de novo para o decote.

– Quem?

– O Geoffrey, claro! – exclamou Theo. – Francamente, James, tenta acompanhar-me. – Viu-se ao espelho. Sem os horríveis folhos, o seu vestido tinha uma certa sofisticação. E mais, os seus seios pareciam muito agradáveis, disse para consigo.

– Oh, já me esquecia. – Meteu a mão na bolsinha e retirou dela um alfinete, que pertencera também à avó, mas era menos evidente do que as pérolas. Era de ouro pesado, em forma de rosa com um pendente de granadas por baixo.

– Que vais fazer com isso? – perguntou James. – Não acho que esse tipo de joia seja adequado a um vestido como o teu.

– Como o quê?

– O teu vestido é feito de tecido muito leve – respondeu ele. – Particamente transparente.

– O tecido de seda cobre a vulgar musselina – explicou-lhe Theo. – Este tecido tem cornucópias bordadas que são a melhor caraterística deste maldito tecido.

James aproximou-se um pouco mais.

– A tua mãe sabe que não vestiste uma camisa?

– Claro que vesti uma camisa! – mentiu Theo. Prendeu a joia à fita que rodeava a cintura alta do vestido debaixo dos seios. – Além do mais, a minha roupa interior não é da tua conta, James.

– Claro que é, uma vez que consigo ver o contorno da tua perna – zangou-se ele. – A tua mãe não vai gostar.

– E tu gostas? Obviamente que estou a perguntar-to por seres um exemplar do teu sexo.

– Tens de falar dessa maneira? – queixou-se. Mas obedeceu e examinou o vestido de Theo, que avançou a perna de modo a que a forma pudesse ser adivinhada, apenas adivinhada, sob a seda da saia de baixo.

– Parece-me imensamente estranho – afirmou James, sem rodeios. – E também a joia que penduraste por baixo do peito. As pessoas vão pensar que tentas chamar deliberadamente a atenção para essa zona.

– E é o que estou a fazer – confirmou ela satisfeita. A granada acrescentava uma nota de cor que complementava a fita do cabelo. E o mais importante era que o cavalheiro que não reparasse imediatamente no decote, seria encorajado a olhar de novo.

Já para não falar na parte mais fascinante, que era o facto de James ser o homem mais bem-parecido do baile e se colar a ela. Deu-lhe o braço.

– Estou pronta para fazer a minha entrada.

– A tua mãe mata-te. Ou a mim – acrescentou com um ar ainda mais infeliz.

– Tu comeste-me com os olhos.

– Isso não é verdade! – exclamou, tentando mostrar uma expressão de espanto ofendido.

– Isso é que é! – retorquiu Theo. – E, francamente, James, se tu me comeste com os olhos, outros homens farão o mesmo. Vamos voltar para o salão de baile. Estou preparada para ir em busca do Geoffrey.

A sorrir, Theo cumprimentou Lady Bower que ficou notoriamente intrigada por ver James a seu lado – o que era compreensível já que tinha três filhas em idade de casar – e depois perguntou num sussurro:

– Estás a vê-lo?

– Quem? – perguntou James distraído, puxando de novo o colarinho. – Acho que vou sufocar. Não creio que consiga ficar sequer meia hora.

– O Geoffrey – suspirou ela, dando-lhe um beliscão no braço. – Lembras-te? É por isso que estás aqui. Tens de me apresentar.

James olhou-a de testa franzida.

– Pensei que já o conhecias.

– Mas ele nunca me deu atenção – declarou Theo com notável paciência. – Já te tinha dito.

James soltou uma exclamação de desdém.

– Exatamente. Devo levar a conversa para o tema dos dotes e depois anunciar que o teu é maior que o da...

– Silêncio! – Deu-lhe novo beliscão, com tanta força que ele estremeceu. – Conto contigo para não estragares tudo.

– Não o farei.

Os olhos dele pareciam um pouco assombrados.

– Não é assim tão mau estar aqui, pois não? – perguntou Theo, um pouco admirada pela tensão que lhe via no rosto. – Sei que não gostas de bailes, James. Basta que me leves ao Geoffrey e prometo ir-me logo embora.

Detiveram-se para deixar passar um grupo de pessoas a caminho da mesa.

– Creio que estás a cometer um erro – disse ele.

– Em relação ao Geoffrey?

James acenou afirmativamente.

– Tive de viver com o Trevelyan em Eton e não gostaria de repetir a experiência nem que tivesses de passar por ela.

– É diferente, quando se é casado, tonto! – exclamou Theo.

Conseguia ver-se, a si e a Geoffrey, sentados em lados opostos da mesa do pequeno-almoço, a ler os jornais. Ele era tão inteligente que apreciaria o seu espírito como ninguém o fazia, incluindo James e a mãe.

– Casado ainda será pior – declarou James. A multidão diante deles afastou-se e avançaram no salão de baile. – Pelo menos, eu podia andar à pancada com ele quando era especialmente aborrecido.

– Não tens de te preocupar com o meu casamento. Limita-te a ver se o descobres, sim? Não sou suficientemente alta para ver por cima da cabeça das pessoas.

– Pois sim, já vejo o Trevelyan – anunciou James, puxando-a para uma abertura na multidão e empurrando-a na direção do interesse de Theo. – Está com a Claribel.

– Naturalmente – retorquiu Theo com um gemido.

– Ela é espantosamente bela.

– Vai namoriscá-la! – ordenou, lembrando-se que seria uma boa ideia. – Podiam acontecer-te coisas piores do que casares com ela, sabes?

– Queres que me case com a cretina da Claribel? – perguntou James num murmúrio pouco eficaz.

– Creio que não. – Theo acabava de avistar Geoffrey e deu por si a agarrar-se com força ao braço de James, ao sentir-se nervosa.

Lorde Geoffrey Trevelyan tinha cabelo castanho-claro, que usava despenteado num estilo conhecido como Titus, e os seus trajes eram sempre elegantes, embora não abertamente exigentes. Mas era o rosto dele que fascinava Theo. Era estreito e sardónico, com os cantos dos olhos levemente erguidos. Bastava olhar para ver que Sua Excelência tinha feito o curso em Cambridge com distinção em Filosofia e História.

Era exatamente o homem certo para Theo – não tão bem-parecido que ela tivesse sempre de se precaver por ter um marido muito mais bonito do que ela. (Sentia de facto alguma pena da mulher que se casasse com James; essa mulher ficaria sempre à sombra dele.)

Afinal, Geoffrey estava no meio de um grupo de pessoas bonitas, todas elas com as maçãs do rosto salientes, lábios inferiores carnudos e narizes de forma perfeita. Pior ainda, todas pareciam abominavelmente inteligentes, todas exceto Claribel, claro.

Sentiu cair-lhe o coração aos pés e por momentos tentou segurar James. Mas, nesse preciso momento, o grupo deu por ele e os rostos dos jovens iluminaram-se como se fossem mulheres de comerciantes diante da rainha.

Alguns até a cumprimentaram. Geoffrey foi um deles.

– Miss Saxby – disse com uma vénia.

O coração de Theo batia-lhe na garganta de pura emoção.

– Lorde Geoffrey – respondeu ela fazendo uma reverência.

– Oh, Miss Saxby – exclamou Lady Claribel Sennock na sua voz alta e aflautada. – Que bonita que está. Deixe-me apresentar-lhe a minha prima, Lady Althea Renwitt.

– Já nos conhecemos – disse Althea com total indiferença, fazendo deslizar os olhos pelo corpo do vestido de Theo e passando, sem sombra de subtileza, a observar James.

Ao vê-la sorrir com ar afetado e estender a mão para que ele a beijasse, Theo percebeu que não havia nada mais ávido do que uma jovem no meio de um grupo de cavalheiros elegíveis. Althea parecia uma raposa no meio dos ovos de uma galinha.

– É ele que a acompanha esta noite? – perguntou Claribel num murmúrio. – Que sorte tem por ter crescido com ele.

Theo desejava que Claribel fosse mais insensível; ser-lhe-ia mais fácil não gostar dela. Mas, pelo contrário, era como leite morno à hora de ir dormir.

– Estimo muito James – respondeu Theo, tentando parecer romanticamente interessada.

Nesta altura, Geoffrey disse uma piada qualquer acerca do deposto rei de Imeretia, que estivera de visita à corte inglesa nas últimas duas semanas, e todos riram. Theo voltou-se, resolveu ser tão espirituosa como ele, sem se importar com o assunto. Claro que James estava no meio do grupo, perfeitamente à vontade.

Seria muito fácil ofender-se com James. Onde quer que fosse, todos gostavam dele, para não dizer que o adoravam, e ele nem se preocupava em ser espirituoso.

– Na verdade – dizia Geoffrey –, Sua Alteza, a princesa é, de todas as formas discreta, de temperamento admirável e não tem um único vício.

– Quando dizem que alguém não tem vícios – comentou Theo, antes que perdesse a coragem –, acontece que tem tantos pecados quantos cabelos tem na cabeça.

– Pensa que a princesa de Imeretia tem assim tantos pecados? – perguntou Geoffrey no seu sotaque arrastado. – Conte então, Miss Saxby.

Theo tinha consciência de que todo o grupo a escutava e sentia o coração bater-lhe acelerado, embora conseguisse manter uma expressão natural.

– A avareza é um dos sete pecados mortais e diz-se que Sua Alteza toma banho numa banheira de prata maciça – comentou ela abanando descuidadamente o leque. – Tem um quarteto privado que canta para a adormecer nas noites em que se sente inquieta. E certamente reparou que ela tem um amante? O barão Grébert, o homem de bigode caído e demasiado cabelo. Parece um leão fingindo ser um domador.

Claribel soltou um risinho nervoso, mas Geoffrey franziu a testa e olhou Theo com mais atenção, com um leve sorriso nos lábios.

– E como descreveria Sua Alteza? – perguntou ele.

– Um fox terrier de saias – respondeu Theo.

Geoffrey lançou a cabeça para trás e riu e todos os jovens cavalheiros o imitaram. Exceto James. Este evidenciou uma expressão zangada, pois desagradava-lhe que ela fosse maliciosa, mesmo quando a malícia era engraçada.

– Creio que tenho medo de si – disse Geoffrey, olhando-a com uma expressão calorosa e de admiração.

– Pois sim, deves ter – afirmou James.

– Lorde Islay, o senhor conhece Miss Saxby melhor que ninguém. – Claribel falou num tom agudo e infantil. – Com certeza que ela não é perigosa!

Claribel era tão tola que Theo pensou que havia uma boa possibilidade de ela nem sequer estar a brincar.

– A Theodora tem a língua tão afiada como um espelho quebrado – replicou James.

– Calculem! Tenho momentos mais doces! – ironizou Theo namoriscando Geoffrey por cima do leque.

– Sim, e são tão convincentes como a Maria Antonieta a fingir ser pastora – retorquiu James. – Está um calor dos diabos aqui. – Puxou de novo o colarinho e desta vez conseguiu desapertá-lo.

– Talvez devesses sair – murmurou Geoffrey. – Pareces muito desalinhado; fazes-me lembrar a escola e não de coisas boas. Miss Saxby, esse seu pendente é notável.

Os olhos de Theo encontraram os dele quando os levantou depois de lhe fitar o decote – um momento de que ambos desfrutaram.

– Uma oferta da minha avó – murmurou ela.

– A mesma avó que transformou a Theo em herdeira – declarou James com ar de quem cumpre um desagradável dever. – Bom, creio que nos devemos ir embora, querida.

Geoffrey ergueu as sobrancelhas e recuou um passo.

– Oh, mas, James – disse Theo –, ainda não quero ir-me embora. – Sorriu a Geoffrey, mas conseguiu ver o rosto de James pelo canto do olho. Parecia prestes a explodir, por isso decidiu apressadamente que, por uma noite, talvez tivesse feito investidas suficientes para conseguir as atenções de Geoffrey.

Tinha a sensação de que ele a procuraria na noite seguinte e também na outra.

Sentindo-se magnânima, Theo fez uma reverência na direção de Claribel e da desagradável Althea e permitiu que James a levasse.

Este atravessou o salão de baile cheio de gente como um deus grego de mau humor.

Theo acompanhou-o apressadamente, demasiado feliz para protestar.


Cinco

–Creio que correu tudo muito bem – concluiu Theo, já na carruagem a caminho de casa.

– Não, não correu – negou James, lacónico.

– Como podes dizer tal coisa? O Geoffrey ficou muito interessado em mim.

– Talvez tenha ficado interessado nas tuas mamas.

– Mamas? Mamas? James, não deverias usar essa linguagem comigo – declarou Theo, encantada. – Mamas, adoro a palavra.

James inclinou-se para a frente e ela apercebeu-se de que ele estava furioso.

– Não venhas censurar-me. Não podias ter sido mais óbvia a namoriscar o Trevelyan.

– É verdade. A minha intenção era ser óbvia.

– Pois bem, queres saber uma coisa. Não serves para o teu querido Geoffrey. De modo algum.

– Porque não?

– A língua dele é ainda mais desprezível do que a tua. Tinha por hábito provocar-me e, se eu lhe tivesse dado importância, ter-se-ia revelado um grande aborrecimento.

Theo soltou uma gargalhada.

– Estás preocupado?

– Eu disse, se eu lhe tivesse dado importância. Tu não és eu, Theo. Tu havias de o ouvir e ele cortar-te-ia em pedacinhos.

– Amar-me-á – explicou Theo. – Gostarei de o ver dissecar o próximo, mas, como serei a sua amada, estarei fora dos seus limites.

– Nada e ninguém estão fora dos limites de Trevelyan. Ouvi-o dizer piadas acerca da própria mãe. Para ser completamente franco, Daisy, é o tipo de homem que é mais ele próprio quando se veste de mulher.

– O quê?

– Aquilo que te disse. – James recostou-se e olhou-a com uma insuportável expressão de complacência. – Eu conheço-o e tu não.

– Estás a dizer que ele está interessado em homens?

– Há alguma coisa que não te atrevas a dizer em voz alta? – gemeu James. – Não, não estou a dizer isso! Estou só a dizer que ele é uma ave rara e mais nada. Muito rara. E não é para ti. Não permito que te cases com ele.

– Não permites que me case com ele? Tu? – Theo estava furiosa. – Bom, deixa-me que te recorde que não tens absolutamente nada a ver com quem me vou casar. Nada!

James semicerrou os olhos.

– Isso depois se verá.

– Não há nada para ver – exclamou irritada. – Se eu quiser o Geoffrey, caso com ele.

– Não casas, a menos que queiras dividir com ele as tuas meias de seda.

Theo arquejou.

– Estás a ser indescritivelmente mal-educado e deverias pedir-me desculpa. Não sei porque dizes tais coisas acerca do Geoffrey.

– Porque são verdade. Vivi com ele. Só quando vestia saias, coisa que fazia ao menor pretexto, deixava de ser tão nervoso e de morder nas pessoas de cinco em cinco minutos. Mas estás à vontade. Calculo que penses que o conheces melhor.

– Conheço o Geoffrey melhor. Podem ter jogado às charadas quando estavam na escola. Mas ele cresceu, mesmo que tu não tenhas crescido.

– Claro. A culpa é minha.

– A culpa não é tua – disse Theo. – Mas acho que entendo os homens um pouco melhor que tu, James. Afinal, ainda pensas no Geoffrey como um rapazinho. Eu vejo-o com olhos de mulher.

James olhou-a com ar zangado.

– Olhos de mulher! Era bom!

– Acompanha-me só mais uma vez – insistiu Theo. – Só ao concerto real amanhã à noite, tenho a certeza que depois não precisarei da atenção que desperto por te arrastar comigo. O Geoffrey já reparou em mim. Mais um encontro será suficiente.

– Para quê? Amor verdadeiro?

– Talvez – admitiu Theo lembrando-se que os lábios de Geoffrey se erguiam apenas de um lado quando sorria. – Pode ser que sim.

– Não reconhecerias o amor verdadeiro nem que ele te batesse com toda a força na cabeça – afirmou James, cruzando os braços.

– Bom, também não és especialista no assunto. Não me digas que sentes amor verdadeiro pela Bella, porque sei perfeitamente que não o sentes. Estás encantado com as mamas enormes que ela mostra a toda a gente na Oxford Street.

– Olha – começou James um pouco assustado –, não deves usar essa palavra. Não é de boa educação.

– Mamas! – repetiu Theo, fazendo um esforço para não lhe deitar a língua de fora. Afinal, tinha dezassete anos e deveria comportar-se como uma senhora. – Sei bem o que vês na Bella – contentou-se em dizer. – E não é amor.

– Os atributos da Bella não são assunto para as nossas conversas – retorquiu James.

Theo soltou uma gargalhada.

– Então e o seu rosto bonito? Não me parece!

– Acabou!

– Quem vai falar comigo acerca deste tipo de coisas? – perguntou ela encostando-se, descontraída, a um canto.

– Eu não.

– Demasiado tarde. És aquilo que tenho que mais se parece com um irmão – declarou Theo um pouco sonolenta. – Acordas-me quando chegarmos a casa?

James sentou-se rígido no seu canto e ficou a olhar para ela. Mesma à luz fraca da lanterna que iluminava a carruagem conseguia ver-lhe o contorno da coxa. Já para não falar das mamas, seios, o que quer que fosse.

Trevelyan notara-os sem dúvida. James tivera de se dominar no baile para não agarrar na cabeça dele e afastá-la do decote de Theo.

Ela não casaria com Trevelyan. Em circunstância alguma.

Mesmo... mesmo que ele tivesse de casar com ela para o impedir.


Seis

Na noite seguinte

Carlton House

Residência do príncipe de Gales

Para grande aborrecimento de Theo, James não só não a acompanhou ao concerto privado do príncipe de Gales, como só se dignou aparecer quando já eram quase horas do jantar.

– Onde estiveste? Devias ter chegado há horas – sussurrou, afastando-o do grupo até ao outro extremo da sala para falar com ele sem ser ouvida. – A Claribel transformou-se num adesivo e colou-se ao Geoffrey que mal teve um momento para respirar, quanto mais para reparar que eu estava na sala.

– Bom, já cá estou – disse James.

Theo olhou-o mais de perto. Vestia um belo casaco cor de anil com lapelas de veludo verde-escuro, perfeitamente apropriado para um concerto privado patrocinado pelo príncipe de Gales. Mas havia algo no seu rosto e os seus olhos...

– Estás embriagado! – exclamou ela, com alguma alegria. – Nunca te vi com um grão na asa. Vais vomitar ou limitar-te-ás a balançar a noite inteira? Pareces uma trepadeira a que se esqueceram de pôr uma estaca.

– Nunca balanço! – respondeu indignado.

– Estás a balançar agora. Por amor de Deus, olha para aquilo – exclamou indicando Claribel com a cabeça, pois esta encostava-se ao braço de Geoffrey. – Dir-se-ia que já estavam prometidos. Ou que está tão toldada como tu. Não creio que tivesses tido ocasião de mencionar o meu dote a Geoffrey no White esta tarde.

– Que engraçado – disse James. – O Trevelyan não esteve no clube, nem veio na minha carruagem... espera..., porque esteve aqui a fazer olhos de carneiro mal morto a Lady Claribel. Como raio querias que eu tivesse possibilidade de falar da tua herança durante uma conversa que nunca existiu. Além disso, mencionei-a ontem. Acho que basta.

– Ele não está a fazer olhos de carneiro mal morto; ela sim. Bem, provavelmente é melhor porque tu estás embriagado e só farias disparates.

– O que é melhor? – perguntou James parecendo bastante solene.

Theo olhou para ele e sentiu uma onda de afeto.

– Adoro-te, James. Sabes isso, não sabes?

– Não digas que sou como um irmão para ti, porque não sou teu irmão e não deves esquecer-te disso. Nenhum de nós se deve esquecer, embora nos possamos sentir como irmãos. Por vezes.

– Talvez devas dar-me o braço – sugeriu Theo. – Amanhã vais sentir-te envergonhado se caíres junto aos sapatos reais como uma árvore cortada.

– Afasta-te um pouco – pediu James parecendo bastante embriagado. – Vou encostar-me à parede e fingir que converso contigo durante um minuto. Posso ter bebido um pouco mais de conhaque do que seria acons... aconselhável. O meu pai está cá?

– Claro que está – afirmou Theo. – E ficou aborrecido por não estares em casa para nos acompanhares até aqui. Tens sorte porque ainda não te viu.

Ficaram junto à sala de música de Carlton House. A maioria dos assistentes estava instalada em cadeiras de costas direitas, escutando arrebatada o principal desempenho dessa noite. Ninguém parecia ter reparado neles os dois no outro extremo da sala.

– Aquele homem martela as teclas de uma maneira capaz de provocar dores de cabeça a toda a gente – queixou-se James, demasiado alto. – Toca tão mal como tu, nos tempos em que a tua mãe pensava que terias um pingo de musicalidade no corpo.

– Não deves dizer uma coisa dessas! É o Johann Baptist Cramer – exclamou Theo. Porém percebeu imediatamente que não valeria a pena mostrar-se chocada por James não reconhecer o celebre pianista. Nunca ele se sentaria de boa vontade para assistir a um serão musical.

Se Theo não tomasse providências, James faria uma cena. Pegou-lhe na mão e puxou-o para o lado oposto de um alto biombo chinês com incrustações de flores de lótus; pelo menos, quem por ali passasse casualmente não o veria cair. Depois, encostou-se à parede e puxou-o para si.

James balançou suavemente nessa direção, apoiando as mãos na parede para se equilibrar, uma de cada lado de Theo, criando uma pequena gruta que cheirava ao melhor conhaque com uma nota de sabonete.

– Dá-me só um momento até poder desanuviar a cabeça – murmurou. – Mas que diabo estás a pensar? Tens uma expressão tão estranha.

– Estou a sentir o teu cheiro – disse Theo. – Nunca tinha reparado que cheiravas tão bem, James.

– Hã... – James não sabia como responder àquilo, mas, pelo menos, não parecia tão vacilante como há uns segundos atrás.

– Talvez seja melhor irmos buscar uma chávena de chá – sugeriu.

Sem saber porquê – talvez pelo estranho encontro no quarto dela no dia anterior –, sentia alguma dificuldade em pensar em James tão naturalmente como devia. Ele era incrivelmente bonito. Tinha toda a elegância do pai, mas um maxilar muito mais forte e olhos firmes, mesmo estando um pouco embriagado. E, nesse momento, o rosto dele aproximou-se mais.

– Vais cair – perguntou ela com um gritinho.

Mas não.

Foi então que James fez o que ela nunca imaginara que pudesse fazer: beijou-a. Os lábios dele aproximaram-se ainda mais e, depois, tocaram nos dela.

Os lábios dele eram muito macios, pensou Theo vagamente. Aquilo surpreendeu-a embora não devesse. Afinal, era o seu primeiro beijo. Porém, tão diferente dos beijos que imaginara.

Imaginara-os como um toque delicado de um par de lábios noutro. Mas o que estava a acontecer naquele momento era diferente. Não a parte dos lábios, porém, ele metera a língua na sua boca, o que era estranho e íntimo ao mesmo tempo. De facto, todo o beijo foi como uma mistura do James que conhecia e de um outro que lhe era estranho, um James atrevido. Um James masculino. Tudo aquilo era estranho, todavia os seus joelhos fraquejaram e deu por si rodeando-lhe o pescoço com os braços.

James afastou-se da parede, passou-lhe um braço pela cintura e puxou-a para si.

– Beija-me – exigiu num tom baixo e feroz.

– Estás mesmo embriagado? – perguntou Theo. – Que estás a fazer?

– És a minha Daisy – disse ele, olhando-a. Tinha a voz pouco firme e a respiração pesada.

Nos olhos dele ardia uma emoção que Theo não reconhecia, mas que lhe invadia todo o corpo. Ia começar a falar, mas ele baixou de novo a cabeça e exigiu em silêncio que ela também o beijasse. O problema é que Theo já não tinha a certeza. Ao mesmo tempo desejava desesperadamente fazer o que ele lhe pedia, por isso tocou com a língua na dele. Pensou que seria desagradável, mas...

Sabia vagamente que deveria ter rido ou tê-lo empurrado ou pedido socorro. A mãe – já para não falar no próprio príncipe de Gales – estava a poucos passos de distância, do outro lado do biombo.

Deveria ter-lhe dado uma bofetada, claro. Seria o que uma jovem bem-educada faria depois de ter sido agarrada por um cavalheiro embriagado e beijada em público. Ou em privado, tanto fazia.

Mas Theo queria mais daquele sabor de James, mais do fogo que lhe invadia o corpo, mais do desejo irresistível que a fazia aproximar-se dele ainda mais.

– Exatamente – disse ele num fio de voz. Um calor estonteante queimava a pouca lógica que Theo sentia. Tomou o rosto dele nas suas mãos. Podia beijá-lo como ele queria. Não tinha de facto a ver com as línguas. Era questão de o possuir. Do mesmo modo que ele a possuía.

Assim que se apercebeu disso, foi fácil beijá-lo. A língua dela enrolou-se na de James, entrelaçou os dedos no cabelo dele, sabendo que o queimava a mesma chama que ardia nela.

James soltou uma espécie de ruído desarticulado, quase um gemido, e puxou-a mais para si. O som do seu gemido foi tão arrebatado que Theo sentiu o corpo estremecer, reagindo ao aperto dos braços dele e ao toque sensual da sua língua. Nunca se considerara especialmente feminina – nenhuma jovem com feições tão pronunciadas se consideraria –, mas nos braços de James sentiu-se subitamente feminina, não de um modo delicado, mas sim selvagem e erótico.

Era embriagador. Ele fazia-a estremecer de desejo com uma sensação quase feroz de mais. Encostou-se mais a James e sentiu os seios esmagados de encontro ao peito dele; ouviu de novo o som profundo na garganta dele. E depois James mordeu-lhe o lábio.

Theo sentiu-se sufocada e...

Deu por si a recuar, graças a uma mão que a puxava para a libertar como se estivesse num combate de cães. Para sua profunda aflição, era a mãe.

– James Ryburn, em nome de Deus, o que pensas que estás a fazer? – perguntou Mrs. Saxby zangada.

Theo ficou imóvel, sustendo a respiração, com os olhos fixos em James, sentindo que, sem saber como, ele lhe passara a embriaguez.

– E tu, Theodora – exclamou a mãe, dando a volta. – Em nome de Deus, o que pensas que estás a fazer? Não te ensinei nada?

– Por alguma razão lhe chamam o mercado de casamentos, Mistress Saxby – disse uma voz profunda e cultivada. – Parece que a sua menina será a primeira da temporada a dar o nó.

James soltou uma exclamação sufocada e Theo voltou-se para enfrentar um grupo de espetadores fascinados, onde se incluíam o príncipe de Gales, Lorde Geoffrey Trevelyan e a desprezada Claribel que, naquele momento, não comia Geoffrey com os olhos mas tinha no rosto uma expressão de imensa inveja.

Theo olhou para James e viu confusão no rosto dele, ao mesmo tempo que se apercebia de que os seus lábios estavam inchados e o cabelo lhe caía pelas costas abaixo. Devia parecer uma daquelas donzelas violadas de um melodrama de má qualidade.

Mas tinha de dizer alguma coisa.

– Eu... nós estávamos só...

James interrompeu-a numa voz mais alta que a sua. Já não parecia embriagado.

– Amo a Daisy. Vou casar com a Daisy.

Theo abriu a boca. James olhava para a mãe dela e falou com a voz um pouco rouca.

– A senhora quer casá-la com outro homem, mas ela é minha, sempre foi minha.

Theo respirou fundo e ele aproximou-se.

– Lembras-te quando, aos doze anos, tive os olhos inflamados, tinhas tu dez? E durante todo o verão leste para mim num quarto com pouca luz, porque os meus olhos estavam fracos?

Ela acenou com a cabeça, erguendo os olhos para ele em grande confusão, consciente do público, mas tentando ignorá-lo ao mesmo tempo.

– Não sabia, mas eras minha – declarou ele olhando-a quase como se a detestasse.

– Mas eu só há três semanas fui apresentada à sociedade – murmurou ela e as palavras caíam no silêncio da sala. – Não foste a um único evento senão ontem à noite.

– Pensei que só querias dançar – respondeu ele, com a voz entrecortada. – Não pensei nisso a sério. Mas, se vais casar com alguém, Daisy, será comigo. Nem sequer quero que penses noutro homem. – Lançou um olhar rancoroso em direção a Geoffrey que recuou um passo.

James voltou-se de novo para Theo e uma centelha de incerteza passou-lhe pelo olhar.

– Sei que tens outros...

– Nem sei no que estava a pensar – disse Theo lentamente, sentindo uma tremenda sensação de retidão instalar-se nos seus ombros como um cobertor quente. Estendeu a mão e pegou na dele, naquela mão familiar e querida. – Tens razão. És o único.

– Bom – disse a mãe com firmeza, algures atrás dela. – Tenho a certeza de que todos concordam que foi um pedido de casamento muito romântico. Mas acho que basta por uma noite.

Theo não se mexeu. O seu amigo mais antigo, o seu quase irmão, tinha desaparecido. No lugar dele ficara um homem atraente e forte que a olhava com uma expressão que a fazia corar da cabeça aos pés.

– Não basta – resmungou James com o olhar fixo no dela. – Ela ainda não aceitou. Daisy?

– Sim – disse Theo com a voz sufocada e trémula, num tom que lhe desagradava quando ouvia outras jovens usá-lo. – Sim, aceito.

– Suponho então que esteja tudo arranjado – disse o duque de Ashbrook por trás de James, com um tom de alegre aprovação na voz que os obrigou a erguer a cabeça. – Muito conveniente, não é verdade? O meu filho casa-se com a minha pupila. Fica tudo em família, por assim dizer. Porém, não seria aceitável se não fosse um verdadeiro casamento por amor.

– Com certeza que concordo consigo – disse Mrs. Saxby.

– E parece que não temos muito que dizer a esse respeito – continuou o duque.

James olhou para o pai e sentiu que o coração lhe caía aos pés. Perdera a cabeça e, ainda para mais, perdera-a ao serviço do diabo.

Nunca experimentara um beijo assim, nunca na sua vida sentira uma onda tão escaldante de paixão possessiva. Mas fizera-o apenas porque o seu bombástico e desonesto pai o exigira. Aquele beijo... aquele beijo acontecera apenas porque o pai o ordenara.

Sentia-se como a terra debaixo dos seus sapatos. E a dor que lhe invadia o coração dizia-lhe uma coisa ainda pior: que distorcera o que poderia ter sido – o que seria – um dos momentos mais preciosos da sua vida. Teria dado tudo para ter começado aquele beijo com o coração puro e a consciência limpa.

Mrs. Saxby levou Theo consigo e o pai veio dar-lhe uma palmada nas costas com uma corrente de comentários inconsequentes e falsos dirigidos às pessoas que os olhavam de boca aberta.

– Não fazia ideia de que ele se inclinasse nesta direção – disse ao príncipe. – Suponho que os pais são sempre os últimos a saber. Mas, filho – isto foi dito num tom de genial reprovação –, espero ter-te educado suficientemente bem para saberes que não deves arrebatar uma dama para a beijares em público. Um cavalheiro não se declara dessa maneira.

– De facto – concordou Geoffrey Trevelyan intrometendo-se. Acenou com a mão com aquele ar de diletantismo e troça que Theo tanto apreciava e James odiava. – Quem diria que eras assim, Isley. Tanto ardor e sei lá mais o quê.

A recordação de que Theo desejara Geoffrey para si invadiu-o como uma onda enorme. Voltou-se para olhar para ela, mas a jovem já desaparecera.

Os minutos seguintes passaram-se numa espécie de pesadelo entontecido. James deu por si a fazer uma reverência ao príncipe, que se mostrava amavelmente bem-disposto com tudo aquilo.

– Paixões do coração! Dizem que a alta sociedade não sente paixões mas sempre discordei. – E lançou um olhar cheio de sensualidade a Mrs. Fitzherbert, que se encontrava à sua direita.

James estremeceu, fez uma reverência e saiu da sala. As efusivas felicitações de seu pai extravasaram no momento em que entraram para a carruagem.

– Não tinha ideia que te candidatasses imediatamente ao prémio! – berrou Ashbrook. – Estou orgulhoso de ti! Muito orgulhoso! És tão macho como eu e usaste na perfeição essa qualidade. Nunca me teria lembrado de o fazer. Ela olhou para ti como se fosses o rei Artur e o Lancelote numa só pessoa.

– Não fale dessa maneira da minha futura mulher – ordenou James em voz sibilante.

– Não há dúvida de que te sentes furioso. Deves estar em estado de choque. Ontem eras um rapaz solteiro e descuidado, acompanhando por toda a cidade aquela sensual bailarina da ópera, e agora estás à beira de ficares com correntes nos pés.

James rangeu os dentes, mas ficou em silêncio.

O pai continuou a falar e a repetir a sua opinião acerca do brilhantismo de James em comprometer Theo diante do príncipe.

Quando dobraram a esquina da rua, James sentiu faltar-lhe o controlo. Estendeu a mão e agarrou o colarinho do pai, esmagando a elegante confeção de goma e linho encimada pelo fraco queixo do duque.

– O senhor nunca mais me falará acerca desta noite, entendido?

– Não há qualquer razão para ficares tão violento – defendeu-se o duque. – Não será uma atitude apropriada para um filho, se é que posso fazer-to notar.

– Não penso estar a dirigir-me a um pai, mas sim ao autor de um desfalque – replicou James em tom gélido.

Porém, ao mesmo tempo, sabia que, apesar de culpar o pai, era ele o verdadeiro vilão. Fora ele que traíra Daisy.

– Pois bem – irritou-se Ashbrook, não entendo por que razão desejas caracterizar a minha má sorte de uma maneira tão cruel, mas garanto-te que não tenho intenções de discutir esta noite contigo. Só queria felicitar-te. O facto de ter pedido ajuda e de teres reagido logo um dia depois, fazendo precisamente aquilo que te pedi... bom, compensa-me por muitos golpes desta vida.

Depois, recostou-se e sorriu para o filho até se abrir a porta da carruagem.

James esperou que o pai descesse antes de se inclinar e despejar o estômago para cima dos sapatos. Não que lá restasse outra coisa para além de conhaque e amargura.


Sete

14 de junho de 1809

O casamento de James Ryburn, conde de Islay, futuro duque de Ashbrook, com Ms. Theodora Saxby, uma herdeira pouco conhecida, atraiu o tipo de atenção geralmente reservada às núpcias reais. Os jornais de escândalos, em particular, contavam a história de uma união por amor.

O relato dos cuidados que na sua infância Ms. Saxby desvelara durante a doença de James havia sido contado, recontado e embelezado até que, duas semanas antes do dia do casamento, toda a cidade de Londres acreditava que ela lera para ele no seu leito de morte e que fora apenas a voz dela que o impedira de sucumbir ao seu sono mortal.

Uma semana antes do casamento, a jovem Ms. Saxby reanimara James, quando este desfalecera dentro daquela «noite escura, da qual não havia regresso», conforme descrição do Morning Chronicle.

E o casamento prometia ser tão sumptuoso como o de uma princesa. Não só fora orquestrado em poucos meses, como as despesas não tinham sido poupadas. O duque de Ashbrook declarara que nada era demasiado bom para o casamento da sua pupila com o seu único filho e herdeiro.

No grande dia, Ms. Saxby desceu de uma carruagem aberta, dourada, que atravessara as ruas de Londres pois a população de toda a cidade tinha esperança de avistar a noiva.

Os repórteres dos jornais de Londres, desde o augusto Times a outros como o Tittle-Tattle, amontoavam-se à porta da catedral. Quando a carruagem se aproximou, avançaram, empurrando-se de encontro à barricada levantada para conter a ralé.

A noiva, escrevinhou Timothy Heath, um jovem repórter do Morning Chronicle, parecia uma verdadeira confeção francesa e as suas saias uma verdadeira nuvem de seda e cetim. Tinha o cabelo enfeitado com flores e também um ramo na mão. Fez uma pausa. Ms. Saxby não era uma jovem muito bonita, o que tornava tudo um pouco difícil. A futura duquesa, escreveu por fim, tem um perfil digno da aristocracia. As suas feições falam de gerações de homens e mulheres ingleses próximos dos nossos monarcas.

O repórter do Tittle-Tattle fez um resumo mais simples e consideravelmente mais brutal.

– A duquesa é feia e nem pensar que um dia se transformará num cisne – exclamou ao ver o duque de Ashbrook segurar-lhe na mão para a ajudar a descer da carruagem.

Embora falasse consigo mesmo, todos os repórteres nas suas proximidades o ouviram e se alegraram. O Tittle-Tattle fez sair uma edição vespertina cujo título gritava: «A Duquesa Feia!» Todos os editores de Londres olharam para aquele chamativo artigo e trocaram os títulos da manhã por uma versão do título do Tittle-Tattle.

Todas as jovens damas, que tinham suspirado por cima dos largos ombros de James e pelo seu belo rosto, soltaram risadinhas enquanto bebiam o chá ao pequeno-almoço. E todos os cavalheiros que alguma vez tinham imaginado dançar com Ms. Saxby se sentiram virtuosamente satisfeitos por não terem baixado os seus padrões em troca de um dote.

A ideia acreditada de que James estava loucamente apaixonado pela sua «duquesa feia» transformou-se de um dia para o outro num mito ridículo em que já ninguém acreditava. Era mais que óbvio que o conde de Islay casara por dinheiro. Não podia haver outra explicação. E Inglaterra acreditava naquilo que a imprensa declarava ser um facto.

– Estou muito surpreendida – confiava uma jovem bailarina da ópera a outro membro do corpo de baile na manhã após as núpcias. Meses antes, dera por si destinatária de uma esmeralda enorme e de uma carta formal de despedida. – Nunca o teria considerado um homem sóbrio após o casamento, principalmente desposando uma mulher como esta.

Apontou para uma imagem na página de mexericos de teatro sua preferida, que apresentava uma rápida aproximação de uma «duquesa feia». Era mais uma caricatura que um desenho, com umas penas espalhadas surgindo por baixo da touca.

– Ele volta – replicou Rosie, uma amiga mais cínica e sabida. – Dá-lhe seis meses.

Bella abanou os caracóis.

– Não tenciono esperar seis meses por homem algum. Há uma fila de cavalheiros à minha espera à porta e vou aproveitar.

– Ora, tenho pena dela – disse Rosie. – Todos os jornais de Londres lhe chamam feia e ela vai descobrir. E quando um deles – Rosie referia-se aos nascidos na alta sociedade – recebe uma alcunha assim, é para toda a vida.

Olhando para o seu reflexo no espelho, Bella ajustou o seu colar de esmeraldas e pensou em como a sua beleza branca e rosada deveria oferecer um terrível contraste à da noiva de James.

– Tenho pena dele. Ouvi dizer que ela não tinha curvas. Ele gostava das minhas maçãs, percebes, não percebes?

– Não tem – confirmou Rosie. – Olhei bem para ela quando saiu da carruagem. É magra como um pau de virar tripas e uma tábua à frente. Sabes o que diz a Maggie da bilheteira? Afirma que ela é um homem e que é tudo uma enorme aldrabice.

Bella abanou a cabeça.

– Esta esmeralda diz que não é aldrabice.

* * *

Precisamente nesse momento, numa parte muito diferente de Londres, Theo acordou na manhã depois do casamento sentindo-se confusa. O casamento em si era um névoa de rostos sorridentes... os olhos sérios do bispo... o momento em que ouvira a voz forte de James prometer ser seu até que a morte nos separe, o momento em que ela pronunciara o sim e viu um sorriso iluminado tocar os lábios dele.

Mais tarde, quando voltaram para casa, a criada, Amélie, despojara-a do odiado monte de renda e seda que a mãe classificara como o perfeito vestido de conto de fadas – e no qual doze costureiras tinham trabalhado dia e noite durante um mês para terminar – e ajudou-a a vestir um negligé cor-de-rosa transparente. Com folhos.

O sogro tinha vagado os aposentes matrimoniais e ela despira-se no quarto que pertencera à antiga duquesa, um quarto tão grande que poderia conter três vezes aquele em que dormira até ali.

A seguir, James entrara pela porta do quarto do duque – agora seu – pálido e com uma expressão séria no rosto.

Depois a noite fora uma confusão de nervos, centelhas de desejo e simples embaraço. Não fora exatamente o que Theo esperava, mas o que esperava ela? Quando tudo terminou, James beijou-a, precisamente na sobrancelha. E foi a primeira vez que percebeu que, se ela se sentira um pouco tonta em determinados pontos, o seu novo marido parecia notavelmente sereno. De modo algum tão ávido como se mostrara no concerto quando apenas se beijavam.

Antes de poder pronunciar palavra, já ele fechara silenciosamente a porta entre os quartos contíguos.

Claro que a partida dele seria de esperar. Sabia que apenas os pobres dormiam juntos na mesma cama; era pouco higiénico e provocava um sono inquieto. Não apenas isso, mas uma das suas precetoras dissera-lhe bruscamente que, de manhã, os homens cheiravam como cabras e que, se uma mulher não pusesse uma porta entre a sua pessoa e tais horrores, corria o risco de se encontrar debaixo de um corpo masculino e malcheiroso.

Não lhe parecera bonito quando a ouvira falar e agora também não. Por isso talvez fosse bom que James dormisse no seu próprio quarto. Mas seria preciso ir-se embora tão depressa? Enquanto ela ainda se sentia incapaz de se lembrar em que dia da semana estava?

Ocorreu-lhe depois que talvez ele se tivesse retirado porque depois de atingir a saciedade, por falta de palavra melhor, a prova ficara nos lençóis. Quem quer dormir em lençóis sujos? Ela não. Talvez no futuro fosse ela a visitar o quarto dele e a retirar-se depois para a sua cama limpa.

A ideia fê-la sorrir, embora tivesse agora consciência de que o seu corpo parecia ter novas pontadas em locais onde essas pontadas não existiam. Por sorte, a mão fora explícita em relação ao que acontecia no leito nupcial.

Fora mais ou menos como ela descrevera. A mãe dissera-lhe que o marido toca a mulher lá em baixo, por exemplo, mas James não o fizera. E ela concluíra – embora não lho tivesse dito diretamente – que a mulher deve fazer o mesmo ao marido. Mas como James não o fizera...

Beijaram-se durante muito tempo e depois ele acariciara-lhe os seios e colocara-se por cima dela (um agradável formigueiro subiu-lhe pelas pernas ao lembrar-se) e penetrou-a por fim, o que não foi muito agradável. Depois tudo acabou rapidamente.

E ela gostou, de quase tudo, especialmente da parte em que ele a beijara com tanta urgência que ambos gemeram porque aquilo a fizera sentir como um bocado de papel prestes a incendiar-se.

Claro que isso não acontecera.

E agora era uma mulher casada na primeira manhã da sua nova vida. O que significava, entre outras coisas, que nunca mais na sua vida usaria pérolas, folhos ou vestidos brancos de algodão.

Amélie dobrara cuidadosamente o monstruoso vestido de noiva sobre uma cadeira. Theo saiu da cama e foi dar-lhe uma vista de olhos. Seria a última, mesmo a última peça de vestuário que a mãe teria o prazer de escolher para ela. Pelo menos, isso merecia ser celebrado. Com um sorriso, Theo abriu as janelas altas que davam para o jardim que se estendia nas traseiras da casa do duque de Ashbrook e agarrou no vestido.

Nesse momento, ouviu uma pancada brusca na porta de intercomunicação com os aposentos de James e este apareceu envergando o seu fato de montar, já com as botas calçadas e empunhando o chicote, enquanto ela continuava descalça e de negligé, com o cabelo solto pelas costas abaixo.

– Mas que diabo estás a fazer? – perguntou ele, apontando com o queixo para o vestido de noiva que Theo tinha nos braços.

– Vou atirar este horror pela janela fora.

Ele tocou-lhe no ombro a tempo de ver o vestido cair. A saia de cima apanhou um pouco de vento ao descer.

– Espero que não se trate de uma representação simbólica da tua atitude em relação ao nosso casamento.

– Mesmo que fosse, seria demasiado tarde – respondeu Theo. – És pesado de mais para te atirar pela janela. Olha para aquilo. Parece um merengue embriagado. – O vestido poisou com um floreado sobre a sebe bem cuidada.

– Acho que essa coisa não se veste mais do que uma vez – comentou James com uma nota divertida na voz.

Theo sentiu uma onda de alívio. Se pudessem voltar a ser eles mesmos, se conseguissem ficar de novo à vontade um com o outro e não... aquele calor e sentimentos estranhos, seria muito mais agradável estar casada.

– Tenciono alterar a minha maneira de vestir – disse ela, sorrindo-lhe. – Talvez atire toda a minha roupa pela janela.

– Claro – concordou James. Parecia completamente desinteressado.

– Incluindo isto que tenho vestido neste momento – disse desagradada.

Ao ouvir isso o rosto de James alegrou-se um pouco.

– Tencionas deitar neste momento o negligé pela janela? Eu ajudo-te a despi-lo.

Theo sorriu.

– Queres ver a tua noiva à luz do dia, não é verdade?

Mas notou-lhe uma ruga entre as sobrancelhas e teve de se conter para não estender a mão para a tentar apagar.

– Que se passa? – perguntou.

– Nada. – James contorceu o canto da boca e ela estendeu um dedo e tocou-lhe no lábio para lhe demonstrar que conhecia aquela expressão tão bem que mentir não valeria de nada. Depois recostou-se no parapeito e cruzou os braços à espera.

– Estava a pensar se podias passar umas horas comigo e com Mister Reede, o administrador das propriedades, antes do almoço.

– Claro. O que é preciso que eu faça?

– O meu pai entregou-me os domínios. Depois da minha volta a cavalo, vou com o Reede às docas, pois temos lá um navio, mas devo voltar dentro de uma ou duas horas.

– O teu pai fez o quê? – repetiu Theo, sem querer acreditar no que ouvia.

James assentiu.

– Como raio o convenceste a fazer semelhante coisa? – perguntou.

A sombra de um sorriso passou pelos lábios de James.

– Pedi à tua mãe que insistisse nisso para o contrato de casamento. E ela concordou sem sombra de dúvida. Já tinha ouvido falar de investimentos infelizes feitos por ele.

– Mas nunca me disseste nada! Nem a minha mãe!

– Obriguei o meu pai a prometer que eu herdaria os domínios quando me casasse e não quando ele morresse. Mas não tinha a certeza de que o faria a menos que fosse de lei. A tua mãe sabia de tudo e concordou.

Theo assentiu.

– E ela exigiu que me informasses acerca dos domínios.

– Não. Não disse nada disso. Eu já tinha os papéis preparados para tu e eu sermos os executores.

Desta vez, Theo abriu mesmo a boca de espanto.

– Fizeste o quê?

– Claro que as propriedades estão vinculadas. Não podes vendê-las e eu também não.

– Foi ideia da minha mãe?

– Não. De facto, ela não mostrou grande entusiasmo e o meu pai quase teve uma apoplexia, isto para dizer as coisas com suavidade. Mas eu obriguei-os. – Um brilho de satisfação surgiu-lhe no olhar. – Sabes que sou uma desgraça no que diz respeito a números, mas tu não, Daisy. Podemos pensar juntos acerca do que há a fazer. Costumávamos ter todo o tipo de ideias, lembras-te?

Theo olhou-o de boca aberta. Nunca ouvira falar de propriedades administradas por uma mulher. Bem, pelo menos por uma mulher que não fosse viúva.

– Faço bem tudo o que tem a ver com o exterior – continuou James, teimoso. – Se me pedires que escolha o melhor cavalo numa corrida, faço-o com bastante precisão. Se pensares que devemos melhorar a raça dos carneiros ou dos porcos na propriedade, de certeza que sei como fazê-lo. Mas sentar-me na biblioteca diante de uma fileira de números? Enlouqueceria.

– Faço-o com todo o prazer – afirmou Theo. Quase sentia vontade de chorar. – É que... sinto-me tão honrada por quereres que te ajude.

– Não tens razão para isso – disse James levemente irritado. – Deves também saber que o meu pai quase pôs as propriedades de rastos. É a tua herança que as vai tornar solventes. Por isso é justo que tomes parte em tudo.

Theo pestanejou ao ouvir aquela revelação, mas esqueceu-a por momentos.

– Não creio que haja muitos homens que pensem como tu – comentou ela num tom um pouco vago. – Desde que saibas que não aprendi contabilidade ou qualquer coisa realmente útil com as minhas precetoras.

– Podes aprender. Pelo que o meu pai me disse, a minha mãe administrou as propriedades enquanto foi viva e também não tinha aprendido. E eu estarei aqui, Daisy. Só que não o quero fazer sem ti.

– Muito bem – concordou Theo. Sentia uma explosão de alegria tão extrema que não conseguia pronunciar palavra.

Mas o seu marido estava ali, parecendo pouco à vontade.

– A noite passada foi aceitável – perguntou por fim. – Não te magoei, pois não?

– James, estás a corar! – exclamou Theo.

– Não estou nada.

– Tens de deixar de mentir – observou ela. – Consigo sempre ver através de ti. E em resposta à tua pergunta, sempre te digo que foi surpreendentemente agradável. Embora pense que devemos fazer uma coisa de maneira diferente.

Ele lançou-lhe um olhar cauteloso.

– O quê?

– Irei eu aos teus aposentos em vez de vires aos meus.

– Oh.

– Com que frequência é costume tratar deste assunto matrimonial? – perguntou Theo com alguma curiosidade.

James parecia desconcertante e delicioso. De facto, imaginava-se a beijá-lo naquele preciso momento, mas claro que essas coisas não se faziam espontaneamente e muito menos àquela hora do dia.

– Quantas vezes o desejarmos – replicou James, já com as faces inegavelmente rosadas.

Theo deixou-se cair numa cadeira.

– Apercebo-me de que tenho de fazer uma pergunta acerca da noite passada. – Apontou para a cadeira na sua frente. – Senta-te, por favor.

Ele sentou-se, embora com certa relutância.

Era estranhamente promíscuo estar sentada em frente de um homem – o seu marido – vestindo apenas um leve negligé de seda. A luz da manhã iluminava-lhe o ombro e brincava no seu cabelo e, embora este tivesse uma cor estranha, parecia sempre mais bonito com luz natural, por isso puxou-o para cima do ombro.

– Ontem à noite foi a primeira vez que fiz amor com alguém – anunciou desnecessariamente, mas queria afirmá-lo.

– Eu sei.

– Gostaria de saber com quantas mulheres fizeste amor.

James endireitou-se.

– Foram mais do que suficientes.

– Quantas?

– Porque queres saber?

– Porque quero. Tenho o direito de saber. Sou tua mulher.

– Que tolice. Ninguém diz à mulher uma coisa dessas. Nem devias perguntá-lo. Não é próprio.

Theo cruzou de novo os braços. Reparou que o gesto fazia sobressair os seus seios.

– Porque não me dizes?

– Porque não é próprio – repetiu James, começando a levantar-se da cadeira. Tinha os olhos em fogo e Theo sentiu-se excitada. Adorava ver James irritado, embora não lhe agradasse quando era o pai que o fazia zangar. Ele inclinou-se para ela apoiando-se nos braços da cadeira. – Porque queres saber? Houve alguma coisa ontem à noite que te fizesse pensar que a minha experiência não era suficiente?

Encantada nos seus olhos sombrios, Theo conteve o desejo de o puxar para si. Ou de soltar uma gargalhada.

– Como haveria eu de saber se o que se passou ontem à noite não foi suficiente? – perguntou sufocando um risinho.

Uma mão fechou-se em redor do pescoço dela com lenta deliberação.

– Provavelmente serás a minha morte. – Acariciou-lhe o queixo com o polegar. – Ficaste satisfeita ontem à noite, Daisy?

Ela mostrou-lhe uma expressão zangada e abanou a cabeça, afastando a mão dele.

– Theo.

– Como posso não pensar em ti como Daisy quando tens o cabelo junto ao rosto como as pétalas de uma flor? – James acocorou-se diante da cadeira e pegou numa madeixa. – É brilhante como o sol.

– Prefiro ser tratada por Theo – repetiu. – E ontem à noite foi muito agradável, obrigada. Perguntei pelas outras, porque quero saber uma coisa a teu respeito que mais ninguém saiba.

James olhava para a madeixa de cabelo que tinha na mão com tanta concentração como se de fios de ouro se tratasse, mas, nesse momento, olhou-a nos olhos.

– Sabes tudo a meu respeito.

– Não. Não sei.

– És a única pessoa que me conhece, Daisy – disse ele em voz baixa. – Isto é, Theo... tudo o que importa conhecer em mim. Não presto para os números. Sou bom com os animais. Detesto o meu pai. Não consigo controlar o mau génio e odeio o facto de ter herdado dele essa caraterística. Sou possessivo, sou intolerável... disseste-mo muitas vezes.

– Também gostas do teu pai – comentou Theo. – Por muito que ele te irrite. E continuo a querer saber a resposta à minha pergunta.

– Se eu te disser, dás-me uma madeixa do teu cabelo?

– Meu Deus, tão romântico – suspirou Theo, sentindo um arrepio até aos dedos dos pés. Mas sentiu uma pontada de bom senso. – Se cortares uma atrás, onde não se note.

James pegou num canivete e passou para trás dela.

– Não cortes muito – pediu, puxando o cabelo para cima e deixando-o depois cair sobre as costas da cadeira. – A Amélie ficará furiosa se eu andar por aí com uma careca.

Ele passou-lhe as mãos pelo cabelo e depois disse em voz baixa.

– Foste a segunda, Daisy. E a última.

O sorriso no rosto de Theo veio diretamente do coração, mas pensou que a brevidade da lista dele não seria provavelmente causa de grandes comemorações, pelo menos segundo pensava, mas nada disse. Inclinou a cabeça para trás e viu que ele lhe cortara uma grossa madeixa de cabelo.

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– Que vais fazer com isso? Estou assombrada com esse teu gesto sentimental, James. – Estendeu-lhe os braços. – Que tal um beijo de bons-dias? Àquela pessoa que te conhece melhor e que mesmo assim se comprometeu para uma vida de tolerável intolerância?

Os olhos dele pareciam ainda sombrios e preocupados, mas inclinou-se e deu-lhe um beijo ao contrário, doce e suave sobre os lábios.

– De facto, preferia dos outros. – Sentia a pulsação bater-lhe com força na garganta.

– Dos outros – repetiu James lentamente. Enrolou nos dedos a madeixa de cabelo, depois pô-la sobre a mesa e levantou-a. – Um beijo. Depois tenho de ir para baixo.

Tomou-lhe a boca lentamente como se tivessem todo o dia para se saborearem, para se juntarem como o veludo e a seda.

Em determinado momento, a porta abriu-se e uma criada gritou qualquer coisa. A porta fechou-se de novo e continuaram a beijar-se.

A boca de James deslizava para o queixo de Theo, para a sobrancelha, para a orelha, e voltava sempre para continuar o beijo. Theo começou um monólogo repetitivo, uma série de trémulos e sufocados comentários que pouco sentido faziam, até que deu por si a dizer:

– Não acredito que não sabia que podia sentir-me assim... O que teria acontecido se não tivesses percebido a tempo, James? E se eu tivesse conseguido levar o Geoffrey ao altar?

Ele afastou a boca. Nesse momento, já ela se colava a ele tentando adaptar as curvas do seu corpo às partes rígidas do dele, tentando subir por ele como um gato, com a respiração em pequenos soluços.

Mas ele afastou-se, deixando a cadeira entre ambos.

– James – disse ela com a voz embargada de desejo.

– Não! – A voz dele estava também rouca, mas havia algo estranho na sua expressão, uma espécie de raiva agonizando nos seus olhos.

– Mas, que se passa afinal? – perguntou Theo, percebendo por fim que alguma coisa se passava. James não estava simplesmente com um humor estranho.

– Nada – disse ele num tom notoriamente falso. – Tenho de ir ter com o administrador das propriedades. Não quero que o homem pense que toda a família segue os padrões do meu pai. Por vezes deixa o Reede à espera durante dias, depois de o ter mandado chamar.

– Claro – replicou Theo. – Mesmo assim, eu conheço-te, James. Há qualquer coisa de muito errado aqui, não é verdade? Diz-me, por favor. O que se passa?

Mas ele deu meia volta e foi-se embora, deixando-a a falar para a porta fechada.


Oito

O grito horrorizado de Amélie ao descobrir o vestido de noiva a servir de poleiro a um casal de pardais de Londres foi igual ao seu desespero ao ver Theo atirar vestido após vestido para cima da cama.

No final, Theo quase não tinha que vestir, mas sentia-se cada vez mais entusiasmada.

Quando por fim conseguiu vestir um dos poucos vestidos a seu gosto, desceu para tomar o pequeno-almoço. James ainda não regressara da sua ida à doca e não estava mais ninguém em casa.

– Onde está Sua Graça? – perguntou a Cramble, permitindo que um criado lhe servisse os ovos mexidos.

– O senhor duque foi às corridas a Newmarket e só voltará amanhã.

– E a minha mãe?

– Mistress partiu de manhã cedo para a Escócia; creio que foi visitar a senhora sua irmã.

– Claro! Esqueci-me completamente – disse Theo. – Sim, duas fatias desse presunto, por favor. Cramble, pode, por favor, enviar um criado a casa de Madame Le Courbier para a informar que a irei visitar esta tarde? E como estou só, gostaria de ver o jornal.

– Só entregaram o Morning Chronicle, Lady Islay. Vou trazer-lho imediatamente.

Theo quase nem reparou na resposta, perdida no surpreendente prazer de ouvir dirigirem-se-lhe pelo título de James. Nunca pensara nele como conde de Islay, mas claro que era exatamente o que ele era. Depois lembrou-se do comentário do mordomo.

– Não vieram outros jornais? Que estranho. Pode mandar alguém buscá-los, Cramble?

– Lamento muito, minha senhora – disse ele. – Receio não poder dispensar ninguém neste momento.

– Talvez à tarde, então – sugeriu Theo. – Certamente que o Town Topics será entregue.

– Vou tratar disso – replicou Cramble com pouco entusiasmo.

Theo começou a pensar em todo o aborrecido problema dos domínios. Não lhe custava acreditar que o seu novo sogro perdera grande parte da fortuna. Era um homem irascível e um jogador tolo e, mesmo que ela não tivesse chegado a essa conclusão, a mãe repetira-o energicamente, pelo menos uma vez por dia desde que ela se lembrava.

Mesmo assim, ficou muito surpreendida por Ashbrook ter concordado em entregar as rédeas a James. Deveria ter sido encostado à parede, o que sugeria que os seus domínios estavam de facto em grande perigo.

Assim que James e o administrador regressaram, foi ter com eles à biblioteca e descobriu que a reunião tinha aspeto de crise. Não teve dúvidas de que James estivera a puxar os cabelos, pois o seu corte Brutus estava mais despenteado do que era moda. Mr. Reede, o administrador, parecia ao mesmo tempo ofendido e na defensiva.

– Cavalheiros – cumprimentou Theo, entrando na sala. – Mister Reede, que bom ter podido vir.

– É o trabalho dele, que raio – vociferou James. – E, se o fizesse melhor, poderíamos não estar nestes apuros.

– Peço desculpas ao senhor conde – disse Mr. Reede. – Porém, devo recordar-lhe que não tinha autoridade para impedir que Sua Graça tomasse as decisões que desagradam ao senhor conde.

– É verdade – concordou Theo, sentando-se ao lado de James e tentando não pensar em como gostava de sentir o ombro dele junto ao seu. – As coisas estão muito mal?

– Horríveis – afirmou James. – Praticamente, o meu pai conseguiu levar os nossos domínios à falência. Vendeu tudo aquilo em que conseguiu pôr as mãos e apenas o que estava vinculado escapou a desaparecer dentro dos bolsos dele.

Theo poisou-lhe a mão no braço.

– Então, é excelente que tenhas assumido o controlo, James. Recordas-te daquelas ideias que tínhamos para fazer com que as propriedades de Staffordshire fossem autossustentáveis? Temos agora a possibilidade de o pôr em prática.

Ele lançou-lhe um olhar aflito e ao mesmo tempo exasperado.

– Éramos crianças, Daisy. Tínhamos ideias estúpidas e quixotescas, tão práticas como os malditos planos do meu pai.

Theo apercebeu-se de que James estava à beira do desespero.

– Mister Reede, poderá dar-me um resumo do que resta dos domínios e das dívidas que a eles estão ligadas? – perguntou Theo.

Mr. Reede olhou-a e pestanejou perfeitamente admirado.

– Eu bem lhe disse – declarou James ao administrador com um riso cavo.

Mr. Reede decidiu-se a falar.

– A propriedade do Staffordshire está vinculada, tal como esta casa e a ilha na Escócia.

– A ilha?

– Islay – esclareceu James. – Há anos que ninguém a visita. Creio que não passa de um monte de pedras.

– Receio que as dívidas feitas em nome da propriedade totalizem trinta e duas mil libras – disse Mr. Reede.

– E o rendimento da criação dos rebanhos e do resto?

– O rendimento é aproximadamente aquilo que se concordou que seria a renda anual de Sua Graça. Há também dívidas garantidas pela casa da cidade que perfazem cinco mil libras.

– E a ilha? – perguntou Theo.

– Ninguém emprestaria dinheiro tendo como garantia a ilha – respondeu James. – Tem apenas um prado e uma cabana.

– O senhor duque tem um navio que, no passado, fez viagens bem-sucedidas às Índias Ocidentais para trazer especiarias. Lorde Islay e eu passámos a manhã no Percival, que esteve toda a manhã na doca seca como resultado do não pagamento dos direitos alfandegários.

– Pensei que os navios tinham geralmente o nome de mulheres – disse Theo.

– O senhor duque deu o seu próprio nome ao barco e pagou multas – continuou suavemente Mr. Reede. – Os direitos devidos pelo Percival são cerca de oito mil libras. Garantimos o pagamento e o navio já não está embargado. O senhor duque continuou a pagar o vencimento da tripulação, mas o capitão foi-se embora pois arranjou um lugar melhor. – Reede voltou a página do livro.

– Temos cerca de quarenta e cinco mil libras de dívidas – disse Theo. – O que de facto é muito.

– Há uma pequena empresa de tecelões, situada em Cheapside – explicou Mr. Reede. – A Tecelagem Ryburn tem um lucro estável de cerca de três mil libras por ano.

– E o duque não a vendeu?

– Creio que se esqueceu da sua existência – declarou Mr. Reede, hesitante. – Usei esse rendimento para pagar os vencimentos do pessoal nas várias casas, bem como a tripulação do Percival.

– Naturalmente, o senhor não o recordou da existência da tecelagem – referiu Theo admirada. – Foi excecionalmente sagaz. Muito obrigada, Mister Reede.

Deu uma cotovelada a James e este resmungou qualquer coisa. Mas levantou-se da mesa, como se não suportasse continuar sentado, e começou a andar de um lado para o outro no aposento, metendo as mãos no cabelo.

Theo resolveu ignorá-lo por algum tempo e voltou-se para Mr. Reede.

– Gostaria de pagar a dívida do meu dote e depois trabalhar com o objetivo de tornar os domínios autossustentáveis. Pensa que tal será possível?

– Pensei muitas vezes – sugeriu Reede – que, se fosse feito o investimento razoável na criação de carneiros, conseguiríamos um rendimento de cerca de vinte por cento num curto período de tempo, digamos dentro de dois ou três anos.

– Ficaríamos mais à vontade se pudéssemos ter várias fontes de rendimento. Uma coisa que Lorde Islay e eu falámos no passado foi na possibilidade de formar uma empresa de cerâmica. A Wedgwood teve um sucesso notável usando o barro de Staffordshire e metade das nossas propriedades parecem ter barro. Acho os padrões da Wedgwood extremamente enfadonhos. Tenho a certeza de que faríamos melhor.

– Seria uma despesa considerável estabelecer uma empresa rentável. Na minha opinião, deveriam tentar atrair alguém da Wedgwood. – Mr. Reede lançou um olhar nervoso a James que estava à janela, com os ombros tensos.

– Explicarei ao meu marido os planos que possamos fazer – afirmou Theo.

– Façam o que quiserem – declarou James sem se voltar. – Nesta fase sou inútil. – Nunca se entendera com factos e números, mas, se caminhasse pela propriedade, provavelmente teria uma centena de ideias acerca de como aumentar a colheita do trigo.

E assim que tivessem o negócio da cerâmica a funcionar, Theo tinha a certeza de que ele conseguiria resolver qualquer contingência. Tinha um verdadeiro dom para conversar com os trabalhadores, provavelmente porque os invejava.

– Qual a sua opinião acerca da ideia de estabelecermos uma empresa de cerâmica na propriedade, Mister Reede?

O administrador olhou outra vez para trás. James tinha um braço erguido, apoiado na janela e era o perfeito retrato do desespero.

– Juntamente com melhorias na criação de carneiros, creio que seria muito bom, minha senhora.


Nove

Quando a reunião estava prestes a terminar, James teve vontade de saltar pela janela da biblioteca e correr pela rua aos gritos. Era um idiota que nunca seria capaz de administrar os seus domínios pois não suportava pensar ou falar em números. Enquanto Reede falava todo o seu corpo se sentia tenso com um imenso desejo de se ver fora da biblioteca.

E fora Daisy – a Daisy que ele traíra – que passara duas horas a rever os números e a apresentar ideias para restabelecer as finanças. Em determinada altura, voltara a sentar-se à mesa, mas os números passavam por ele tão implacáveis como quando andava de um lado para o outro no aposento.

Não era o facto de não perceber de matemática ou contabilidade. Aprendera ambas as disciplinas na escola. Mas a sua concentração perdia-se diante dos números e dava por si a pensar não em vender cavalos para ter lucro, mas na maneira como planeava reparar os estábulos. Daisy e Reede falavam das toneladas de feno produzidas no campo sul, comparadas com as do campo ocidental, e se a disparidade teria a ver com o desvio do ribeiro; a sua única contribuição fora o comentário de que a ceifa no campo ocidental era difícil porque se encontrava na encosta de um monte.

Sabia-o apenas porque se juntara aos trabalhadores da propriedade no verão anterior, satisfeito por poder aprender a pegar numa foice, e pelo prazer de fazer trabalho físico, mesmo que os músculos lhe doessem à hora de ir dormir.

A verdade era que não passava de uma idiota que só servia para ceifar, porque, se não conseguisse estar ao ar livre e fazer exercício físico todos os dias, não conseguiria controlar o seu maldito génio. E nem pensar em pôr em perigo quem vivia na sua casa lançando pelo ar estatuetas de porcelana.

Mesmo assim, teria aguentado a verdade brutal na sua inépcia. Afinal, Daisy – Theo – troçara dele durante anos e o alegre afeto demonstrado por ela adoçara-se sempre quando ele dizia que preferia enforcar-se a assistir a uma ópera.

A única vez que ficara sentado e sossegado a ouvir ler um livro em voz alta (nem pensar em lê-lo ele mesmo) fora durante o ataque de oftalmia, quando os médicos o confinaram a um quarto escuro, ameaçando-o com a possibilidade da cegueira. Mesmo assim, suspeitava que se teria levantado para correr por toda a parte sem se importar com a visão se Daisy não o tivesse feito rir, não o tivesse mimado e não lhe tivesse dado de comer. Quando ela lhe leu Shakespeare ficou fascinado. Ao tentar lê-lo sozinho, as palavras misturavam-se na página e o seu espírito fugia para outras paragens.

Por fim, a contabilidade, as conversas e os planos terminaram e Daisy despediu-se de Mr. Reede, com modos delicados, enquanto James se mantinha ao lado dela, à porta, com uma expressão sombria. Depois, ela puxou-o de novo para a biblioteca.

– O que é? – perguntou ele. – Tenho de dar um passeio a cavalo, Daisy. Não tive tempo e sinto a cabeça a latejar. – Ainda não acreditava que estava casado. Muito menos que a sua mulher era Daisy. A sua Daisy. Estendeu a mão e passou-lhe um dedo pelo rosto.

– Tens a estrutura óssea mais bela que já vi numa mulher. És como uma princesa russa, penso eu.

Ela gostou. James leu-lho no olhar.

– Beija-me – pediu ela. – Daquela maneira.

Ele beijou-a.

O pior era que James descobrira que sentia todas aquelas coisas que dissera diante do príncipe de Gales naquela noite de março. Daisy era sua e ele era possessivo, e queria-a mais do que tudo e todos neste mundo.

Mas agora nunca as coisas seriam puras ou verdadeiras entre eles. Por isso beijou-a com tal mistura de luxúria e desespero que pensou poder sentir o sabor da sua tristeza e, por isso, afastou-se resmungando um comentário acerca da sua dor de cabeça.

A seguir, montou a cavalo num galope excessivo, que lhe curou a dor de cabeça, mas não a do coração, almoçou no clube e regressou a casa. Porém, em vez de entrar na biblioteca, caiu na cama e ficou a olhar para o dossel, incapaz de pensar, de se mover ou sequer de dormir.

Bairley, o seu criado particular, apareceu algumas horas depois para receber ordens para o jantar. Pelos vistos, a senhora fora à modista e ainda não regressara.

– Mais tarde – disse James, desinteressado.

Sentia-se invadido por uma espécie de culpa provavelmente sentida pelos assassinos. Mais do que tudo, desejava lançar o pai contra a parede, desferindo-lhe um direto no queixo: por lhe arruinar o casamento, o seu amor por Daisy, o futuro. Todo o seu corpo vibrava de ódio pelo homem que de forma tão descuidada e egoísta lhes arruinara a vida.

Algum tempo depois, o criado bateu à porta e entrou de novo no quarto.

James endireitou-se.

– Creio que serão horas de me vestir para o jantar.

– Sim, senhor conde. O seu banho está pronto. Mas Mister Cramble pensou que Vossa Senhoria deveria saber... – começou Bairley, mas depois pareceu perder a vontade.

– Qual é o problema? – perguntou James. – O meu pai já voltou das corridas?

– Não, senhor conde. São os jornais.

– Que se passa com os jornais?

– Ao pequeno-almoço, Mister Cramble disse à senhora que os jornais não tinham chegado, embora os tenha posto na biblioteca para Vossa Senhoria os ler.

– Sim. Mas não os vi. Por que razão disse Cramble uma coisa dessas à minha mulher?

– Foi por causa do que escreveram acerca do casamento, isto é, acerca de Lady Islay. Queria mostrá-los a Vossa Senhoria assim que tivesse oportunidade.

James abanou a cabeça.

– Mas que raio disseram os jornais acerca da minha mulher? Porque se preocuparam com o nosso casamento?

– Foi o casamento da temporada – lembrou Bairley em tom de repreensão. – As descrições da cerimónia e da receção são muito elogiosas. A carruagem e os criados de libré dourada foram largamente admirados.

– Parece-me que te estou a arrancar as palavras, Bairley – disse James despindo o colete. – Escolheste alguma coisa para eu vestir esta noite?

– Mister Cramble pensou que devia mandar o jantar ao quarto da senhora – explicou Bairley, gaguejando um pouco. – E que Vossa Senhoria deveria jantar com ela assim em privado. Quando tocar para servirmos, claro.

O criado utilizava geralmente uma linguagem mais cultivada que a de James, por isso aquele «assim em privado» tão coloquial era sinal de que algo se passava. James sentiu-se invadido por uma irritação proveniente do medo.

– Mas que raio de coisa estás para aí a dizer, Bairley? – perguntou, ríspido.

– Os jornais chamam-lhe «A duquesa feia» – replicou o criado, aflito

– O quê?

– A «duquesa feia» e fazem um trocadilho com o conto de fadas «O Patinho Feio». Senhor conde, por favor, fale baixo. A senhora está no quarto aqui ao lado. Retirou-se imediatamente após ter regressado da modista.

– Quando dizes «os jornais», a quais te referes precisamente? – James despiu a camisa e atirou-a para cima da cama. Daisy deveria estar arrasada. Eram todos uns malditos mentirosos. Havia de matar pessoalmente aqueles escrevinhadores. No dia seguinte mandaria fechar as tipografias. Descobriu que os dedos lhe tremiam de raiva.

– Todos os diários – replicou Bairley. – Todos, exceto o Morning Chronicle que disse que ela tinha um perfil de rei.

– Muito bem – disse James, decidindo poupar o Morning Chronicle. Abriu as calças com tanta força que o botão saltou para o chão.

Bairley apressou-se a procurá-lo.

– Exigirei que todos se retratem e apresentem um pedido de desculpas amanhã de manhã – declarou James por entre os dentes cerrados. – De contrário, juro por Deus que pego fogo aos edifícios. Um duque ainda tem algum poder e vou usá-lo todo para os destruir.

– Sim, senhor conde – disse o criado que já encontrara o botão. Voltou-se para retirar a roupa do guarda-fato e para a colocar cuidadosamente sobre a cama. – Infelizmente, a criada referiu que a senhora viu os jornais quando foi à modista. E não são só os jornais. As gravuras estão já nos vidros dos quiosques. Fizeram-nas durante a noite por causa de toda a emoção causada pelo casamento.

– Oh, valha-me... – James interrompeu o que ia dizer. – Lady Islay saiu e viu tudo isso e agora está... onde?

– No quarto aqui ao lado – respondeu Bairley. – Foi diretamente para os seus aposentos, pálida como a cal da parede, foi o que disse Mister Cramble.

– Onde está a mãe da senhora?

– Mister Saxby partiu esta manhã para a Escócia, antes de os jornais chegarem.

James atirou as calças e o resto da roupa para cima da cama.

– Vou tomar um banho rápido e depois visitarei a minha mulher. Diz a Cramble que não quero que ninguém nos interrompa até eu tocar. Nem sequer a criada da senhora – ordenou a Bairley, voltando-se para trás.

Cinco minutos depois, vestia o roupão e dirigia-se para a porta do quarto de Daisy.


Dez

Theo estava tão desolada que engolira as lágrimas que devia ter derramado. A caminho da modista, em Piccadilly, avistara um grupo de pessoas em volta de uma nova gravura na montra da Hatchards, mas nunca lhe ocorrera que a imagem tivesse alguma coisa a ver com ela. Até estar de volta a casa, a carruagem parar diante de outra papelaria e ela poder ver a ilustração. Mesmo assim, só teve conhecimento da extensão do caso depois de mandar o cocheiro à loja comprar os mesmos jornais que o mordomo afirmara não terem sido entregues.

Nunca imaginara que uma pessoa pudesse ser tão cruel, muito menos dez ou vinte pessoas, ou tantas quantas as que tinham escrito, revisto e aprovado aqueles artigos. E também havia quem tivesse estado toda a noite sem dormir, para desenhar a sua imagem envergando aquele vestido horrendo. Só que, claro, não se tratava do vestido.

Bastava-lhe voltar a cabeça para ver o seu rosto no vidro. Era angular, com os malares salientes de que James tanto gostava. Mas tinha um nariz direito e um queixo forte, bem como algo indefinível no desenho do seu perfil que acabava por transformá-la exatamente numa duquesa feia.

Quando a porta do quarto contíguo se abriu de rompante, Theo nem ergueu os olhos.

– Preferia que me deixasses só neste momento – disse engolindo o nó que se lhe formara na garganta, embora não estivesse a chorar. – Estou muito bem. Não derramei uma única lágrima por causa desses artigos idiotas. É tudo um disparate, mais nada.

Claro que James não lhe obedeceu. Pelo canto do olho, Theo viu a sombra de um movimento e de repente estava aconchegada ao peito dele e ele sentava-se.

– Sou demasiado grande para ficar ao teu colo – comentou sufocada, apercebendo-se que o roupão dele se abrira e que o peito em questão estava nu. – E não estás vestido corretamente.

James ignorou também aquelas palavras.

– São todos uns canalhas insolentes e eu vou-lhes desfazer as máquinas amanhã de manhã. – A voz dele vibrava de fúria, uma emoção muito comum na sua pessoa.

– Desfazer as máquinas já não vai ajudar em nada – declarou Theo. Mas encostou a cabeça ao peito dele e deixou-o soltar mais palavras iradas. Era reconfortante que James, tal como a mãe dela, não a vissem como o resto do mundo.

Por amor de Deus, ele via-a até como uma margarida. Theo não se preocupava com a sua imagem, e havia muito que concluíra que severa seria o melhor adjetivo que lhe poderia atribuir.

E não havia margaridas severas.

– Pensas que posso estar de esperanças? – perguntou depois de fazer uma pausa para respirar.

James emitiu um som estranho, talvez como se engolisse em seco ou tossisse.

– O que tem isso a ver com o resto? Espero que não. Não estou ainda preparado para ser pai. Vê o trabalho desgraçado que o meu pai fez. Posso nunca vir a estar preparado.

– Bem sei que somos jovens – admitiu Theo. – Mas, se eu estivesse de esperanças, a minha figura mudaria. Talvez tivesse mais à frente. Devíamos tentar outra vez esta noite.

James olhou-a de testa franzida.

– Queres dizer que desejas criar aquele aspeto bovino de algumas mulheres? Com tetas como as vacas? – James estremeceu de genuíno desagrado, o que para ela foi muito satisfatório. – Este tamanho é perfeito – acrescentou, poisando a mão no seio dela. – É perfeito para a mão de um homem. Para a minha mão.

Theo envergava um vestido de passeio que lhe achatava o pouco volume que tinha à frente, mas, mesmo assim, a mão de James curvara-se agradavelmente sobre o seu seio. Sentiu-se um pouco mais calma, até que, logo a seguir, tudo transvasou na sua cabeça.

– Não creio que consiga sair mais de casa. Onde quer que vá as pessoas chamar-me-ão a duquesa feia, sabes que será assim. Mesmo que não o digam na minha frente, pensá-lo-ão. Não poderei suportá-lo. Não tenho coragem.

A mão dele apertou-lhe o seio por instantes e depois envolveu-a nos braços.

– São todos uns idiotas – declarou com a boca encostada ao cabelo de Theo. – És muito bela.

– Não sou – disse Theo tristemente. – Mas és muito simpático em dizê-lo.

– Não estou a dizer apenas por dizer! – Quase gritava, mais uma vez.

– Lembras-te que tinhas decidido controlar esse mau génio assim que chegasses à importante idade de vinte anos?

– Qualquer homem neste mundo ficaria enraivecido com este tipo de insulto feito à mulher. Amanhã vou à redação de todos esses lixos que se dizem jornais, ponho as mãos em volta do pescoço do proprietário, e...

Theo tapou-lhe a boca com a mão.

– Não tens maneira de o impedir, James. As ilustrações estão por toda a parte. Vi gente na Hatchards, a olhar para a montra. E, a caminho de casa, apercebi-me que o meu retrato com aquele vestido horrendo está nas montras de todas as lojas. Já me puseram uma etiqueta. Para toda a vida.

– Que disparate – retorquiu James mais calmo. – Há muita gente que fica com alcunhas desagradáveis, mas que logo são esquecidas. Richard Gray foi conhecido por Pilinhas1 durante algum tempo. E Perry Dabbes, agora Lorde Fentwick, por Caracol do Mar2. Depois todos se esqueceram.

– Parece que não – comentou Theo. – Recordaste-te imediatamente desses nomes, sem qualquer hesitação. E mais, aposto que há muitos homens que pensam em Caracol do Mar sempre que veem Lorde Fentwick – hesitou. – Será uma referência ao tamanho do órgão masculino?

– Receio que sim.

– Creio que pequeno seria uma bênção. Certamente muitas mulheres prefeririam assim. Deveriam orgulhar-se das alcunhas.

Da boca de James explodiu uma pequena gargalhada.

– Devo concluir que ficaste magoada desde ontem à noite?

– Sim – admitiu Theo. – Não me importava que tivesses um caracol do mar.

– Ainda bem que não tenho, embora lamente ter-te magoado, Daisy.

– O que quero dizer é que não importa o tamanho do órgão, pelo menos não são feios. É a pior coisa que se pode dizer de uma mulher.

Os braços de James apertaram-na de novo.

– Não és feia, Daisy. Achas que sou feio?

Ela olhou-o.

– És lindo de cortar a respiração e sabe-lo bem. Sinto-me irritada só de olhar para ti.

– Posso sabê-lo, mas não me importo nada. E um homem tem o seu orgulho. Por que diabo me casaria eu com uma mulher feia?

Theo pensou em dizer Porque foi o que fizeste, mas abafou essas palavras. Não queria convencê-lo exatamente de que era feia. Ele e a mãe dela eram as duas únicas pessoas no mundo que a consideravam bonita. Era reconfortante saber que havia alguém cego perante a realidade.

– Nunca me casaria com uma mulher feia – continuou James com a soberba confiança que lhe vinha de ter nascido não só bonito, como herdeiro de um ducado. – Tenho algum orgulho, sabes. Casei-me contigo porque és deliciosa e bela e também porque não te pareces com todas as outras jovens.

Theo fungou. Não chorara ao ver as gravuras, mas James estava agora a comovê-la.

– Que queres dizer com isso de que eu não me pareço com as outras jovens.

Ele franziu a testa.

– Todas elas cor-de-rosa e gordinhas.

– Mas a Bella era assim – objetou Theo. Depois endireitou-se. – A Bella faz parte do teu passado, não é verdade?

– Despedi-me da Bella na manhã a seguir a ter pedido a tua mão. Dei-lhe uma esmeralda, embora não o tivesse feito se soubesse que o meu pai tinha andado a jogar os domínios. – Afagava-lhe o cabelo, do mesmo modo que se acalma um gato agitado.

– Oh, não há problema – disse Theo, sentindo-se generosa. – Tenho a certeza de que a vida dela não é fácil. Mas tenho de te dizer que não tem a mínima parecença comigo, James.

– Uma amante é uma coisa – respondeu James teimoso. – Uma esposa é outra muito diferente. Não suportaria todas aquelas coisas cor-de-rosa à minha volta o dia inteiro. E além do mais... – a mão dele deslizou do ombro até ao seio de Theo. – Não me agradava muito o colo dela, para dizer a verdade. Um homem podia sufocar, se não tivesse cuidado.

Theo soltou uma gargalhada entrecortada.

– Tens de fazer isso? – perguntou algum tempo depois, enquanto ele continuava a acariciar-lhe o seio. – Estás a fazer-me sentir um pouco estranha.

– Porque não te despes para nos fazermos sentir estranhos um ao outro? – sugeriu James.

– James! As pessoas não fazem esse tipo de coisas a esta hora.

– É quase noite – disse ele olhando para fora. – E tenho a certeza de que as pessoas o fazem durante todo o dia se tiverem a sorte de não viver com um rancho de criados.

– Gostavas de não ter criados?

James acariciou-lhe o mamilo com o dedo e, mesmo através das camadas de tecido, Theo sentiu-o de tal maneira que estremeceu.

– Gostas?

– Creio que sim – respondeu duvidosa.

– Quem me dera ter nascido trabalhador rural – declarou James de repente e com alguma ferocidade. – Poderia fazer o que me apetecesse e casar com quem quisesse e trabalhar ao ar livre e nunca ter de passar horas com um homem como o Reede.
E muito menos que ele olhasse para mim como se eu fosse um verdadeiro idiota. Que por acaso sou.

– Não és, não – exclamou Theo. – Sabes perfeitamente que poderias ter feito uma licenciatura em Oxford se lá tivesses querido ficar depois do primeiro ano.

– Só que teria saltado para um lago com os bolsos cheios de pedras.

– Isso é irrelevante. O que quero dizer é que eras o melhor da turma em Eton, sempre que estavas para isso.

– Graças a Deus que acabou.

A mão dele começou a mover-se uma vez mais e Theo teve de admitir que estava a gostar muito. De facto, começava a pensar em despir o vestido, um pensamento escandaloso.

– Gostarias então de ser trabalhador rural?

– Sim.

– Escolheste a mulher com quem casaste – disse Theo em voz baixa. – Chocaste toda a gente com a declaração.

A mão dele deteve-se por um momento.

– Sim. Suponho que não me sinto preparado para o casamento. Mas, tendo que me casar, não quereria outra pessoa senão tu.

– Bom, detestaria ser a mulher de um trabalhador rural, por isso estou satisfeito que sejas duque. Seria muito cansativo cozinhar e limpar e acender o lume todos os dias e depois acordar e fazer precisamente o mesmo no dia seguinte. Preferia fazer planos para a fábrica de cerâmica. E o que achas da minha ideia de que os tecelões de Ryburn se especializem no fabrico de tecido com padrões figurativos, recriando os que eram tecidos no tempo da rainha Isabel?

– Creio que é brilhante. Mas suponho que o que eu mais quero é estar ao ar livre e não sufocado com colarinhos ridículos. Odeio a goma.

– Somos muito diferentes – exclamou Theo. Embora fosse uma coisa que tivesse sabido durante praticamente toda a sua vida, espantava-a mesmo assim. – Adoro pensar em tecidos e o uso sensato da goma pode ter efeitos maravilhosos. Madame Le Courbier... é a minha modista... e eu pensámos num plano maravilhoso para utilizar a goma para firmar pregas finas. Vai pô-las nos pulsos e na gola de um vestido de passeio de bombazina cor de cereja enfeitado com um cordão que o faz parecer o uniforme da Cavalaria da Rainha.

– Não me recordo de que haja pregas nas túnicas deles – respondeu James. Afastara Theo um pouco e ela apercebeu-se então de que ele lhe desapertava habilmente os botões das costas do vestido.

– James, não podemos fazer isto – disse ela, voltando-se para o olhar por cima do ombro.

– Que estamos a fazer? Apetece-me estar sentado com a minha mulher sem que nenhum dos dois esteja vestido. Sabes que há religiões em que as pessoas se comportam assim a todo o momento. Creio que uma delas se chama a «Família do Amor». O meu primo falou-me dela outro dia no clube.

– Não terá sido o teu primo Pink – disse Theo, permitindo que ele continuasse a desabotoar-lhe o vestido, por muito calmo que parecesse o seu tom de voz, o coração disparara só de pensar que se sentaria despida no colo de James.

– Prefere que o tratem por Pinkler-Ryburn – replicou ele, desapertando o último botão e fazendo deslizar o vestido, puxando-o até lhe libertar os braços.

– A verdade é que não o suporto.

– Não sei porquê. Afinal, ele interessa-se tanto pela moda como tu.

– Não, não se interessa. É apenas um seguidor descuidado das ideias dos outros. É absurdo. No casamento usou um colarinho tão alto que mal podia voltar a cabeça. E viste o casaco incrível que trazia? Tinha um forro de cetim cor-de-rosa e esteve sempre a mexer-lhe, para que toda a gente o visse.

– É um presumido, mas depois de o conhecermos, percebemos que não é má pessoa – disse James. – Porque não usas uma daquelas coisas parecidas com espartilhos.

– Não preciso – respondeuTheo com uma centelha de orgulho. – Servem para apertar o estômago, que eu não tenho.

– Tens – disse James encostando-a de novo a si, fazendo deslizar a mão por cima da camisa, desde o pescoço até aos seios de Theo. – Aqui mesmo. – Baixou um pouco a mão. – Como um caminho direto para o local onde um homem mais quer estar.

Theo encolheu-se, quase desejando que a mão dele deslizasse até mais abaixo, quase desejando saltar-lhe do colo.

– Tenho uma ideia – disse ela, ofegante.

– O que é? – A mão dele deslizou um pouco mais.

– Bem, o patinho feio transformou-se num cisne, não é verdade.

James deteve-se. Depois ergueu-a e puxou o vestido até ao chão.

– Como se despe esta camisa?

– Só tem dois botões – disse ela, levantando o cabelo para lhe mostrar.

– Fala-me do cisne – pediu James, sentando-a de novo no colo.

– Não acredito que estejamos a fazer isto – resmungou Theo, mas mudou de assunto. – Estive a pensar e a ter ideias há meses, de facto desde que fui apresentada à sociedade e que a minha mãe me obrigou a usar todos aqueles folhos brancos.

– Como o vestido que atiraste pela janela. – Os dedos ágeis de James afastaram-lhe o cabelo para o lado, deixando centelhas sempre que lhe tocavam a pele.

– Sim, como o meu vestido de noiva – concordou Theo inclinando a cabeça. – Estás mesmo a desabotoar a minha camisa? – Era uma pergunta estúpida. Theo sentia os dedos dele no seu pescoço.

– Sim.

– Mas a Amélie pode entrar a qualquer momento – avisou ela quase em pânico. – Devem ser horas de me vestir para o jantar.

– Disse ao meu criado que ninguém cá viesse senão quando tocássemos. Jantamos aqui.

– Oh! – A ideia de jantar com James num ambiente tão íntimo, embora certamente se vestissem depois, acelerou-lhe a respiração. – Tenciono criar as minhas regras de moda – declarou mudando de assunto. – Exatamente o oposto ao teu primo Pink. Ele limita-se a imitar o que fazem os outros pedantes.

– Parece-me bem que haja regras – disse James em tom ameno. Tinha-lhe desapertado os atilhos da camisa que começava a deslizar-lhe dos ombros.

Theo sentiu-se momentaneamente em pânico, mas depois deixou-o fazer o que desejava. James levantou-a e libertou-a da camisa. Depois aconchegou-a de novo ao seu peito, como se ela não estivesse quase nua, apenas com as calcinhas enfeitadas com renda.

– Uma peça muito bonita – admitiu ele com uma nota de distinta satisfação masculina, passando um dedo pelo entremeio arrendado.

– Fui eu que o desenhei – explicou Theo. – É feito de fio de seda. Com renda dupla.

– Quais são as tuas regras – perguntou-lhe James ao ouvido, enquanto poisava a mão sobre o joelho dela.

James não parecia olhar para a renda, mas Theo não conseguia pensar com clareza. Estava demasiado fascinada pelo contraste da mão morena do marido sobre o seu joelho branco. Nesse momento, sentiu-se mais rosada que branca, comparada com o bronzeado dele.

– Esta é uma: olha para os gregos.

– Não – disse James. – Geralmente, têm barbas cerradas, Daisy. Além do mais, estás casada comigo, Daisy. Não deves olhar para outros homens.

Havia uma nota de posse ardente na voz dele que a fez sentir ridiculamente satisfeita.

– Não se trata dos homens – explicou com um risinho. – Estava a pensar nos trajes dos gregos.

Sentia-se ainda mais nua porque James estava ainda coberto pelo roupão, exceto a parte da frente, onde este se abria. Contudo, sentia algo debaixo dela.

– Não és um caracol marinho – observou.

James soltou uma gargalhada.

– É verdade! – Parecia subitamente alegre, sem a subtil tristeza que nem sequer lhe abandonara o olhar durante a cerimónia do casamento.

Theo saltou-lhe do colo, voltando-se, com as mãos nas ancas.

– Talvez seja o momento de despires o roupão.

Foi gratificante ver que a pulsação lhe batia célere na garganta e o modo como os olhos dele a devoravam. Talvez conseguisse viver num mundo que a julgava feia, desde que tivesse James à sua espera.

Aproximou-se e inclinou-se para desfazer o nó que segurava o roupão dele. Os olhos de James tinham uma expressão ardente e dolorosamente ansiosa.

– Ora então isto é um caracol, mas não um caracol do mar? – perguntou, maliciosa, tocando no órgão que explodiu no momento em que ela afastou o tecido.

James soltou uma gargalhada rouca.

– Podes chamar-lhe o que quiseres, se continuares... – a voz dele desvaneceu-se.

Theo passou os dedos pela ereção aveludada, acocorando-se para poder ver melhor.

– É muito maior do que me pareceu ontem à noite – referiu ela por fim, em voz fraca. Sentia. Sentia pequenas pontadas entre as pernas, só de olhar. Um caracol. Com C grande.

– Mas adaptámo-nos bem – concluiu James com a respiração entrecortada. – Será que podes tirar as calcinhas, desde que eu também me dispa completamente, Daisy?

O seu lado tímido preferiria que o tal caracol não se aproximasse dela. Porém, era James que lho pedia, de modo que se levantou e acenou com a cabeça. Quando se contorceu para desapertar os pequenos colchetes que lhe prendiam as calças, James emitiu um som rouco, como um pequeno suspiro sufocado. Através das pestanas viu o corpo dele avançar. Não a achava feia.

Em vez de desapertar imediatamente as calças, começou por retirar os ganchos do cabelo, agitando-o para que lhe caísse sobre os seios, em madeixas cor de mel, conhaque e âmbar. Sentiu a pele arrepiada ao toque do cabelo, como se as madeixas fossem dedos que a acariciassem.

– Daisy – murmurou James.

– As minhas calcinhas estão presas com pequenos colchetes – disse ela, escondendo um sorriso. – Tenho de os desapertar com cuidado ou podem romper a renda.

Fez deslizar lentamente o pequeno colchete da presilha, permitindo que a peça delicada descesse sobre o seu ventre. Outro colchete; outro olhar para James através das pestanas. Como era belo e intimidativo. Com o terceiro colchete, a seda começou a escorregar-lhe pelas ancas, mas ela segurou-a.

– Deixa cair – ordenou James em voz rouca. Vibrava de impaciência.

Ela sorriu-lhe sentindo uma centelha de poder.

– Pede por favor.

Mas ele estendeu a mão, com a velocidade de um raio e as calcinhas desceram, passando pelos caracóis cor de âmbar entre as pernas dela, e caíram-lhe junto aos tornozelos.

– Não precisas de usar essas coisas – disse ele observando-a com prazer.

– Uso-as porque as considero arrojadas. A minha mãe nunca permitiu que eu copiasse modas francesas, exceto no que diz respeito a roupa interior. Mas agora será tudo diferente, claro. Já não preciso de obedecer às suas restrições. Posso vestir o que me apetecer.

– Prefiro pensar em ti sem nada debaixo dos vestidos. Sem espartilho, sem calcinhas... apenas tu, para te poder tocar quando me apetecer. Por favor, não vistas mais essas coisas.

Theo abriu muito os olhos.

– Não te atreverias! – exclamou num grito.

– Porque não te sentas de novo no meu colo? – James fez cair o roupão dos ombros e sentou-se sem parecer tímido por estar completamente nu e por o seu órgão masculino se encontrar naquele estado.

De facto, os olhos dele fizeram Theo sentir-se amada e confiante, como se não estivesse nua sob um raio de luz do fim da tarde.

– Porque não vens buscar-me? – perguntou. – Podes fazer tudo o que tencionas se me convenceres a deixar de usar calcinhas. Coisa que não conseguirás. – Sem se preocupar a olhar para ela, saltou para o outro extremo do quarto.

James não correu: levantou-se e dirigiu-se deliberadamente para ela, ansioso como um tigre que se preza. Mas o que chamou a atenção de Theo foi o corpo dele. Tinha sombras e definições como uma estátua de mármore, as semelhanças terminavam ali; sabia que era quente e vivo. E a sua parte masculina... só de olhar para ela sentia-se estonteada e viva, fremente de calor e desejo.

Soltou um risinho nervoso ao aproximar-se.

– Isto é tão diferente de ontem à noite!

– Porquê? – perguntou James. – Agora está quieta, Daisy. Está quieta.

Theo esquivou-se para o lado no último momento e correu para o outro extremo da cama.

– Porque agora estamos a olhar um para o outro.

– Olho sempre para ti, Daisy – disse em voz baixa e rouca. – Olho para ti desde que começaste a ter esses seios. Só que nunca me permiti admitir o que sentia quando te olhava. Mas foi no ano em que fizeste dezasseis anos e começaste a usar decotes maiores.

Theo recuou na ponta dos pés.

– Deves estar a brincar!

A boca dele abriu-se num sorriso selvagem.

– Durante meses, meses, tive uma ereção por baixo do guardanapo.

– Não fazia ideia – a admiração fez com que Theo se detivesse por instantes, o tempo suficiente para ele a arrebatar para os seus braços.

Parecia que se tocavam pela primeira vez. Na noite anterior tinham consumado o casamento no escuro e quase nada haviam dito um ao outro. Theo sentira-se demasiado tímida, fascinada e assustada ao mesmo tempo e não conseguia pensar num comentário que não parecesse estúpido.

O peito dele roçou-lhe os seios e Theo sentiu um arrepio invadir-lhe o corpo. Rodeou com os braços o pescoço de James.

– É verdade que me desejavas? – perguntou Theo, maravilhada. – Ali mesmo, diante de toda a gente? De verdade?

– Como poderia não te desejar? As mãos dele acariciaram-lhe as ancas esguias e puxou-a para si. – Meu Deus, Theo, estavas sentada ali, durante todas as refeições, com os seios a espreitar do decote do vestido, implorando para serem tocados. E houve aquela vez em que entornaste um copo de água no corpo do vestido... Lembras-te?

Ela sacudiu a cabeça. Respirava com dificuldade e não conseguia pensar claramente. De cada vez que ele se aproximava e lhe tocava uma onda de prazer apropriava-se do seu corpo.

– Os teus mamilos transformaram-se em pequenas bolotas por baixo do vestido – disse ele passando a mão em volta de um dos seios e ambos olharam para baixo para a mão bronzeada que o segurava. – Só pensava que eles queriam isto.

Puxou-a para a cama. E caiu em cima dele, que rolou para o lado. Um segundo depois, a boca dele estava sobre o seio dela. Ondas de prazer subiam em espiral pelas pernas de Theo.

Lançou a cabeça para trás e arqueou-se chegada a ele, sentindo o seio como se o visse com os olhos dele, como se o provasse com a língua dele, como se o sentisse com os dedos dele. Sabia com toda a certeza que, aos olhos e nas mãos dele, o seu seio era de dimensão e forma perfeitas. Um gemido saiu dos lábios de James, que passou para o outro seio, adorando-o do mesmo modo, com uma devoção que tocava o frenesim.

– Oh! Oh, James... – Theo ouviu-se exclamar uma e outra vez.

As exclamações dela eram desarticuladas mas doces. Para James, eram como maná, como o perdão. Ela amava-o. Perdoar-lhe-ia. Encontrava o prazer. Pela primeira vez desde o noivado o coração dele estava iluminado de pura alegria.

– O que queres, Daisy? – perguntou ele. – Diz-me o que queres.

– Não sei – disse ela soluçando. – Mas, James...

– Sim? – James fez avançar as ancas para se aninhar entre as pernas dela. Com a respiração sufocada na garganta, repetiu tudo de novo, de modo lento e provocante, e os seus dedos brincaram primeiro com um seio e depois com o outro.

Theo tremia, com os olhos inteligentes vidrados de desejo, as elegantes pernas abertas. James apostava a fortuna que não tinha que todas as meninas insípidas, que ela tanto invejava, nunca seriam tão deliciosas como ela naquele momento. Impossível.

– És tão bela – elogiou ele e a verdade ecoava em cada palavra pronunciada em voz rouca. – Olha para ti, Daisy. Pele de cetim e pernas compridas e esses maravilhosos seios como as maçãs que Eva ofereceu a Adão.

Ela abriu muito os olhos.

– A Eva não ofereceu os seios ao Adão, tonto.

James levantou-se e montou-a, passando um joelho para cada lado das ancas dela.

– Talvez tenha oferecido. Talvez sejam eles as maçãs do paraíso. Seios como os teus, de tamanho perfeito, destinados a enlouquecer um homem.

Os olhos dela estavam agora iluminados de riso, alegria e desejo, tudo ao mesmo tempo.

– Gostava de te ver todas as manhãs com essa expressão – disse ele, inclinando-se para lhe beijar os lábios. – Todas as noites e todas as tardes.

– Também eu te observei estes últimos anos – revelou ela, acariciando-lhe os ombros. – Começaste a crescer e, de cada vez que voltavas a casa nas férias, estavas mais alto e sempre com fome.

Theo tinha um doce tufo de pelos. Adoraria tocar-lhes. Bella nunca permitira tal coisa. «Não quero mãos sujas perto do meu tesouro», dizia, dando-lhe uma palmada, embora o deixasse brincar com os seios sempre que queria.

Não se importara. Mas com Daisy era diferente. Queria vê-la, sentir o desejo dela, tanto como o queria sentir ele próprio.

– E agora começaste a alargar aqui – dizia ela, acariciando-lhe o peito.

James olhou para si próprio. Não tinha ilusões acerca do seu corpo.

– Tenho músculos nos braços, mas no peito ainda não, pelo menos não tenho muitos. Devias ver os homens que praticam regularmente pugilismo no Gentleman Jackson’s Saloon.

– Mas gosto de ti assim. Há homens que parecem touros. Têm o peito e as coxas tão largos que uma mulher teria medo de ser sufocada. Já os vi a trabalhar no campo. Mas tu... – passou-lhe os dedos pelos braços. – És musculoso sem ser grotesco. Belo – murmurou.

Depois chegou-se a ele o suficiente para lhe percorrer os braços com beijos. Enquanto James estava ainda ofuscado por tanta doçura, a boca dela dançava-lhe em redor de um mamilo, detinha-se e lambia.

Do peito dele soltou-se uma espécie de gemido alto e rouco e ela olhou-o com uma centelha de malícia e desejo. Ergueu-se um pouco mais e voltou a lamber-lhe o mamilo para logo a seguir lhe dar uma pequena dentada.

A luxúria invadiu as pernas de James e fê-lo cair sobre ela, com a graciosidade de uma árvore abatida. Ela soltou um gritinho mas o seu corpo era macio e oferecia-se por baixo dele.

– Estás... estás pronta, Daisy? – preguntou ele quase a gaguejar.

Ele franziu ao de leve a testa.

– Podes beijar-me outra vez?

– Meu Deus, sim! – Sentiu o pénis latejar de encontro à perna dela, mas baixou a cabeça. Os beijos de Daisy eram diferentes dos de toda a gente. Não que tivesse beijado muitas mulheres, não tinha. Quando beijava Bella, estava sempre a pensar em enterrar-se nela, em encontrar o seu calor sedoso, em mergulhar nela e afastar-se. O mais depressa e furiosamente que podia «Mais depressa!», dizia ela.

Beijar Daisy era diferente. Daisy era doce e embriagadora ao mesmo tempo. Quando a beijava, o sangue parecia escoar-se-lhe da cabeça e esquecia o que estava a fazer... onde queria chegar, não tinha pressa.

Com Daisy sentia que os minutos se transformavam em gotas de mel. Poderia passar uma hora a brincar com a língua dela, dando-lhe pequenas dentadas e lambendo, engolindo os sons guturais que ela fazia, os seus dedos entrelaçados nos dela.

Algum tempo depois, os dedos separavam-se e os dela tocavam-lhe uma sinfonia dos ombros... nas costas. Conseguiu posicionar-se de modo a ficar praticamente onde desejava estar. De cada vez que avançava ela soltava um suspiro entrecortado, sentia-se quente e macia.

– Gostava de tocar aí em baixo, Daisy – pediu-lhe por fim num murmúrio e depois esperou, sustendo a respiração para ver se ela ficava tão desagradada pela ideia como acontecera com Bella. – Tenho as mãos limpas. – Tocou-lhe ao de leva com os dedos no estômago.

– Porque não – respondeu Theo num murmúrio com os olhos iluminados de desejo. – Eu faço-o!

Um som ergueu-se como um soluço no peito dele, quando o prazer e a gratidão o inundaram ao mesmo tempo. Depois ele tocou-a e ela estava sedosa, húmida e apetitosa como ele sempre imaginara. Melhor ainda, o seu toque fez com que, num ritmo que reconheceu, ela arqueasse o corpo junto ao seu.

– Gostas disto? – perguntou-lhe com o corpo em chamas, mais concentrado do que alguma vez estivera na vida.

Ela contorceu-se de novo com um soluço na garganta, apertando-lhe os braços.

James tentou outra coisa, possivelmente o mais certo, pois de súbito sentiu-a mais húmida nos seus dedos, mais inchada e ainda mais atraente. Gostaria de a beijar ali em baixo, se ela o deixasse. Era óbvio que gostava do seu toque. Tinha os olhos fechados e suspiros embriagadores saíam-lhe dos lábios. Talvez a pudesse convencer que com a língua seria ainda a melhor.

Tocou-a com mais força e ela abriu os olhos. Agarrou-lhe a mão e empurrou-a mais para baixo.

– É de mais – disse arquejante. – Quase dói.

– Aqui – suspirou ele, deixando o seu polegar passear ao acaso. Era tão apertada que parecia impossível o seu membro ter estado dentro dela na noite anterior.

Um grito saiu-lhe da garganta. James abriu a passagem, aos poucos, até ela se arquear, juntando o corpo ao seu, violentamente, a tremer, a chorar, com as mãos apertando-lhe de tal forma os braços que ficaria com nódoas negras. Era o momento mais fascinante da sua vida: sentiu os espasmos dela em redor do polegar. Era loucamente erótico – e soube imediatamente que Bella nunca experimentara nada daquilo, pelo menos com ele.

Apercebeu-se de que, se Daisy fizesse aquilo quando estivesse dentro dela, não seria pela rapidez com que ele atingiria o orgasmo, mas pelo prazer que lhe daria. Conseguiria sentir aquela mesma ondulação.

Mas aquele era um fraco acompanhamento à estonteante ideia de que agora, agora ele...

Apoiou-se de novo para ficar sobre Theo e deslizou com alguma falta de jeito para cima e para baixo, sentindo-a escorregadia e quente. Ficou arquejante só de a sentir, mas tinha de se controlar. Queria desesperadamente sentir aquilo mesmo, mas dentro dela.

Ela abriu de novo os olhos.

– Isto é tão bom – disse ela e o eco do prazer era como uma droga na sua própria voz.

Olhou-a nos olhos ao mesmo tempo que deslizou para baixo e para dentro dela... era cinquenta vezes mais excitante do que fora na noite anterior. Nessa altura, sentira-se cheio de remorsos, com culpas que o impediam de desfrutar, que o impediam de estar ali.

Agora o seu coração batia tão alto que ele não conseguia ouvir e toda a sua existência se concentrava entre as suas pernas e na turbulenta maré de luxúria que o invadia. Daisy era apertada e incrivelmente pequena, mas ele deslizou para dentro dela como se fosse ali que sempre pertencera.

Nunca sentira nada tão bom. Não entrara completamente, ou talvez tivesse entrado. Nem sabia. Cada movimento das ancas dela era um convite.

– Creio que devo começar a mexer-me – murmurou. – Isto é, já não consigo parar.

Dos lábios dela brotou um risinho.

– Não sei, James. Temos de confiar nos teus conhecimentos superiores.

– Começo a pensar que não sou assim tão entendido – admitiu, baixando a cabeça para poder tocar com a sua boca na dela uma e outra vez.

– Bom, mas eu não sei nada – disse-lhe Daisy. – Mas há uma coisa que posso dizer...

– O quê? – murmurou.

– Quero isto – disse ela, arqueando o corpo contra o dele, de modo que James entrou os últimos centímetros naquela doçura cor de cereja.

– Mais disto, James és tão bom, enches-me e não me magoas como ontem à noite.

As palavras dela soltaram as rédeas que o tinham contido. Investiu, depois outra e outra vez, feroz, fazendo-a gritar. James não conseguia pensar, o seu espírito estava invadido pelo desejo de seguir cada vez mais depressa. Equilibrava-se com as mãos de ambos os lados da mulher, a cabeça pendendo sobre ela de modo que o seu hálito se misturava com o dele, para que ele não perdesse os gemidos soluçados.

Com Bella nunca tentara controlar-se. Investia furiosamente, pois era o que ambos desejavam. Mas com Daisy, queria senti-la quebrada, queria que ela estremecesse. Queria saber o que seria estar dentro dela nesse momento, mais do que qualquer outra coisa na sua vida.

Não aconteceu e não aconteceu... ela contorceu-se debaixo dele, soluçando num esforço para lá chegar. James sentia o corpo rígido, sabia que não poderia esperar muito mais tempo.

Apoiou-se talvez desajeitadamente no braço esquerdo e fez deslizar a mão entre o corpo de ambos, tocando-a no sítio que ela queria.

– Não – gritou ela, num tom intenso e veemente. – Isso dói! – Agarrou-lhe o braço. – Faz assim. Empurra assim, assim mesmo!

O prazer percorreu o corpo de James como uma espécie de tempestade de inverno, mais rápido do que a luxúria, mais rápido do que o desejo. Devolveu-lhe a capacidade de se controlar e investiu lentamente, observando o rosto dela, os olhos que ela fechara, passando o seu polegar, um pouco mais. Theo estremeceu e soltou um gemido. Depois todo o seu corpo tremeu; certamente estaria próximo.

– Vou beijar-te aí em baixo – disse ele e as palavras saíram-lhe entrecortadas – e ao mesmo tempo lamber todo esse sumo de pêssego. É o que quero, Daisy. E vou...

Mas, nesse momento, ela apertou-lhe ainda mais os braços e as suas faces tomaram um maravilhoso tom rosado. Theo lançou a cabeça para trás e gritou.

Era tão surpreendente como ele imaginara. Sentiu-a latejar em seu redor e deteve-se espantado com o modo como o prazer dela se espalhava pelo corpo dele e lhe invadia o corpo em ondas de fogo, até o seu cérebro se fechar completamente e ser comandado pelo seu corpo ansioso.

A respiração de Theo era de novo ofegante. James sentia-a junto ao seu pescoço, mas nem conseguiu tomar atenção, pois, de repente, sentiu-a mais apertada e latejante e deixou-se ir numa fogueira incandescente.

Já não era James, já não era conde ou futuro duque. E ela não era Daisy nem Theo, nem uma futura duquesa.

Eram dois corpos juntos, chegados como peças de um puzzle.

Até que a morte nos separe, pensou James, grato. Até que a morte nos separe.

1 Little Dick. A palavra Dick, ao mesmo tempo que serve de diminutivo ao nome Richard, designa o órgão sexual masculino. (N. da T.)

2 Periwinkle. (N. da T.)


Onze

Chegou a madrugada e com ela uma convicção da parte de Theo. Nunca mais conseguiria andar. De facto, uma breve experiência convencera-a de que o melhor seria não mexer as pernas.

Depois da segunda vez que tinham feito amor, ficara tão dorida e inchada que James despejou água fria na bacia do toucador da mulher e lavou-a suavemente. A sensação foi tão agradável que ela começou a rir.

Jantaram por fim, mas depois James cumpriu a promessa de a beijar em determinado sítio e imediatamente ela começou a implorar, puxando por ele com todas as suas forças.

Quando ele cedeu, o corpo dela cantou.

Já o Sol ia alto e ainda estavam deitados, incapazes de ultrapassar a estranha sensação de terem outro corpo na cama. Uma brincadeira. Uma companhia para as brincadeiras.

– Adoro os teus joelhos – disse James beijando-lhe as rótulas arredondadas. – São tão pequenos e elegantes.

– Não te atrevas a tocar-me acima dos joelhos – proibiu-o Theo. – Estou incapacitada.

– Claro que não.

– Claro que sim. Estás em dívida comigo.

– Pago o que quiseres. – Deitou-se de bruços e passou-lhe os dedos pelos tornozelos delicados. – São os tornozelos mais delicados que já vi. Como aqueles cavalos de corrida que parecem demasiado delicados para saltar um degrau quanto mais para galopar.

– Gostava que cantasses para mim – pediu Theo, vendo a luz rosada entrar pela janela e brincar sobre a pele dele. Era da cor do uísque até à cintura e depois branca na curva das nádegas musculosas.

James gemeu e deixou cair a cabeça nas cobertas.

– Sabes, odeio cantar.

Theo ouviu as palavras apesar de abafadas. A mãe de James adorava ouvi-lo cantar, mas, depois da morte dela, ele deixara completamente de o fazer exceto na igreja.

Theo teve vontade de experimentar o seu poder, de abrir as suas asas.

– Fazes isso por mim?

Ele voltou-se de lado.

– Não gostarias de outra coisa, de uma coisa que só eu te pudesse dar? Qualquer pessoa pode cantar. – James tinha um brilho sensual nos olhos azuis, uma luz que ela começava a reconhecer.

– De modo algum.

– Pouco mais sei do que hinos.

Ela puxou por ele.

– Vem sentar-te comigo. – Estava encostada à cabeceira da cama. – Canta-me aquela canção de que a tua mãe tanto gostava, a antiga do tempo da rainha Isabel – susteve a respiração. Concordaria? Era uma ousadia pedir-lho quando tinham apenas um dia de casados.

– Canção para Celia – disse James, com o rosto inexpressivo.

Mas depois olhou para ela e sorriu, chegou-se à cabeceira da cama e envolveu-a de tal maneira que ela deu por si encostada a ele.

Apertou-a nos braços, respirou fundo e cantou.

– «Bebe à minha saúde apenas com os teus olhos e eu brindarei com os meus.»

O coração de Theo quase parou com a beleza líquida que encheu o quarto. A voz parecia ser uma extensão dele, uma voz perfeita emanando de um corpo perfeito.

James fez uma pausa.

– Canta comigo.

Theo não tinha grande habilidade para a música, mas, como qualquer menina prendada, havia aprendido a cantar. As vozes de ambos entrelaçaram-se e a de James fez sobressair a dela.

– «Ou deixa um beijo na taça e não pedirei vinho.»

Enquanto cantavam, a luz tornou-se mais forte e os raios de sol tomavam arestas ambarinas, avançando pelo edredão.

Quando a canção terminou, Theo sentia-se tão feliz que não conseguia pronunciar palavra. James beijou-lhe a orelha.

– Se alguma vez disseres a alguém que cantei para ti, digo à tua mãe que foste ao baile da Devonshire sem camisa.

Não foi a primeira vez que Theo pensou que a mãe dele transformara num hábito chamá-lo à sala todas as noites para que ele cantasse. Depois de todos esses desempenhos, deixou de desfrutar desse seu dom.

– Juro – disse ela, inclinando a cabeça para trás para poder corresponder ao beijo dele. – Cantas para mim todas as manhãs?

James tinha o sorriso nos olhos, mas não na boca.

– Só depois de noites como esta – murmurou.

Regressou então ao quarto deixando um vazio na cama. «Talvez», pensou ela indistintamente, «consiga convencê-lo a dormir comigo uma noite.» O que quer que tivessem feito – e ela corou ao recordar algumas coisas –, não tinham dormido. Pelo menos até agora que ele fora para a sua própria cama; apesar da euforia, Theo nada mais queria do que dormir durante horas.

Em determinado momento, Amélie espreitou à porta.

– Deseja água quente, minha senhora? – murmurou.

– Que horas são? – perguntou ela, erguendo-se apoiada ao cotovelo. Até isso a fez estremecer.

– Onze horas da manhã – respondeu a criada. – Sua Senhoria disse para não acordar a senhora para o pequeno-almoço.

– Obrigada – agradeceu Theo distraída, olhando o sol sobre o tapete claro. Aquela peça de pano tecida na Índia era muito bonita. Talvez a Tecelagem Ryburn pudesse fazer uma seda numa gradação de cores do amarelo ao creme. Embora pensasse vagamente que a seda provinha de lagartas que viviam em vagens, ou coisa parecida. E nunca ouvira falar de uma árvore com vagens de seda em Inglaterra.

Algum tempo depois, Amélie avisou-a de que o banho estava pronto. Se ninguém estivesse a olhar, Theo teria cambaleado em direção à banheira, mas não queria que Amélie adivinhasse como se sentia, por isso endireitou as costas e fingiu que tudo estava normal.

Mas, depois de ter estado meia hora de molho em água quente, sentiu-se consideravelmente melhor e sentou-se à janela para secar o cabelo, ignorando os protestos alarmados de Amélie em relação aos resfriados. Sempre adorara os jardins nas traseiras da casa, mas a emoção era mais profunda por saber que pertenciam a James e não ao duque.

Aos dois, repetira James várias vezes. Os jardins eram dele e também dela.

Enquanto penteava o cabelo molhado, decidiu que mudaria o jardim formal. Tinha as dimensões suficientes para criar talvez um pequeno labirinto com um pequeno pavilhão arejado no centro.

Com uma espécie de cama ou sofá, pensou com as faces coradas. Numa noite quente de verão, ela e James poderiam percorrer o labirinto. O pensamento levou-a diretamente à ideia escandalosa de que um dia gostaria de o beijar ali, tal como ele fizera com ela.

– O senhor duque mandou recado a dizer que vai regressar mais cedo do que pensava – informou Amélie preparando o vestido.

– Suponho que terei de o ver ao almoço – disse Theo pouco entusiasmada. – Esse não – acrescentou, ao ver o que Amélie escolhera. – Quem me dera que os vestidos que mandei fazer ontem já estivessem prontos.

– São pelo menos três semanas, segundo disse a modista – recordou-lhe Amélie.

Theo suspirou.

– Creio que terei de me contentar com o amarelo, embora não goste do contraste que faz com o meu cabelo.

Amélie assentiu.

– Um tom mais escuro seria melhor.

Aquela era uma das muitas coisas que Theo apreciava na sua criada: tal como ela, Amélie apreciava os tecidos e as cores.

Voltou a pensar em James. Nunca pensara sentir-se tão viva. Isto é, claro que sabia que estava viva, mas, na noite anterior, quando os olhos de ambos se tinham encontrado, estivera mais viva do que nunca.

Que lhe importava ser a «duquesa feia» se James a olhava como se ela fosse incrivelmente bela?

Deu por si a cantarolar a antiga canção enquanto Amélie lhe abotoava o vestido. E não conseguia deixar de sorrir para o espelho enquanto a criada lhe fazia um complicado arranjo no seu cabelo pesado. Antes do noivado, pensara em fazer um dos novos cortes arrojados, mas não agora que sabia que James gostava dele assim. No meio da noite, acendera as velas em redor da cama e brincara com o cabelo dela. Nunca o cortaria.

Ergueu os olhos e encontrou os da criada no espelho.

– Estou tão contente por vê-la feliz, minha senhora – disse Amélie como sotaque francês a acrescentar um toque de encanto à sua sinceridade. – Todos estamos. Aqueles bâtards que lhe chamaram aquilo... deveriam ser castigados. Mas o senhor conde melhorou tudo. Como é dever de um marido.

O sorriso de Amélie era de uma conivência puramente maliciosa.

– Assim foi – concordou Theo retribuindo-lhe o sorriso. – Assim foi. Ainda me custa a alcunha, tenho de admitir. Mas estar casada significa que apenas importa a opinião de uma pessoa, não é verdade?

– Nunca fui casada – disse Amélie. – Mas penso o mesmo. Os homens são quase todos imbéciles, mas o senhor conde sempre considerou a senhora muito bonita. Olhava-a durante as refeições, é o que diz Mister Cramble. E não conseguia afastar os olhos do seu decote.

– Foi isso que ele me disse! Nem quero acreditar que o Cramble reparou e eu não.

– A senhora é ainda inexperiente nessas coisas de homens e mulheres – disse a criada em tom sábio.

Theo lançou-lhe um olhar trocista.

– E estás a querer dizer-me que és velha, Amélie? Porque ambas sabemos que fizeste dezoito anos uma semana depois de eu ter feito dezassete.

– Je suis française – afirmou Amélie com ar enfatuado. – Aqui está o lenço que a senhora desejava.

– Olha para isto! – Theo pegou na pequena tesoura que Amélie usava para lhe cortar as unhas e cortou bruscamente o lenço em dois.

Amélie soltou um grito.

– Seda indiana!

Theo sacudiu metade do quadrado da seda pesada.

– Vai fazer toda a diferença neste vestido insípido. – Com um puxão rápido, retirou a gola de renda presa ao decote do vestido e substituiu-a pelo lenço, que imediatamente lançou uma centelha vermelho-escura pela musselina cor de amêndoa.

Voltou-se de novo para o espelho.

– Gosto – disse Amélie. Estendeu a mão e arranjou habilmente o lenço. – Vou prendê-lo aqui e aqui, minha senhora.

– Chama a atenção para o meu colo – disse Theo, perguntando-se se James repararia.

– Deve manter-se seguro – declarou Amélie, recuando logo a seguir. – Mais tarde posso cosê-lo.

– Não creio que hoje saia de casa – retorquiu Theo. Uma coisa era dizer a si própria que só a opinião de James importava. Outra era passear pela Bond Street, com todas aquelas gravuras a olharem para ela.

– Deixe que o entusiasmo desapareça – aconselhou Amélie. – Na próxima semana já haverá outra pobre alma a quem atacar.

– Talvez pergunte ao meu marido se quer ir até ao Staffordshire, a Ryburn House. – De repente, sentiu a certeza de que James iria onde quer que ela quisesse ir. Sentiu um rubor chegar-lhe às faces, mas manteve a voz firme. – Realmente, se pudesses tratar de meter a minha roupa na mala, Amélie, creio que poderíamos ir até ao campo. Talvez ficar lá um mês.

– A senhora vai sair de Londres durante o resto da temporada?

– Achas que estou a ser cobarde?

– Nunca! – exclamou Amélie. – Mas pode haver mais falatório se a senhora se retirar para o campo. Porque vão pensar que está com medo, entende?

– Poderíamos regressar para o baile dos Elston – decidiu Theo, pensando em voz alta. – Nessa altura, o meu guarda-roupa já terá sido entregue; Cramble poderá enviá-lo para o campo e faremos lá as últimas provas.

Levantou-se e lançou um último olhar ao espelho. O vestido continuava a ser demasiado virginal, mas o efeito contrastante do vermelho-escuro ajudava a dar-lhe um toque de estilo.

Sentiu o coração bater mais apressado com a ideia de voltar a ver James. Embora naquele momento ele estivesse provavelmente fora de casa, a cavalo, ou a praticar pugilismo no Gentleman Jackson. Tinha uma feroz carga de energia que não conseguia manter dentro de casa ou começaria a parecer atormentado como um tigre enjaulado.

Theo teria de o ter em conta, pensou distraída, os dedos a tocar ao de leve no corrimão envernizado enquanto descia as escadas. O marido precisava de exercício regular. Como se tivesse um cão.

James estava longe de ser um animal de estimação. Havia nele algo de selvagem e impossível de domesticar, algo diferente de qualquer outro aristocrata que Theo tivesse conhecido. O mais que poderia esperar seria atraí-lo para si.

Ainda não eram horas do almoço. Se James estivesse em casa, estaria provavelmente no seu escritório. Talvez tivesse decidido ficar em casa, pelo menos até que a visse. Talvez pudessem ir andar a cavalo no Hyde Park. Agora que estavam casados, ela deveria tornar-se uma amazona melhor.

Mas não antes de poder vestir o encantador fato de montar que ela própria desenhara, enfeitado com um cordão, dragonas e de estilo militar.


Doze

O marido entrou na biblioteca a passos largos no momento em que Theo chegou ao fundo das escadas. O rosto dele estava escuro de raiva – mas, quando a viu, iluminou-se, embora o olhar dele parecesse perturbado.

– Olá – disse ela sentindo-se muito envergonhada.

Ele nada disse. Limitou-se a agarrar-lhe as mãos e a entrar de novo na biblioteca. Cheirava levemente a espuma e a vento.

– Foste andar a cavalo – comentou ela algum tempo depois, quando, por momentos, deixaram de se beijar.

– Meu Deus, estou louco por ti – murmurou-lhe ele ao ouvido, ignorando-lhe o comentário. – Mas surpreende-me que sejas capaz de andar. Não o deveríamos ter feito da última vez.

– Eu desejava-te – admitiu ela de encontro aos lábios dele.

– Tens um cheiro tão doce. Cheiras a flores, Daisy.

– Tens mesmo de deixar de me tratar assim. Insisto que me chames Theo.

Ele encostou-a à parede e tinha agora a mão colada ao seio dela.

– Não posso – afirmou rapidamente.

– Porque não?

– Porque podes ser a Theo quando tomamos o pequeno-almoço, ou vamos ao teatro, ou qualquer outra coisa, mas quando te abraço assim é a minha Daisy. – Apoderou-se mais uma vez da boca dela e Theo encostou-se a ele e os seus pensamentos desapareceram perante o ataque daquela boca e daquelas mãos e da força arrogante do corpo dele unido ao seu.

– Não posso fazer isto – afirmou em voz rouca. – Estás muito magoada. Vamos beijar-nos apenas. – Conduziu-a ao sofá no outro extremo do aposento e começou a tirar-lhe os ganchos, destruindo em segundos todo o trabalho de Amélie. Desfazia uma trança que Amélie demorara uns bons dez minutos a preparar. – Não podes deixar o cabelo caído quando estás em casa?

Theo soltou uma gargalhada.

– Consegues imaginar a cara de Cramble se eu começar a andar pela casa com o cabelo caído pelos ombros?

James tinha o rosto sobre o dela e beijou-a mais uma vez, com força e dominador.

– E se, como teu marido, te ordenasse que o fizesses? – vociferou.

Theo sentiu-se arrepiada até aos dedos dos pés. Quando James tinha aquela expressão de tigre possessivo, ela sentia um desejo embaraçoso de se derreter junto dele e fazer o que mandasse.

– Desculpa – pediu, seguindo-lhe com o dedo a linha do lábio inferior. – Mas ninguém vai ditar nunca mais como me hei de vestir ou arranjar. Há cinco anos, fiz essa promessa a mim própria, quando a minha mãe começou a querer compensar a minha cara, embelezando-me os vestidos com folhos e guarnições.

James franziu a testa.

– Ela não o consegue admitir, mas queria assegurar-se de que todos percebiam que eu era uma menina – explicou Theo.

Ele descobrira a tira de seda cor de amora precariamente presa ao decote do vestido e puxou-a. Sem uma gola, o corpo do vestido revelava-lhe grande parte do colo.

– Ela pensava que não se notava que eras uma mulher? – perguntou ele admirado. Inclinou a cabeça e criou com a língua um caminho quente e molhado sobre a curva do seio dela.

Depois ergueu-se de novo.

– E se, como teu marido, te ordenasse que não vestisses as calcinhas?

Ela riu-se, apreciando o modo como ele testava os limites do seu poder.

– Dependeria de como me sentisse nesse momento.

– E como te sentes neste momento? – perguntou ele.

Ela ergueu-se o suficiente para lhe poder passar a língua pelo lábio inferior.

– Que farias se eu te ordenasse que fizesses alguma coisa?

Ele abriu os lábios e suspirou.

– O que quiseres – disse num tom fervoroso. – Faço o que quiseres.

– Então, gostaria que te sentasses sossegado – disse ela, dando uma volta e caindo do sofá.

Obediente, James sentou-se. Tinha os olhos sombrios de excitação.

– Estou às suas ordens, minha senhora.

– Desce as calças – ordenou ela, sentindo o sangue latejar-lhe nas veias.

Sem pestanejar, James levantou-se e fez exatamente o que ela lhe exigira.

Theo ficou de joelhos e apontou para o sofá. Ele sentou-se. Se possível, o seu órgão parecia ainda maior do que na noite anterior. Só de o ver, Theo sentiu uma pequena pontada de aviso nas suas partes íntimas.

– Ontem à noite, enquanto me beijavas – disse ela, estendendo a mão para o acariciar –, não deixava de pensar como seria ser eu a beijar-te.

– Valha-me Deus! – murmurou James. – Não vou sobreviver a isto. Não vou.

– Eu sobrevivi – respondeu Theo, lançando-lhe um sorriso malicioso. Inclinou-se e provou-o.

James soltou um som rouco e Theo baixou um pouco mais a cabeça, explorando o gosto aveludado do marido.

Devia ter sido o gemido que ele soltara que a impedira de ouvir o som da voz a abrir-se. Ou talvez fosse a estonteante sensação de poder que a invadia.

Mas, um segundo depois, um som filtrou-se dentro da sua cabeça. Pôs-se de pé num salto e encontrou os olhos do sogro, o que a obrigou a fugir pela porta mais próxima que dava para a sala. Bateu com a porta e encostou-se a ela, com o coração a bater como se tivesse fugido de um assaltante.

Sentiu-se mal. O duque vira...

Vira tudo. Vira-a ali, inclinada sobre o colo de James.

– Oh, meu Deus. – Sentia os joelhos sem força para lhe sustentarem o peso do corpo; deixou-se deslizar até ficar sentada no chão. Através da porta ouviu a voz de James, mas as palavras que pronunciava eram indecifráveis. O som fazia-a recordar com veracidade doentia que ele estivera sentado diante dela, com as calças em redor dos tornozelos. Cobriu o rosto com as mãos.

Tinha de ser o duque? Não teria sofrido já humilhações suficientes nos últimos dias? Seria pior se um criado os tivesse interrompido? Poderia ter mandado embora um criado. Não, nunca despediria uma pessoa por ter tido a pouca sorte de a ver comportar-se como uma concubina.

Teriam de se retirar para o campo durante um mês. Ou um ano.

O som abafado mudou de tom; era o sogro que falava.

Voltando-se para o lado, ergueu-se e abriu levemente a porta. Se ele lhe estava a chamar rameira descarada, seria melhor que o soubesse.

Mas ele ria.

Ria!

Em pânico, Theo sentia o coração bater-lhe na garganta num ritmo acelerado. O riso seria melhor que o desprezo? Ou pior? Parecia-lhe melhor. Talvez aquele tipo de coisas acontecesse com frequência entre recém-casados. Afinal, ela e James poderiam ter sido apanhados a fazer amor. E se ela não estivesse tão dorida seria o que provavelmente teria acontecido. Theo apurou o ouvido na direção da greta da porta.

– Regressei a Londres porque ouvia a história da duquesa feia – dizia o duque. – Pensei que quisesses que eu ameaçasse alguns repórteres, talvez que mandasse fechar um desses jornalecos de escândalos. Mas parece que tens estado demasiado ocupado para te preocupares. Nem queres saber que ela seja feia. Claro que assim é-te mais agradecida, não é verdade? Nem queria acreditar quando a vi servir-te com tanto entusiasmo como qualquer rameira de taberna o faria por duas moedas.

Theo baixou a cabeça. O que esperaria ela do duque? A mãe declarara que ele não passava de um idiota ordinário e provavelmente tinha razão.

– De facto, é por ela ser feia – continuava o duque. – Nunca conseguirias pôr de joelhos uma senhora como deve ser...

– Silêncio! – gritou James, irritado.

Felizmente que ele dizia alguma coisa, pensou Theo, quase insensível.

– Não gosto que me fales nesse tom – respondeu o pai, voltando instantaneamente às suas caraterísticas fúrias.

– O senhor não tem autorização de dizer o que quer que seja acerca da minha mulher – replicou James. O seu tom de voz, em contraste com o do pai, era gelado, controlado, contudo profundamente perigoso.

Theo soltou um trémulo suspiro. Pelo menos, James defendia-a.

O duque parecia não notar o tom de ameaça da voz do filho.

– Digo aquilo que me apetecer! – berrou. – Fui eu que escolhi a mulher para ti, ou não?

– Não senhor!

– Fui eu! E não querias casar-te com ela, mas suponho que agora estejas satisfeito. Eu disse-te, não te disse? Disse-te que no escuro eram todas iguais.

– Vou matá-lo – declarou James.

Pelos anos de experiência com o mau génio de James, Theo apercebeu-se de que ele estava a atingir o limite. Sabia que ele detestava que tal acontecesse porque os seus gritos se assemelhavam aos do pai.

Mas quando ouviu as palavras do duque – Fui eu que escolhi a mulher para ti, ou não? – e teve consciência delas, deteve-se a pensar no que James teria feito. O quê?

– Posso não ter pensado no teu casamento nessa ocasião – dizia o duque. – Posso não ter pensado nele exatamente nesse modo...

– Enquanto lhe desfalcava a herança! – vociferou James. E assim Theo apercebeu-se de duas coisas simultaneamente: a primeira que James perdera por fim o domínio do seu génio... e a segunda o significado do que acabara de dizer. Um desfalque. Podia ser verdade. Podia ser verdade?

– Limitei-me a pedir um empréstimo – disse o duque parecendo ofendido. – Não precisas de ver as coisas sob um prisma tão desfavorável. Afinal, olha o que fiz por ti. Arranjei-te uma mulher tão agradecida que se prestou a fazer uma coisa daquelas em plena luz do dia, quando o Cramble poderia ter entrado aqui a qualquer momento. Pedi-te desculpa por ela ser feia quando te obriguei a pedi-la em casamento, mas agora retiro tudo. Nunca ouvi dizer que uma dama fizesse tal coisa. Nunca. Poupas uma fortuna em amantes. Mas apaga primeiro as velas.

Theo soluçava baixinho. Todo o seu mundo vinha abaixo com o que ouvia naquele momento. O duque obrigara James a casar com ela. Pedira-lhe desculpa por ela ser tão feia. Fizera uma coisa que nenhuma dama faria, embora ela não o soubesse. Mesmo assim, sabia que as intimidades deveriam estar confinadas ao quarto. Até os criados o sabiam.

– Não diga nem mais uma palavra acerca da minha mulher – gritou James. – Maldito. – A raiva fervia nas palavras dele, mas Theo não se importava. Ele não o negava.

Não negava nada daquilo.

– O duque – o melhor amigo do seu falecido pai – desfalcara o seu dote. Mr. Reede, administrador dos domínios, deveria saber do assunto quando tinham falado no dia anterior. James sabia. James sempre o soubera. Estivera ali sentado a falar acerca do modo como poderiam pagar as dívidas do duque da sua herança, sabendo que o pai já lhe roubara todo o dinheiro que desejara.

O seu espírito girava, tentando pôr tudo no lugar. Nunca vira James embriagado. Mas, quando fora ao concerto do príncipe de Gales... devia ter bebido muito para ter coragem para se declarar a uma pessoa como ela.

Nas semanas e nos anos seguintes, quando olhasse para trás, consideraria sempre esse como o preciso momento em que o seu coração se partira em dois. O momento que separara Daisy de Theo, o tempo Antes do tempo Depois.

No tempo Antes, tinha esperança. Tinha amor.

No tempo Depois... tinha a verdade.


Treze

Na biblioteca, James ergueu os olhos e reparou que a porta da sala estava entreaberta. Estremeceu. Olhou mais de perto e viu uma centelha amarela junto ao chão. Daisy ouvira. Ouvira tudo.

James afastou os olhos da porta e voltou-se para o pai.

Para o seu estúpido e desprezível pai.

– Não quero vê-lo nunca mais. – Sentiu um aperto na garganta. – Ela ouviu-o. Ela ouviu-o. Seu idiota.

– E então? Não disse nada que não fosse verdade – respondeu o duque, imediatamente na defensiva, voltando-se para olhar para a porta.

– Ela nunca mais me perdoará – disse James, com uma certeza que lhe vinha das entranhas.

– Dado aquilo que eu vi...

James fez um esgar de fúria e o pai calou-se.

– Estávamos bem, sabe. Mesmo tendo acontecido da maneira como aconteceu.

– Não tenho dúvidas de que ela se mostrará irritada – retorquiu Ashbrook. – Diamantes – referiu em tom conspiratório, baixando a voz. – Com a tua mãe deu sempre resultado. Fez com que nos déssemos bem durante anos.

James deixara de o ouvir.

– Vou passar a minha a vida a tentar compensá-la.

Pela primeira vez em muitos anos queria a mãe. Desde a morte dela que não sentia uma tal onda de medo.

– Será melhor que se vá embora – exigiu. – Arranje um sítio para morar. Creio que acabou o fingimento de que sentimos alguma coisa um pelo outro.

– És o meu único filho – lembrou o duque. – O meu filho. Claro que sentimos alguma coisa um pelo outro.

– O parentesco nada significa – afirmou James com uma terrível sensação de fúria e tristeza a invadirem-lhe o coração. – Não represento nada para si e a Daisy também não. Somos apenas pessoas por quem passa no corredor, pessoas que usa quando precisa e depois deita fora.

O pai semicerrou os olhos.

– Não és uma vítima aqui! – exclamou erguendo a voz. – Foste tu quem se atirou à menina. Não tens razão para te queixares.

– Traí-a, a ela, à minha mulher, para o salvar a si.

– Não foi por isso que o fizeste – disse o duque. – Fizeste-o para salvar os teus domínios e consolidares o teu título. Podias dizer-me que me arranjasse sem ti, mas não o fizeste. Pensei que serias moralista e que me mandasses para o inferno. Mas afinal acabaste por não ser tão reto como fingias ser. Não somos assim tão diferentes.

James fechara os punhos. Não podia atacar o pai.

– De facto, quem sai aos seus... – continuou Ashbrook. – A tua mãe nunca se enganou a pensar que eu era um homem perfeito, mas estávamos casados e pronto. – Contorceu os lábios. – Porém somos diferentes numa coisa. Nunca me queixei. Posso ter ficado surpreendido por teres feito o que fizeste, mas não me surpreende que te ponhas a choramingar por causa do resultado. Sê homem, por amor de Deus. És uma vergonha. Sempre foste uma vergonha com as tuas cantorias. A culpa foi da tua mãe.

– O senhor não gostou de mim, pois não? – perguntou James quebrando a regra tácita de que um cavalheiro inglês nunca fala nesses assuntos.

– De todas as questões asininas, essa é a pior – disse o duque e a cor explodiu-lhe nas faces. – És o meu herdeiro e ponto final.

– As pessoas que se estimam não fazem este tipo de coisas – replicou James tristemente. Dirigiu-se à porta da biblioteca, abriu-a e deixou-se ficar ali. – Saia.

– Terás de falar com ela – disse o duque sem se mover. – Encarrega-te da situação. És o homem. Afirma-te. Não deixes que ela fique histérica; pode habituar-se.

– Saia – repetiu James, sem querer dizer mais nada.

O duque resmungou, mas dirigiu-se à porta. Deteve-se com a mão no puxador, mas não se voltou.

– Gosto muito de ti – disse em voz baixa. – Gosto... gosto muito de ti. – E foi-se embora.

Olhando para a porta fechada, James sentiu-se invadido por uma onda de saudades da mãe – dos dias em que ela, ou pelo menos a ama, tornavam tudo melhor. Tinha de ir à sala. Tinha de falar com Daisy, tinha de lhe dizer o muito que... que o quê? Daisy nunca acreditaria que ele a amava.

Acabara de o afirmar ao pai. As pessoas que se estimavam não eram cruéis umas para as outras. A sensação de peso no seu corpo espalhou-se por todo o corpo. Era como o pai. Devia partir também. Daisy ficaria melhor sem ele.

Dirigiu-se à porta da sala.

Durante muito tempo, Theo não se moveu, tinha os músculos rígidos, os olhos fechados. A amargura que sentia no estômago ameaçava subir-lhe à garganta.

Esforçando-se por se controlar, a princípio nem reparou quando um par de botas entrou na sua linha de visão.

Theodora Ryburn precisou de toda a sua coragem para se levantar e olhar o marido nos olhos. Mas levantou-se e olhou-o nos olhos. E viu exatamente o que esperava. Vergonha. E foi o que respondeu à última questão que se lhe colocara. Ele nunca quisera casar com ela.

Por isso tomou fôlego para por fim lhe dizer:

– Espero que tenhas gostado. Como calculo que tenhas adivinhado, foi a última vez que a tua mulher te prestou tal serviço.

– Daisy.

– Preciso repetir?

– Não me deixes – pediu ele, sufocando as palavras.

Theo retirara-se para trás de uma grossa parede de gelo, onde se sentia completamente calma. E o seu cérebro funcionava com notável habilidade.

– Não sejas tolo – respondeu. – Não vou deixar-te; vou pôr-te na rua. Vou tratar dos domínios com o que resta do meu desfalcado dote. Creio que ambos concordamos que, depois do teu comportamento na reunião de ontem, serias perfeitamente inútil e que não farás a mínima falta.

James engoliu em seco, um leve sinal de mortificação que Theo apreciou.

– Sendo esse o caso, nada te prende aqui – observou. – É óbvio que tu e o teu pai não estão de boas relações. Ele é um criminoso vulgar e desprezível e tu és tolo e fraco e arruinaste deliberadamente a minha vida para esconderes os crimes do teu pai.

Os olhos de James ardiam, mas mantinha-se em silêncio.

– Vais sair desta casa e depois de Inglaterra. Podes ficar com o barco que visitaste ontem... leva-o a um lado qualquer. Nunca mais quero ver a tua cara.

James equilibrava-se ora num pé ora noutro como uma criança culpada.

– A parte pior é que o casamento foi consumado – disse ela. – Não há escapa possível.

– Não quero escapar-me – as palavras de James saíram-lhe como um gemido estrangulado.

– Suponho que não. Afinal, ali estava eu, ajoelhada aos teus pés, implorando favores que me pudesses dispensar. Como o teu pai tão simpaticamente comentou, qualquer homem estaria no sétimo céu; creio que essa avidez geralmente paga-se. Suponho que reiteravas o tipo de exigências que se fazem às rameiras quando me ordenavas que não usasse calcinhas? E que deixasse o cabelo caído?

– Não!

– Não grites – respondeu Theo. – Não sou uma ajudante de cozinha assustada por ter de enfrentar o teu pai. Se me atirares uma pastora de porcelana, pego na maldita mesa de jantar e atiro-ta à cabeça.

– Nunca atirei nada – declarou James.

– Estás a transformar-te naquilo que serás. Tenho a certeza de que, quando chegares à idade do teu pai, terás os mesmos direitos de ser um canalha. Espera... acho que já os conseguiste.

– Lamento – disse com a voz entrecortada. – Lamento muito tudo isto, Daisy.

Tinha o rosto contorcido, como se tentasse não chorar, mas ela não sentia a mínima pena. Em segurança por detrás da sua parede de gelo, nada sentia.

– És muito belo e eu não. Mas sabes uma coisa, James? Prefiro cem vezes ser eu. Porque, quando me apaixonei por ti, fi-lo sinceramente. Fui uma tonta, apercebo-me agora. Mas amei-te ontem à noite. Espero que tenhas gostado, porque julgo que serei a última pessoa suficientemente estúpida e enganada pelo teu belo rosto, para pensar que haja dentro de ti alguma coisa que valha a pena.

James apertou o maxilar, mas ficou em silêncio.

Mas ela ainda tinha algo mais para dizer.

– Quando alguém se apaixonar por mim... e isso há de acontecer porque a vida é longa e este casamento acabou... serei amada por aquilo que sou e não pela minha cara. Ele será capaz de me ver por dentro e amar-me-á por algo mais que não só o meu dote, ou pelo facto de poder dar-me ordens e transformar-me numa prostituta sem sequer entender a minha humilhação.

– Não fiz nada disso!

Ela conseguiu manter a voz firme.

– És repugnante. Completamente repugnante. Mas a parte mais triste é que fiz tudo aquilo porque pensei que estava apaixonada por ti e que tu também me amavas. Não o fiz por dinheiro, que foi por isso que o fizeste. Por isso, creio que o teu pai se enganou: parece-me que fui eu que passei duas noites muito dispendiosas com um chichisbéu.

– Não faças isso – pediu ele, a sua voz um murmúrio rouco. – Por favor, Daisy, não. Não faças isso.

– Não faço o quê? Não te digo a verdade?

– Não nos separes.

Ela esperou mas ele não encontrou mais palavras.

– Já não somos «nós» – declarou ela, sentindo-se de súbito destroçada. – Espero que saias desta casa, ainda hoje. – Para seu horror, percebia que, só de o ver, ainda sentia afeto numa parte errante do seu coração e foi isso que a incentivou. – Nunca te teria feito isto, James – afirmou com a voz quase entrecortada. – Amei-te, James, amei-te mesmo muito. O estranho é que só me apercebi depois de termos casado. Mas, mesmo que não te tivesse amado desse modo, nunca te teria traído, porque eras o meu melhor amigo. O meu irmão. Podias ter-me pedido, sabes?

– Pedido o quê?

– Pedido o meu dinheiro – disse ela, com a cabeça erguida e os olhos secos. – As pessoas que amam... partilham. Oferecem. Ter-te-ia oferecido o meu dinheiro. Não precisavas de passar por cima de mim para o obter.

Voltou-se e saiu, fechando a porta atrás de si.

Subiu ao primeiro andar sentindo-se como se tivesse feito cem anos, vazia e seca como uma velha megera. Enquanto seguia pelo corredor, o duque saiu dos seus aposentos.

Ela olhou-o nos olhos sem qualquer sinal de pudor. Não era ela que devia sentir-se envergonhada.

O duque baixou os olhos.

– Esta casa é minha – disse, muito direita. – Quero-o daqui para fora. Conforme ontem vim a saber, parece que lhe prometi uma generosa pensão. Com ela pode alugar uma casa para morar.

– Não podes fazer isso! – berrou erguendo a cabeça.

– Se amanhã não estiver fora desta casa, entrego Reede, que é um administrador mentiroso, mais os seus livros de registos aos meus advogados, já para não falar a Bow Street. Diga o que lhe apetecer. Diga aos seus amigos que não suporta ver a minha cara tão feia todas as manhãs. Mas saia daqui.

– Diz-lhe que ela não o pode fazer! – gritou o sogro.

Theo olhou para baixo e viu James ao fundo das escadas, agarrando o corrimão.

– Ele também se vai embora – disse ao duque. – Vou fechar esta casa para poupar as despesas. Por enquanto, viverei no Staffordshire, mas se algum de vós desejar comunicar comigo poderá fazê-lo através do meu advogado.

– Não vou comunicar com a minha mulher através de um advogado – afirmou James lá de baixo.

– Concordo. Preferiria que não comunicasses de maneira nenhuma.

– És uma megera – vociferou o duque com a voz trémula de raiva.

– Neste corredor não há nada que possa atirar – disse ela olhando-o com aversão.

– Não podes obrigar-me a sair da minha casa, da casa que o meu avô construiu.

– Não. Não posso. Mas posso denunciar o desfalque que fez ao meu dote, que foi deixado ao seu cuidado pelo seu melhor amigo. É interessante – disse, olhando para James. – Nesta casa, os melhores amigos parecem ser pasto para a traição.

O duque pareceu por fim perceber o desprezo daquelas palavras. Deu meia volta e entrou nos seus aposentos sem dizer mais nada.

Theo não olhou para baixo para ver se James ainda lá estava. Sabia que ele a olhava, sentia na nuca os olhos dele.

Mas seguiu em frente, deixando para trás Daisy. Deixando para trás o seu casamento.

Deixando para trás o seu coração.


SEGUNDA PARTE

Depois


Catorze

Nove meses mais tarde

A bordo do Percival

Algures nas Maldivas

–Não podemos ultrapassá-lo, senhor. O barco está muito pesado. – O contramestre, um homem forte chamado Squib, teve de gritar a James para se fazer ouvir. O vento afastou-lhe o medo da voz, mas não do rosto.

– Segura o leme. – James voltou-se escrutinando o horizonte. O navio que se aproximava, mal era visível, mas roçava as ondas como se tivesse o vento a seu favor. – Tens a certeza de que é um barco pirata?

– O vigia confirmou-o – disse Squib, passando a mão pela testa. – Consegui evitar os piratas todos estes anos, que diabo, e tenho netos recém-nascidos em casa. Devia ter ficado em Londres.

– Tem a bandeira negra?

Squib assentiu.

– Estamos bem arranjados, é o Flying Poppy – soltou um gemido involuntário. – Tem uma flor vermelha em fundo negro; é fácil de descortinar.

James mantivera-se rígido, junto à amurada, olhando para o navio como se o seu olhar duro o fizesse desaparecer. Assim que ouvira o nome, descontraíra os ombros, aliviado. Conhecia o navio e, se tivesse razão, teriam alguma possibilidade. Uma leve possibilidade, mas seria melhor que nada.

– Poderia ser pior – retorquiu, esperando ter razão.

– Pelo que ouvi no último porto, o Poppy capturou cinco navios só nesta época. Posso apenas dizer que, geralmente, não mata a tripulação, mas afunda os navios. Estamos bem arranjados, senhor.

– Os canhões estão prontos a disparar? – perguntou James num resmungo.

– Sim.

– Então ainda não estamos bem arranjados. Navegaremos em frente. Não importa para onde vamos.

James saltou da proa e correu para o convés inferior. A tripulação afadigava-se com os canhões, batendo com os paus enormes que colocavam a pólvora no seu lugar. Os seus membros só se detiveram quando ele se lhes dirigiu.

– Homens!

Todos ergueram os olhos. Uma hora antes, haviam sentido a letargia que, durante uma longa viagem, o sol marca nos homens com olhos e narizes cheios de sal, cansados de carne salgada e peixes voadores. Mas agora pareciam aterrorizados.

– A nossa finalidade é ficarmos vivos – disse-lhes James.

Houve um momento de surpresa e silêncio.

– Poderemos experimentar o canhão. Talvez tenhamos a sorte de atingir o costado. Mas esses piratas querem o que temos no porão e não quero que morram por lutar com homens que levaram a vida a fazê-lo. Se não afundarmos o navio à primeira, quero-os a todos no convés. Deitados de barriga para baixo.

Vozes zangadas responderam a esta ordem.

– Nunca recusei uma luta na minha vida – gritou Clamper. Era natural de Cheapside, tinha um rosto marcado e era hábil com a faca.

– Vais fazê-lo agora – ordenou James. – Se puxares da faca, Clamper, acuso-te de provocares um motim.

Fez-se silêncio de novo. Havia nove meses que ele e a tripulação estavam juntos. Houvera momentos difíceis enquanto aprendera as coisas do mar e a navegar num navio mercante, mas Squib mantivera-se sempre a seu lado. E nem morto deixaria a tripulação ser massacrada.

– Tenciono desafiar o capitão – disse. – E invocar a lei do mar.

– Os piratas não têm lei do mar – gritou alguém.

– O capitão do Flying Poppy tem – disse James. Tratara de saber tudo acerca dos piratas que operavam entre a Índia e as Ilhas Britânicas. – O nome dele é Sir Griffin Barry, é baronete e um parente afastado. Conhecemo-nos quando éramos rapazes. Há de lembrar-se de mim.

– Poderá então falar com ele na sua linguagem – sugeriu Clamper com alguma esperança no olhar.

– Posso tentar – respondeu James. Claro que Barry era um criminoso incorrigível, mas fora para Eton. E eram primos terceiros. Resumindo, havia outros degenerados na família para além do pai e dele próprio. – Não disparem o canhão antes de vos dar ordem para isso.

Mas afinal a ordem não chegou. A tripulação do Flying Poppy foi suficientemente inteligente para não expor o casco a um navio que tencionavam pilhar e o Percival estava demasiado pesado graças à carga de especiarias, para se mover com rapidez. O Poppy dançou em redor dele até os piratas saltarem para dentro e o abordarem sem incidentes.

Os homens saltaram rapidamente a amurada. Ao verem a tripulação do Percival deitada no chão do convés, espalharam-se sem pronunciar palavra, de costas para o mar, pistolas numa mão e faca na outra. Pelos vistos, o Percival não era o primeiro navio cujo capitão se rendera ao ver a papoila cor de sangue num campo negro.

O capitão foi o último a chegar ao convés com uma faca entre os dentes e uma pistola na mão direita. Não parecia certamente um rebento da alta sociedade inglesa; vestia como um trabalhador das docas. Tinha uma pequena papoila, a condizer com a da bandeira, tatuada por baixo do olho direito.

– Sir Griffin Barry – disse James, dando ao queixo a inclinação necessária exigida a um conde que cumprimentasse um baronete. Encontrava-se no meio dos homens prostrados. Todos eles rodeados por um círculo de piratas. Estava vestido de um modo um pouco estranho, mas calculado. Uma casaca bordada a ouro com botões do mesmo metal. Trazia até cabeleira – colocada apressadamente no alto da cabeça, mas estava lá.

Barry lançou um olhar cintilante àquela visão, depois encostou-se à amurada e desatou a rir. Não seria um riso benevolente, mas, de qualquer forma, eram gargalhadas.

James sentiu um impulso de coragem por não ter sido abatido naquele momento.

– Segundo a lei do mar, poderia desafiá-lo para um duelo – comentou num tom o mais naturalmente destemido que conseguiu arranjar.

O baronete semicerrou os olhos e apertou a pistola na mão.

– Podia.

– Ou poderíamos simplesmente ir tomar uma bebida à minha cabina. Afinal, já não nos vemos há quantos anos? Cinco? – Pelo seu cálculo, toda a tripulação poderia estar morta num espaço de três minutos. Mas James apostava no antigo sistema de cortesia britânica, martelado na cabeça de todos os rapazes aristocráticos desde o tempo em que davam os primeiros passos. – Creio que a nossa falecida tia Agatha, preferiria a última sugestão – acrescentou.

– Com mil raios! – exclamou Barry com os olhos muito abertos ao reconhecê-lo. – Pensei que fosses um aristocrata maluco, mas és o filho do maldito do Duque Louco.

James fez-lhe uma vénia, agitando os folhos imaculados dos punhos.

– Islay. James Ryburn ao teu serviço. É mais ou menos um prazer encontrar-te de novo, Sir Griffin Barth...

Barry interrompeu o segundo nome com uma obscenidade. James sentiu uma pontada de satisfação e outra onda de coragem. Como seria possível intimidar um capitão pirata com a informação privada de que o seu segundo nome era Bartholomew?

– Mas que raio fazes tu aqui para além de estares à espera de ser pilhado por mim? – vociferou Barry. Mas o equilíbrio do poder estava alterado. O estatuto de James como herdeiro de um ducado nivelara o terreno do jogo, pois Barry era ao mesmo tempo um pirata e um baronete.

– Estou a tentar fazer a minha fortuna depois de o meu pai ter perdido a dele e desviado outra. Certamente que tu, primo, poderias ensinar-me como fazer. O Poppy Two, talvez?

Sem desviar os olhos do primo, despiu a casaca bordada para mostrar a camisa grosseira que envergava por baixo. Com outro gesto rápido, a cabeleira girou no ar e voou borda fora.

– Há nove meses que sou capitão deste barco. Aprendi os ventos, as águas e as estrelas. Tenho o porão cheio de especiarias, mas gostaria de fazer algo novo. Podes dizer, primo, que o instinto criminoso nos corre nas veias.

Barry esperava ouvir tudo menos aquilo. James susteve a respiração. Não baixou os olhos para olhar para os seus homens, não fosse isso tomado como sinal de preocupação e por isso de fraqueza.

– Aceito esse brande – disse Barry por fim.

– Os meus homens estão desarmados – comentou James como se falasse do tempo.

Barry fez sinal com a cabeça a um dos seus homens.

– Manda-os levantar e coloca-os além junto à amurada enquanto eu falo aqui com Sua Senhoria. – Olhou de novo para James com a fria impiedade de um capitão pirata nos olhos. – Se eu não voltar ao convés dentro de uma hora, mata-os a todos, Sly. Mata-os a todos.

Passou uma hora e Barry não voltou. Porém, Sly sabia que as ordens do capitão não deveriam ser cumpridas sem que espreitasse o que se passava lá em baixo. E, quando lá foi, James e Griffin iam na segunda garrafa de conhaque.

A noite caiu e o Percival navegava à frente do Flying Poppy, com as respetivas tripulações agindo de maneira ordeira (apesar de alguns piratas olharem por cima do ombro de Squib).

James e o primo, a quem passara a tratar pelo nome próprio, continuavam a beber.

– Normalmente não posso beber assim – resmungou Griffin em determinada altura. – Um capitão não pode confraternizar com a sua tripulação.

– Não me esquecerei disso – respondeu James, arrastando um pouco as palavras. – Lembras-te do que fizemos a primeira vez que estivemos juntos?

– Subimos ao telhado – recordou Griffin, após uma pequena pausa para recordar.

– Atámos uma corda a uma das chaminés, descemos até bater nas janelas do quarto das crianças e tentámos matar de susto a tua ama.

– Era esse o plano – concordou James, bebendo outro gole de conhaque. Bebiam diretamente das garrafas. – Mas não foi isso que aconteceu.

– A minha irmã fugiu aos gritos, mas a tua não. Abriu a janela, lembras-te? Pensei que ela nos fosse puxar para entrarmos, mas não. Lançou-nos uma bacia de água a rir como se estivesse maluca. Podia ter-nos matado.

– Não é minha irmã – disse James, pensativo. – Casei com ela. É a minha mulher.

E, sem dar por isso, falou pela primeira vez sobre o que acontecera nove meses antes. Saiu-lhe sem querer. Mas não tudo. Omitiu o que Daisy e ele estavam a fazer na biblioteca, mas contou o suficiente.

– Maldição! – exclamou Griffin. – E ela ouviu tudo?

Uma onda mais forte bateu no costado do navio e James quase caiu da cadeira, mas conseguiu equilibrar-se.

– Bêbado como um cacho – resmungou. – Ouviu tudo. Disse-me que nunca mais voltasse. Meti-me no Percival na manhã seguinte.

– Também eu tenho uma mulher algures – contou Griffin, sem parecer minimamente preocupado por não saber onde. – Estou melhor sem ela.

Com grande cuidado, tocaram com as garrafas uma na outra.

– À saúde do Poppy – disse James.

– E à do Poppy Two – acrescentou Griffin. – Estás a ver isto?

Tocou na face errada, mas James compreendeu o que ele queria dizer e sentiu-se apreensivo. Um homem tatuado nunca poderia regressar à sociedade inglesa. Os homens tatuados não faziam reverências à rainha, não dançavam o minuete no Almack’s, nem davam as boas-noites às esposas com um beijo.

Havia momentos, na escuridão da noite, em que desejava tanto Daisy que mal podia respirar. Momentos em que pensava que deveria regressar para ela, implorar que o recebesse de novo, dormir no degrau da porta se fosse preciso. Afinal, tinham sido amigos durante toda a vida e amantes...

Ainda acordava a tremer e excitado por sonhar com ela.

Mas, se estivesse tatuado, esses sonhos terminariam. Não haveria perspetivas de poder voltar. E era isso que ela queria.

Dissera-lhe para nunca mais voltar, que nunca mais o queria ver. Daisy nunca dizia o que não sentia. Era direita como um fuso. Não era como ele.

– Certo – disse ele e levantou-se a cambalear. – Tenho de abordar o teu navio, acho eu. Preciso de uma tatuagem para ser um verdadeiro pirata.

– Podes ir lá, mas nada de papoilas – avisou Griffin. – Terás de merecer a tua tatuagem. Não podes fazer uma só a teu pedido.

James assentiu.

– Maldição. Está a começar a doer-me a cabeça.

– Três garrafas de conhaque – comentou Griffin, pondo-se também de pé. Encostou-se à parede. – Já não aguento tão bem o álcool. Já te disse para nunca beberes com a tripulação?

James acenou afirmativamente e sentiu a cabeça latejar.

– Vou aprender tudo isso – declarou.

De volta ao convés, o ar do mar acordou-os.

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– Como vamos chegar ao teu navio? – perguntou James.

O Poppy tinha-se aproximado o suficiente para os piratas poderem saltar pela borda, agarrarem o corrimão da amurada do Percival e passarem para dentro. Mas agora os dois navios, com as velas erguidas, estavam a uma boa distância um do outro.

Com um grito selvagem, Griffin descalçou as botas e atirou-se à água azul por cima da borda.

– Maluco – resmungou James. Os lordes ingleses pouco mergulhavam nas águas, porém ele sabia nadar.

E lá foi ele. Atirou-se à água quente como a de uma banheira e nadou atrás do primo que nadava não como um peixe, mas como um tubarão.

Depois subiu a escada de corda, a pulso, quase tão depressa como Griffin. James sentia já a cabeça desanuviada e estava quase sóbrio quando saltou por cima da amurada.

Com tanto brande e bonomia, Griffin era um lorde pirata.

A sua tripulação reunia-se agora em volta dele. Voltaram-se quando James subiu, a pingar.

O rosto de Griffin era diferente no meio dos seus homens: sinistro e carrancudo, sem sinal da sua boa-educação.

– Este é o meu primo – declarou. Os piratas acenaram, embora alguns semicerrassem os olhos. – Comandará o Poppy Two. Podem chamar-lhe o Conde.

Desceram ao camarote de Griffin e este atirou-lhe roupas secas: roupas grosseiras, apropriadas a uma luta no mar. Sem cerimónia, pegou numa tesoura e cortou o cabelo de James por cima das orelhas.

– A última coisa que vais desejar é que um bandido qualquer te agarre por trás, puxando-te esses belos caracóis – explicou.

James olhou-se ao espelho e concordou. Não havia vestígios de um conde inglês no seu reflexo. Parecia um homem que não se importava com quem quer que fosse, nem com a mulher, nem com a família ou com a herança.

Não era verdade, mas ele poderia torná-lo verdade. Agora era um pirata.


Um ano depois


Usando o seu aperfeiçoado e (extremamente bem-sucedido) ataque em pinça, o Flying Poppy e o Poppy Two tinham acabado de despojar outro navio pirata, o Dreadnaught, dos ganhos ilicitamente obtidos. Paletes de madeira de teca e barris de chá da China estavam agora guardados no porão do Flying Poppy juntamente com a tripulação do Dreadnaught, depois de o navio ter seguido o capitão, Flibbery Jack, para as profundezas do oceano Índico.

Griffin e James estavam deitados no camarote de Griffin a celebrar a última conquista com um ou dois copos de conhaque. Depois da primeira noite juntos, nunca mais tinham exagerado; não estava na natureza de nenhum deles.

– É surpreendente como somos parecidos – referiu James seguindo o pensamento até às suas conclusões lógicas.

– Somos uns marinheiros fantásticos – replicou Griffin. – Logo quando penso que o P-Two não consegue avançar até onde eu queria, tu consegues.

– Tenho pena desses homens.

– Dos mortos?

– Sim.

– Não perdemos nenhum dos nossos. E a tripulação do Dreadnaught era temida nas Índias Orientais – comentou Griffin. – Fizemos um favor ao mundo. Outro favor, dado que abordámos o Black Spider o mês passado. E posso recordar-te que o Dreadnaught conseguiu a reputação capturando um navio de passageiros que se dirigia a Bombaim e obrigando todos os homens, mulheres e crianças a caminharem pela prancha?

– Bem sei – disse James. Toda a sua investigação acerca dos piratas e das suas rotas servira-lhe bem nos últimos meses. Os Poppys eram agora temidos pelos piratas tal como os piratas eram temidos pelos navios comerciais.

– Somos uma espécie de Robin dos Bosques.

– Com a leve exceção de que não damos as coisas aos pobres – retorquiu James secamente.

– Devolvemos aquela estátua de ouro ao rei da Sicília. Podíamos tê-la vendido. – Griffin não era pessoa de gestos magnânimos.

– A carta de Fernando dando-nos o direito de navegar como corsários com a sua bandeira vale mais do que Santa Ágata, mesmo que a estátua não fosse oca... e era se me permites que te diga.

Griffin encolheu os ombros. Não gostava de dar nada sem receber algo em troca, mas até ele tinha de admitir que os corsários tinham uma vida mais fácil que a dos piratas, embora a distinção fosse pouco nítida.

– A propósito, o que vais fazer com todo aquele tecido que guardaste no camarote? – perguntou. – Estás a pensar trazer alguma mulher para bordo? Os homens não o permitirão. À primeira tempestade podes procurar a menina e descobrirás que foi lançada borda fora para apaziguar os demónios do mar, o Posídon, ou sei lá o quê.

– Pensei em mandar o tecido à minha mulher. Falava mais de tecidos do que fazia vestidos e estas sedas são muito bonitas. O Dreadnaught deve ter apanhado um comerciante de seda.

– Por que raio farias uma coisa dessas? – perguntou Griffin admirado. – Pôs-te na rua e muito bem, por aquilo que me disseste. Porquê recordá-la da tua miserável existência?

– Boa pergunta – comentou James emborcando o conhaque. – Esquece o tecido; temos de fazer alguma coisa com o ouro.

– Vai para o banco – declarou Griffin prontamente. – Quando penso que costumava simplesmente amontoá-lo numa caverna, antes de teres aparecido, até estremeço. Vamos pô-lo em Génova ou abrimos uma nova conta algures?

– Estou preocupado com a nossa conta naquele banco de Paris, por causa da ganância de Napoleão – disse James. – Penso que será melhor lá irmos para fecharmos essa conta. Pomos tudo em Génova.

Griffin poisou o copo vazio ao lado e levantou-se.

– Olha, James, tenho más notícias. O contramestre do Dreadnaught foi contratado em Bristol há dois meses e tinha isto.

Encaminhou-se para o aparador, pegou num jornal que ali estava e entregou-o a James. Uma notícia orlada a preto anunciava que o duque de Ashbrook morrera de repente.

James olhou para o jornal. O pai morrera e estava morto havia dois meses. Assim, sem mais nem menos, o seu mundo mudara. A seguir, segundos depois, levantou-se calmamente e disse:

– Volto para o Poppy Two e digo aos homens que vamos partir para Marselha. Será melhor mudar as velas e navegar como corsários.

Griffin deu-lhe um rápido soco no braço.

– Nem penses que vou tratar-te por Vossa Graça. Pensas que os homens vão perceber se anunciarmos que o teu nome passou a ser Duque? Conde não parece adequado a uma pessoa de nível tão importante.

James não se incomodou em responder. Subiu a escada com tristeza. Tinham um membro da tripulação cuja tarefa era apenas remar para trás e para a frente entre os dois Poppys e, momentos depois, James percorria de novo a pequena distância. Caíra o crepúsculo e o oceano parecia esgotado de cor e pormenor, como se o barco a remos atravessasse uma bruma cinzenta.

De volta ao seu camarote, sentiu-se de tal modo exausto que se atirou para cima do beliche sem se despir. Fora um dia longo e cansativo: ele e os outros homens não dormiam desde que avistavam um navio pirata. Eram quarenta e oito horas de tensa vigia, que geralmente culminava numa batalha sangrenta. Os piratas lutavam com bravura e eram impiedosos na luta corpo a corpo. Naquele dia a abordagem do Dreadnaught não fugira à regra.

Apesar da exaustão física, sentia o cérebro imóvel, incapaz de pensar noutra coisa que não fosse a morte do pai. O criado apareceu com uma bacia de água quente e saiu em silêncio. James levantou-se do beliche e despiu a roupa, com as recordações a fazerem-lhe ricochete no cérebro.

Passara grande parte da vida a detestar o pai, mas nunca pensara que ele pudesse faltar-lhe. Nunca. O duque era já muito velho e James recordava-se das suas faces cor de púrpura durante os ataques de raiva. O coração tinha rebentado, sem dúvida.

Porém... apesar do que o pai fizera, James nunca perguntara a si próprio se ele o estimava, a ele, James, seu filho único e herdeiro. O duque era um idiota, um jogador, um homem implacável que pisava os sentimentos dos que o rodeavam. Porém, amava o filho. O facto de o pai ter morrido, sem saber se ele estava ou não vivo, era como uma faca nas suas costelas.

As recordações continuavam a invadi-lo, mas não as que tinham a ver com o roubo do dote de Daisy ou algo parecido. Não. Lembrava-se de como o pai entrava de repente no seu quarto de criança e o sentava no ombro; como o deixava esconder-se debaixo da secretária para que o percetor não o encontrasse; como chegara a Eton sem se fazer anunciar e usara o título para entrar na sala de aula e levar James e os amigos para um passeio de barco no Tamisa.

O desgosto misturava-se com o remorso. Estas duas emoções pesavam-lhe no peito como uma pedra, dizendo-lhe que o pai morrera com o coração partido.

Sabia-o.

Deveria ter... deveria ter... deveria ter feito o quê? Agora pouco importava. Nada fizera. E o duque partira. E James perdera-o tal como perdera a mãe.

Daisy devia ter tratado de tudo, do funeral e do resto. Ela teria garantido que o sogro, por muito que o desprezasse, teria uma sepultura como devia ser.

Terminou o banho e, enquanto se secava, olhou para o monte de tecido que estava num canto. Desejava a todo o custo pensar noutra coisa que não fosse a morte do pai.

Os tecidos cintilavam como os souks do Norte de África e os bazares da Índia de onde provinham. O olhar de James fixou-se num tecido que capturara o azul pálido de um quente dia de verão em Inglaterra, quando o céu parecia tão alto e longínquo.

Enquanto olhava, desejando não pensar em nada, quase conseguia ouvia o pai a gritar com ele, dizendo-lhe que deixasse de ser uma idiota, que voltasse para enfrentar as suas responsabilidades e assumir o ducado.

Porém, essa voz fora silenciada para sempre. As recordações que James tinha do pai eram inúteis e longínquas, como se Inglaterra nada mais fosse que um reino debaixo de água, uma terra de peixes a que ele pertencia tanto como uma truta atrás do púlpito da Catedral de São Paulo.

Que fosse tudo para o inferno.

Deixara de sonhar com Daisy, o que não queria dizer que tivesse deixado de pensar nela. Pensava, principalmente quando estava sozinho no seu beliche a recuperar de uma facada que recebera.

Se tivesse oportunidade de fazer tudo de novo não teria fugido de Inglaterra. Teria levado a mulher lá para cima, tê-la-ia lançado sobre a cama para a fazer compreender o que sentia por ela. Mas era demasiado tarde: esses sonhos estavam tão mortos como o pai.

Nada havia em Inglaterra para ele. Teria de se ausentar sete anos para o declararem morto. Bom, dentro de um ou dois meses, fazia dois anos que estava no mar. Pinkler-Ryburn era um homem como devia ser; assumiria o título dentro de cinco anos se James não regressasse. Depois, Daisy poderia voltar a casar. O corte de todos os laços com Inglaterra extinguiria aquele estranho e vergonhoso desejo de regressar a casa e para Daisy.

Ouvia a voz dela como um sino a dizer-lhe ao ouvido que o casamento de ambos terminara. E depois afirmara que outro homem se apaixonaria por ela, outro homem melhor que ele.

Era fácil imaginar. James nunca desprezara ninguém tanto como se desprezava a si.

Gritou e o criado apareceu à porta.

– Atira isto pela borda fora – ordenou, apontando o tecido. O homem agarrou no pano e saiu apressadamente do camarote.

Uma hora depois, James rapara a cabeça e tatuara uma pequena papoila debaixo do olho direito. Apropriou-se do nome de Flibbery Jack, o capitão pirata que já não precisava dele, e atribuiu-o a si próprio.

Longa vida a Jack Hawk.

Porque James Ryburn, conde de Islay e duque de Ashbrook acabava de morrer.


Quinze

Junho de 1811

Residência Ryburn, Staffordshire

Ducado de Ashbrook

Theo passou a mão pelo cabelo curto, apreciando o facto de a sua cabeça lhe parecer leve e livre. Cortara o cabelo no dia em que o seu casamento se desmoronara e nunca se arrependera.

– O que disse, mãe? Desculpe mas não estava a ouvi-la.

– Não queres uma fatia deste bolo de maçã?

– Não, obrigada.

– Tens de comer – afirmou Mrs. Saxby um pouco brusca, entregando mesmo assim uma fatia de bolo a Theo. – Não fazes mais nada senão trabalhar, querida, trabalhar, trabalhar, trabalhar.

– Há muito que fazer – retorquiu Theo em tom razoável. – Tem de admitir que vai tudo muito bem, mãe. Este mês vamos produzir a primeira cerâmica. E a Tecelagem Ryburn tem catorze novas encomendas. Catorze! – Não conseguiu evitar um sorriso de triunfo.

– Isso é tudo muito bonito – respondeu Mrs. Saxby. – Mas estás magríssima. – Não te fica bem.

Theo não reagiu. Depois de alguns meses de que odiava lembrar-se, acabara por aceitar o seu estatuto de «feia». Quando James desaparecera de Londres, a sociedade concluíra, muito naturalmente, que não fora capaz de contemplar mais que os dois dias de casamento com uma futura duquesa feia. Durante um mês, ninguém falou de mais nada e disso era testemunha a maledicência que chegava aos jornais. Theo não estivera lá para sentir o ataque pessoalmente; saíra da cidade no mesmo dia que James e retirara-se para Staffordshire, onde a mãe se lhe reuniu depois de regressar da Escócia.

Quando as pessoas descobriram que James se metera no Percival e partira para parte incerta, já ela estava confortavelmente instalada no campo e, embora as idas ocasionais a Londres fossem inevitáveis, não se aventurara a frequentar a sociedade – uma palavra que, só de ouvi-la, a obrigava a contorcer os lábios.

– Aproxima-se o casamento de Mister Pinkler-Ryburn – insistiu a mãe. – Temos ambas de nos apresentar irrepreensíveis.

– Como já disse quando o convite chegou, não vejo razão para estar presente no casamento do herdeiro putativo do meu marido com a cretina Claribel. – Além do mais – acrescentou sensata –, ocupava-nos quase uma semana, pois as núpcias realizam-se no Kent. Não posso desperdiçar esse tempo; agosto é um mês muito movimentado.

A chávena de Mrs. Saxby bateu no pires com um pouco mais de força do que seria necessário.

– Minha querida, gostava de não ter de te dizer isto, mas estás a ficar rígida. – Tinha o cabelo um pouco mais grisalho e perdera alguma energia depois da dramática partida do genro, mas nunca deixara de seguir as boas-maneiras. – Tens de ir como representante do ducado. E porque Mister Pinkler-Ryburn é muito bom homem.

– O seu valor como pessoa nada tem a ver – afirmou Theo. – Simplesmente não posso ir a um casamento quando preciso de aqui estar. – Theo sabia ser tão teimosa como a mãe.

– Tens uma visão muito atormentada da vida – continuou Mrs. Saxby. – O teu casamento pode ter sido uma má experiência, mas será razão para te transformares numa mulher infeliz e de língua afiada?

– Não sou infeliz – declarou Theo. – Pelo menos nem sempre – acrescentou. – Além disso, a felicidade não é uma coisa que se possa controlar.

– Discordo. A vida deu-te uns golpes. Mas o que aconteceu à filha que eu conhecia? Onde está a lista de regras de estilo? Disseste que, assim que eu deixasse de ditar o teu vestuário, ias deitar as tuas pérolas aos porcos e outras coisas mais. Nem sempre concordei, mas estava muito interessada em ver o que farias com a tua pessoa.

Theo olhou defensivamente para o seu vestido.

– Não há nada de errado com o meu vestido. Afinal, estamos de luto pelo duque.

– Foi feito na aldeia. A única coisa que pode ser dita em seu favor é que as costuras estão razoavelmente direitas.

– Não estou interessada em adornar-me; era um sonho de menina que pus de lado. Ademais, passo quase todo o meu tempo num escritório. Para que precisaria de um vestido criado por uma modista, principalmente em cores de luto, quando não tenho onde ir para o mostrar?

– Uma senhora não se veste para se exibir.

– Permita-me que discorde. Quando é debutante, veste-se para arranjar marido, Deus lhe acuda...

– Estava a referir-me exatamente a esses teus comentários – declarou a mãe.

Theo suspirou.

– Suponho que posso mandar fazer um ou dois vestidos em Londres quando o luto terminar, se isso lhe der prazer. Mas não vou lá prová-los e não assistirei ao casamento de Pink.

– A felicidade é uma questão de autodomínio – declarou a mãe, regressando ao assunto. – E não me parece que tenhas suficiente.

Pela primeira vez, durante a conversa, Theo sentiu uma pontada de verdadeiro aborrecimento. Como podia alguém, ainda para mais a mãe, afirmar que ela não mostrava suficiente autodomínio? Nos últimos anos, ficara horas a fio no escritório, depois de todos terem ido dormir, consultando livros sobre cerâmica italiana e enfeites isabelinos.

Percorria os domínios uma vez por semana numa charrete, para garantir que os rebanhos e as condições dos rendeiros melhoravam. As suas viagens a Londres não eram ocupadas com o teatro e as lojas, mas com visitas a Cheapside e a um edifício cheio de ruidosos teares.

– Creio que mostro autodomínio – replicou, esforçando-se por prová-lo, evitando mostrar o aborrecimento que sentia.

– Oh, o teu trabalho – exclamou Mrs. Saxby, depreciativamente.

– As propriedades são agora lucrativas, mesmo depois da pensão que tivemos de dar ao desonesto do duque – disse Theo, irritada. Depois, ao ouvir o seu tom de voz, sentiu uma onda de remorso. – Perdoe-me, por favor. Certamente que não é minha intenção transformar-me numa megera. E não é uma coisa muito caridosa que se diga acerca de Sua Graça, principalmente agora que está morto.

A mãe deu-lhe umas pancadinhas na mão.

– Sei que não, minha querida.

Mas não podia negar que Theo se estava a transformar numa espécie de harpia. Credo.

– Se comprar coisas bonitas em Londres não serei diferente de quem sou – comentou Theo.

– És muito bonita – afirmou a mãe, mais uma vez, demonstrando a sua habilidade sempre pronta para desprezar o óbvio. – E muito mais bonita por não te pareceres com as outras.

Theo suspirou.

– As penas e os folhos que possa acrescentar à minha pessoa só me diminuirão a dignidade. O meu respeito próprio. Se eu entrar no jogo de querer fazer-me bonita, não terei sucesso e apenas parecerei tola e vaidosa.

A mãe poisou de novo a chávena.

– Theodora, não te criei para seres uma pessoa fraca e cobarde. Não és a primeira mulher a receber um golpe na tua autoestima nem serás a última. Mas isso não te desculpa, nem torna aceitável, que te afundes em autocomiseração. Evitando a sociedade, vais continuar a ser alvo de conversas e especulação. Ainda mais importante, se continuas a insistir na parte menos afortunada do teu casamento, tornas-te desagradável.

– Eu não insisto no meu casamento! E, na verdade, mãe, qual é a parte «afortunada» do meu casamento?

A mãe olhou-a de frente.

– Theodora, tenho a distinta impressão de que desfrutas do modo como toda a gente nestes domínios escutam todas as tuas palavras. Já para não mencionar o esforço com que te dedicas à tecelagem e à fábrica de cerâmica.

Era uma verdade irrefutável.

– Nunca terias tido esta oportunidade se te tivesses casado com Lorde Trevelyan. A propósito, vi-o na ópera há duas semanas. Uma produção da Così fan tutte, cantada por um italiano.

– Uma maneira simpática de me obrigar a dar-lhe razão – concordou Theo a sorrir. – Admito. Prefiro não ter de suportar horas na ópera.

– Mesmo assim recusas ser feliz. Estás inclinada a considerar-te a parte ofendida, enquanto, afinal, triunfaste sobre a adversidade. Puseste o teu marido fora de casa e James obedeceu-te apenas naquilo que considero ter sido um paroxismo de culpa.

– Ele queria ir-se embora – ripostou Theo, apercebendo-se de que fora o que concluíra para que lhe trouxesse paz. – Casou-se comigo para proteger a honra do pai, mas isso não significa que desejasse ficar casado. Pelo menos não comigo.

A mãe olhou-a e depois fitou o bule.

– Posso servir-te outra chávena de chá, minha querida?

– Não. Obrigada. Voltei a fazer o mesmo, não é verdade? – perguntou Theo, sentindo o desgosto revolver-lhe o estômago.

– A vida é muito mais complicada do que o que tu admites. Por exemplo, eu contestaria certamente a caraterização que fazes dos motivos de James, mas, neste momento, parece-me irrelevante. Afinal, o pobre homem pode ter morrido.

Theo estremeceu.

– Claro que não morreu! Está longe daqui e amuado. Não lhe disse que teria de ficar para sempre fora de Inglaterra. Só lhe disse que nunca mais o queria ver.

– Na minha opinião, a mais profunda ligação de James a Inglaterra eras tu. Quando o mandaste embora, cortou todos os laços para proteger o seu coração. O pai apenas lhe recordava o comportamento grosseiro que tivera para contigo e, agora, o pobre duque está morto. Nada poderá trazer James de volta a Inglaterra.

– Grosseiro! – exclamou Theo, ofendida. – Dar-lhe-ia outra classificação.

A mãe ignorou o comentário.

– Por muito irresponsável que o duque tenha sido em relação ao dinheiro... e à tua herança... abriu-nos imediatamente a sua casa quando o teu pai morreu. Ashbrook nunca mais foi feliz depois da partida de James e tens nisso alguma responsabilidade, Theo. Ele estimava profundamente o filho.

– Minha mãe, continua a falar como se James tivesse morrido – disse Theo, surpreendendo-se com a veemência do seu tom. – O James não está morto.

– Esperemos que não. – A mãe ergueu-se graciosamente da cadeira. – Tenho de continuar a escolher a roupa de casa com Mistress Wibble. Vejo-te ao almoço, minha querida.

Theo teve de admitir que a saída fora dramática.

James não estava morto. Se assim fosse, ela sabê-lo-ia.

Não se preocupou em perguntar a si própria por que razão estava tão segura desse facto. Tratou de se levantar de um salto. Acabara de se recordar de que prometera enviar, naquela mesma tarde, um novo conjunto de desenhos para a fábrica.

A bordo do Poppy Two

Semanas depois do aparecimento de Jack Hawk (e de James Ryburn, conde de Islay, ter sido declarado morto por alguém que o sabia com toda a certeza – isto é, ele próprio), o Flying Poppy e a sua sombra, o Poppy Two, aportaram a uma das Ilhas Ocidentais a caminho de França e James – agora conhecido como Jack, sucumbiu às carícias amorosas de uma viúva gorducha e alegre que dava pelo nome de Prya.

Esta ensinou-lhe algumas coisas, embora ele se sentisse muito mal depois de uma noite com ela. Mas o seu casamento terminara – na prática, embora não formalmente. Poderia manter-se celibatário durante toda a vida? Claro que não.

Infiel... infiel. Não gostava da palavra. Girou-lhe na cabeça durante um mês ou dois até conseguir afastá-la para um canto escuro do seu cérebro e ocultá-la. A sua mulher pusera fim ao casamento. Por isso sentia-se livre para agir como se não estivesse casado. Não era adultério, de modo algum.

Agia exatamente como qualquer homem cujo casamento tivesse terminado. Ficaria longe durante os sete anos necessários para que o declarassem morto. Vivia a sua vida em vez de, simplesmente, reagir a ela. O seu coração deu um salto doloroso ao recordar-se do pai.

James aprendeu ainda mais com uma mademoiselle parisiense e, no ano a seguir, com uma jovem chamada Anela, que vivia numa ilha do Pacífico e pensava que o sol nascente devia ser adorado numa posição horizontal.

Jack provou ter jeito para essas preces.

Por outro lado, Griffin nunca estivera tão feliz como quando tinha uma rapariga pendurada em cada braço e preservativos guardados na sua pessoa. Como nenhum deles era ganancioso – na cama ou fora dela – só a chegada do Flying Poppy ou do Poppy Two a uma enseada era razão de alegria em certas partes do mundo.

Jack Hawk tornou-se um nome que os piratas gostavam de amaldiçoar. Os dias tinham as suas dificuldades, na sua maioria físicas – subir aos mastros, envolver-se em combates corpo a corpo, nadar entre os Poppys, rezar com Anela. A pele de Jack escureceu, o seu peito alargou-se, a ponto de a mãe não o ter reconhecido. Cresceu até alguns centímetros e fortaleceu os ombros e as coxas como qualquer homem que domina as ondas.

Mas, ao mesmo tempo, os seus olhos azuis e maçãs do rosto salientes denunciavam a sua proveniência aristocrática, embora a pequena papoila por baixo do seu olho direito informasse os piratas de algo muito diferente: morte.


Dezasseis

Agosto de 1812

Mrs. Saxby e Theo tinham acabado de tomar o pequeno-almoço uma manhã quando o assunto de James surgiu de novo.

– Um dia hás de voltar a recebê-lo – afirmou a mãe.

– Nunca – declarou Theo exasperada. – Já nem sequer penso nele.

– Já decidiste nunca ter filhos? – perguntou Mrs. Saxby. Fazia parte das suas habituais agressões. Mas, desta vez, fez uma pausa e inclinou por momentos a cabeça de encontro à moldura da porta. – Ai, meu Deus, estou cheia de dores de cabeça.

Theo levantou-se de um salto e aproximou-se da mãe.

– Quer que mande que lhe preparem uma infusão? Deixe-me levá-la para o seu quarto. Umas horas no escuro com um pano frio na cabeça e vai sentir-se muito melhor.

Mas Mrs. Saxby endireitou as costas e disse com firmeza.

– Com certeza que posso subir a escada, minha querida. – Vou dormir uma sesta e ficarei como nova. – Mas não saiu imediatamente; poisou a mão na face de Theo e disse. – Sendo tu a alegria da minha vida, desejo-te apenas o mesmo: um filho do marido que amas, embora o negues sempre que queiras.

Theo abraçou a mãe.

– Isso fá-la-á feliz, mãe. Resolvi ir a Londres mandar fazer um guarda-roupa completo, e fazer uma visita ao recém-casado Mister Pinkler-Ryburn, já para não falar na deliciosa Claribel.

A mãe riu.

– E eu mal posso esperar pelos teus vestidos novos. Adoro-te, minha querida – e, dizendo isto, voltou-se e retirou-se para os seus aposentos.

Mrs. Imogen Saxby nunca acordou dessa sesta. Theo passou pelo funeral da mãe e pelas visitas como que imersa num denso nevoeiro. Decorreram semanas antes que Theo aceitasse a verdade. A mãe partira. Havia um eco na casa. Sentava-se sozinha para tomar as refeições e chorava.

Infelizmente, os negócios não se detinham por ter havido uma morte na família. Era inconveniente chorar nas reuniões com o administrador das propriedades. Era inconveniente chorar na igreja, ao pequeno-almoço e a caminho de Londres.

Era também pouco digno, mas não se importava, o vazio no seu coração consumia-a de tal forma que o que as pessoas pensavam era de pouca importância.

Porém, Theo continuou a sua vida, sabendo que muitas pessoas dependiam dela e não as podia abandonar. Não as abandonaria.

Por fim o ano de luto terminou. Muitas vezes, pensava nas conversas que tivera com a mãe acerca do seu casamento e reconciliava-se gradualmente com a ideia de que ela e James não poderiam continuar naquela situação sem uma resolução. Haviam passado quatro anos desde que ele partira, sem que recebesse notícias dele ou acerca dele. Resolveu-se a encontrá-lo. Afinal, fora um desejo expresso da mãe que Theo voltasse a aparecer em sociedade e que também voltasse para James.

Sem mais delongas, Theo instruiu os seus advogados para que enviassem os necessários detetives e os enviassem por esse mundo em busca de notícias do marido. O sucesso dos domínios era agora tal que o custo da busca – que poderia levar mais que um ano – não era importante.

Depois fez os possíveis por tirar James da cabeça. Por enquanto nada podia fazer a esse respeito.

Nos últimos anos, Theo utilizara os seus esforços e gosto a dar forma à Cerâmica Ashbrook e a transformá-la numa empresa próspera que fabricava a melhor loiça para a clientela selecionada que, tal como ela, estava interessada na antiga cerâmica grega. E derramara o seu amor pelas cores na Tecelagem Ryburn, concentrando-se nas reproduções dos têxteis franceses e italianos dos dois últimos séculos.

Mas a tecelagem e a cerâmica estavam já bem estabelecidas, já não precisavam do envolvimento diário de Theo. O que de facto precisavam era de um cliente de grande visibilidade: uma pessoa, cujo gosto e discernimento fossem incontestáveis na sociedade, alguém que espalhasse o desejo pelos produtos Ashbrook.

Era uma ideia brilhante em todos os aspetos, exceto num. Theo continuava no seu exílio autoimposto em relação às pessoas que mais precisava de impressionar.

Aprendera a confiar em si própria e no seu gosto, mesmo sem se ter incomodado em aplicar esses ditames ao seu vestuário. Afinal, o estilo era uma harmoniosa disposição de partes que, na opinião de Theo, ultrapassava a beleza física e era até muitas vezes confundido com ela.

Pensou que não seria assim tão difícil transformar-se nesse cliente ideal e imaginário. Voltou mesmo a descobrir a sua lista de regras de estilo. Escrita com tanto cuidado havia anos na caligrafia redonda de menina da escola e particularizada com uma paixão que a fez sorrir. Ao voltar a lê-las, ficou encantada por nenhuma delas a fazer corar de vergonha. Estava decidido. Transformar-se-ia na sua melhor cliente.

Depois de pensar algum tempo no assunto, decidiu visitar Paris durante uns meses, antes de conquistar Londres. Os jornais estavam cheios de notícias acerca do Tratado de Fontainebleau (e da abdicação de Napoleão), o que significava que França receberia de novo visitantes ingleses. Nenhuma nacionalidade melhor que a francesa compreenderia que, enquanto a beleza era uma questão de nascimento, a arte – a arte de bem vestir – era acessível a todos que a quisessem aprender.

Em maio de 1814, a condessa de Islay (porque James ainda não tomara o título de duque) fechou a sua propriedade rural e mudou-se para uma casa magnífica junto ao Sena, em frente ao Palácio das Tulherias. Tencionava dedicar-se ao estudo da elegância, com a mesma paixão que dedicara à cerâmica e à tecelagem.

E tinha todas as expetativas de sucesso.


Dezassete


Paris, 1814-1815

Um mês depois de ter entrado na sociedade parisiense, a condessa de Islay era já considerada uma inglesa «interessante»; no final de alguns meses, era já uma francesa honorária. Ninguém se referia a ela usando palavras como feia ou sequer bonita; era ravissant e – sobretudo – élégant.

Era do conhecimento geral que a própria duquesa d’Angoulême, sobrinha do rei Luís XVIII, consultava Lady Islay quando se lhe deparavam dúvidas em relação a leques e a outros acessórios. Afinal, uma touca, a bolsa, luvas e sapatos de uma dama eram os elementos mais importantes para uma aparência verdadeiramente elegante. As parisienses abriam a boca de espanto quando Theo combinava o castanho com o preto – e depois ficavam ainda mais chocadas por ela usar um vestido preto, de gorgorão de seda, enfeitado a ametistas e, mais tarde, um fato de amazona púrpura com luvas verde-maçã.

Abriam a boca de espanto e corriam a imitá-la.

As francesas apreciavam sobretudo as regras epigramáticas. Eram colecionadas como joias preciosas e até as mais pobres caixeiras arrancaram a renda dos seus vestidos domingueiros quando se soube que ela dissera: Usem renda no dia do batizado. Ponto final.

Causou sensação quando se soube que declarara que a discrição é um sinónimo de inteligência. Nessa ocasião, todos pensaram tratar-se de um comentário, não acerca da moda mas da indiscreta adoração do marquês de Maubec pela terceira mulher de seu pai, e vários parisienses concluíram que uma mulher discreta não se cobriria exageradamente de joias. De facto, a condessa comentara acerca de uma dama particularmente faustosa que, com tantos quilates, mais parecia uma horta.

A atenção dada às suas palavras era de tal ordem importante que Theo foi visitada por uma delegação de três comerciantes de diamantes que lhe imploraram ajuda. Nessa mesma noite, Lady Islay apareceu num baile usando um colar que apresentava nada menos que seis fieiras de diamantes, apanhados por um pendente também de diamante em forma de pera, e comentou naturalmente que pensava que, à noite, uma mulher deveria rivalizar com a Via Láctea: damos leite aos bebés, e às damas? Diamantes.

Quando Theo fez vinte e três anos, o marido estava desaparecido havia quase seis e nenhum dos detetives – embora alguns não tivessem regressado a Londres – dera ainda notícias dele. Sempre que alguém perguntava, Theo respondia que o marido se tinha extraviado, tal como se poderia extraviar um horrível candelabro de prata oferecido por uma tia-avó.

Mas interiormente não se sentia tão despreocupada. O silêncio não era próprio de James. Ou seria? Tinha o temperamento mais feroz do que o de qualquer outra pessoa, exceto talvez o do seu falecido pai. E a fúria contra ela – ou contra si próprio – poderia levá-lo a ir viver para um país estrangeiro sem sequer se lembrar da sua antiga vida. Mas ficaria amuado durante tanto tempo? Não quereria voltar para casa e fazer as pazes com ela?

A menos que tivesse outra vida, outra mulher, num local desconhecido... talvez tivesse mesmo adotado outro nome.

Era uma ideia desagradável, mas era melhor do que o que Cecil Punkler-Ryburn, que passaria a ser o próximo duque, acreditava. O herdeiro do marido e a mulher, Claribel, tinham aparecido em Paris, alguns meses depois de Theo, seguindo um grupo de pessoas elegantes que desertara de Londres e se dirigira ao Continente. Embora Claribel fosse deselegantemente maternal e preferisse ficar em casa com os filhos pequenos, Cecil tornara-se num dos visitantes mais frequentes de Theo, quando descobriram (para grande surpresa desta) que gostavam muito da companhia um do outro.

Porém, Cecil acreditava firmemente que, se James estivesse vivo, teria regressado a Londres assim que soubesse que já era duque; segundo a lógica de Cecil, como não voltara, devia estar morto.

Theo tentava não pensar em tal. Estava a apreciar muito a sua estadia em França, descobrindo tecidos antigos e enviando-os aos seus tecelões, arranjando desenhos gregos sempre que podia para os mandar para a Cerâmica Ashbrook e sendo festejada na corte francesa. Porém, a triste verdade era que por detrás de cada sucesso estava uma leve preocupação pelo que James pensaria.

Parecia transportar James consigo como se fosse um público silencioso, constituído apenas por uma pessoa. Com o tempo esquecera (mais ou menos) os aspetos desagradáveis do seu casamento e recordava-se apenas de como ele fora seu amigo, como a incentivara na época em que era uma debutante com uma devoção desesperada e não correspondida por Lorde Geoffrey Trevelyan.

O seu melhor amigo era agora Cecil, ainda que não tivesse qualquer semelhança com James no caráter ou na figura. Engordara principalmente no sítio onde costumava ter a cintura. Aprendera a preocupar-se mais com um rodovalho com um bom molho de vinho do que com a altura do colarinho e era firme e dedicado nessa sua nova paixão.

Desistira também dos excessos de vestuário que o caraterizavam enquanto jovem, embora não tivesse abandonado por completo a moda: nesse tempo preferia as sedas Ryburn. Em particular ficavam-lhe bem as gravatas coloridas – a moda em França – porque afastavam a atenção do facto de um segundo queixo se ter juntado ao primeiro.

– Trazes uma nova gravata? – perguntou Theo, enquanto tomava chá com ele.

– É verdade – respondeu com um sorriso que lhe acentuava as encantadoras rugas de expressão em redor doa lábios. – O meu criado não queria juntar uma gravata cor-de-rosa com um casaco violeta, mas citei o teu exemplo e ele cedeu. Tenho a dizer-te que há algo de maravilhoso em poder ver um francês aos ditames de uma inglesa. Nunca seria capaz de o enfrentar sem que me apoiasses.

Theo serviu-lhe outra chávena de chá.

– Estou-te muito grata pelo facto de não me teres forçado a levar a cabo formalidades em relação ao ducado.

– Só Deus sabe que eu não quero o título – afirmou Cecil, encolhendo os ombros. E era verdade. Era alegremente indolente e via com horror os deveres associados ao título. – A única coisa que me parece remotamente interessante em tornar-me duque seria que, se um dos meus pares assassinasse alguém, poderia sentar-me no tribunal. Mas, francamente, isso é tão raro.

– Desgraçado, sempre sedento de sangue – disse Theo em tom afetuoso.

– Tenho dinheiro que me baste. O meu sogro é que se encanta com a perspetiva.

– Não podemos declarar James morto sem antes fazermos nova tentativa para o encontrar – disse Theo, falando rapidamente. – Tenho pensado que o melhor será regressar a Inglaterra e ver o que aconteceu a esses detetives que enviei. Depois do Natal, talvez a tempo para a temporada. Não posso ficar para sempre em Paris.

Cecil aclarou a voz.

– O meu sogro também alugou um desses homens há dois anos.

– E ele não encontrou nada?

– Pensei que não valeria a pena dizer-te, a menos que tivéssemos podido encontrar o James. Há regulamentos legais, sabes... o duque tem de estar desaparecido durante sete anos.

– Fará sete anos de junho a um ano – disse Theo, escondendo o rosto triste na chávena de chá. – O teu homem foi à Índia? Lembro-me de James falar desse país.

– Vou perguntar – disse Cecil, levantando-se da cadeira.

O Natal de 1814 foi encantador; a cidade dançou, como só Paris o sabia fazer. Mas Theo deu conta de um terror negro no seu coração. Seria verdade que algo terrível tivesse acontecido a James? Seria horrível tê-lo forçado a sair de Inglaterra para ir morrer a terras estrangeiras. Ou, pior, num naufrágio. Começou a acordar durante a noite, incapaz de voltar a adormecer, imaginando o Percival naufragado durante uma tempestade, o último suspiro de James antes de se afundar nas ondas. Afastava a imagem, adormecia e acordava de novo, apercebendo-se de que a morte explicaria a razão de James nunca ter contactado com o pai.

Era perturbador descobrir que se preocupava tanto com um marido ausente e pouco verdadeiro.

Por fim, uma manhã sentou-se e descobriu que estava cansada da culpa, da tristeza, da saudade maldita que não se ia embora.

– Está morto – disse para consigo, experimentando pronunciar as palavras em voz alta no ar frio da manhã. Era uma ideia dolorosa, mas não avassaladora. Afinal, seis anos, quase sete, era muito tempo e tinham estado casados apenas dois dias. Sentia saudades do seu amigo de infância, muito mais do que da sua breve encarnação como marido.

Pediu a Cecil que a viesse visitar. Ambos planeavam regressar a Inglaterra em fevereiro.

– Esperamos mais um ano – disse-lhe ela. – Nessa altura, faremos o necessário para transferir o título para ti.

– E depois deverás voltar a casar – afirmou Cecil. – A Claribel e eu desejamos ver-te casada e feliz.

Mas com que homem casar? Essa era a verdadeira questão.

Continuava a surgir-lhe a mesma lista de qualidades desejáveis. Gostaria de um homem com boa voz para cantar, porque nunca esqueceria como James cantara para ela de madrugada, depois de terem feito amor durante toda a noite.

Queria alguém com olhos azuis. Gostaria que tivesse um sorriso generoso, sentido de humor e fosse profundamente bondoso.

Não seria preciso grande inteligência para perceber que aquela lista de exigências conduzia a um homem ausente e cuja morte era quase certa. Por isso Theo redobrava os seus esforços para se convencer da perfídia de James. Desejaria recuperar um homem que casara com ela porque o pai lhe ordenara que o fizesse?

A resposta era horrível. Sim. Sim, desejaria.

Desde que fizesse amor com ela e depois cantasse.


Dezoito

Abril de 1815

O baile de abertura de uma temporada é o mais interessante por várias razões, algumas óbvias e outras mais esotéricas. Não só todas as jovens que entram na sociedade fazem a sua primeira aparição, mas também a composição da alta sociedade se torna evidente. Quem está de luto ou ficou no campo? Que casamentos estão de tal forma perturbados que marido e mulher vivem em casas separadas? Quem perdeu tanto dinheiro nas corridas que aparece com um casaco levemente antiquado?

Foi num primeiro baile que Beau Brummell fez a sua aparição, imaculado, de preto e branco. Foi num primeiro baile que Petunia Stafford exibiu os caracóis cortados que lhe davam a aparência de uma criança tonta, mas ao mesmo tempo deslumbrante, noutro, Lady Bellingham apareceu com os saiotes molhados (e houve aqueles que até hoje se questionam se ela teria vestido uma camisa).

Theo decidiu faltar ao primeiro baile da temporada de 1815. Seria demasiado óbvio e considerava como regra implícita que a condessa de Islay nunca fazia o que era óbvio.

Claro que fora convidada. Assim que alguém reparou que o batente da porta do número 45 de Berkeley Square fora substituído, significando que Theo estava em casa, os convites surgiam em catadupa.

Havia muita gente que mal se lembrava dela, pois casara durante a temporada de 1809 e nunca mais ninguém a vira na sociedade de Londres. Queriam analisar a sua fealdade.

Mas havia também outros que tinham visitado a capital francesa ou tinham tido notícias do que lá se passava e que, confidencialmente, recordavam que os patinhos feios – e as duquesas – por vezes se transformavam em cisnes.

De facto, Theo decidiu não só não estar presente no baile de abertura mas esperar também que passassem três semanas da temporada. Decidira fazer a sua primeira aparição – e reentrada na sociedade britânica – num baile organizado por Cecil e Claribel.

Claribel continuava tão oca como na década anterior. A sua beleza suave e leitosa não envelhecera bem: começava a parecer uma rosa murcha, antes das pétalas começarem a cair. E, tal como acontecera a Cecil, a sua cintura alargara consideravelmente.

Por outro lado, a magreza angulosa de Theo e as suas feições fortes tinham-se concentrado depois dos vinte anos. Sabia que nunca tivera melhor aparência – mas, de cada vez que se permitia essa ideia, seguia-se o arrependimento. A sua mãe nunca teria aceitado aquela observação tão vaidosa e egoísta. Era verdadeiramente espantoso que a mãe pudesse ter falecido e parecesse estar constantemente a falar-lhe ao ouvido.

Quando Mr. e Mrs. Pinkler-Ryburn abriram o baile, o assunto nas bocas de toda a gente era a condessa de Islay. Tinham-se espalhado as notícias de que ela aceitara o convite dos parentes.

– Convidámos Lorde Tinkwater? – perguntou Claribel ao marido, vendo o mordomo fazer entrar um lorde incrivelmente embriagado que tivera sabedoria suficiente para criar um método de caminhar que não necessitava de um sentido de equilíbrio.

– Não, minha querida – respondeu Cecil. – Apareceram muitas pessoas que não tínhamos convidado.

Apertou o braço de Claribel e voltou-se para cumprimentar Lorde Tinkwater.

Mas, quando decidiram terminar os cumprimentos aos recém-chegados, não havia sinais de Lady Islay. Mal tinham descido a escada em direção ao salão de baile quando um terrível ruído se fez ouvir atrás deles.

– Tem de ser a Theo – afirmou Cecil, voltando-se para olhar para o cimo das escadas. – Planeou a sua entrada na perfeição, claro. Maldição! – acrescentou logo a seguir.

Claribel ia repreendê-lo por usar aqueles termos na sua presença, mas limitou-se a abria a boca.

A mulher que, com um breve sorriso de autoconfiança, olhava para todos eles do cimo da escada parecia uma deusa que acabara de descer à terra vinda de Paris. Irradiava uma espécie de inefável encanto que, simplesmente, ninguém poderia aprender – e Claribel sabia-o por experiência própria depois de ter feito múltiplos esforços.

O tecido do vestido de Lady Islay custara certamente o mesmo que Claribel recebia para gastar num trimestre. Era um tafetá de seda rosa-pérola com fios de prata, que mal lhe cobria os seios e, a partir deles, o vestido caía direito até ao chão numa ampla e magnífica onda de tecido.

O rosa acentuava-lhe a cor do cabelo – um âmbar queimado, entretecido com fios cor de conhaque e rainúnculo. Se o tivesse deixado livre em redor do rosto, talvez se tivessem formado caracóis encantadores! Claribel pensou informá-la em privado dos mais modernos ferros de frisar. Ela própria tinha uns magníficos saca-rolhas junto às orelhas.

Mesmo assim, naquela noite, havia algo de magnífico, quase hipnótico, na condessa. A pièce de résistance do seu vestido era uma capa curta que cintilava à luz, suave e lustrosa, quase como se fosse feita de pele.

– Maldição! – repetiu Cecil, quase em surdina.

A mulher olhou-o e viu com espanto que os olhos dele cintilavam com um apreço que reconhecia – e costumava reservar para si própria e para a sua generosa figura.

– Não vejo razões para impropérios – observou e avançou para cumprimentar a convidada.

– Estás maravilhosa, Lady Islay – elogiou Theo momentos depois, com toda a franqueza. – O teu vestido é extraordinário. Queres que o Jeffers te guarde a capa? Receio que, apesar de muito bonita, seja demasiado quente.

Cecil inclinou-se sobre a mão enluvada de Theo.

– Oh, não – disse ele, mesmo antes que Lady Islay pudesse responder. – Tenho a certeza de que a Theo deseja usar a capa pelo menos durante uma parte da noite. – Havia uma nota divertida na sua voz.

– Se tem a certeza de que não vai sentir muito calor – retorquiu Claribel, hesitante, olhando para a capa, que saltou dos ombros de Lady Islay e depois caiu no chão, parecendo espantosamente leve. O interior era forrado com uma maravilhosa seda rosada e o exterior...

– Mas de que é feita? – Claribel não conseguiu evitar a pergunta, estendendo a mão para lhe tocar.

– Posso até adivinhar – declarou Cecil, com uma nota ainda mais divertida na voz.

– Ah, podes? – perguntou Theo. – Então diz-me: estou a ser demasiado óbvia?

Claribel não fazia a mínima ideia do que ela estava a dizer. Mas, Cecil, sempre inteligente, sabia do que se tratava porque ria às gargalhadas.

– Flanela fina – explicou ele. – Flanela tão fina que parece feita de penas de cisne e todos nesta sala já se aperceberam da tua transformação triunfal numa dessas aves.

– Não resisti – confessou Theo com um sorriso que era ainda mais atraente por ser raramente visto. – Que sorte tens com o teu marido – disse a Claribel. – É um homem especial que conhece os contos de fadas.

– Bem sei, podes ter a certeza – concordou Claribel, gaguejando um pouco. Havia algo de intimidante em Lady Islay. Era tão elegante. E o seu cabelo austero, que deveria ter um ar horroroso, parecia sensual, embora essa fosse uma palavra que Claribel não gostasse de usar.

E mais, apercebia-se agora de que o vestido dela era escandalosamente fino. Não admirava que não se preocupasse em poder sentir calor. Porque, quando Islay se voltou para cumprimentar Lorde Scarborough, Claribel viu-lhe distintamente o contorno da canela nua.

Abafou um suspiro. Claro que adorava os seus três queridos filhos, mas carregá-los no ventre tivera um efeito pernicioso na sua figura. Comparando-se com Theo, sentia-se uma almofada demasiado cheia.

– Está maravilhosa, não achas? – comentou o marido.

– Creio que deveria estar um pouco mais coberta – referiu Claribel. Sem querer falava num tom levemente magoado.

Cecil pegou-lhe na mão enluvada e levou-a aos lábios.

– Não deves estar a pensar que eu acho a Theo mais atraente que tu.

– Tem uma figura perfeita – disse Claribel, melancólica. – Mesmo perfeita.

Ele inclinou-se um pouco mais.

– Um homem não quer saber dessas coisas, minha doçura.

Claribel revirou os olhos.

– Está gelada – disse, mais calma. – Sabes que a adoro, mas não invejo o homem que casar com ela. Olha!

Voltaram-se ambos para ver a condessa rodeada de homens tão juntos como cêntimos na caixa de esmolas de uma igreja.

– Estão fascinados, intrigados, adoram-na até – constatou Cecil. – Mas muitas vezes vi essa mesma reação em Paris. Se queres saber, é por isso que nunca houve a mais leve suspeita de escândalo em relação a ela nos últimos seis anos. Ninguém queria realmente levá-la para a cama.

– Cecil, dizes cada coisa!

Ele lançou-lhe um olhar cintilante.

– Agora tu, és um caso diferente. Ai de mim, a minha figura já não é o que era.

– Como se eu me importasse com isso!

– Então, porque pensas que não adoro cada uma das tuas curvas? – perguntou e o seu olhar confirmava o que acabara de dizer. – Mas, mais ainda, Claribel, adoro o facto de vires para a nossa cama com prazer. És a minha...

– Mister Pinkler-Ryburn! – exclamou Claribel. – Está a esquecer-se de quem é. – Mas tinha as faces vermelhas e os dedos tremiam-lhe junto aos dele. – Somos afortunados – acrescentou suavemente para o marido e depois retirou a mão. – Basta destas tolices. Que coisa estava Lady Islay a dizer acerca dos contos de fadas?

– Todos aqueles que lhe chamaram a «duquesa feia» têm agora de engolir o que disseram – declarou o marido. – A condessa transformou-se num cisne e agora é ela que faz troça deles.

– Já me tinha esquecido disso – retorquiu Claribel, franzindo o nariz. – A minha mãe disse que tudo isso tinha sido muito indelicado e não nos deixou ler o jornal durante uma semana.

Cecil inclinou-se e poisou-lhe um beijo no nariz.

– Bem sei, minha querida. É por isso que tu és um biscoitinho doce e a Theo é um bolo implacável e magnífico.

– Não sou um biscoitinho. – Mas não pôde deixar de sorrir.


Dezanove

Os presentes no baile dos Pinkler-Ryburn fizeram lembrar a Theo pardais empoleirados numa vedação. Desciam de uma árvore em bando chilreando como loucos. Um pássaro começava a voar e os outros seguiam-no em histeria e todo o bando descia quase imediatamente para a vedação, dez metros à esquerda, ou à direita.

A chave para o controlo da noite, decidiu ela, seria o pardal que determinasse o comportamento do bando. Quando o salão de baile ficava intoleravelmente cheio, Theo dirigia-se ao terraço levando um grupo de cavalheiros colados a si por meio de uma agradável mistura de sensualidade e admiração. E, mais importante, eram homens que estavam de acordo com o seu sentido de elegância.

Quando Mr. Van Vechten se juntou a eles, com o seu casaco de veludo de uma agressiva cor púrpura com riscas em tom de pêssego, mostrou-se tão desdenhosa que ele se retirou tão depressa como tinha aparecido. O mesmo aconteceu a Mr. Hoyt acerca de quem corria o boato de ter uma fortuna em ouro, mas que, infelizmente, tinha tendência a mostrar o seu tesouro em forma de botões de muito mau gosto.

Ao ver o pequeno grupo de Theo a rir enquanto ela dizia graças a quem a acompanhava, o salão de baile esvaziou-se no terraço.

Sentindo-se quase tão sufocada como se sentira lá dentro, Theo decidiu, maliciosamente, ir dar um passeio nos jardins. Não havia dúvidas em relação ao seu acompanhante, deu o braço a Lorde Geoffrey Trevelyan.

Estavam ambos mais velhos. Ela soubera que ele se casara naquela primeira temporada (embora não com Claribel, obviamente) e que a mulher morrera dois anos depois. Tinha agora rugas nos cantos dos olhos e as faces magras. Porém, tudo o resto era igual: os olhos escuros, amendoados, um sorrisinho malicioso nos lábios. E o coração dela ainda batia levemente mais apressado quando o via.

Quando ela e Geoffrey regressaram ao terraço, os convidados de Cecil corriam um pouco embriagados pelos carreiros escuros fingindo estar em Vauxhall.

Theo dirigiu-se ao salão de baile, agora com pouca gente, e permitiu que Geoffrey a arrebatasse numa valsa. Foi solicitada quando essa valsa chegou ao fim e outra se seguiu; parecia que todos pretendiam dançar com o cisne e não queriam uma quadrilha.

Não. Queriam ouvir o riso dela, baixo e rouco, achando graça ao que dizia e sentindo a emoção de terem junto às suas aquelas pernas esguias de potro.

– Há qualquer coisa nela – disse a Cecil o coronel MacLachlan, com o desejo tangível na voz. – Não me importo de dizer que não é o meu tipo. Gosto das mulheres pequenas e redondas. Além do mais, troçou de mim e sei que pensa levar-me para a cama tanto quanto pensa levar o Regente3!

Porém, os seus olhos seguiam Theo pelo salão de baile. Estava nos braços de um homem com idade suficiente para ser seu pai, no entanto, todos viam que, quando ela lhe sorria, o homem endireitava-se e tornava-se mais ousado nas voltas da valsa.

– A Theo é como a Diana caçadora – disse Cecil, balançando-se um pouco sobre os calcanhares. Desfrutava da explosão de popularidade experimentada pela sua prima por afinidade. – Bela, porém, levemente mortífera, pronta a pegar no arco e nas flechas ou a transformar um homem num porco aos guinchos. Sensual, mas com um toque gélido e virginal.

– Valha-me Deus, homem, parece um poeta – disse MacLachlan espantado. – Não deixe que a sua mulher o oiça dizer tais coisas acerca da condessa.

Cecil riu. Não estava preocupado com Claribel; compreendiam-se um ao outro e os seus momentos mais felizes eram os mais íntimos. Aquele tipo de laço significava que ela sabia perfeitamente que ele nunca a trairia. Além do mais, ele era de opinião que a vida ao lado de Theo seria notoriamente incómoda.

Era encantador ler as regras que escrevia, mas a mesma tendência para catalogar a perfeição podia ser vista na vida dela. Não sugeria, proclamava. Era demasiado acalorada nas suas opiniões, implacável, arguta.

Demasiada confusão. Muitas penas.

Como convinha a um cisne, claro.

Ao mesmo tempo que Theo desfrutava da sua subida meteórica na alta sociedade, da silenciosa admiração conferida a todos os seus comentários em relação ao estilo, as constantes menções a cisnes (e nunca a patinhos) desapareciam.

No outono de 1815, os jornais tinham o costume de lhe pedir mais uma das suas «regras»; La Belle Assemblée nunca deixava de incluir uma ilustração pormenorizada de cada um dos seus trajes.

Pensou que seria muito agradável que James regressasse para ver como a sociedade falava da mulher como uma força a ser respeitada.

E assim Theo tinha o fantasma de uma pessoa – a mãe – a espreitar-lhe por cima de um ombro e o fantasma de outra – James – a espreitar-lhe por cima do outro. E, apesar de não lançar uma névoa romântica por cima dos poucos dias do seu casamento, pensara bastante em a quem atribuir culpas – e, de facto, se «culpa» era uma questão útil no casamento.

Concluiu que James fora empurrado pelo pai para uma ação que sabia ser moralmente condenável. Porém, amava-a a seu modo. Tinha a certeza.

Aproximava-se o limite imposto por ela e por Cecil e Theo sabia ter de aceitar o facto de que seria um milagre se notícias de James surgissem naquele momento.

Pouco tempo depois de 1815 se transformar em 1816, convocou Cecil para uma reunião com Mr. Boythorn, advogado da família, que o esclareceu detalhadamente acerca da petição de uma morte in absentia à Câmara dos Lordes, esclarecendo a impossibilidade de Theo de gozar dos deveres e responsabilidades de uma esposa ou da liberdade e proteção de uma viúva.

– Devemos fazer um serviço fúnebre pelo meu marido – disse Theo aproveitando uma pausa do advogado para respirar. – Depois de o darmos como morto de uma forma tão seca. Suponho que será absurdo guardar luto durante um ano. Mas vestir-me-ei de luto pelo menos por um curto período de tempo. James era muito jovem quando saiu de Inglaterra, mas há muitas pessoas que se recordam dele.

– Quando eu era rapaz, todos me chamavam Pink – acrescentou Cecil. – James nunca o fez.

O advogado aclarou a garganta.

– Um serviço fúnebre na Catedral de São Paulo seria o mais apropriado depois de Lorde Islay ter sido formalmente declarado falecido. Pode também colocar-se uma pequena placa para comemorar a vida desse jovem corajoso. Acredito que o Percival se afundou quase imediatamente.

– Certamente que não – disse Theo, sem querer pensar em tal.

– O navio dirigia-se para a Índia, pelo que se sabe, mas nunca mais foi visto. A rota está assolada pelos piratas – observou Mr. Boythorn. – Mais do que um marinheiro me disse que seria milagre o Percival ter escapado a esse infeliz destino.

Theo suspirou.

– Cecil, seria aceitável se Mister Boythorn começasse a tratar dos procedimentos para submeter a petição de morte in absentia a Lorde Chancellor e à Câmara dos Lordes? Se recebermos notícias em contrário no próximo mês, claro que a petição será retirada imediatamente.

– Não preferes esperar mais um ano, minha querida? – Haveria alguém mais relutante do que Cecil em assumir o título de duque?

Theo olhou-o com um leve sorriso.

– Gostei muito de administrar os domínios, principalmente em relação à tecelagem e à cerâmica. Mas gostaria de prosseguir com a minha vida. Sei que praticamente já sou velha...

– Não és nada! – exclamou Cecil com um muito satisfatório tom de indignação na voz.

– Tenciono procurar marido depois de a petição ser aprovada – continuou Theo. – E mais um ano não me serviria de nada.

– Como deve ser – entoou solenemente Mr. Boythorn. – Chegou o momento de fecharmos esta triste passagem na história dos duques de Ashbrook. Lorde Islay faleceu na primavera da juventude, mas a vida deve continuar.

E com esta série de frases feitas, a conversa terminou.

Longa vida ao novo duque.

3 O príncipe de Gales, mais tarde Jorge IV. (N. da T.)


Vinte

A bordo dos Poppys

Em 1814, os Poppys navegaram para a Índia, sem tomarem um único navio no caminho; fizeram-no unicamente para provar que os seus capitães não teriam problemas com os ventos da monção. Porém, já que lá estavam, andaram às voltas até Griffin decidir que as nobres sicilianas que conhecera (intimamente) se apaixonariam por gaiolas douradas; encheu com elas o porão. James apaixonou-se por um sabor chamado caril e por isso encheu as gaiolas de embalagens de açafrão das índias e cominhos.

A caminho de casa, uma tripulação pirata foi tão ignorante que não conseguiu afundá-los, por isso tomaram-lhes o navio, deixaram os homens numa ilha deserta (conforme era seu hábito) e continuaram a navegar com um monte de esmeraldas num canto do camarote de Griffin, revelando que os Poppys não eram os primeiros navios de que esses malfadados piratas se tinham aproximado.

Venderam as gaiolas na Sicília com um lucro espantoso. Enviaram o caril para Inglaterra, onde o funcionário (pois tinham agora estabelecimentos para gerir os seus bens em cinco países) lhes participou que a princípio não tivera muita saída, mas que ao fim de três meses estava a ser vendido a setenta vezes mais do que o seu custo.

Jack aprendera a controlar o seu mau génio. Acabara até por pensar no pai com equanimidade. Quando se matam homens em número considerável – embora sejam piratas que também mataram centenas – o desvio de dinheiro parece um crime infantil. Talvez mais importante, a culpa foi algo que se recusou a permitir que governasse a sua vida.

E Daisy... deu por si irritantemente incapaz de esquecer o modo encantador como os olhos dela se abriram da primeira vez que lhe tocara o seio, já para não mencionar todos os anos de infância em que tinham brincado e discutido. Mas disse a si próprio várias vezes que essas eram memórias de um rapaz chamado James e que Hawk se orgulhava de esquecer tudo o que tinha a ver com a sua vida em Inglaterra, casamento incluído.

Depois a sorte fugiu-lhe.

Nos princípios de 1816, tinham acabado de tomar o Groningen por pedido especial do rei da Holanda; o barco da marinha fora roubado e estava a ser utilizado para o assalto a navios mercantes. Estava tudo sob controlo; o capitão pirata recebera a sua justa recompensa e apenas alguns homens do Groningen continuavam a combater.

Jack estava prestes a exigir uma ordem de rendição quando, à sua direita, apareceu rapidamente um pirata com uma navalha aberta.

Sentiu a lâmina cortar-lhe o pescoço, mesmo por baixo do queixo. Não o magoou, o que foi estranho, mas houve uma terrível sensação de carne separada, seguida por um escorrer de sangue quente pelo pescoço abaixo.

Recuou, deixou cair as armas e desmaiou no convés. Ouviu-se um tiro de uma pistola e o pirata da navalha recuou e aterrou no convés com um baque audível.

Depois, Griffin caiu de joelhos junto a Jack, praguejando, gritando ordens.

Jack semicerrou os olhos para olhar para o primo de encontro ao sol como se este tivesse um halo, pouco nítido.

– Boa sorte – disse, mas nada lhe saiu dos lábios.

Claro que os homens a quem cortavam as gargantas não podiam falar. Ele e Griffin tinham começado a estimar-se como irmãos, embora, sendo homens, nunca o tivessem expressado. Não era preciso.

Agora Griffin estava inclinado sobre ele, metendo-lhe panos debaixo do queixo. James olhou-o nos olhos e descobriu que estavam aterrorizados. Apercebera-se da verdade antes de a ler nos olhos do primo. Os homens a quem cortam as gargantas não vivem.

– Não vais morrer – ordenou Griffin através dos lábios brancos, ferozmente como apenas um rei dos piratas o podia fazer. – Maldição, James, aguenta-te. O Dicksling estará aqui dentro de momentos e vai coser-te para ficares como novo.

James formou cuidadosamente as palavras.

– Diz à Daisy. – O som não escapou e a dor inundou-lhe o corpo, enchendo-lhe o campo de visão de pontos negros. Mas havia apenas uma coisa no seu coração, uma coisa que tinha de dizer, embora fosse chocante descobri-lo.

– A Daisy? – perguntou Griffin, inclinando-se ainda mais. – A tua mulher. Digo-lhe o quê?

Mas os pontos negros ligavam-se e corriam para ele como se uma tempestade de areia se erguesse de súbito do mar.

E, nesse preciso momento, o pirata que caíra fez um último esforço violento: sentou-se e lançou a navalha a Griffin. Com um grito, este fechou as mãos entre as pernas. O sangue voou ao vento e espalhou-se pelo rosto de James.

Tudo terminara. Foi nesse momento que James se apercebeu que sempre o soubera.

Não conseguira formar a única palavra que queria desesperadamente dizer.

E não havia ninguém para a ouvir.


Vinte e Um

3 de abril de 1816

A petição para declarar o fim da vida do conde de Islay entrava nos tribunais da Chancelaria quando Theo recebeu uma mensagem de mais um dos vinte detetives que haviam regressado a Inglaterra.

Mas esta mensagem era diferente. Parecia trazer notícias.

Sentou-se imóvel a olhar para o bilhete que tinha na mão.

Se James estava vivo, o homem que dava pelo nome de Mr. Badger, certamente teria escrito Encontrei o seu marido e não Trago notícias. Sentiu a desolação como uma coisa palpável no estômago, como se outro coração batesse debaixo do seu.

Chamou o seu novo mordomo, Maydrop, e instruiu-o para que solicitasse a visita de Mr. Pinkler-Ryburn nessa mesma tarde. Mr. Badger era um indivíduo moreno e hirsuto, de pernas arqueadas e olhar feroz. Ficava-se com a distinta impressão de que os criminosos sentiriam grande pesar ao descobrirem que Badger andava no seu encalço.

– Tem suíças como um peixe-gato – murmurou Cecil, mas Theo estava demasiado nervosa para sorrir. Encontravam-se ambos sentados num sofá e Mr. Badger numa cadeira em frente deles. Theo estava tão inquieta que parecia ter moscas a dançar sobre a sua cabeça, porém, Mr. Badger começou a falar cheio de rodeios. Levou uma eternidade a explicar precisamente onde o trabalho lhe fora entregue pelos seus superiores, quantos homens levara consigo, quantos contratara nas ilhas, quanto tempo levara a navegar até ao primeiro porto para abastecer.

Pela primeira vez em anos, Theo sentiu o impulso de roer as unhas, um hábito que abandonara quando ainda era pequena.

– As Índias Ocidentais não são civilizadas pelos nossos padrões – continuou Mr. Badger. – Receio que tenha necessitado de me servir de vários subornos para conseguir obter a informação de que precisava.

– Encontrou o meu marido? – interrompeu-o Theo sem conseguir esperar mais.

– Não. Não encontrei.

Theo engoliu em seco.

– Mas teve notícias dele?

– Sou de opinião que não estava morto em mil oitocentos e dez – disse Mr. Badger regressando à folha de papel que tinha equilibrada sobre os joelhos. – Estava... bom... – Passou-lhe pelo rosto uma expressão de verdadeira reprovação.

– Estava a viver com outra mulher – concluiu Theo, naturalmente.

– Era um pirata.

Cecil soltou uma exclamação abafada e Theo um grito. De horror ou de surpresa, não era capaz de dizer.

– Impossível – declarou um segundo depois.

Mr. Badger lambeu o dedo e voltou a folha.

– Era conhecido como o Conde entre vários membros do mundo do crime. Devo recordar-lhe que nesta ocasião James Ryburn gozava do privilégio do título de conde de Islay. Trabalhava em sociedade com outro pirata conhecido como Griffin Barry.

– Esse nome parece-me familiar – disse Cecil.

– Barry é de facto membro da aristocracia. – Mr. Badger lançou-lhes um olhar de soslaio como se fossem pessoalmente responsáveis por este réprobo membro da classe. – E, na minha opinião, o dito Sir Griffin conduziu Lorde Islay por caminhos iníquos e perversos para não lhes chamar criminosos.

– Criminosos! – Cecil parecia de novo sufocado. – O meu primo James jamais cometeria algo criminoso! Apostava a minha vida.

– Não o aconselho a fazê-lo – afirmou Mr. Badger. – Havia alguma confusão acerca das verdadeiras atividades do Conde e de Barry. Alguns afirmavam que Barry atacava apenas navios de outros piratas, pelo menos, após se ter juntado com o Conde. Há provas de pirataria da parte de Barry anteriores a mil oitocentos e oito, mas, depois dessa data, especializou-se, se é que se pode usar o termo, em atacar os seus colegas réprobos, o que faz dele um «corsário» e não um pirata – fez uma pausa. – Para quem respeita a lei a diferença é muito ligeira.

– Impossível! – declarou Theo, sentindo-se pela primeira vez feliz por a mãe já não estar viva.

– Se esse Conde tem alguma ligação com o meu primo, então tenho a certeza de que só atacava navios piratas – afirmou Cecil. – Sua Graça é um homem honrado e era tão capaz de prejudicar vidas inocentes como de... de fazer batota a jogar às cartas.

Theo poisou a sua mão sobre a dele e apertou-a. Se, ao menos, James ali estivesse para ouvir a fervorosa defesa de Cecil.

– O que aconteceu ao Conde? – perguntou. – Mataram-no?

– Há uma lenda construída em volta do barco, o Poppy Two, mas ninguém foi capaz de me dizer qual o destino dele – referiu Mr. Badger. – Claro que deixei lá homens com instruções para o descobrirem. Viajam de ilha para ilha fazendo extensas investigações em todos os locais. Tudo o que conseguimos determinar na data do meu regresso a Inglaterra foi que o dito Griffin Barry teve um sócio a quem chamavam o Conde. Mas pouco depois, o Conde foi substituído por uma personagem medonha conhecida como Jack Hawk.

– Jack! – exclamou Theo. – Jack pode querer dizer James. – Ao mesmo tempo que desejava qualquer prova de que ele pudesse estar vivo, não tinha a certeza de gostar muito da ideia. Significaria que James era um pirata, um criminoso sedento de sangue que obrigava pessoas a caminhar pela prancha para as deitar ao mar. – Embora, mesmo assim, não acredite! – acrescentou.

– Concordo que haja semelhança nos nomes – disse Mr. Badger. – Mas a semelhança termina aqui. Mandei que duas pessoas desenhassem o retrato desse Jack Hawk, como é conhecido nessas partes do mundo. Vossa Graça perdoe-me a indelicadeza, mas tem uma quantidade de mulheres apaixonadas por ele. Não há qualquer possibilidade de o Conde e Jack Hawk serem a mesma pessoa: das descrições que me fizeram dele, Hawk é um homem monstruosamente grande com a cabeça rapada e uma tatuagem debaixo do olho direito.

– Uma tatuagem? – repetiu Cecil.

– Mas o que é uma tatuagem? – perguntou Theo.

– É uma decoração metida na pele utilizando-se pigmento e uma agulha – explicou Mr. Badger. – Creio que seja pouco provável que um inglês, e ainda por cima um nobre, se submeta a um procedimento tão bárbaro, que é ao mesmo tempo doloroso e impossível de apagar. Vi alguns exemplos enquanto estive nas ilhas e pareceram-me notoriamente selvagens.

– Concordo com o senhor em que possamos descartar a possibilidade de esse pirata e Lorde Islay serem o mesmo – disse Theo. – De facto, creio que a sua suposição anterior é também pouco provável, Mister Badger. O facto de Griffin Barry ser membro da aristocracia é prova insuficiente para chegar à conclusão de que um criminoso chamado Conde possa ter ligações ao meu marido.

– Receio que não possamos oferecer sequer uma recompensa parcial por essa informação – concordou Cecil. – Lorde Islay nunca foi um pirata. Essa suposição é pouco provável, já para não dizer insultuosa à sua memória.

Theo deixou passar a referência à «memória»; para Cecil era cada vez mais difícil falar do primo no presente. Compreendia. Afinal, James desaparecera havia quase sete anos.

– Fui interrompido antes de vos poder apresentar um elemento de prova – disse Mr. Badger, com um ar tão satisfeito como um gato que acaba de apanhar um rato. Meteu a mão no bolso do peito e retirou dele uma bolsinha de flanela que tratou de abrir.

Lá dentro estava um medalhão.

E, dentro do medalhão, uma madeixa de cabelo encaracolado, cuja cor ia desde o bronze ao brande.

– Não entendo o significado desse objeto que nos está a mostrar – disse Cecil afastando-se com um aceno da mão. – Um medalhão manchado com uma madeixa de cabelo... – olhou Theo de soslaio e interrompeu o que estava a dizer.

– É o meu cabelo – afirmou Theo, movendo os lábios com dificuldade. – James cortou-mo na noite de núpcias. Isto é, na manhã seguinte. – Estendeu a mão. – Pode dar-mo, por favor?

Mr. Badger entregou-o. Conforme Cecil dissera, o medalhão estava manchado e era de pouco valor. Porém, Theo não tinha dúvidas de que se tratava do seu cabelo. Passara muitos anos lamentando a sua estranha cor para se enganar.

– Pode não ser o teu cabelo – alvitrou Cecil, espreitando a mão dela. – Concordo que haja alguma semelhança, mas a tua cor é muito mais clara, minha querida.

– James cortou-o por baixo, para que não se notasse. O cabelo é mais escuro, mas a madeixa tem toda a estranheza do meu cabelo. Como uma zebra amarela, era o que James sempre dizia. – Para sua aflição, falava coma a voz entrecortada.

– Onde encontrou isto? – perguntou Cecil a Mr. Badger, apertando o braço de Theo ao mesmo tempo. – Não que eu considere que seja de facto o cabelo de Lady Islay.

– Parece ter sido roubado ao homem que dava pelo nome de Conde. Afirmei que pagaria cem libras, uma fortuna nessas paragens, pela prova da existência do duque. No decorrer das minhas investigações, estendi a oferta para incluir pormenores acerca de um pirata chamado Conde. Foi o que me trouxeram em resposta.

– E, mesmo assim, ninguém sabe o que aconteceu ao homem? – perguntou Theo num murmúrio. Fechou o medalhão com dedos trémulos. Bastara-lhe olhar para a madeixa de cabelo para recordar a extrema alegria desse dia. Nunca mais se sentiria assim.

Mr. Badger abanou a cabeça.

– O Flying Poppy há três ou quatro anos que não é visto nessas paragens, o que não é extraordinário. Griffin Barry opera em toda a parte, senhora duquesa. Tivemos notícias dele pela Índia e depois perto do Canadá. Chamam-lhe «peixe voador» e epítetos semelhantes.

– E quando o Poppy regressou o Conde desapareceu.

– Exatamente. E o diabo é que o Poppy não foi visto nos últimos dois anos e também não ouvi mais histórias a seu respeito. Assim sendo, há a possibilidade de Barry ter ido parar ao fundo do mar, levando consigo a verdade acerca do que aconteceu a Lorde Islay.

Seguiu-se um silêncio; Mr. Badger chegara ao fim da sua narrativa. Foi Theo quem disse o que tinha de ser dito.

– Partiu! – fechou os dedos em redor da insignificante peça de metal manchado. – O James morreu.

Mr. Badger acenou com a cabeça e com uma expressão desgostosa.

– Lamento que assim seja. A pirataria é terrível e admiro-me muito que Sua Senhoria tenha sobrevivido um mês ou dois, quanto mais tanto tempo. Lorde Islay estaria certamente em desvantagem, rodeado por tantos fora-da-lei para quem matar pelas costas equivale a um cumprimento delicado.

– Esta pergunta é de facto desagradável, mas creio que terá de ser feita – interrompeu Cecil. – Há alguma possibilidade de o meu primo ter deixado um filho nessas ilhas? Desagrada-me muito a ideia de um Ryburn crescer em circunstâncias tão melindrosas.

O coração de Theo deu um pequeno salto. Porém, Mr. Badger negava com a cabeça.

– Jack Hawk é que era mulherengo. Tanto quanto sei, esse réprobo espalhou filhos pelas Ilhas Orientais; a sua reputação sugere-o. Mas o conde tinha um caráter muito diferente.

– Como era? – perguntou Theo com o coração apertado e aflito algures dentro do peito.

– Não há sinais de alguma vez ter visitado mulheres – referiu Mr. Badger, com uma expressão distintamente apenada no olhar. – Esse facto sugere que, quando embarcou nesta estranha carreira, Lorde Islay não descartara todas as qualidades que distinguem um cavalheiro inglês. E claro que guardou o medalhão.

– Ainda bem que o velho duque não está aqui para ouvir isto – comentou Cecil. – Teria morrido de desgosto.

Um soluço subiu pela garganta de Theo, com tal força que lhe distorceu a boca. James estava morto, fora assassinado por um pirata, o seu corpo provavelmente atirado ao mar. E guardara a madeixa encaracolada do seu cabelo quando saíra de Inglaterra. Não podia suportá-lo... não podia suportá-lo.

A mão deslizou-lhe do braço de Cecil.

– Perdoem-me – conseguiu dizer, sentindo as lágrimas correrem-lhe no rosto.

Mr. Badger levantou-se acenando com a cabeça. Tinha a expressão de um homem que já antes fora portador de más notícias.

Cecil tentava levantar-se com alguma dificuldade do canapé.

– Vai – disse um pouco ofegante. – Fico mais uns minutos a conversar com Mister Badger. Mais tarde vou visitar-te, minha querida.

Theo saiu rapidamente da sala, com o medalhão apertado na mão.


Vinte e Dois

30 de maio de 1816

Câmara dos Lordes

Londres

O Garter King-of-Arms, responsável pelo comportamento e pela precedência na Câmara dos Lordes, temia o dia que o esperava.

– Tenho de os alinhar a todos para entrarem na Câmara – disse Sir Gismond aborrecido à mulher, enquanto comia as suas torradas com doce de laranja. – São ao todo quase cem e vão andar a vaguear por lá, principalmente os mais velhos. Detesto as ocasiões formais. A sério que detesto.

Lady Gismond assentiu. Sabia que o seu amado Henry os detestava, mesmo que apreciasse ter a possibilidade de se exibir como principal conselheiro da Coroa em assuntos de cerimónia e heráldica.

– É uma ocasião tristíssima. Lorde Islay era um homem encantador em todos os aspetos. Não gosto nada de pensar nele perdido por esse mar cruel.

– São os bêbados que causam a maior parte dos problemas – Gismond continuava a sua linha de pensamento. – Nunca adivinharias quantos escondem um frasco sob as vestes vermelhas, minha querida. É verdadeiramente vergonhoso. Tenho de me conter para não os punir nessas ocasiões.

– Hoje não hão de beber – disse Lady Gismond com firmeza. – Quantas vezes é um par do reino declarado morto in absentia? E a própria Lady Islay estará presente. Tenho a certeza de que todos respeitarão a sua angústia ao despedir-se do marido. Disseram que tinha sido um casamento por amor, sabes?

Foi necessário a ajuda de sete arautos, mas Gismond conseguiu alinhar os pares do reino para o cortejo formal de entrada na sala da Câmara dos Lordes: duques com duques e condes com condes.

– Como no raio da arca de Noé – resmungou Gismond para consigo e não pela primeira vez. – Vossa Graça terá de ficar aí – ordenou, colocando literalmente as mãos sobre um idoso e muito surdo par do reino.

Por fim, conseguiu soltar um suspiro de alívio quando as trompetas soaram para que os pares se reunissem formalmente e ele entrou como uma mãe pata particularmente magnífica, conduzindo duas filas de pares faladores. A luz do Sol entrava pelas janelas altas e em arco refletindo-se nos candelabros dourados pendurados no teto.

Teve a perceção de um cenário glorioso quando se voltou no fundo da sala e esperou que os pares, envergando as suas capas vermelhas, debruadas a arminho, enchessem as bancadas.

Lorde Fippleshot parecia não saber dos óculos e Sua Graça o duque de Devonshire movia os dedos na direção da Galeria dos Espetadores ocupada pelos pares do sexo feminino. Mas, mesmo assim, estavam alinhados e nenhum parecia ter abusado do brande durante o almoço.

Infelizmente, a sala só apresentava aquele ambiente entusiasmado quando se tratava de uma questão de morte – um par acusado de assassinato, por exemplo, ou considerado morto, como agora. Embora os pares do sexo feminino também tivessem tendência a aparecer quando se tratava de questões de testamentos e ilegitimidade. Quando se tratava dos votos de rotina para o governo do país, a maioria nem se dignava a aparecer. Mas tratava-se de um pensamento indigno e tratou de o afastar.

Houve uma breve pausa para respirar e a seguir um arauto atravessou a nave seguido pela jovem condessa de Islay. Já nem seria condessa, recordou-se Gismond, sentindo uma pontada de comiseração. Mas também Lady Gismond – que lia os jornais de escândalos com a mesma concentração que alguns reservavam para a Bíblia e outros para as corridas – estava apaixonadamente apegada à ideia de que a condessa deveria casar de novo.

– Precisa de um homem – dissera Lady Gismond naquela mesma manhã. – Nunca houve o mínimo escândalo acerca dela, mas a pobre mulher não terá filhos se isto se arrastar por muito tempo.

Todos os pares do reino se levantaram quando a condessa, vestida de luto, chegou diante da Câmara e fez uma reverência, primeiro à Galeria dos Espetadores, depois aos pares reunidos e por fim a Lorde Chancellor. Terminadas as formalidades, retirou-se para a alcova reservada aos pares do sexo feminino e sentou-se junto de Mrs. Pinkler-Ryburn.

Gismond levou um momento a observá-la, pois a mulher exigiria que lhe descrevesse todos os pormenores do vestido que envergava, quando regressasse a casa. Porém, Gismond nada via de extraordinário. Era alta e parecia ser magra, embora fosse difícil dizer, pois devia trazer vestidos quatro ou cinco saiotes. Parecia uma conta negra no meio de tanto brilho. Como não eram obrigadas a usar as vestes, as senhoras envergavam antes as suas riquezas: os bancos que lhes eram reservados cintilavam positivamente.

O sargento de Armas vociferou um pedido de silêncio e depois seguiram com a cerimónia formal que deu início aos procedimentos (e todos os momentos entusiasmaram a alma de Gismond, tão apreciadora de cerimónias). Por fim, ele próprio ajoelhou e entregou a vara a Lorde Chancellor.

Este sentava-se sobre o Woolsack, uma cadeira sem costas com uma vaga semelhança a um trono, acima dos pares nas suas vestes escarlates e douradas agora instalados mais abaixo nos bancos vermelhos.

Levantou-se.

– Estão reunidos os Lordes dos poderes temporal e espiritual no Parlamento – disse Sua Excelência, a sua voz enchendo sem esforço a sala enorme. – Estamos reunidos e encarregados de uma importante tarefa: determinar se o nobre par, vosso companheiro, conde de Islay, herdeiro do ducado de Ashbrook, deve ser declarado perdido no mar. Envergámos estes esplendores medievais escarlates e arminho em sua honra, em resposta à petição de Morte in Absentia submetida pelo seu inconsolável herdeiro, Mister Cecil Pinkler-Ryburn, que muito adequadamente exprime o mais profundo desgosto por este trágico acontecimento.

Houve um pequeno sussurro de aprovação e Mr. Pinkler-Ryburn mexeu-se, pouco à vontade, no banco mesmo abaixo de Gismond, que instintivamente começou a calcular a quantidade de arminho necessária para adornar as vestes escarlates que cobririam um tão magnífico ventre assim que o homem fosse duque. Mas diga-se em abono da verdade que Pink (o nome pelo qual todos pareciam tratar o herdeiro) não mostrava a mínima expressão de triunfo ou alegria.

– Em sinal de cortesia, conferiremos ao nosso par ausente o título de duque de Ashbrook – prosseguiu Lorde Chancellor –, pois o seu honrado pai faleceu depois da partida do jovem de Inglaterra e, provavelmente, depois de o seu filho ter já sucumbido às ondas. Em consequência, o jovem conde de Islay nunca assumiu os títulos e deveres que herdou e nunca tomou o seu assento entre nós, aqui na Câmara dos Lordes. – Fez uma pausa para respirar e para permitir que sentissem o peso das suas palavras. – A sua esposa recusou-se a chorá-lo na sua ausência – aqui lançou um olhar paternal sobre a cabeça baixa da condessa – e foi incapaz de assumir os deveres e responsabilidades de uma duquesa, tal como não assumiu a liberdade e proteção de uma viúva. Além do mais, o ducado sofreu, sem dúvida, sem a mão condutora do seu senhor.

Gismond ouvira exatamente o contrário; de facto, a maioria das pessoas tinha consciência de que a Tecelagem Ryburn se transformara num êxito pela mão condutora da condessa. A sua mulher mandara colocar estofos novos na sala com os tecidos Ryburn e tinham sido bastante dispendiosos.

Lorde Chancellor apelava agora à discussão da petição para declarar o duque de Ashbrook morto in absentia. Conforme o esperado, o herdeiro do duque, Mr. Cecil Pinkler-Ryburn, pediu autorização para falar diante da assembleia de pares do reino. Subiu os degraus e olhou para a câmara sem falar durante uns momentos.

Havia nele uma estranha dignidade, apesar de ser alentado e muito insignificante.

– Sinto-me profundamente, e devo dizer com toda a verdade, cruelmente afligido por este pedido para declarar desta maneira perdido o meu amado primo. Apenas aceito esta moção a pedido de Lady Islay. Embora deseje evitar os deveres e responsabilidades do ducado, ela, como é evidente e justo, deseja ficar livre do peso que carrega sobre os ombros na ausência do marido.

Todos na sala pareceram concordar e houve um murmúrio de assentimento e muitos acenos de plumas da parte da galeria que acomodava as senhoras.

A seguir, a assembleia escutou um representante da comissão que revira a petição de Mr. Pinkler-Ryburn e que fez notar que um total de vinte detetives haviam sido enviados a várias partes do Globo durante o tempo que o jovem conde estivera desaparecido e as únicas notícias recebidas haviam sido de natureza equívoca.

Como nada mais havia para ser dito, Lorde Chancellor avançou mais uma vez, segurando na mão o cetro da sua função.

– Não há dúvidas de que apreciamos os sentimentos de Mister Pinkler-Ryburn, pois o pesado manto do ducado inglês chega a este cavalheiro, como sempre, com desgosto e luto do seu predecessor.

Neste momento, ouviram-se risadas espontâneas em várias partes da sala; parecia que os espetadores haviam testemunhado mais do que um título com alegria e não com desgosto.

Lorde Chancellor ignorou a falta de decoro.

– A força e o poderio de toda a Inglaterra reunidos não podem deter a marcha do tempo, tal como não podem impedir o movimento das marés ou dos planetas.

A condessa de Maderbury usava plumas de avestruz muito altas que caíam para trás e tocavam no rosto de Lady Bury St. Edmonds. Gismond semicerrou os olhos. Certamente que a centelha de luz metálica não proviria de uma tesoura de bordados na mão de Lady Bury St. Edmonds?

Gismond resistiu ao impulso de verificar o relógio que colocara discretamente sob a sua faixa e deixou que a poderosa voz de Sua Excelência – que passara do movimento das marés para a vontade dos céus – o invadisse.

Porém, nesse momento, algo sucedeu, um acontecimento sobre o qual Gismond não deixaria de falar no resto dos seus dias. Começou com uma movimentação na parte detrás da câmara onde estavam colocados os Yeoman Warders para o caso de algum par insistir em entrar já atrasado. (Era deplorável, mas sabia-se que acontecia.)

Contudo, o retardatário não era certamente um par do reino. Um intruso percorria a nave a passos largos. Um homem envergando um simples fato de calças e casaco preto, sem luvas ou cabeleira.

Lorde Chancellor interrompeu uma frase a meio, no momento em que descrevia os braços do céu abraçando o nobre perdido. Gismond avançou com passo nervoso. Deveria, por direito, lançar o intruso para fora da câmara. Mas não era homem para tomar ações físicas; ergueu uma mão, olhou para os Yeoman Warders ao fundo da sala. Porém, estes continuavam voltados para a frente com os olhos baixos.

A uma leve palpitação de raiva, seguiu-se outra de confusão: tinham sido devidamente treinados e deveriam assumir essa atitude apenas por admissão de um membro dos pares do reino. Gismond sentiu-se empalidecer. Seria possível que um membro da classe jornalística se tivesse atrevido a passar pelos guardas e a franquear aquelas portas?

Endireitou os ombros e preparou-se para entrar em ação.

O homem estava agora à frente da sala e, dando um passo enorme, subiu ao estrado.

Era enorme, mas, mesmo assim, Lorde Gismond apercebeu-se de que aquele era um momento decisivo da sua vida. Tinha de provar ser digno da sua posição e salvar do caos aquela cerimónia. A memória do jovem duque disso dependia.

– Devo pedir-lhe que deixe esta câmara, senhor – disse, elevando a voz acima do burburinho que parecia vibrar de encontro às próprias paredes da sala.

O homem olhou-o e Gismond recuou um passo involuntariamente. O cabelo do intruso mal lhe tocava as orelhas. Tinha a pele morena como a de uma noz e, por baixo do olho direito, a marca selvagem.

– Por Deus, este lugar não é próprio para um selvagem vindo das Américas – vociferou Lorde Chancellor. – Senhor, retire-se para a exposição que o trouxe a este país.

Sem mais resposta do que um triste sorriso exibindo uma centelha de dentes brancos, o homem voltou-se para enfrentar os pares ali reunidos. Mesmo assim, continuava em silêncio. Gismond viu, com um olhar impotente, que até os ocupantes da Galeria dos Espetadores estavam de pé, tentando ver.

– Silêncio – exclamou Lorde Chancellor. – Façam o favor de ocupar os vossos lugares para descobrirmos a razão desta perturbação.

O burburinho não desapareceu, porém, os pares começaram a instalar-se de novo nos seus bancos.

E, durante todo este tempo, o intruso limitou-se a permanecer diante deles, com um estranho sorriso erguendo-lhe um canto da boca. O cérebro de Gismond corria célere. Ouvira histórias acerca dos povos índios das Américas e da sua força e inteligência. Vira mesmo um machado e uma camisa feita de pele de veado em exposição. Todavia, este espécime parecia não trazer qualquer arma. Mas que coisa...

As suas especulações foram interrompidas.

– Ninguém me reconhece? – perguntou o homem.

Gismond nunca ouvira uma voz assim: poderosa, profunda, num tom que fazia estremecer o ar como o urro de um urso.

Porém, apesar da sua rudeza, era inegavelmente a voz de um cavalheiro inglês. Não havia qualquer dúvida em relação às vogais. Nesse momento já se fizera silêncio na câmara.

Pelo canto do olho, Gismond viu Lorde Chancellor estremecer, apanhado entre o exercício da autoridade e um choque tão profundo que ele – como todos na sala – ficou simplesmente a aguardar o que aconteceria a seguir.

– Uma vez que estavam tão aflitos por terem de me atribuir uma sepultura no mar, pensei que me reconhecessem – acrescentou o homem, voltando-se para Lorde Chancellor.

Sua Senhoria soltou um ruído parecido com o guincho de um leitão.

– Impossível!

– Perfeitamente possível – replicou o intruso. Parecia divertir-se. – Os braços dos céus ainda não me puxaram para o seu abraço, sabem.

A esta observação seguiu-se uma onda de murmúrios excitados. Gismond esticou o pescoço para olhar para a condessa, sentada na galeria. Ocorreu-lhe que o duque desaparecido – se é que de facto era ele – não se tivesse apercebido de que a dama estivesse presente, já que não olhara na direção dela. Mas Gismond conseguiu ver-lhe o rosto, branco como a cal da parede.

Depois, Mr. Pinkler-Ryburn levantou-se e, mais uma vez, subiu ao estrado. Embora o homem que afirmava ser o duque fosse, de longe, uma figura muito mais feroz, Mr. Pinkler-Ryburn tinha uma estranha dignidade muito própria.

– Não o reconheço, senhor – disse em tom cauteloso, mas com todo o respeito, como se se dirigisse a um leão que, de súbito, tivesse expressado num inglês muito prefeito o desejo de o comer.

– Nunca nos conhecemos muito bem – replicou o homem.

– Se Vossa Senhoria é de facto o duque, a voz é irreconhecível.

– É o que acontece a quem cortaram a garganta. – O homem inclinou a cabeça para trás. Ouviu-se uma exclamação abafada em toda a sala, quando todos viram a cicatriz que lhe cortava o pescoço bronzeado como se fosse uma gravata.

Gismond sentiu o impulso de levar a mão ao próprio pescoço, mas por sorte recordou-se a tempo da beleza impecavelmente branca do seu colarinho engomado.

– Onde esteve durante estes sete anos – inquiriu Mr. Pinkler-Ryburn.

– Passei muito tempo com quem gosta de cortar gargantas.

Mr. Pinkler-Ryburn endireitou os ombros.

– Então, talvez fizesse a fineza de me responder a uma pergunta. Por que nome era eu ridicularizado na escola, um nome que o senhor nunca usou para se dirigir ou falar de mim?

Pela primeira vez um sorriso suavizou o rosto selvagem.

– Pink – respondeu o homem. – Aqueles idiotas chamavam-te Pink.

Se alguém presente no salão acreditava que Pink desejasse secretamente ser duque, aperceberam-se naquele preciso momento de que estavam enganados, pois ele lançou os braços ao pescoço do primo, como se tivesse descoberto um irmão há muito perdido.

Foi uma visão tão hipnotizadora que nem todos os que se encontravam no estrado repararam imediatamente que Lady Islay – agora duquesa de Ashbrook – desmaiara e caíra sobre a dama que se encontrava a seu lado.

E foi o marido, o duque que regressara, pois agora todos tinham de concluir que ele tinha direito ao título, que viu o que se passava e se afastou do abraço de Pink e saltou imediatamente do estrado.

Gismond cometeu o ato inaceitável de avançar para ver melhor (conforme disse mais tarde à mulher, aquilo fora melhor do que uma peça de teatro).

A duquesa jazia, imóvel e branca, encostada a Mrs. Pinkler-Ryburn. Não se mexeu quando o duque se inclinou sobre ela. Um momento depois, Sua Graça endireitou-se com a mulher nos braços.

(– Uma peça de teatro – repetiu Gismond nessa noite. – Com a cabeça encostada ao ombro dele, se é que estás a perceber. Tudo muito heroico, porque afinal ele tem o ar de um herói. – Não conseguia explicar-se melhor. – Talvez fosse a sua expressão, que não evidenciava nervosismo ou sequer emoção. Como se aquelas coisas lhe acontecessem todos os dias da semana.)

Cheio de confiança, como se envergasse as vestes escarlates debruadas a arminho, o duque regressou ao estrado e deixou-se ficar diante dele com a mulher nos braços. Acenou com a cabeça a Lorde Chancellor.

– Acredito que o meu primo, Mister. Pinkler-Ryburn, retire a petição para me declarar morto.

– Com certeza – assentiu imediatamente Pinkler-Ryburn – com a voz embargada. – Com certeza. O meu primo não morreu. De modo algum.

Ao ouvi-lo, o duque lançou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. E, embora pusesse mais uma vez em evidência a terrível cicatriz branca, Gismond quase deu por si também a rir. Mas nunca descuidara daquele modo o protocolo e não tencionava começar a fazê-lo.

Porém, os pares do reino... houve uma erupção de riso, aquela que se segue e alivia a tensão do riso contido.

(– Ele tem um riso encantador – disse horas depois Gismond à mulher. – Parece de facto um selvagem, mas, quando ri, vê-se que se trata de um riso inglês.)

– O que é um riso inglês? – perguntou ela cética. – E o que andou ele a fazer, conversando com as pessoas, enquanto a sua pobre mulher estava desmaiada e parecia morta? Espero de todo o coração que nunca me trates com tão pouco cavalheirismo, meu caro.

De um modo muito masculino, Gismond afastou a ideia de que seria completamente incapaz de pegar na mulher – que era muito mais pesada do que ele – e de a transportar mais do que um passo.

– Não o farei – prometeu solenemente. – Nunca.


Vinte e Três


O primeiro pensamento de Theo foi fugir. Aquele selvagem, queimado do sol que se encontrava em cima do estrado não poderia, simplesmente não poderia, ser James.

O modo como o homem se mantivera diante de todos aqueles Lordes, com os ombros mais largos do que os de todos os outros, o modo como os seus olhos tinham passado calmamente pela sala, a cor da sua pele, a sua tatuagem e o facto de o seu cabelo nem lhe tocar a nuca...

James não era assim. E certamente não agiria assim.

Mas claro que estava enganada. Fora de facto a cicatriz no pescoço de James que a convencera. Soltara uma exclamação sufocada ao vê-la, o seu coração batera mais apressado e a sala ficara envolta em bruma.

Acordara daquela escuridão para se encontrar apertada nos braços de James, enquanto este percorria a câmara. Algo no seu interior reconheceu imediatamente o seu cheiro de ar livre e de vento, embora não se recordasse daquela voz.

À medida que a cabeça desanuviava, apercebia-se de uma nota sardónica na voz do marido enquanto ele conversava com os pares do reino presentes no estrado. Na voz dele não se notava a menor preocupação por ela, pela mulher – a sua mulher – que tinha nos braços!

Decidiu imediatamente não abrir os olhos. A última coisa que desejava era enfrentar o olhar piedoso dos que se encontravam na câmara, dado que James não poderia ter evidenciado menos falta de preocupação por ela e de modo tão flagrante. Não desejaria aquela experiência ao seu pior inimigo.

Teria de concluir que o marido se escondera vários dias em Londres, aguardando o momento em que poderia entrar na Câmara dos Lordes como um visigodo intruso, obrigando-a a desfalecer.

Nunca esperaria que ele se lançasse nos seus braços, mesmo que soubesse que ele estava de regresso. Afinal, tinham-se separado zangados. Mas eram casados.

James poderia ter impedido aquela farsa, mesmo antes de ela começar. Poderia ter fingido que se preocupava com a opinião dela, que se preocupava o suficiente para lhe dizer que estava vivo antes de informar uma assembleia de duzentas pessoas. Uma vergonha tão pública parecia-lhe um castigo. Sentia o coração latejar-lhe nos ouvidos. Não se sentira tão mortificada desde que vira os primeiros desenhos da «duquesa feia».

Sentiu-se desprezada, incapaz de ser amada, como se o chão lhe faltasse debaixo dos pés, como se todos aqueles anos a transformar-se num cisne de nada servissem, obliterados pelo facto de o marido nem se ter preocupado em visitá-la quando regressou a Londres.

Voltava toda a angústia que sentira depois de James partir, quando todos tinham concluído que ele não suportara continuar casado com uma mulher tão feia. Alguns desses desenhos mostravam James a fugir com um braço a tapar os olhos. Nessa altura, Theo sentira-se reduzida a nada e agora acontecia-lhe o mesmo.

Manteve os olhos fechados enquanto James terminava a conversa, percorria a câmara e saía do edifício para a colocar suavemente no assento da carruagem. Era um homem tão grande que o veículo balançou quando ele entrou pela porta.

– Já podes acordar – disse. Havia de novo um fio de riso na sua voz. Riso? Pensaria que aquilo tinha graça? Fazer com que as pessoas que o amavam passassem pela agonia de o declarar morto?

James nunca antes fora cruel. Nunca fora desdenhoso.

Theo deixou de fingir e sentou-se imediatamente com os olhos abertos. Depois de tantos anos tinha de novo o marido diante de si. Porém, tudo mudara. James transformara-se num pirata. Tinha os olhos escuros e impossíveis de ler, porém, ainda falavam de arrogância e poder. Não tinha dificuldade em acreditar que obrigara pessoas a caminhar pela prancha. Agarrou-se ao assento de cabedal da carruagem, como se temesse pela própria vida.

– Valha-me Deus – disse, não em voz muito baixa. James estava bronzeado pelo sol e a flor azul-escura por baixo do olho direito era atraente assim de perto. Parecia uma palavra estranha, numa língua que ela não compreendia.

A visão do marido enchia-lhe a cabeça de comparações ridículas. Os ingleses não eram assim – eram brancos como os lírios. Com pele branca. Não inscreviam flores na pele.

Mas James não. Parecia cinquenta vezes mais vivo do que os cavalheiros de pele branca que haviam deixado para trás na Câmara dos Lordes, e aquela tatuagem...

Era uma flor, mas não uma flor frívola. Era sinistra. Assustadora, até.

Os dedos dela agarraram o assento ainda com mais força. Nunca, nem num milhão de anos pensaria em recear o seu amigo de infância. Mas agora temia-o. Só um idiota se sentiria à vontade na presença deste homem.

– Boa tarde, Daisy – disse ele, tão calmo como se se tivessem separado apenas um mês atrás.

Theo nem sabia o que dizer. Mr. Badger descrevera a tatuagem como sendo usada por um pirata feroz chamado Jack Hawk: deveria mencionar esse nome? Depois olhou-o nos olhos e tão rapidamente como chegara o seu medo evaporou-se substituído por uma fúria incandescente. James olhava-a divertido. No seu rosto não havia o único sinal de que reconhecia a gravidade da cerimónia que interrompera.

Porém, ficara genuinamente comovida pela declaração formal da sua morte. Esforçara-se por não chorar, pensando em como o velho duque aparecia de vez em quando no Staffordshire para indagar se ela tivera notícias do filho. Era desprezível que um filho tratasse um pai com tanta indiferença.

Furiosa ou não, o seu instinto dizia-lhe que se mantivesse calma.

– Bem-vindo a Inglaterra – disse por fim. Levantou a mão, desprendeu o véu e colocou-o a seu lado, no assento.

James limitou-se a acenar com a cabeça.

– Posso perguntar-te o que te fez voltar? – perguntou como se ele tivesse empreendido uma pequena viagem ao País de Gales.

– Quase morri depois de me terem cortado a garganta. É um lugar-comum muito usado, mas ver-se perto da morte faz um homem pensar.

– Não há dúvida de que fizeste uma entrada dramática. – Theo estava extremamente orgulhosa de si própria, pois a sua voz não continha uma única nota de repreensão. Um curioso autodomínio permitira-lhe atravessar as humilhações do passado e ajudava-a naquele momento. Recusou absolutamente permitir que James se apercebesse do muito que aquela atitude descuidada a magoava.

– Sim. Devo acrescentar que não fazia ideia de que estivesses presente na cerimónia.

– Teria feito alguma diferença para ti?

Ele inclinou levemente a cabeça para o lado e, pela primeira vez, Theo reconheceu um maneirismo do antigo James.

– Sim.

– Onde ficaste instalado em Londres enquanto esperavas pela cerimónia?

James franziu a testa parecendo genuinamente confuso.

– O meu navio só aportou ontem à noite. Fui a casa dizer-te que estava vivo, mas o mordomo teve a amabilidade de me informar que o melhor seria eu ir a correr a Westminster para chegar a tempo de me salvar da morte, por assim dizer. Conforme calculava, no dia dezasseis de junho passariam sete anos desde que eu desaparecera. Pensei que teria várias semanas para convencer todos de que estava vivo.

– Os papéis estariam já prontos na Chancery na data da tua morte, evitando assim a demora entre os duques.

– Fiquei satisfeito por ver que Cecil não mostrava qualquer relutância em perder o título que quase herdou.

– Nenhuma. De facto, queria até esperar mais um ano.

– Era então a minha mulher que desejava libertar-se no meu sétimo aniversário – disse em voz átona.

Ela sorriu-lhe tão delicada como uma duquesa num musical.

– Apenas porque não tinha provas de que continuavas a existir, nem razões que me levassem a essa conclusão, garanto-te. Como achaste a casa esta manhã? – Theo obrigou-se a descontrair os dedos, mas não conseguiu cruzá-los no colo. Preferiu agarrar-se com força à correia da janela e assim se manter enquanto dobravam esquinas a toda a velocidade em vez de se encaminharem vagarosamente para Berkeley Square.

– Estive lá apenas alguns minutos. Deixei a bagagem que trazia comigo e fui diretamente para a Câmara dos Lordes.

Theo foi incapaz de se conter.

– Quando disseste «bagagem», referias-te certamente ao saque?

– Então sabes? – sorriu perverso.

Ela estava tão enraivecida que sentia a garganta fechada. Mas dominou de novo o tom de voz.

– Falaram-nos de uma possível ligação entre ti e um pirata chamado Jack... Hawk, seria? Cecil e eu sentimos relutância em acreditar que te tivesses dedicado a essa profissão – e absteve-se de prosseguir com a óbvia continuação: mais tolos fomos.

– A vida é cheia de surpresas – replicou James sem nada esclarecer.

Devia ter sido o abrir das narinas dela; ele semicerrou os olhos e pareceu aperceber-se dos sentimentos dela.

Mas o que disse a seguir não o refletiu.

– O trânsito em volta de Londres é agora incrível; levei tanto tempo a chegar à Câmara dos Lordes que pensei que realmente teria de representar uma cena de ressurreição.

A carruagem parou por fim.

– Ainda bem que fomos poupados a isso – comentou Theo.

– O teu mordomo disse-me que saíste de casa às sete horas da manhã – disse ele numa voz em que estava subjacente alguma posse. – A cerimónia só começou algum tempo depois. – James estivera ausente durante sete anos e agora pensava regressar como senhor de tudo.

– Fui visitar a campa do teu pai – replicou, agarrando na bolsinha e no véu enquanto o cocheiro abria a porta da carruagem. – Antes de morrer ia muitas vezes perguntar por ti. Esta manhã queria contar-lhe antes de dar o passo de te declarar morto. Um gesto tonto de vários pontos de vista, creio eu.

James estremeceu pela primeira vez; ela leu-lhe nos olhos uma centelha de profunda dor e ficou satisfeita. Quando saiu da carruagem admirou-se de se sentir tão satisfeita. Sentia-se tão sedenta de sangue como qualquer pirata.

Havia mais uma coisa que seria necessário clarificar. Bom, para falar verdade, havia até muitas, mas esta não poderia esperar. À entrada, acenou a Maydrop e ele instantaneamente abriu a porta da sala.

James seguiu-a e, quando ela se voltou para olhar para ele, ele olhou-a, à espera, com uma sobrancelha erguida. Theo recordava-se daquele olhar. Havia anos, aquela sobrancelha erguida significava a curiosidade de um rapaz; agora assinalava claramente a suprema arrogância de um homem.

Por momentos o coração dela estremeceu: que deveria fazer? Não queria viver com um pirata, com um duque pouco civilizado e com uma cicatriz. Ela seria provavelmente a mais controlada – e possivelmente a mais refinada – mulher de todas as que conhecia, mas agora o seu coração batia tão acelerado que parecia querer voar-lhe do peito. Mesmo assim tratou de se acalmar.

– O detetive que pôs a hipótese de seres o Conde estava certo de que não poderias ser Jack Hawk – disse ela, descalçando as luvas para não ter de olhar por ele.

Mas ela podia vê-lo através das pestanas, encostado à parede numa atitude pouco própria de um cavalheiro.

– Afinal, o teu detetive enganou-se.

– Uma das razões para essa conclusão foi que Hawk deixara, se é que bem entendi, filhos pelas Índias Orientais. – Nessa altura, ela olhou-o nos olhos, abandonando todo o fingimento de civismo e assegurando-se de que os seus olhos exprimiam o desprezo que sentia por um homem que não se incomodara em regressar durante anos, nem sequer para consolar o seu velho pai; por um homem que, segundo o que ela sentira acerca dos piratas, não só roubara para viver, mas que ordenara que pessoas se atirassem de uma prancha para uma sepultura no mar. Por um homem que traíra os seus votos de casamento e depois abandonara os seus filhos embora estes fossem incivilizados e ilegítimos.

James ficou por momentos em silêncio. O rapaz de quem ela se recordava teria cedido ao seu olhar, mas este homem limitou-se a cruzar os braços e a olhá-la pensativo.

– Pareces muito zangada. Quando saí de Inglaterra estavas nesse estado e eu esperava que este tempo tivesse alterado esse desagrado.

– Estava zangada porque casaste comigo por razões falsas. Há muitos anos que o nosso casamento é irrelevante para mim, embora, segundo me parece, não tão irrelevante como foi para ti. Mesmo assim, posso garantir que já não sinto senão uma leve irritação pela tua mentira em relação ao nosso casamento. No entanto, vou perguntar-te de novo, Duque, deixaste de facto crianças para trás? Ou trouxeste-as para casa contigo? A tua descendência será a bagagem que mencionaste?

O silêncio que se fez na sala foi como o estalar de um chicote: tinha ferocidade, como se o ar tivesse sido cortado em dois.

– O teu detetive enganou-se – repetiu James, antes que Theo fosse investigar o quarto das crianças. – Não tenho filhos, ilegítimos ou legítimos.

– Deveras? – perguntou ela calmamente. – Tens a certeza? Devo acreditar que te incomodaste em verificar como eu estava nove meses depois de teres saído de Inglaterra?

– Mandei um homem para que se inteirasse.

– Foi uma pena não teres pedido a esse homem que dissesse ao duque que estavas em segurança. – O último pensamento de Ashbrook fora para o filho que perdera, mas, apesar da profunda raiva que sentia, não o disse. Seria demasiado cruel.

– Não pensava no meu pai como sendo velho. Estupidamente, nunca imaginei que ele pudesse morrer antes que conseguíssemos reconciliar-nos. É um dos meus maiores desgostos. De facto, foram as notícias da sua morte que me transformaram de conde em Jack Hawk – acrescentou com ar indiferente.

Ela esperou, mas não recebeu mais explicações. Aparentemente, não se sentia com obrigação de lhe explicar o que quer que fosse. Theo saiu do aposento e subiu a escada sem pronunciar palavra.

Uma hora mais tarde, no banho, Theo pensou na solução óbvia para aquela inimaginável reviravolta. Sentou-se tão rapidamente que a água lhe deslizou dos ombros para o chão.

– Preciso do Boythorn – disse em voz alta.

– Perdão, senhora duquesa? – Amélie, que dobrava meias, voltou-se.

– Por favor, pede ao Maydrop que mande chamar o meu advogado, Mister Boythorn – disse Theo levantando-se. – Gostaria de falar com ele amanhã, logo pela manhã. – Claro que seria possível dissolver uma união se um dos cônjuges reaparecesse depois de uma longa ausência com a reputação de encaminhar pessoas pela prancha para que se afogassem no mar. Em circunstâncias normais, era difícil – quase impossível – obter um divórcio. Mas aquela não era uma circunstância normal.

De facto, tinha a certeza de que os seus argumentos triunfariam. À falta de outra pessoa, o próprio Regente dissolveria o casamento. Fizera-o à mulher de Lorde Ferngast, depois de se ter juntado à Família do Amor e exigido que ela partilhasse a cama com todos e mais algum. E Lorde Ferngast não matara pessoas.

Londres poderia ficar momentaneamente deslumbrada pelo regresso completamente inesperado do duque de Ashbrook, mas todos sabiam o que acontecia aos piratas capturados: eram enforcados.

Enquanto pensava no assunto, a porta abriu-se e a criada voltou-se com um grito. Theo voltou-se mais lentamente.

Mas voltou-se nua e molhada conforme estava. O corpo absurdamente grande de James enchia a porta. Com um ar que a encheu de fúria, olhou-a de alto a baixo.

– Amélie – disse ela em tom agudo. – Podes dar-me uma toalha, por favor?

Com algo parecido a um soluço de emoção, a criada entregou-lhe uma e colocou-lhe outra sobre os ombros.

Os olhos de James ainda eram azuis. Mas eram completamente inexpressivos, os olhos de um desconhecido.

– Numa sociedade civilizada – disse Theo enrolando-se na toalha – é de rigueur bater à porta dos aposentos que se partilham antes de entrar.

Depois saiu pela porta que levava ao seu quarto de dormir e fechou-a atrás de si.


Vinte e Quatro

James desceu a escada, com o espírito a girar como um moinho de vento atingido por fortes rajadas. Esquecera-se de como Daisy era cor-de-rosa e branca. A sua pele parecia o centro de uma delicada rosa inglesa. Esquecera-se da curva da anca dela e do comprimento das suas pernas.

Obrigara-se a esquecer essas coisas, mas agora todas lhe vinham à ideia, todas as coisas que gostava nela desde rapaz. A sua delicada estrutura óssea... o arco do seu lábio inferior... o rebordo escuro das pestanas. A sua alma cantava ao vê-la e não apenas de desejo carnal.

Maldição.

Obviamente nunca a esquecera verdadeiramente.

Houvera em Daisy uma coisa que lhe prendera a respiração na garganta: a expressão do seu olhar quando o vira. Houvera surpresa e raiva; ele esperara que tal acontecesse. Mas havia também medo. Medo? Daisy tinha medo dele? A sua Daisy?

Pusera de lado aquela mulher fascinante e navegara para torrar sob um sol desconhecido. Quando chegou ao fundo da escada, apercebeu-se de que, com toda a certeza, nunca se quereria – poderia – afastar novamente de Daisy.

Ela era o seu coração, a sua outra metade. Preenchia todos os lugares vazios da sua alma que tentara desesperadamente ocupar com as escapadas dos piratas e mulheres de vida fácil.

E ela receava-o.

Confiara na sua capacidade para lhe vencer a raiva. Agora sentia que o universo lhe oferecera um determinado equilíbrio. Daisy conhecia-o. Como poderia possivelmente sentir-se ameaçada por ele?

O seu cérebro ofereceu-lhe a resposta. Tinha-a magoado, pelo menos emocionalmente. Certamente nunca pensara podê-la magoar fisicamente. Sentia-se incompleto só de o pensar e fechou as mãos para evitar que tremessem.

Claro que outras pessoas o temiam: era um pirata. Era grande, tinha uma tatuagem e rapara a cabeça – embora o cabelo começasse já a crescer. Mas nunca lhe passara pela ideia que Daisy pudesse receá-lo.

Fora ela a única pessoa que sempre o vira para além da superfície e que o amara por aquilo que era. Fora a única pessoa na sua vida que o considerara mais do que uma voz bonita e um belo rosto. Até a sua mãe gostara de o exibir no salão, de o incentivar a cantar para as visitas e de lhe chamar o seu «tesouro».

Entrou na biblioteca, mal se apercebendo de como estava diferente. Mas como diabo poderia ter abandonado Daisy. Onde estivera o seu cérebro durante sete anos?

Os dias haviam sido longos e por vezes cheios de aventuras violentas, mas afinal os anos tinham passado depressa.

Deixou-se ficar junto à janela, com o coração a bater de um modo estranho que o fazia sentir-se um pouco indisposto. Não podia ser demasiado tarde.

Havia de a reaver.

Durante um curto período de tempo, imaginou-se ajoelhado aos pés dela, mas pôs imediatamente a ideia de parte. A única coisa que nunca faria seria implorar. Em criança implorara afeição, embora os seus pais nunca parecessem entendê-lo. Cantara para a mãe com todo o seu amor, na esperança de que ela lhe oferecesse mais do que umas palmadinhas no rosto e um sorriso.

Surpreendeu-o um som profundo no seu peito e mostrou os dentes ao seu reflexo no vidro da janela. Estava a ser um tolo sentimental. Poderia recuperar Daisy sem se prostrar. As mulheres não gostavam de tolos nem de fracos. Se ela não o respeitasse nunca o recuperaria.

Nada havia que respeitar num homem a quem bastara olhar para a mulher para sentir o corpo em chamas, com o único pensamento de desejar lamber-lhe todas as gotas de água que lhe cobriam o corpo. Gostaria de a levar para a cama e...

E implorar-lhe que o amasse como o amara uma vez.

Sentiu o estômago apertado. Teve um momento de lucidez em que dividiu o mundo em duas partes: numa delas, Daisy sorria-lhe, na outra, afastava-se dele, tal como ele se afastara dela.

A segunda era um inferno. E a primeira...

A expressão assustada de Daisy atingia-o mais uma vez como um golpe.

Era verdade que parecia um selvagem e que falava como um trabalhador das docas. Mas não teria de agir como nenhum deles. Apercebeu-se que de facto deveria agir como Trevelyan, aquele verme maldito.

Daisy sempre adorara o modo sardónico de Trevelyan, embora aquilo disfarçasse (se alguém pedisse a opinião a James, coisa que Daisy nunca faria) uma grave falta de confiança. Talvez até algum desprezo por si próprio.

Não conseguiu que uma enorme gargalhada lhe saísse da garganta. Era a ele que a confiança faltava naquele momento. Mesmo assim, desde que ela nunca lhe descobrisse o calcanhar de Aquiles – ela –, poderia seduzi-la com conversa cuidadosa e inteligente. Depois, assim que conseguisse levá-la para a cama, certamente poderia reacender a antiga afeição que Daisy sentia por ele.

Mas, em primeiro lugar, ela teria de o ver como o tipo de homem que desejava, não como um idiota a implorar a sua atenção, muito menos atenção sexual. E também não como o pirata assustador. Teria de ser polido. Divertido. Refinado.

Tudo aquilo que não era, mas pôs esse problema de lado. Ela poderia descobrir mais tarde a fera primitiva que ele era no seu interior. Poderia fingir-se cultivado durante algum tempo.

Provavelmente.

Estudou o seu plano, elaborando-o, considerando as contingências, testando cada fase no seu espírito com o mesmo cuidado que utilizava quando avistava uma vela pirata. Graças às inúmeras vezes que ele e Griffin se tinham encontrado na companhia da realeza, estava na posse de todos os trajes que Daisy apreciaria.

Certamente que ela se refizera; era como uma taça de prata polida, toda ela elegância clássica. E autodomínio. De facto, tinha uma irritante semelhança com um general sensual, se alguma vez as mulheres tivessem autorização para pertencer ao exército de Sua Majestade.

Preferia-a sem roupa. O seu espírito saltava para a imagem dela no banho e o seu corpo enrijecia-se. Ribeiros de água deslizavam-lhe pelas pernas. Desejava cair aos pés dela e amar aquelas coxas... e tudo o que estava entre elas.

Mais ainda do que isso, queria simplesmente estar com ela, ser o primeiro a partilhar as suas ideias brilhantes e opiniões intensas. Em todas as suas viagens nunca encontrara uma pessoa, nem sequer Griffin, com quem gostasse tanto de conversar como gostava de conversar com Daisy. Agora que a vira de novo, era como se todos aqueles anos a bordo de um navio tivessem feito parte de um sonho: a realidade estava ali. Queria envelhecer com ela ou então não envelhecer.

Maldição.

Estava metido em sérios problemas.


Vinte e Cinco

Assim que Theo fechou a porta, deu a volta à espera que James a abrisse e entrasse. Afinal, dirigira-se imediatamente à casa de banho. Porque seria que nunca dividira aquela espaçosa divisão em duas, uma para cada quarto? Pensara fazê-lo durante anos. Mas preferira instalar o mais moderno sistema de bombear a água e uma maravilhosa banheira de cerâmica feita na propriedade.

Ouviu o som dos seus passos a retirarem-se pelo quarto e a seguirem pelo corredor e disse, de si para si, que estava satisfeita. Talvez ele tivesse esquecido que partilhavam a casa de banho. A partir dali, ele respeitaria a sua privacidade.

Vestiu-se vagarosamente, sem se permitir imaginar as jovens das ilhas que teriam certamente um peito grande e um corpo cheio de curvas que ela nunca conseguiria.

Resolvera ficar em casa nessa noite para honrar a memória de James. Mas agora não havia ninguém para chorar nem razões para não sair. E o mais importante era não conseguir enfrentar a ideia de que ela e James teriam de se sentar em frente um do outro ao jantar. Desejava desesperadamente fugir.

Mandou Amélie informar Maydrop de que iria ao teatro e envergou a seguir um vestido de noite feito de uma seda pesada e flexível verde-azeitona, que brilhava à luz das velas. Caía do corpo, mas, em vez de arredondar, a seda era cortada em viés para lhe envolver as curvas.

O corpo era apertado debaixo dos seios e enfeitado de renda cor de cobre, que cintilava com pequenas contas pretas e se alargava pelas mangas curtas.

Afastara o cabelo da testa sem uma única madeixa a tocar-lhe as orelhas e acenou a Amélie para que guardasse o colar de rubis. Não queria distrações do seu rosto.

Porém, fez deslizar um rubi na mão direita, presente que oferecera a si própria quando a Tecelagem Ryburn tivera as primeiras mil libras de lucro.

O que haveria de melhor para comemorar esse importante marco do que investir uma boa percentagem para enfeitar um dedo.

Por fim, Amélie pegou num pequeno pincel e aplicou habilmente uns toques estratégicos de maquilhagem. A última coisa que Theo desejava era tentar parecer convencionalmente feminina, mas descobrira que um traço de kohl tornava os seus olhos mais profundos e misteriosos.

Depois de um último olhar ao espelho, sentiu restabelecer-se a sua confiança; confiança que dificilmente obtivera, tratando de tornar os domínios solventes, conquistando a corte francesa e conseguindo o respeito da sociedade inglesa.

O desprezo que o marido mostrara por ela – mesmo tão abertamente expresso diante dos pares do reino em assembleia – não podia diminuir os seus feitos.

O mordomo esperava-a ao fundo da escada.

– O senhor duque está na biblioteca – anunciou com a preocupação escrita no rosto.

– Obrigada – replicou Theo. – Confio em que tranquilizará os serviçais, Maydrop. O regresso do duque é inesperado, é o mínimo que se pode dizer, mas estou certa de que não fará quaisquer alterações nas lides domésticas.

O mordomo assentiu.

– O senhor duque não trouxe um criado particular, por isso resolvi pedir à agência que me enviasse amanhã três candidatos adequados. Instalei o hóspede de Sua Graça no...

– Hóspede! – exclamou Theo. Sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Por muito selvagem que Theo se tivesse tornado, nunca teria trazido uma mulher das Índias Ocidentais.

– Sir Griffin Barry – explicou Maydrop rapidamente. – Creio que Sua Graça e Sir Griffin foram companheiros nos últimos anos. Instalei Sir Griffin no quarto cor-de-rosa.

– Excelente – concordou Theo em voz fraca.

Sentia uma irritante vontade de fugir pela porta o mais depressa possível. O marido não só regressara como trouxera consigo o seu companheiro de crime – e Mr. Badger não dissera que Barry tinha uma reputação mais ofensiva do que o próprio James?

No dia seguinte pela hora do almoço já a polícia estaria a bater à porta. Nunca, durante todos aqueles anos, sentira tanto a falta do apoio da mãe. Até mesmo o velho duque seria uma presença agradável para a apoiar.

– Senhora duquesa, creio que pensa ir...

Mas Theo ergueu a mão e Maydrop calou-se.

– Mais tarde, por favor. – Tinha de enfrentar James antes de dar meia volta e fugir.

Entrou na biblioteca antes que pudesse mudar de ideias.

Decorara de novo o aposento depois da morte do pai de James. Nada havia que lhe recordasse o momento de humilhação que terminara o seu casamento, quando o velho duque a olhara nos olhos no momento em que ela, ajoelhada, diante de James, executava um tratamento tão íntimo cuja ideia agora a fazia estremecer.

Nessa época, a biblioteca era, toda ela, madeira escura e cortinas escarlates, a única arte nas paredes eram os retratos dos cães de caça havia muito falecidos. Agora as estantes do chão ao teto alternavam com painéis brancos com insetos azuis, cada um deles pintado com um conjunto diferente de imagens fantásticas inspiradas nas descobertas de Pompeia.

Desnecessário será dizer que as cortinas tinham sido tecidas nos teares Ryburn. Também elas eram às riscas azuis e brancas, com pequenas flores a enfeitar a risca azul.

As restantes pastoras de porcelana que haviam escapado à ira do duque tinham sido havia muito relegadas para o sótão; no seu lugar viam-se objetos da cerâmica Ashbrook, cujos temas gregos e romanos ofereciam um contraponto em relação aos grotescos pintados nas paredes.

Theo sabia exatamente o que estava a fazer quando inspecionava o aposento em vez de olhar para o homem que o ocupava: estava tão enervada que tratava de se acalmar catalogando os seus sucessos.

James sentara-se à secretária que ela usava para fazer contas e, pelos vistos, escrevia uma carta. Despira o casaco e enrolara as mangas da camisa.

Theo respirou fundo.

– Boa noite, James – disse, avançando.

Quando ela falou, ele ergueu os olhos da folha de papel que tinha em frente e levantou-se. Aparentemente, não abandonara de todo a conduta de um cavalheiro inglês.

– Daisy – disse ele. Saiu de detrás da secretária e beijou-lhe a mão que ela estendia.

Theo observou-o demoradamente de perto, enquanto ele se endireitava.

– O meu nome é Theo – disse-lhe numa voz que não deixava dúvidas. – Meu Deus, James, como estás mudado. Não admira que não te tivesse reconhecido esta manhã. Posso oferecer-te um cálice de xerez? – Encaminhou-se para o local onde guardava os frascos de bebida e retirou a tampa de um.

– Quase nunca bebo – disse James por cima do ombro dela. Ela, sobressaltou-se e deixou cair a tampa do frasco. Ele estendeu a mão e apanhou-o.

– Dás-me licença? – pediu ele, retirando-lhe o frasco da mão e servindo-lhe um cálice de xerez. – Já vejo que tens três qualidades de brande, o que sugere que não és igual às outras damas no teu gosto pelo álcool ou em quaisquer outros aspetos.

Theo perguntou a si própria se ele não estaria a tentar desconcertá-la aludindo à sua falta de beleza inglesa, mas acabou por pôr a ideia de parte, com um gole de xerez que lhe aqueceu a garganta.

– O teu primo Cecil gosta muito de conhaque e guardo-o para ele – disse, encaminhando-se para um divã que substituíra um sofá rococó que deitara fora.

Sentou-se e ficou a olhar para o desconhecido que dizia ser seu marido, se servia de um cálice de porto e vinha ter com ela. Quando ele se aproximou, Theo inclinou a cabeça para trás para melhor ver toda a sua altura.

– Estás enorme.

– Sim. – Sentou-se ao lado dela, mas Theo afastou-se do calor da perna dele. – Com pouco mais de vinte anos cresci de repente vários centímetros. A minha única explicação é o ar do mar.

De súbito o sofá pareceu muito pequeno. Theo bebeu um reconfortante gole de vinho, depois inclinou-se para ele e espreitou-lhe a face.

– Parece-me que tens uma papoila debaixo de um olho?

Ele assentiu.

Embora Theo preferisse morrer a admiti-lo, a tatuagem tinha uma espécie de apelo primitivo.

– Sir Griffin tem o mesmo emblema desenhado na face?

Não havia dúvida que estava a dominar o assunto incrivelmente bem. Quantas mulheres teriam a oportunidade de falar com um pirata, muito menos ter dois debaixo do seu teto? E, certamente, deveria ser a única mulher da aristocracia inglesa a estar casada com um homem com esta profissão. Tudo se arranjaria, disse para consigo. James abandonaria Inglaterra – certamente preferiria isso a ser enforcado – e a sua vida voltaria ao normal.

– É verdade que tem – afirmou James, com a mesma naturalidade que teria se ela lhe estivesse a perguntar pela gravata. Não que tivesse agora uma gravata. O seu pescoço surgia-lhe da camisa nu e bronzeado como os moços que trabalhavam no campo.

– Estás preocupado que a profissão que adotaste te possa levar a coisas desagradáveis? – perguntou ela.

– De que natureza?

– Dada a natureza ilegal e pouco ortodoxa das tuas atividades, creio que a polícia aparecerá por aí. Ou os agentes da Marinha Real. Ou quem quer que trate da pirataria.

Ele recostou-se no canto do sofá e sorriu-lhe por cima do copo de vinho.

– Porque terei de me preocupar?

– Por poderes vir a dançar na ponta de uma corda? Tanto quanto sei, a pirataria é punida com pena de morte. – Bebeu mais um gole de xerez.

– Sim – disse James, parecendo perfeitamente descansado. – Suponho que seja esse o caso. Em circunstâncias normais.

– E não estás preocupado?

– De modo algum. Como foram para ti estes sete anos, Theo?

– Cansativos – respondeu ela, preferindo a verdade a respostas evasivas. – A vida foi difícil depois de teres deixado o país. Mas gostarás de saber que a Tecelagem e a Cerâmica Ashbrook estão florescentes. Assim que ficaram ambas no bom caminho, parti para Paris e de lá regressei no passado ano. Pensei... – Calou-se.

– Pensaste entregar os domínios ao Cecil – concluiu James. – Não te censuro por desejares ver tudo isto tudo pelas costas. É vergonhoso, mas pensei em nunca mais voltar, em parte por essa razão. E foi também por isso que mudei o nome. Pensei que nunca ninguém identificaria o Conde com o conde de Islay.

– Foi uma sorte para todos nós teres mudado de ideias – disse ela, tentando não se mostrar entusiasmada.

James olhou-a em silêncio durante muito tempo.

– Estás zangada por eu não te ter informado do meu regresso antes de interromper os procedimentos na Câmara dos Lordes? O meu navio aportou muito tarde ontem à noite e pensei que não deveria acordar toda a gente aqui em casa. Pensei que os Lordes fossem apenas homens e não me ocorreu que houvesse mulheres na audiência do processo pouco emocionante de provar a minha identidade.

– Uma mulher esquece-se rapidamente – concordou ela.

James hesitou.

– Deixei de pensar em ti como minha mulher há alguns anos – disse depois. – Como certamente fizeste o mesmo em relação a mim.

Theo sentiu-se ofegante ao ouvir aquelas palavras. Não tinha deixado de pensar em James como seu marido, embora só Deus soubesse como o desejava.

A irritação invadia-a de novo, mas não chegara aos vinte e quatro anos para nada.

– Percebo – retorquiu calmamente. – Se estás interessado em saber dos anos da tua ausência, não o fiz.

Pelos olhos dele passou uma centelha de profunda emoção, mas desapareceu tão rapidamente que ela nem teve a certeza de a ter visto.

– A minha resposta a essa questão seria o oposto – disse ele, tão naturalmente como se discutissem o tempo. – Dois dias de casamento não me causaram uma impressão assim tão grande. Tenho a certeza de que a maioria dos homens compreenderia o meu lapso.

– Nem todos dão o mesmo peso aos votos de casamento – replicou ela.

– O nosso casamento terminou, para citar as tuas próprias palavras. – A voz dele não se elevou, mas tomou um tom severo e gelado. – Puseste-me fora de casa e disseste-me para nunca mais voltar. É difícil ver a tua ordem como sinal de que querias honrar o nosso voto mútuo para ficarmos juntos até que a morte nos separe.

– Deverei compreender que a minha raiva ao saber-me enganada para me casar contigo, para melhor disfarçares o desfalque do meu dote, se tornou uma desculpa para cometeres adultério?

A atmosfera na biblioteca estava tão carregada que ela sentiu que uma faísca seca poderia incendiar o próprio ar. Era interessante que James continuasse no perfeito domínio do seu temperamento. Não havia dúvida de que tinha crescido.

– Há muita hostilidade entre nós – declarou ele, por fim. – Não sabia que continuavas ofendida. Francamente, o nosso casamento parece-me tão distante. Mal me recordo da nossa última conversa, exceto da tua insistência de que o nosso casamento terminara. Mas, para o caso de não te ter apresentado as minhas desculpas na altura, tenho todo o prazer em fazê-lo agora.

Theo sentiu uma onda de saudade, não pelo homem de rosto endurecido que tinha diante de si, mas pelo jovem que a amara e cujos olhos baixaram quando ela lhe gritara.

Aparentemente, James tomou o seu silêncio como incentivo.

– Lamento verdadeiramente ter acedido ao pedido do meu pai e ter casado contigo por razões falsas. Anos depois, apercebi-me de que, embora o casamento pudesse, de facto, ter tido lugar, a nossa proximidade tornou a minha traição mais sensível.

– Seja como for, parece que agora mal nos conhecemos – disse ela.

(Video) UM BEIJO A MEIA NOITE - ELOISA JAMES

– O rapaz que fui amar-te-á sempre – declarou ele, desarmando-a com um sorriso. – O homem que sou ainda não sabe. – E havia uma expressão nos olhos dele que ela reconheceu como ressoando profundamente dentro dela.

Theo esmagou imediatamente aquele sentimento. Preferia saltar do campanário de uma igreja a ir para a cama com um homem que se preocupava tão pouco com ela que esperara sete anos para a informar de que estava vivo. Era uma lição que recebera da sua experiência como «duquesa feia»: se ela não se valorizasse ninguém o faria.

Exceto talvez o rapaz com quem James já não se parecia.

– Há sete anos que não te deitas com um homem – disse ele em voz baixa. Os seus olhos pareciam ávidos.

– É verdade – respondeu ela. – Mas isso foi antes de me aperceber de que os nossos votos foram dissolvidos na prática ainda que não nos tribunais. Agora terei de compensar o tempo perdido. – E levantou-se.

O desejo do rosto dele foi instantaneamente substituído por uma onda de posse feroz.

Theo reagiu instintivamente.

– Já não sou tua mulher, James, e parece que foste meu marido apenas enquanto Conde, durante dois ou três anos antes de te transformares em Jack Hawk.

– Como raio soubeste isso?

– É espantoso o que pode descobrir um bom detetive. Parto do princípio de que o Conde era meu, enquanto Jack pertencia a metade das damas das Índias Ocidentais e de outras terras.

– Parece-me um exagero – murmurou ele.

– Verdade? Mister Badger pensava que tivesses filhos ilegítimos espalhados por todas as ilhas.

O riso de James era tão rouco e profundo como a sua voz.

– Preferia que o meu primeiro filho fosse da minha mulher.

– Creio que não será possível – respondeu ela friamente. – Tenho esperança em que o nosso casamento possa ser dissolvido e espero sinceramente que possas ter um rebanho de filhos com a tua próxima esposa.

– A minha próxima esposa?

– A nossa situação é claramente insustentável. – Theo não queria deixá-lo com a mínima ambiguidade. – Vou apresentar uma petição para a dissolução do nosso casamento o mais depressa possível; já contactei o meu advogado. Confio em que o Regente aceda ao meu pedido.

– Não, não vais fazer nada disso – exclamou ele.

– Creio que ambos preferimos fazer desaparecer a hostilidade que há entre nós – disse ela, ignorando a resposta.

– Não vejo razões para coisas desagradáveis – concordou ele.

Mas havia algo no tom em que James falava – por muito agradável que parecesse – que conseguiu irritá-la.

– A parte que me toca é mais do que suficiente para garantir as minhas necessidades e temos uma casa na Hennesey Street que comprámos há cinco anos como investimento. Se estiveres de acordo, instalo-me lá. Terei todo o prazer em comprar a casa aos teus domínios, pois está desvinculada.

– Era o que faltava que a minha mulher saísse da minha casa, e muito menos que me comprasse o local onde quer morar! – O seu tom de voz alterou-se e passou a ser cínico.

Mas a Theo pareceu atraente, o que era perfeitamente absurdo. Era óbvio que se tratava de uma tragédia o facto de James ter perdido a sua extraordinária voz de tenor. Era absurdo pensar que o som que saía do seu peito era atraente. Porém, era obscuro, profundo e...

Theo controlou-se. Não tinha qualquer sombra de dúvida acerca do que decidira, tivesse ele ou não a voz profunda. James cativara-a quando era praticamente uma menina, mas agora enfrentava um desconhecido e não o seu jovem marido. Não poderia viver com um homem assim.

– Receio que não seja um assunto que se possa negociar – disse ela sorrindo-lhe, tal como fizera quando um desenhador da Wedgwood a acusara de lhe roubar os clientes. – Não imagino que tenhas qualquer razão em particular para me manteres aqui, dada a tua convicção de que o nosso casamento acabou. Se preferires, posso viver no estrangeiro.

– O casamento tinha acabado. Mas agora voltei.

– Um casamento não é um objeto que possas deitar fora e ir buscar quando te apetecer. – Theo fez uma pausa, mas ele não pareceu ter nada a responder-lhe. – Tencionas ficar em Londres ou regressar ao mar?

– Tenciono ficar em Inglaterra.

Parecia completamente despreocupado com a possibilidade de uma acusação de pirataria.

– Tenho a certeza de que, com a tua continuada presença, a alta sociedade ficará a teu favor – disse Theo. – Claro que haverá um escândalo quando o nosso casamento for dissolvido, mas o título é de tanto valor que arranjarás uma nova duquesa rapidamente. Agora, se me permites, tenciono ir ao teatro esta noite.

James avançou em direção a ela.

– Talvez te acompanhe.

– Não será necessário. – Olhou para o traje que ele envergava. Parecia um trabalhador rural, com o pescoço moreno a surgir da camisa branca, as mangas arregaçadas a mostrarem os músculos sólidos dos braços. Era notável a importância da roupa na civilização.

– Terás de visitar um alfaiate antes de apareceres em sociedade. Se me acompanhares, nem que seja por um momento, terei de te apresentar como meu mordomo.

Ele seguiu-a em silêncio, enquanto ela avançava até à entrada, falando mais depressa do que o costume numa tentativa de preencher o silêncio carregado.

– O Maydrop é um tesouro; fez um trabalho inestimável na manutenção da casa desde que o Cramble se aposentou. Maydrop, bem sei que já falou com o senhor duque, mas quero assegurar-me de que os apresento devidamente.

O mordomo fez uma reverência, James um aceno com a cabeça.

– Talvez deva apresentar Sua Graça ao resto do pessoal? – sugeriu Theo. – Por favor, a minha capa, Maydrop.

– A carruagem aguarda-a, senhora duquesa, disse o mordomo com outra reverência. – Porém...

James dirigiu-se diretamente ao mordomo.

– Deixou a carruagem à espera embora soubesse que a senhora duquesa estava esta noite com o marido pela primeira vez em muitos anos? – Não falava em tom severo, mas curioso.

Maydrop fez nova reverência.

– A criada da senhora duquesa informou-me de que Sua Graça iria esta noite ao teatro.

– Não nos imaginaste então a ter uma noite confortável em casa para renovarmos os nossos votos? – perguntou James a Theo, voltando-se para ela como se o mordomo fosse invisível.

– Não. – Theo vestiu a capa, uma magnífica criação parisiense de brocado de seda desenhado no estilo severo que preferia.

– Quem te acompanha ao teatro?

– Uma mulher casada há tanto tempo não precisa de se preocupar com quem a acompanha. Tenho um convite para o camarote de Lorde Geoffrey Trevelyan... lembras-te dele, não é verdade? Vai ficar surpreendido por me ver, dados os acontecimentos desta tarde, mas tenho a certeza de que não se importará. Lamento não ter tempo para cumprimentar Sir Griffin.

Lançou a James algo que se assemelhava a um sorriso genuíno, embora tenha surgido como resposta à raiva do olhar dele e não ao seu coração. Parecia que o marido não gostara da informação de que Geoffrey e ela tinham continuado amigos.

– Por favor, apresenta os meus respeitos a Sir Griffin.

Fez uma reverência e esperou um momento, pensando que James se curvaria, mas este não o fez. Theo voltou-se então para a porta da frente, que estava ladeada por dois lacaios que não eram tão hábeis como Maydrop a esconder o fascínio pelo pequeno drama conjugal.

Sem o menor aviso, um braço apanhou-a pela cintura e fê-la girar de tal forma que ela chocou de encontro ao peito dele. James baixou os olhos azuis para olhar para ela.

– A minha mulher não me faz vénias – disse por entre os dentes cerrados.

Theo ficou instantaneamente imóvel como um coelho à vista de uma raposa.

– Solta-me, por favor – disse.

James ergueu a cabeça.

– Saiam!

Arrastando um pouco os pés, os lacaios passaram por eles e saíram pela porta de serviço.

– Eu disse saiam! – exclamou James, olhando para Maydrop. Pela rouquidão da sua voz era especialmente notório que estava zangado. Pelo menos Theo notou-o.

Maydrop conseguiu falar num tom ao mesmo tempo frio e deferente.

– Se me dá licença, senhor duque, sou criado da senhora duquesa e detestaria abandoná-la numa situação em que ela possa sentir-se desconfortável.

Theo ficou de pé, nos braços de James, tentando não parecer afetada pelo calor musculoso do seu corpo. Ele parecia acreditar que ela estava desesperada por ter um homem depois de todos aqueles anos de solidão. Era uma ideia revoltante. Se havia uma coisa que nunca a tentara era qualquer tipo de encontro erótico.

Ou pensaria ele que ela evitara o adultério meramente porque nenhum homem a queria, dada a sua reputação de fealdade.

Apenas anos de treino a controlar a emoção lhe permitiam manter o aprumo.

– Ficar-te-ia muito grata se me soltasses – afirmou num tom gelado.

Ele baixou os olhos para olhar para ela, deixando aparentemente de dar atenção a Maydrop.

– És minha mulher – disse em voz baixa e rouca. – Mais tarde ou mais cedo, pertencer-me-ás de novo, Theo.

Ela recusou-se a responder, embora todas as células do seu corpo gritassem que não. Ele deveria tê-lo visto nos olhos dela, porque depositou um beijo leve nos lábios dela e soltou-a.

Theo fingiu não sentir como aquele beijo lhe enfraquecera os joelhos.

– Maydrop – disse ela. – Por favor, informe a Amélie que deve meter os meus pertences numa mala, pois sairemos desta casa amanhã de manhã.

– A duquesa não vai a lado nenhum – declarou James, sem sequer olhar para o mordomo.

– Senhora duquesa – disse Maydrop olhando para Theo. – Há uma situação lá fora, junto à casa, de que devo avisá-la.

– Situação? – Theo respirava rapidamente e todo o seu corpo tremia com o desejo de fugir porta fora.

– Os jornais – disse Maydrop, num tom distintamente angustiado. – Receio que as notícias do regresso do senhor duque tenham provocado o interesse deles. Há homens a rodearem a casa e até a tentarem escalar os muros do jardim. Tive de mandar os moços de cavalariça para lá, para os impedirem de espreitar às janelas.

– Que pena – comentou James com um sorriso malicioso. – Parece-me que esta noite não poderás ir ao teatro, Daisy.

Theo olhou-o.

– Com certeza que posso. Maydrop, se mandar um dos lacaios acompanhar-me à carruagem, ficaria muito agradecida.

– Não sejas tola – disse James. – Farão edições especiais só para discutir a tua crueldade em deixares-me sozinho na minha primeira noite em Londres. Para não falar no facto de te seguirem até ao teatro como um bando de corvos descendo sobre uma vaca morta.

– Uma vaca morta – repetiu Theo.

– Devo concordar com a opinião de Sua Graça – acrescentou Maydrop. – A visão de qualquer um dos senhores duques exacerbará este infeliz estado de coisas. Tive de colocar um criado no sótão, para ter a certeza de que ninguém entrará pelo telhado nos aposentos dos criados.

Theo engoliu em seco. De repente, pareceu-lhe tudo aquilo demasiado. Para sua intensa aflição, as lágrimas afloraram-lhe aos olhos.

– Pronto – disse James bruscamente. Antes de ela saber o que realmente se passava, ele arrebatou-a nos seus braços e começou a subir a escada.

Theo abriu a boca e depois voltou a fechá-la. Havia algo em subir as escadas ao colo que a fazia sentir-se muito segura.

– Não penses em fazer disto um hábito – disse ela, quando iam a meio caminho, decidindo que deveria protestar.

– Faço, se quiser – afirmou James. Nem sequer respirava com dificuldade.

– Sou uma pessoa, não um bem que se possui – avisou Theo, sentindo-se de novo furiosa. – Fazes o quê, se quiseres? Andas comigo ao ombro como se eu fosse um saco de farinha? Andas pela casa como se tivesses saído há uma semana? O que te leva a pensar que podes tratar-me desta maneira?

Ele olhou-a com um olhar firme e imperscrutável.

– Sou teu marido, Daisy.

– Theo – disse ela despeitada, sentindo-se estúpida.

Ele assentiu.

– Theo. Posso declarar que não me parece agradável dirigir-me à minha mulher usando um nome masculino?

– Não. Não podes – disse ela. James abriu a porta do quarto dela com o ombro e depois poisou-a no chão.

A seguir recuou e sorriu-lhe.

– Não queres usar esse vestido ao jantar?

Ela semicerrou os olhos.

– Porquê?

– Porque estás lindíssima.

O cumprimento deu-lhe volta ao estômago. Como poderia aquele homem, que parecia um bárbaro, ser tão delicado?

Detestou-o.

Mas talvez usasse o vestido ao jantar.


Vinte e Seis

James desceu a escada, mas não teve vontade de regressar à biblioteca. Não queria escrever cartas; queria atirar a mulher para a cama e meter a mão por baixo daquela coisa verde brilhante que ela vestira e...

Abanou a cabeça e ajustou as calças. Afinal, conseguira imitar decentemente Trevelyan, especialmente tendo em consideração que se sentia como um pirata violento sem qualquer sofisticação própria do seu nome.

Como não podia ir até à frente da casa, dirigiu-se às traseiras, atravessando o jardim até à pequena porta que levava diretamente às cavalariças.

Recordou os estábulos como poeirentos e cheios, e com um agradável cheiro a palha e a cavalos. Agora as paredes estavam caiadas e o chão suficientemente limpo para se poder dormir nele ou talvez até comer sobre ele. A mulher gostava de tudo imaculado, segundo lhe disse um minuto depois um moço da cavalariça.

Ficou a ver os rapazes varrerem a palha do estábulo de um cavalo malhado. Era a segunda mudança do dia, disseram-lhe. Entretanto, a égua estava a ser escovada pela terceira vez. James encolheu os ombros e depois passeou pelo corredor central. Parecia-lhe que tinha dois cavalos cinzentos precisamente iguais, dois negros, sem a mínima mancha branca e um conjunto de quatro baios.

Rosloe, o encarregado dos estábulos, era um homem bem-disposto que mantinha a ordem com uma autoridade fácil. Mas, ao dirigir-se à porta do jardim, já James ouvira dizer tantas vezes «É assim que a senhora duquesa quer que se faça» que os seus lábios se moviam imitando a frase. Rosloe apanhou-o a fazê-lo e soltou uma gargalhada.

– A senhora duquesa tem uma maneira de decidir como fazer as coisas – explicou. – As ideias também nem sempre são dela; mesmo que um dos moços mais jovens tenha uma ideia acerca de uma maneira melhor de organizar as coisas, ela ouve-o. Também é muito justa, embora, claro que é ela a tomar a decisão final.

Não havia dúvida de que Theo seria um ótimo capitão de navio.

James e Griffin haviam sobrevivido anos juntos – mas tinham duas tripulações e dois navios separados. Como diabo se poderia governar uma casa com dois capitães dentro das mesmas paredes?

Voltou para dentro e permitiu que Maydrop lhe apresentasse a governanta, Mrs. Eltis, e depois o cozinheiro, M. Fableau, um francês tão pequeno que mal chegava aos fornos. Todas as superfícies da cozinha evidenciavam uma estrita organização. Por exemplo, havia dois espetos.

– Um é reservado para as aves – explicou Fableau. – E o outro para a carne.

A despensa estava repleta de várias filas de conservas.

– Certamente que não se vai comer tudo isto apenas num ano – exclamou James, apercebendo-se de que as prateleiras cobriam as quatro paredes.

– Olhe, não – replicou Mrs. Eltis com orgulho. – Quando todos os anos, no outono, nos enviam as conservas, assinalo os boiões e coloco-os à esquerda e começo por utilizar os da direita. Quando o ano termina, entrego ao orfanato os que não consumimos. É assim que a senhora duquesa quer que se faça. – O sorriso da governanta falava por si.

A bordo de um navio, o capitão era o governante absoluto do seu mundo. James nunca deixara de o ser; um membro da tripulação preferiria saltar para uma banheira cheia de tubarões do que desobedecer-lhe.

Subiu a escada a pensar como era interessante que, assim que entrara em Inglaterra, fora levado a perceber, em termos firmes, de que já não era o dono exclusivo do seu mundo. De facto, seria possível que Daisy fosse o capitão e ele um mero visitante. E aquilo desconcertava-o.

Griffin estava instalado no quarto rosa, dissera Maydrop. Não que James soubesse qual era. Tudo mudara naquela casa. Recordava-se de um corredor mal iluminado no cimo da escada, mas Theo mandara deitar abaixo a parede que dava para a frente da casa. Agora a escada levava a uma passagem aberta limitada por uma varanda de pau-cetim. James gostou da semelhança com a amurada de um navio que sentiu nas suas mãos.

Conseguiu por fim localizar Griffin e encontrou-o zangado; reagiu com uma enfiada de impropérios à entrada de James – e, quando um capitão pirata está furioso, o seu vocabulário é verdadeiramente assombroso.

– Tive uma reunião deliciosa com a minha mulher – informou James, deixando-se cair numa cadeira e fingindo não ter ouvindo as ofensivas boas-vindas da parte de Griffin.

Griffin interessou-se.

– Deu-te um pontapé no rabo, não é verdade?

– Atrevo-me a dizer que me atingiu noutra zona mais sensível. Quer sair de casa. A única coisa que a mantém debaixo do meu teto é o facto de a casa estar cercada por jornalistas.

– Espera até que a minha mulher saiba que eu voltei a Londres – disse Griffin mudando o peso do corpo de um pé para o outro com um gemido surdo. Ainda se recuperava do corte na perna que lhe pusera a vida – e a virilidade – em perigo. James tivera uma recuperação relativamente fácil tendo em conta o seu ferimento, mas Griffin sucumbira a uma infeção e ainda convalescia. – Partirá para os montes da Escócia na semana que vem.

– Ordenei a Daisy que ficasse – contou James, estendendo as pernas. – Para o caso de estares interessado, usei o tom de voz com que costumo falar à tripulação.

Griffin soltou uma gargalhada enorme.

– Creio que não foi muito do agrado da senhora duquesa.

– Até o mordomo sabia que eu não tinha a mínima possibilidade com ela. Apercebi-me de um brilho de solidariedade nos olhos dele.

– Transformou-se num diabinho, não é verdade? – resmungou Griffin, mudando de novo o peso para a anca direita.

– Está zangada – replicou James. – E creio que terá direito a isso. Esperava...

– Uma reconciliação imediata?

– Pelo menos um cessar das hostilidades. Está mudada.

– E tu também. Lembras-te do rapaz atrevido que me recebeu atirando a cabeleira pela borda fora? É desse que ela se recorda. Agora defronta-se com um pirata forte, com cicatrizes e uma tatuagem por baixo de um olho. Não admira que se queira ir embora.

– Também ela mudou – objetou James, sentindo-se idiota.

Griffin soltou uma exclamação de desdém.

– Pensas que foi fácil para ela depois de teres partido? Tens sorte em não se ter transformado numa megera.

– O mesmo serve para a tua mulher – retorquiu James sem grande energia.

Sentia de novo a culpa, sua velha amiga. Sim, anos antes, saíra de Inglaterra furioso. Não se preocupara muito com a situação de Daisy. Era um canalha egoísta, por muito que não o quisesse admitir.

– Transformou-se numa pedra de gelo. Ela... costumava ser alegre e engraçada.

O canto da boca de Griffin estremeceu, mas nada disse.

– Maldição – disse James, pesaroso. – Estraguei tudo na minha vida. Arruinei-a, Griffin. Agora é como uma daquelas estátuas de gelo que vimos em Halifax. Belas mas gélidas. Não era assim quando me casei com ela. Ficou furiosa por eu não ter mantido as calças fechadas.

– Tem direito a isso, creio eu – resmungou Griffin.

– Quando me pôs fora de casa, disse que o casamento tinha terminado e acreditei nela. Deveria manter-me fiel pelo resto dos meus dias?

– Parece que sim. – Não havia dúvidas de que Griffin se estava a divertir.

James lançou-lhe um olhar azedo.

– Por vezes, gostava que aquela faca te tivesse cortado uns centímetros mais acima. Os homens são um pouco mais compreensivos quando lhes faltam aquelas coisinhas penduradas.

– Quem tem «coisinhas»? – retorquiu Griffin. E deu uma palmada na parte da frente das calças. – Tenho um tronco de carvalho, para que saibas.

– Estás a recordar-te de que ainda aí o tens?

– Como te sentirias se uma espada te passasse a assobiar pelas tuas maiores preciosidades? Ainda tenho pesadelos a esse respeito. Teria sido um castrato amargo, só te digo. – Esfregou com força o interior da coxa. – A cicatriz faz-me uma comichão dos diabos, por isso deve estar por fim a sarar – Griffin levantou-se e começou a caminhar pelo quarto. – Quanto tempo pensas que o perdão levará a chegar? Estou neste quarto há metade do dia e apetece-me rasgar as cortinas.

O procedimento para dois corsários (não piratas) receberem um perdão real, depois de terem passado as suas carreiras a protegerem os mares das incursões de canalhas e criminosos, fora posto em movimento havia dois meses.

– Neste momento falta apenas a assinatura do Regente. Entreguei ao McGill o rubi que trouxemos do Dreadnaught para oferecer a Sua Alteza como um gesto da nossa gratidão.

– Como poderá o Regente não assinar, quando um virtuoso corsário é um dos seus duques? – perguntou Griffin, trocista. – Não que eu queira dizer que um rubi do tamanho de um dedo do pé real não ajude à decisão. A propósito, tiveste dificuldade em recuperar o título ou já te tinham cantado os hinos fúnebres?

– Ainda estava vivo quando entrei na câmara.

– Pensas que a tua mulher tinha já outro candidato à espera? Deve ter sido uma desilusão para ele, agora que apareceste.

– Oh, tenho a certeza que sim – afirmou James, tristemente. – Antes de casarmos andava interessada num peralvilho chamado Trevelyan. Não o suportava quando andávamos na escola e tenho a certeza de que agora ainda menos o suporto. Estava a planear ir ter com ele ao teatro antes de descobrir que estamos impedidos de sair de casa.

– Gostava de saber se a Poppy também tem alguém. Não que ela pense que eu morri como a tua mulher pensava.

– Porque não vais visitar a tua mulher? Envio-te depois o perdão.

– Não estou muito interessado. Éramos perfeitos desconhecidos até ao momento em que eu deveria levá-la para a cama e eu não consegui erguer-me para salvar a situação – referiu Griffin com uma centelha divertida a iluminar-lhe a voz. – Tinha mais três anos que eu, sabes, e, quando se tem dezassete anos, a diferença entre um rapaz e uma rapariga de vinte parece um século.

– Com dezassete eras muito novo.

– Tu não eras muito mais velho – retorquiu Griffin. – Não consegui consumar o casamento e fugi da humilhação. Embebedei-me, acabei numa taberna e, logo a seguir, enfiei-me num navio e transformei-me em marinheiro. No porto seguinte, saltei do navio e meti-me noutro para descobrir demasiado tarde que se tratava de um navio pirata. – Foi o início de uma carreira muito intensa.

– Na minha noite de núpcias, o quarto estava tão escuro que penso que nenhum de nós tivesse ideia do que estávamos a fazer.

– Tinhas medo de ser recusado se acendesses uma vela.

– A Theo é linda – comentou James, sem admitir discussões. – Vais vê-la amanhã, se desceres antes de ela partir. A menos que esteja redondamente enganado, ela e a criada sairão daqui de casa logo após o nascer do Sol.

– Muito diferente do modo como aquelas mulheres apareciam nas docas quando os Poppys se aproximavam, não é verdade? Se a minha mulher olhar para mim, verá um homem deficiente com uma perna coxa. Se a tua mulher olhar para ti, verá o homem que a enganou para casar com ela e que a afasta desse tal Trevelyan.

– Se eu conseguir convencer a mulher que pensa que casei com ela por dinheiro que quero recuperá-la, talvez convenças a tua mulher de que não és o lírio flácido de que ela se recorda.

– Tu mentiste-lhe da primeira vez – lembrou Griffin. – Ela nunca acreditará em nada que lhe disseres a partir de agora.

– O meu problema não é tão grande como o teu – replicou James, irritado. – Afinal a Daisy amava-me. Tu terás de convencer uma relutante desconhecida que terá de dar outra oportunidade à vossa intimidade.

– Nenhum de nós parece representar o papel de elegante apaixonado – retorquiu Griffin, soltando uma gargalhada. – Queres apostar em quem será o primeiro a levar a mulher para a cama?

James deu por si a sorrir a Griffin.

– Não me parece próprio de um cavalheiro.

– É demasiado tarde para reclamar esse estatuto. Podes ser duque sempre que quiseres, mas cavalheiro? Não. Não és cavalheiro.

– Se aceitar a tua aposta. Terás de ir a Bath falar com a tua mulher.

– Posso resolver-me a isso, só para te derrotar.

James estava tão inquieto que não conseguia sentar-se sossegado. Levantou-se e dirigiu-se à janela.

– E não é que há jornalistas pendurados no muro do jardim?

Griffin juntou-se a ele enquanto dois fortes moços de cavalariça andavam pelos caminhos pavimentados exibindo descuidadamente maços enormes. Os ditos repórteres desapareceram apressadamente.

– Estamos aqui encurralados – disse James lentamente. Acabava de lhe ocorrer uma ideia.

Griffin deu meia volta.

– Vou imediatamente. A última coisa que desejo é que a minha mulher saiba pelo London Chronicle que voltei para Inglaterra. – Franziu a testa e semicerrou os olhos. – Estás a rir de quê?

– De nada. Vou falar com o mordomo. Terá de fazer algo acerca das pessoas que estão em frente da casa.

– Porque não vais lá fora e não representas o papel do pirata maldoso? Isso vai mostrar-lhes que não nos podem encerrar.

– Pois não. A menos que não queiramos – disse James sabendo que o seu sorriso era calculista. – Não a menos que não queiramos.


Vinte e Sete

Theo decidiu-se a jantar com o vestido verde e o anel de rubis. Depois de pensar um momento, acrescentou também o colar de rubis.

Sentiu-se divertida ao pensar que estava vestida como a rainha dos piratas. Ou seria a imperatriz? Até os seus sapatinhos de salto brilhavam com o enfeite de diamantes. Theo semicerrou os olhos olhando-se ao espelho. Certamente que a consorte de um pirata deveria brilhar da cabeça aos pés.

Suspeitava que os piratas não tinham imperatrizes. Tinham concubinas. Mas bastou-lhe um olhar para se aperceber que ninguém a poderia tomar por uma mulher da noite. Tinha um ar sumptuoso, talvez um pouco severo. Como se não se risse o suficiente. Theo franziu de novo a testa, claro que se ria. Sempre.

Mas, ao descer a escada, não se lembrava de quando fora a última vez que o fizera. Provavelmente da última vez que estivera com Geoffrey; ele fazia-a sempre rir. Certamente teria um grupo em seu redor, naquele preciso momento, e estava a fazer com que todos os elementos rissem a bandeiras despregadas descrevendo o modo como o «selvagem» entrara na Câmara dos Lordes a tempo para o seu próprio funeral.

Havia algo notoriamente deselegante em Geoffrey; quanto mais o conhecia, mais evidente lhe parecia. Theo não queria fazer troça de James, apenas livrar-se dele. De facto, não desejava que ninguém o ridicularizasse.

Quando entrou no salão pensava ainda na provável troça que Geoffrey faria de James.

– A senhora duquesa – anunciou Maydrop e fechou a porta nas suas costas. Por momentos, os seus olhos encontraram os de James e depois viu como ele estava vestido. Os lábios dela abriram-se de espanto e parou.

James envergava o fato mais extraordinário que ela já vira em Paris ou em qualquer outro lugar. O casaco era feito de seda cor de ouro-escuro e lustroso. Por baixo, vestia um colete com rosas bordadas e apertado com botões de cor azul-anil. A gravata era de uma espantosa seda indiana em cores que iam do laranja ao rosa. O toque final? Calças justas que lhe delineavam todos os centímetros das suas coxas musculosas, apertadas com pequenos laços cor-de-rosa logo abaixo dos joelhos.

Os laços eram a coisa mais absurda. Lentamente, Theo admirou-lhe o corpo. O fato era tão belo que parecia pouco próprio para um homem. Os tecidos eram exóticos e o corte parisiense. O colarinho tinha cortes profundos e era muito mais largo do que o que se usava em Londres. As calças eram mais apertadas do que as que os ingleses costumavam usar.

Porém, ninguém poderia olhar para a inegável aura de poder fortemente controlado que cingia James como uma capa pensando nele como pouco masculino.

Pela primeira vez em mais de um ano Theo deu por si cravada por um relâmpago de pura luxúria de alfaiataria.

– O teu casaco foi feito por Monsieur Bréval – disse por fim. – Ou estarei enganada?

James dirigiu-se a ela com um copo de champanhe.

– O nome parece-me conhecido – respondeu ele amavelmente. – Um homenzinho redondo com pés muito pequenos e uma propensão por dourados?

– Tem uma lista de espera de dois anos – observou Theo aceitando o copo.

– Todos os homens têm o seu preço e, se bem me lembro, o Bréval ficou fascinado por um conjunto de granadas encastoadas em prata. Se tivesse percebido que ele era tão procurado, teria sido menos ofensivo quando quis enfeitar este casaco com borlas.

Theo riu e bebeu o vinho. Invadiu-a uma onda de alívio tão forte que a pôs pouco à vontade. James já não se parecia com um pirata. A gravata caía-lhe numa cascata habilmente atada: o cabelo, curto, exibia um penteado Brutus. É verdade que era grande, mas, como sempre, com as roupas certas um homem podia aparecer no seu melhor. Todo ele parecia um duque.

– Que seda extraordinária – comentou ela, passando-lhe os dedos pela manga. Era uma estupidez estar a reparar que havia força contida por baixo da seda.

– Que estranho – disse James depois de uma pequena pausa. – É difícil saber de que falar com uma esposa que não se vê há sete anos. Seja como for, o tempo não me parece um tema de conversa apropriado.

Theo afastou-se dele e sentou-se num pequeno divã. Por momentos, pensou que ele tomaria o lugar ao lado dela; nos olhos dele havia algo intenso, como se fossem iluminados de dentro. Mas James sentou-se, apropriadamente, numa cadeira, diante dela.

– Sir Griffin virá jantar connosco?

– Não. Tencionava sair esta manhã para ir ter com a mulher a Bath, mas os jornalistas que se encontravam no jardim das traseiras fizeram-no mudar de ideias. Já partiu, mas pediu-me que te apresentasse as suas desculpas por não te agradecer pessoalmente a hospitalidade.

– A mulher dele! – exclamou Theo, distraída pela ideia de poder haver outra dama em posição idêntica à sua. – Ela sabia que ele era um pirata? E que estava vivo?

– Sabia que estava vivo – respondeu James. – Em relação à pirataria, não sei bem.

– Bom – Theo pôs de lado o facto de Sir Griffin Barry não ter deixado a mulher na ignorância acerca da sua segurança. Presumivelmente, não se teriam separado em condições tão desagradáveis como ela e James. – Gostaria que me contasses coisas acerca da tua vida de pirata – pediu, bebendo outro gole de champanhe e pondo o copo de lado. Preferiria não beber demasiado.

– Ah, a vida de pirata – exclamou James, pensativo. Também poisou o copo permitindo que Theo reparasse num estreito folho engomado no punho, enfeitado com fio metálico dourado.

– Oh! – exclamou ela, interrompendo-o. – Esse folho é magnífico!

Ele estendeu o braço e ficou a olhar.

– Não achas um pouco exagerado? Pensei que era, mas uma princesa da ilha de Cascara partilhava a tua opinião.

Ao ver o sorriso dele, Theo partiu do princípio que James tinha agradáveis recordações da princesa. Endireitou as costas.

– Esforçou-se bastante por garantir-me que o meu galeão seria sempre bem-vindo no seu porto – continuou James. – Não que me agradasse aportar o navio nesse porto.

– E porque não? – perguntou Theo friamente. – Demasiado fatigante para um homem da tua idade?

– Tinha gente a mais – replicou ele, os olhos brilhantes de humor malicioso. – Os piratas preferem encontrar uma ilha pequena cuja areia nenhum homem tenha pisado. Gostamos de encontrar um pequeno refúgio esquecido a sonhar ao sol. À nossa espera.

Mesmo sem querer, Theo sentiu um sorriso ameaçar-lhe os cantos dos lábios. James adorava dizer disparates quando era rapaz. Fazia-a rir até as costelas lhe doerem. Talvez não tivesse mudado assim tanto.

– Gostarias então de saber como é a vida de um pirata – disse James, estendo as pernas.

Theo afastou rapidamente os olhos das coxas dele e passou a fitar-lhe o rosto. O rosto de James quando era jovem parecia ter sido esculpido por um mestre como Donatello. Nunca se surpreendera por a sua mãe o considerar angélico: sempre parecera um querubim, daqueles que passavam a vida a cantar hinos com tanta alegria que os pássaros choravam de inveja.

Nunca mais. O seu rosto alargara tal como todo o seu corpo e o que haviam sido faces elegantes tinham-se tornado mais secas e brutais. O nariz fora sem dúvida partido num qualquer conflito. E havia a tatuagem, pois claro.

– De que gostavas assim tanto nessa vida? – perguntou ela sustendo a respiração. Mesmo sem querer acrescentara silenciosamente: muito mais do que gostavas de mim. Maldição, não seria altura para a vulnerável Daisy fazer a sua aparição.

Mesmo assim doía ser magoada.

Por duas vezes sentira que lhe arrancavam o coração do peito: quando se apercebera de que James mentira acerca das razões do casamento e quando a mãe morrera. A recordação conferia-lhe firmeza.

– Sabes como eu sou – disse James preguiçoso, ignorando-o ou não se apercebendo da pergunta que ela não fazia. – Quando era rapaz estava constantemente a fugir de casa, tentando acalmar-me, correndo pelo jardim. Durante os primeiros três ou quatro anos, não parei, cada dia, todos os dias. Navegar é um trabalho duro; aprisionar navios piratas é ainda pior.

– Posso imaginar – declarou Theo. Levantou-se e dirigiu-se para o cordão da campainha. Não conseguia suportar mais intimidade. Seria melhor estarem na sala de jantar, onde teria algo que fazer com as mãos e estaria acompanhada pelos criados. – E o que viste – perguntou, sentando-se de novo.

Ele falou-lhe num enorme peixe que saltara da água e lhes sorrira, dos longos tentáculos de um polvo, da madrugada surgindo por cima do oceano quando nada mais havia para ver senão água azul inclinando-se suavemente para abraçar a curva da terra.

Quando passaram para a sala de jantar, James mandou embora os criados que se posicionavam atrás das cadeiras com um gesto da cabeça. Theo ia protestar dizendo que a sua casa estava perfeitamente organizada porque... mas apercebeu-se de que aquela já não era a sua casa.

Mas, logo a seguir, ele fez-lhe uma pergunta acerca da tecelagem e foi um prazer falar com alguém interessado – alguém a quem não pagava salário.

As velas pingavam e eles continuavam a conversar. De vez em quando, Theo reiterava que deixaria a casa na manhã seguinte, mas James parecia perfeitamente razoável nas suas respostas e não a besta feroz que a arrebatara no vestíbulo nesse mesmo dia.

Para dizer a verdade, ele acompanhara-a até ao quarto, inclinara-se como um perfeito cavalheiro e retirara-se.

Apenas depois de Amélie a ter ajudado a deitar-se se apercebeu de que se sentia um pouco triste. Peixes voadores tinham sido suficientes para o afastarem dela?

Fora uma perfeita tola. Afinal, tinha conservado a ideia do seu amigo de infância. E agora, mesmo quando uma versão adulta desse amigo lhe sorria do outro lado da mesa, delicado e encantador, queria mais. Queria que ele a adorasse tal como se lembrava.

Obviamente ele tinha mudado.

Por fim, deixou-se ficar durante horas a olhar para o escuro, sentindo-se um pouco sentimental devido ao efeito do champanhe. Embora James dissesse que não tinha navegado até ao porto da tal princesa, provavelmente fizera-o. E, a julgar pelo seu sorriso, o porto fora sedutor.

E, sem dúvida, cheio de curvas.

Theo talvez pudesse ser encantadora... mas, sedutora, nunca. As suas antigas dores apresentavam-se e, no meio da noite, decidiu que por muito belos que fossem os cetins e as sedas em que se envolvia, continuava a sentir-se feia. Não era necessário referir-se a aves aquáticas de qualquer tipo.

Apenas feia.

Já para não falar em cheia de pena de si própria.

Era tudo muito deprimente.

No dia seguinte acordou zangada – principalmente consigo própria, embora também um pouco com James. Não poderia ele ter ficado a viver com aquelas donzelas douradas em grutas escondidas e tudo o mais?

Teria sido uma viúva feliz. Teria encontrado um homem de olhos inteligentes e rosto magro. Forte, mas esguio. E muito delicado. Depois de um momento de hesitação, acrescentou-lhe um queixo pouco alongado. Não desejava uma beleza.

De vez em quando, pensava em como James lhe parecera amável na noite anterior do outro lado da mesa e com que delicadeza lhe fizera perguntas – precisamente como se fosse um tio bem-intencionado que ela tivesse perdido de vista – e uma nova brasa de irritação se acendeu no seu estômago.

Quando por fim desceu para o almoço, Maydrop recebeu-a junto à escada.

– A situação piorou no exterior da casa – disse, acompanhando-a até à sala de jantar. Theo tomara apenas uma chávena de chocolate quente ao pequeno-almoço e estava cheia de fome.

– Pior? – perguntou, quase sem o ouvir. Nem esperou que o mordomo lhe abrisse a porta da sala de jantar. Abriu-a ela própria.

James estava sentado à mesa a comer aquilo que parecia ser porco assado e a ler o jornal. Theo respirou fundo. Ele ergueu os olhos e levantou-se.

– Perdoa-me por ter começado a refeição. Pensei que não me acompanharias ao almoço, mas enganei-me. Pensei que tomarias a refeição nos teus aposentos.

– Nunca como nos meus aposentos – disse Theo mantendo a voz calma com algum esforço.

James ergueu as sobrancelhas e olhou para Maydrop.

– Isso quererá dizer que não tomaste pequeno-almoço. Será que nenhum dos teus serviçais se apercebe de que te tornas num diabinho se não comeres com frequência?

O criado segurou na cadeira e Theo deixou-se cair nela. Depois de ter comido um pouco de truta delicadamente cozida com um toque de manteiga sentiu-se melhor.

James não disse mais nada. E não deixou de ler o jornal. Se era assim a vida de casados ela não a queria. Era a cortesia que tornava a vida tolerável. Se as pessoas liam o jornal nos momentos em que deveriam conversar educadamente, podiam também acocorar-se junto a uma lareira e mastigar bocados de carne como selvagens.

Maydrop ofereceu-lhe três sobremesas diferentes apresentadas por criados que avançaram um passo, precisamente ao mesmo tempo. Pelo menos, nem tudo em sua casa se tinha desfeito em bocados. Fez um sinal na direção do bolo de pera.

Do outro lado da mesa, James afirmou:

– Também como uma fatia.

Maydrop deu a volta à mesa, seguido pelos criados.

– Vi o que ofereceram à senhora duquesa – disse James impaciente. – Não é preciso trazerem tudo até aqui. – Apontou para o bolo com o garfo.

Theo sentiu o peito invadido por uma onda de calor, como se tivesse entrado numa forja. Porém, começou a comer o bolo de pera, tentando ignorar o facto de James continuar a ler. E a rir enquanto lia, mas sem se preocupar em partilhar com ela o que o divertia tanto.

– Isto é absurdo – disse por fim erguendo a cabeça. Tinha os olhos brilhantes de tão divertido. – Nunca tinha visto um jornal assim. – Ergueu a página. – Não nomeiam ninguém senão pela inicial.

– Jornais de mexericos. Não mando entregar cá em casa esses disparates – disse Theo. – Onde diabo o arranjaste?

– O Maydrop mandou um criado comprar os jornais – replicou James, voltando à leitura. – Queria ver como descreviam a minha entrada na Câmara dos Lordes. Admito que foi uma curiosidade vulgar.

– E? – Comeu o resto do bolo de pera que estava verdadeiramente delicioso.

– A senhora duquesa vai provar a tarte de amoras – disse James apontando com o garfo para o criado apropriado.

– Eu tomo essas decisões! – explodiu Theo. Tinha decidido não abusar dos doces. Mas o criado colocara já uma fatia de tarte diante dela. Cheirava maravilhosamente e mesmo sem querer comeu uma garfada.

– A maior parte destas descrições denota uma surpreendente falta de imaginação e pintam-me como um selvagem – disse James com um leve tom de queixa na voz. – O melhor de todos é o Town Twaddle, pelo menos esforçam-se.

Theo sentia-se de facto melhor.

– Bruto? Monstro?

– Neptuno, nem mais! – exclamou James triunfante. – Espera um momento. – Procurou num monte de folhas que haviam caído no chão ao lado da sua cadeira.

Theo fechou os olhos por segundos. Claro que não podia ordenar a Maydrop que limpasse tudo aquilo imediatamente. Uma folha solta chegou-lhe junto ao pé e ela afastou-a.

– «Apareceu do mar como um deus antigo» – leu James em voz alta. – «Sob os seus ombros largos poderia transportar os desgostos do reino.»

Theo soltou uma exclamação de desdém.

– Como? Não queres ouvir a parte de como eu acalmei as ondas?

James atirou-lhe a folha. Assentou sobre o prato pegajoso onde ela comera a tarte de amoras.

Theo baixou os olhos e leu automaticamente a descrição de James.

– Trouxeste para casa uma arca do tesouro?

– Bem, é verdade – confirmou James. – Mandei o Maydrop guardá-la no sótão até que quisesses ir vê-la.

Os olhos de Theo desceram automaticamente para o parágrafo por baixo, aquele que descrevia «um mundo espantado» à espera de ver se um certo duque se aperceberia de que a mulher não passava de uma catatua de Esopo coberta de plumas emprestadas. Previam que ele escolheria retirar-se, como Orfeu, para a terra dos mortos.

Não ouviu James aproximar-se, mas sentiu o jornal desaparecer da frente dela. Com um impropério que nunca antes ouvira, ele arrancou as páginas, rasgou-as e atirou-as para o lado.

Theo ergueu os olhos.

– Não é assim tão mau – disse ela, tentando sorrir. – Estou habituada a ser comparada com aves de uma ou outra espécie.

James vociferava. Parecia uma fera enlouquecida fingindo ser um homem. Bocados de jornal pegavam-se à manteiga e uma tira caíra dentro de um copo de água.

– Maydrop – disse Theo. – Por favor, mande vir a carruagem. Que vou partir dentro de mais ou menos uma hora.

Uma expressão de agonia passou pelo rosto do mordomo.

– Senhora duquesa, creio que tal será impossível.

– Discordo – disse ela num tom que não admitia mais comentários.

O mordomo torcia as mãos, gesto que ela nunca o vira fazer.

– A casa está cercada, senhora duquesa.

– Maydrop, eu convenço a senhora duquesa – disse uma voz ao lado dela e o mordomo e os criados retiraram-se enquanto James ajudava Theo a levantar-se.

A cabeça dela parecia girar. Como se atreveria ele a dar ordens aos seus criados? Mas de facto os criados eram dele.

– Vem cá. – James puxou-a para junto da janela e afastou a cortina com um dedo. – Olha.

As pessoas não só se juntavam lá fora junto à casa, como também enchiam a rua – e pareciam chegar mais a todo o momento.

– Impossível – disse Theo sufocada.

– O mesmo se passa nas traseiras. Não podemos sair de casa senão quando isto acalmar, Daisy.

Theo pensou em zangar-se por ele não usar o nome escolhido, mas conseguiu deter-se. Não podia prescindir de toda a civilidade só porque um jornalista idiota a comparara com uma catatua. Catatua, patinho, cisne... não fazia diferença.

Por momentos, ficaram ali parados, o corpo quente de James por trás do seu, a espreitar pela cortina para a multidão que se juntava entusiasmada.

– Não percebo o que há de tão interessante nesta situação – declarou ela, vendo um grupo de rapazes voltar a esquina e juntar-se à multidão.

– Vamos dar que fazer a esses escrevinhadores – sugeriu James.

Antes que ela pudesse responder, James abriu a cortina com força, puxou-a para os seus braços e encostou com força a boca à dela. Ouviu um elevar de vozes ao longe, mas nem reparava.

Sentira a falta dos beijos. Não da cama, mas dos beijos.

Ele era quente, possessivo e...

Protetor. Afastou a cabeça. Empurrá-lo era como tentar afastar um bloco de mármore.

– Não preciso que me defendas.

James olhou pela janela. Lá fora na rua, as pessoas saltavam para poder ver melhor. Ele levantou a mão e acenou-lhes.

– Oh, meu Deus – gemeu Theo.

Depois levantou-lhe o queixo com uma mão e depositou outro beijo nos lábios dela, enquanto com a outra fechava com força as cortinas.

Olharam um para o outro durante um momento. A delicada sofisticação da noite anterior? Desaparecera. Havia luxúria estampada no rosto dele.

Luxúria pura e despudorada.

Theo sentiu-se invadida por uma onda de pânico que a fez recuar.

– Daisy – disse James rispidamente. – Daisy, não estás com medo de mim, pois não?

Não podia dizer-lhe a verdade. Claro que não tinha medo dele.

Tinha medo de si própria.

Por isso correu para a segurança do seu quarto.


Vinte e Oito


Durante anos a vida de Theo fora maravilhosamente organizada. Conhecia todos os livros que tinha nas prateleiras, todas as fitas que tinha nas gavetas. Rodeara-se de beleza. Todas as suas posses eram requintadas. James costumava ter aquela cintilante perfeição.

Porém, agora – apesar do seu extraordinário fato da noite anterior – estava mais brutal do que belo. Toda a sua energia cortante estava ali, mas o excesso convertera-se em força física. Não havia a mínima dúvida de que ele desejaria retomar as relações eróticas indisciplinadas que haviam partilhado por breve tempo.

Nunca mais faria aquilo com ele. Nunca.

Todavia, excetuando a realeza, não havia ninguém mais poderoso em Inglaterra do que um duque. Se James queria conservá-la, conservá-la-ia. E garantiria que a tinha na cama.

O coração começou a bater-lhe na garganta num ritmo desesperado e ela sentiu-se como se de repente o quarto estivesse dentro de um forno. James entraria provavelmente nessa mesma noite e exigiria os seus direitos conjugais. Do mesmo modo que entrara na casa de banho.

Tinha direitos. Pela lei inglesa tinha direitos. Levantou-se trémula e despiu o vestido pela cabeça seguido da camisa. Para jantar vestiria um vestido largo. Meteu-se na cama apenas com as calças e enrolou-se numa bola tão pequena e apertada quanto lhe foi possível.

Talvez, se dormisse a sesta, acordasse e descobrisse que aquele dia nunca tinha acontecido. Talvez fosse um delírio de febre.

Afinal, o conto de fadas deveria acabar quando o patinho feio se transformava num cisne. Todos sabiam que os cisnes conseguiam o que queriam. As pessoas bonitas sempre o conseguiam.

Adormeceu a pensar na beleza e sonhou que andava às voltas num salão de baile pelo braço de um homem que era simplesmente radioso. Semicerrou os olhos tentando ver se a pele dele era de facto incandescente.

– Sim – disse-lhe ele em voz gentil. – Sou um dos abençoados.

A antiga sensação de ser um ser inferior desceu de novo sobre ela. Não importava como se vestisse, nunca seria capaz de brilhar, por amor de Deus.

Ele fazia-a girar cada vez mais depressa... e Theo acordou com uma lágrima a deslizar-lhe pelo rosto. Theo nunca soubera mentir a si própria. Não se sentia como um cisne. Sentia-se como uma dessas pastoras de porcelana que o velho duque gostava de desconsiderar.

Sentia-se como um vaso vazio, uma mulher inútil de quem o marido ignorara a existência durante sete anos. Uma mulher estúpida que casara com um homem que herdara uma capacidade para a criminalidade.

Ao primeiro ano seguira-se outro e depois mais outro. Começava a controlar os soluços quando ouviu abrir-se a porta do quarto.

– Amélie – disse, em voz rouca –, traz-me um lenço, por favor.

Não valia a pena esconder soluços da criada. Amélie sabia tudo da vida de Theo e sempre saberia.

Assim, manteve-se enroscada como um arganaz e, quando ouviu passos, estendeu a mão. Claro que um lenço macio lhe foi metido entre os dedos que o aguardavam.

– Sinto-me muito desmoralizada – disse, limpando uma última lágrima. Chorara tanto que molhara o cabelo sob a face. Tinha os olhos e a garganta a arder.

– Importas-te de mandar subir um bule de chá?

Mas em vez dos passos suaves de Amélie a afastarem-se a cama balançou quando alguém se sentou ao lado dela. Alguém que pesava talvez sessenta quilos mais do que a criada.

– Ora, abóbora – murmurou, fechando os olhos.

– É esse o teu pior impropério? – perguntou James curioso.

– Tenho um melhor – disse por entre dentes. – Mas reservo-o para as ofensas diretas. Importas-te de te ir embora?

Houve um momento de silêncio, quase como se ele fingisse pensar no pedido dela.

– Não.

Theo deveria sentar-se e enfrentá-lo. Mas, para dizer a verdade, estava com pena de si própria. Assim, puxou o lençol mais para cima das orelhas e fechou ainda mais os olhos.

– Já te disse o que fazem os piratas depois de um duro dia de trabalho?

– Para além de atirarem da prancha as pessoas que estão a mais? – perguntou irritada.

– Depois disso – disse ele em tom agradável. – Um capitão pirata não pode baixar a guarda, por isso eu e o Griffin não participávamos nas celebrações da tripulação.

Theo tentava respirar calmamente, mas um trémulo soluço surpreendeu-a.

– Lavo-me em água quente. Depois enrolo-me num cobertor e vou dormir. – Levantou-se e os seus pés dirigiram-se à casa de banho. Um momento depois, ouviu ranger a bomba e a água a correr para a banheira. O desgosto e exaustão pareciam ter-lhe acalmado os pensamentos.

Acabou até por adormecer durante algum tempo, escutando a água a correr, mas acordou no momento em que se apercebeu que estava a ser levantada da cama. Agarrou-se ao lençol com todas as forças, o que significava que o trouxe atrás.

– Para – exclamou, aclarando a garganta quando a voz lhe saiu num murmúrio. – Põe-me no chão!

– Daqui a pouco.

Da posição em que estava nos braços de James, podia ver claramente a cicatriz que lhe atravessava o pescoço e teve uma sensação estranha. Esperava que tivesse conseguido matar o pirata que lhe tinha feito aquilo.

Mas depois ele pô-la de pé e ali ficou muito maior que ela, enorme e masculino. Sentiu o ar na pele e apercebeu-se de súbito que o lençol desaparecera, deixando-a nua excetuando as calças.

O som que lhe saiu da garganta assemelhava-se aos gritos dos pavões que percorriam o parque do Palácio de Buckingham.

– Mas que diabo pensas que estás a fazer?

Estendeu a mão e arrancou o lençol a James antes que este pudesse responder. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de encontro à parede.

– Sai daqui! – gritou ela com a voz entrecortada. – Que estás aqui a fazer? Onde está a minha criada? Porque não me deixas em paz?

– Vim em vez da tua criada – explicou James, endireitando-se.

– Vai-te embora! – gritou Theo, sentindo-se melhor agora que se cobrira. Tinha os olhos vermelhos e inchados e a voz entrecortada. Todo o corpo lhe doía e sentia-se exausta e fraca, o que não acontecera desde a morte da mãe.

Respirou fundo.

– Tenho de pedir que me dês alguma privacidade. Percebo que não estejas habituado a tal a bordo do navio, mas preciso de estar só.

Theo pensou em ver-lhe nos olhos uma leve sombra do antigo James, do seu companheiro de infância.

– Devias ir tomar um banho – disse ele. – Vais sentir-te melhor. Já vi que estiveste a chorar.

– Que dedução brilhante – ironizou ela terminantemente. – Quando tomo banho, faço-o sozinha. Adeus.

– Porque é que as tuas calças são tão simples?

– Como?

– As tuas calças. Lembro-me delas enfeitadas com rendas francesas, fitas e seda. Passei muito tempo a pensar nelas a bordo do navio.

Theo franziu a testa.

– As minhas calças são simples porque desisti das coisas infantis.

– Gostava delas.

– Gostavas tanto que nem querias que eu as usasse! – A frase saiu-lhe da boca para fora inconscientemente.

– Era apenas um jogo erótico – respondeu ele, encolhendo os ombros.

– Essas peças de roupa interior eram frívolas – disse ela friamente. E recordavam-na demasiado daquela tarde terrível: desde aí usava apenas linho, sem adornos, e austero rente à pele.

Ele agitou os dedos e ela semicerrou os olhos.

– Não penses em arrancar-me de novo o lençol ou ponho um joelho onde sei que te vai doer mais.

Qualquer coisa passou pelo rosto dele... pareceu ter pena dela. Ou seria até compaixão? Theo engoliu em seco. Aquilo era o fecho de um dia verdadeiramente maravilhoso.

– Podes, por favor, sair da casa de banho? Se não por vulgar cortesia, pelo menos porque antes me respeitavas? Por favor?

Ele baixara os olhos e Theo não conseguia aperceber-se do que ele estava a pensar. Mas, em vez de sair do quarto, James sentou-se a um canto, no banco da criada.

– Não – disse ele.

– Então saio eu – decidiu Theo voltando-se. – Obrigada por teres bombeado a água para o meu banho.

Ele levantou-se e pegou-lhe no pulso antes de ela poder dar mais um passo.

– Que estás a fazer? – perguntou ofegante. Depois olhou-o nos olhos. – Tu... tu nunca forçaste mulheres, pois não, James? Isso não. – E sem querer as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Um gemido surdo saiu-lhe do peito.

– Como podes perguntar-me uma coisa dessas?

– Porque és um pirata. Porque tu... tu... – sufocou o que dizia ao ver-lhe a expressão do olhar. Não estava zangado, mas sim magoado.

– Tens medo que eu faça uma coisa dessas contigo? – Tinha a voz ferida e algo soturna.

Theo engoliu em seco. Os olhos dele tinham tomado a cor arroxeada do céu diante da tempestade.

– Claro que não – afirmou sem conseguir que a afirmação fosse muito convincente. O pior era não estar perfeitamente certa de ser capaz de lhe resistir.

– Nunca forcei uma mulher – disse ele, num tom que recordou a Theo a beleza pura da voz dele. Antes.

– Mas mataste pessoas – retorquiu ela, mordendo o lábio.

– Apenas quando tive de o fazer. E nunca inocentes: sob o meu comando, o Poppy Two atacou apenas navios piratas com a bandeira da caveira e das tíbias, tal como o Flying Poppy, a partir do momento em que eu e Griffin juntámos forças.

– E não obrigaste ninguém a caminhar pela prancha? – perguntou ela, sentindo uma patética nota de esperança na sua própria voz.

– Não – respondeu ele, olhando-a com firmeza e, embora tanto tivesse mudado nele... tinha um corpo diferente, a voz desaparecera e o rosto estava mais maduro... os olhos eram os mesmos. Orgulhosos e sinceros.

– Sinceros?

Sentiu invadi-la outra onda de exaustão. Ele enganara-a quando casara com ela, mentira ao pronunciar os votos diante de Deus e dos homens. Ela voltou-se com as pernas pouco firmes e caiu sobre o banquinho que ele deixara livre.

Depois assegurou-se de que o lençol a cobria decentemente, cruzou as mãos no colo e olhou para os pés.

– Isto nunca dará resultado – afirmou. – Nunca.

– Porque não? – James parecia tranquilizadoramente calmo.

– Mudei. Já não sou tão simples. Prefiro que a minha vida tenha ordem. Prefiro ser respeitada e honrada dentro da minha própria casa. – Fez um aceno com a mão no ar cheio de vapor. – Vamos ser sinceros um com o outro, está bem? Amei-te e acredito que também me amaste, embora não o sentisses de um modo suficientemente forte para te opores ao teu pai. Mesmo assim, antes de o teu pai ter feito aquilo, não fazia ideia de que te amava... pelo menos não daquela maneira.

Estremeceu ao sentir apresentar-se dentro de si a recordação das intimidades.

– Como – perguntou ele imediatamente.

– Em retrospetiva sei agora que havia aspetos muito perturbadores na nossa relação, em particular nas nossas relações conjugais – disse ela. – Fiquei muito zangada contigo, mas há anos que desisti – acrescentou.

– Até te ter feito zangar de novo aparecendo na Câmara dos Lordes.

Ela olhou de novo para os pés.

– Não o apresento como desculpa, mas foi difícil ficar conhecida como sendo uma mulher tão feia que o marido nem tolerou viver no mesmo país que ela. Como tal, talvez seja demasiado sensível a descortesias.

– Não revelaste a verdade acerca da razão da minha fuga, porque qualquer explicação implicaria o meu pai e os seus problemas financeiros – disse James lentamente, sentando-se na borda da banheira de porcelana. – Ela nem respondeu. – Acreditaram, realmente, que eu te abandonei porque te considerava feia? – Parecia aturdido, o que era muito gratificante. Logo a seguir à mãe, James sempre fora o seu mais cego apoiante.

– Precisei de uns anos para deixar de os ouvir – continuou ela. – Mas assim que os domínios ficaram de novo lucrativos, fui para Paris e quando, no ano passado, regressei a Londres, usei uma capa de penas de cisne no baile de Cecil.

Ele nem sorriu.

– Foi um sucesso – insistiu Theo, encostando-se à parede.

– És maravilhosa, não importa o que tens vestido – disse ele, com simplicidade e sem compaixão no olhar. Como nunca aceitara que ela não fosse uma beleza, não conseguia celebrar o triunfo dela como cisne.

– Quero dizer-te que, quando apareceste tão de repente nos Lordes afetou a minha sensibilidade, já tão cansada, e fiquei furiosa. Aceito que tentasses contactar-me durante a manhã, mas o facto de ignorar que estavas vivo até ao momento em que te identificaste, confirmou a impressão de que não suportavas viver com uma mulher tão feia. Mesmo assim, já não estou zangada – acrescentou tentando em vão fazê-lo num tom mais animado.

– Que absurdo – respondeu com o rosto perfeitamente inexpressivo,

– Vou mudar-me para França – declarou ela com súbita urgência. – Vou para qualquer outro lugar, James. Por favor, deixa-me ser quem sou agora. Não posso fingir que a jovem com quem casaste vá regressar alguma vez. Não posso... não posso ir para a cama contigo. – Sem querer havia uma gota de líquido de desagrado na sua voz.

James endireitou os ombros.

– Não queres ir porque me desprezas por te ter abandonado ou porque mudei? – perguntou ele, momentos depois.

– Fui eu que te mandei embora. Acredites ou não, aceitei as culpas pelas minhas desagradáveis afirmações.

– Não tinha intenção de te diminuir diante da Câmara dos Lordes.

– Foi o que me disseste e eu acredito – respondeu ela tentando garantir o que sentia. – Por isso, penso, espero eu, que possamos simplesmente ser sinceros um com o outro, como os amigos que antigamente éramos, e com o respeito e afeto que partilhámos noutros tempos.

Ele resmungou.

– Desculpa, o que disseste?

– Era amor, não afeto – retorquiu ele, levantando a cabeça.

– Claro – disse ela, em tom frívolo. – Cheguei a pensar que o nosso casamento era como o de Romeu e Julieta na sua breve intensidade. Suponho que foi bom nunca ter sido testado com a vida. O nosso amor era demasiado apaixonado, como uma tempestade de verão que rapidamente se afasta.

– Discordo. Creio que nesta altura já teríamos filhos – disse ele. – Estaríamos ainda mais apaixonados. Em determinada altura, ter-te-ia confessado a razão pela qual casara contigo e tu ter-me-ias perdoado, porque é isso que fazem as pessoas apaixonadas.

Nos olhos dele havia uma centelha intensa que fez um arrepio percorrer as costas de Theo.

– Poderia ter acontecido assim. Mas o que quero dizer é que não podemos fingir que essas emoções possam ser acordadas de novo. Não podem. Acredito que os tribunais nos permitiriam o divórcio, embora raramente o façam. Só em casos extraordinários.

– O caso extraordinário será a minha carreira de pirata.

– Mesmo que nunca tenhas obrigado ninguém a caminhar pela prancha – disse ela num tom de quem pede desculpas.

– Ou forçado mulheres.

– Sim, mesmo assim. Sabes, basta que pensem que tal aconteceu.

Theo não gostava do firme controlo que ele mantinha sobre si próprio. Era quase melhor quando perdia a cabeça e gritava. Agora até o ar em redor da sua cabeça parecia arder de sentimento e nem chegara a erguer a voz.

– Queres que finja ser um violador e um assassino para que o nosso casamento seja dissolvido – disse ele com simplicidade.

– Não! – respondeu Theo quase num grito.

Ele não respondeu.

– Claro que não quero que as pessoas pensem que és... essas coisas. Porque de facto não o és e eu estou muito aliviada por isso. Penso que basta o facto de estares muito diferente do que eras, James. Estás tão grande. E tatuado. A tua voz... – a voz dela desvaneceu-se e gesticulou sem saber porquê. – Já não pertencemos um ao outro.

– Porque não?

Theo quase soltou uma gargalhada.

– Não me importaria de apostar que sou a mulher mais organizada de Londres. Foi assim que administrei os domínios, construí as fábricas. Faço listas. Não – corrigiu-se. – Faço listas dentro de listas. A vida é muito mais agradável e eficiente quando tudo tem um lugar próprio.

– Não compreendo por que razão as tuas capacidades como administradora das propriedades impossibilitam o teu casamento comigo.

Não o disse em tom agressivo, por isso ela tentou explicar.

– Tomo muitos banhos e gosto deles sempre à temperatura exata. Instalei a bomba na casa de banho para que os criados não tenham de subir a escada com a água; assim vem diretamente da caldeira da copa. Os meus banhos são perfumados com três gotas de óleo de prímula. Não é um óleo qualquer, mas um com uma fragrância especial que é feito propositadamente para mim na propriedade do Staffordshire.

James não pareceu impressionado.

– A vida é mais fácil, muito mais fácil, se eliminarmos as questões que incomodam as outras pessoas – continuou Theo. – Durante o inverno, o meu banho é perfumado com flores de sabugueiro, mas mudo para a prímula no dia um de abril.

– És tão rígida como a estaca de uma sebe – afirmou ele. Não era a primeira vez que lhe diziam uma coisa semelhante.

– Suponho que seja – concordou, acenando com a cabeça. – Prefiro pensar em mim como uma pessoa lógica. Sei precisamente o que quero vestir para cada ocasião. Não tenho mais vestidos do que os que posso usar e visto-os exatamente o mesmo número de vezes antes de os dar à minha criada. Nunca tenho de me preocupar com a possibilidade de vestir um vestido antiquado ou gasto.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça e ela sentiu uma leve pontada de saudade do antigo James das suas recordações. Era um maneirismo que conservava desde rapaz.

– Será necessário esse nível de rigidez?

– Não faz mal a ninguém. A minha casa funciona como um relógio. Sinto-me confortável e feliz. Os meus empregados sabem precisamente o que espero deles, mas, em troca, não lhes peço mais do que o que podem dar.

Ele não parecia convencido.

– O meu sistema permite-me ser mais produtiva do que a maioria das mulheres... ou até dos homens – afirmou. – De uma maneira geral, pouco mais se pede às damas da aristocracia do que administrem uma casa.

– Peço desculpa por te ter deixado com as responsabilidades dos domínios – disse James em voz baixa.

Theo sorriu, um sorriso rápido e doce e, de repente, estava ali de novo a sua Daisy, pelo menos por um momento. James teve uma breve vertigem com se de repente o mundo se tivesse inclinado levemente para o lado.

– Gostei de ficar responsável pelos domínios – admitiu ela com alguma timidez. – Antes de morrer, a minha mãe disse-me que eu não tinha o direito de me queixar pelo fim do nosso casamento e tinha razão. Gosto de dizer às pessoas o que devem fazer. Provavelmente, nunca teria dado uma boa esposa, mas sou um bom duque.

James pensou no assunto por alguns momentos. Deveria concluir que, num ducado, havia apenas lugar para um duque.

– Lamento muito a morte da tua mãe – comentou por fim. – Quando aconteceu isso?

Pelo rosto de Theo passou uma nuvem de tristeza e voltou a olhar para os pés.

– Há uns anos. Ainda sinto a falta dela.

– Também sinto a falta do meu pai – confessou ele em tom natural, mas, como não conseguiu olhar para ela, voltou-se e meteu os dedos dentro de água. Estava já fria, por isso começou a bombear mais.

– Tive muita pena que tivesse morrido – lamentou Theo. – Estava muito confuso quando o trouxeram para casa depois de o coração lhe ter falhado, mas não parecia ter dores. Apagou-se simplesmente durante a noite.

James engoliu em seco. A água lançava-lhe vapor no rosto e sentia as pestanas molhadas.

– Bem. Foi um dos meus muitos erros. Gostaria de ter ficado com ele. – Theo nada pôde dizer a esse respeito. – E gostaria de poder evitar outro erro e ficar casado contigo – declarou. Deixou de bombear, mas não olhou para ela. Era aborrecido, mas a sua voz não era já tão firme quanto poderia ser.

Ela não respondeu, por isso James olhou-a e pensou ver-lhe compaixão no olhar. Endireitou-se e limpou da pele as gotas de água.

– És minha amiga – disse ele, erguendo-se e caminhando para o extremo oposto do quarto. – Gostaria de estar casado com uma amiga. Conheceste o meu pai. O seu lado mau e o bom. Gostaria de poder ser sincero com a minha mulher e fazê-la compreender que é possível amar alguém e detestá-lo ao mesmo tempo. Embora já tenha morrido.

Ela soltou uma pequena gargalhada.

– Mudaste enquanto estiveste fora, James.

– Pouco mais há a fazer a bordo de um navio do que ler e pensar. Habituei-me a ler filosofia.

– Mas eras um pirata! Os piratas não leem filosofia. E pensei que detestavas ler.

– Não éramos piratas, mas sim corsários que atacavam piratas. Passámos muito tempo a espreitar as rotas de navegação, fingindo ser barcos inocentes, sob a bandeira do reino da Sicília, à espera de bandidos que erguessem a bandeira da caveira e das tíbias. Na maior parte do tempo, a vida no mar é muito aborrecida. Por isso decidi ocupar o tempo a ler.

– Mas sempre detestaste aborrecer-te – disse ela.

Theo parecia um pouco melhor. Não tinha os olhos tão vermelhos e a boca curvava-se-lhe num sorriso. Quando Daisy sorria era a coisa mais bela que ele já vira.

Fazendo um esforço, James manteve-se fiel ao plano. Trevelyan nunca atravessaria o aposento a toda a pressa para lhe roubar o sorriso com um beijo. Não aceitara bem o beijo na sala do pequeno-almoço. O beijo que tanto o entusiasmara parecera provocar-lhe pânico.

– Tive de aprender a controlar-me – disse ele. – A bordo do navio podemos mergulhar da amurada e nadar quando nos sentimos inquietos. Esse tipo de exercício extenuante foi-me muito benéfico.

Ela demorou o olhar no peito de James e acenou com a cabeça.

– Bem vejo.

– Não sou assim tão grande – disse ele, um pouco na defensiva.

– Não foi isso que quis dizer. Penso que estamos a falar de coisas opostas, James. Também eu gostaria de ser amiga do meu marido. Mas conheço-te demasiado bem. Não queres apenas ser amigo da tua mulher. Queres mais.

– Quero filhos.

Ela assentiu.

– Sim. E mais do que isso. – Tinha o corpo tão rígido que parecia esculpida em madeira. – Queres todo o calor e a paixão que não posso dar-te.

– Porque não? – perguntou bruscamente, mesmo sem o querer, e por isso respirou fundo. – Percebo que a minha aparência mudou, mas podes habituar-te a ela. Ou será por não te ter sido fiel.

– Não. – Theo começara a dobrar e a desdobrar o lençol e isso agradou a James pois mostrava algum tipo de reação àquilo que ele lhe dizia.

– Não à infidelidade ou à minha horrorosa aparência? E à minha voz? – acrescentou recordando-se de como ela gostava que lhe cantassem. Se, naquele momento, ele lhe cantasse provavelmente assustá-la-ia a ponto de lhe tirar o sono dessa noite.

– A nenhuma. Isto é, a nenhuma das três. És o mesmo James que eras, já estou a ver.

Apercebeu-se de que erguia o canto da boca. Muitas mulheres lhe tinham dito que era belo; ele preferia que lhe chamassem «o mesmo James de sempre».

– Nesse caso, porque não tens em consideração a ideia de me levar para a cama?

Ela estremeceu um pouco e, para seu choque, ele apercebeu-se de que vira uma genuína sensação de desagrado, de repulsa, até.

– Não o posso fazer. Os meus sentimentos vêm em parte daquilo que aconteceu com o teu pai. Mas acabaria por chegar à mesma conclusão – disse, confiante.

– Chegar a que conclusão?

– Que simplesmente não sou esse tipo de pessoa. Todas as coisas que me pediste para fazer... não usar calcinhas por baixo dos vestidos, deixar o cabelo caído, embora os criados o vissem certamente... todo esse tipo de coisas me desagrada. – Estava a ser completamente sincera. Ele podia ler-lho no olhar. – Não sei por que razão concordei em fazer uma coisa tão desagradável. Mesmo assim, não quero que penses que estou a criticar-te ou às tuas necessidades. – Parecia muito franca. – Não é só por mim.

Ele aclarou a garganta. Era um choque aperceber-se que o mundo lhe podia causar tantos remorsos, alguns que lhe magoavam o coração, outros que começavam a desaparecer. O facto de ter culpa em acabar com a alegria de Daisy na intimidade, no encanto com que recebera o seu toque e encontrara o prazer na cama... essa culpa não parecia querer desaparecer, tal como desaparecera a sua reação à morte do pai.

Por outro lado, já não era um rapaz de dezanove anos, arrasado pelos remorsos. Podia fazê-la mudar de ideias. Nem que levasse cinquenta anos. Não podia fazer nada em relação ao pai, mas podia tentar consertar isto.

– Creio que te enganas – disse mantendo um tom delicado.

– Eu conheço-me – garantiu ela, com a segurança de quem há anos que só confiava em si própria. – Tu e eu somos muito diferentes nesse aspeto.

– Sinto-me confortável com o meu corpo – declarou ele.

– Sempre te sentiste – tinha uma expressão cansada e severa no rosto, mas por um momento James apercebeu-se da covinha que Daisy tinha na face direita. Sempre tivera apenas uma, como se o par fosse demasiado exuberante. – Se, entre as aulas de Grego, os teus professores te tivessem conduzido em volta dos estábulos como um cavalo que precisa ser domado, terias sido um estudante mais feliz.

– Envolvi-me em muitas lutas em Eton, o que me ajudou.

Outra vez a covinha.

– Suponho que a pirataria tenha sido uma extensão do pátio do recreio e das suas disputas.

– A pirataria deveu-se à imprudência que herdei do meu pai.

Ela acenou com a cabeça.

– Faz sentido.

– Infelizmente, o perigo não é tão emocionante como parece. Aprendi que exercitar o espírito pode ser tão interessante como exercitar o corpo.

Ela assentiu.

James escolheu as palavras seguintes com todo o cuidado.

– Parece-me que reagiste ao final infeliz do nosso casamento, seguindo inteiramente noutra direção. Eu lancei-me ao perigo, tu rodeaste-te de esterilidade.

– Esterilidade não é uma palavra muito bonita, mas percebo o que queres dizer. Sou muito feliz por me comportar assim a um nível íntimo – explicou de novo com o ar da mais completa confiança. – É por isso que devemos dissolver o nosso casamento, James. Sei que quererás uma mulher que se submeta à tua vontade. E, mais uma vez, não estou a criticar-te. Nunca serei essa mulher. Não posso sê-lo. Espero que nenhum de nós queira que o outro se encontre num casamento que o tornará perpetuamente infeliz.

– Não. – Mas James encontrava-se preso a uma das emoções mais ferozes da sua vida. Queria Daisy de volta. Não Theo, ou antes, porque admirava Theo, queria partes dela. Mas não quereria ser responsável por ter esgotado a alegria de Daisy. Não poderia suportá-lo.

E precisava dela. Sem ela poderia ser ele a caminhar pela prancha. Não que alguma vez o fizessem a um homem. Seria o primeiro.

Ela sorriu-lhe distraída.

– Encontrarás uma mulher que goste do teu tipo de jogo íntimo. E eu posso encontrar um homem mais conforme o meu temperamento. Ou não. – Encolheu os ombros. – Gostaria de ter filhos, mas estou feliz sozinha.

Do que observara nela até ali, Daisy seria provavelmente a pessoa mais só que vira em muitos anos. Depois de ter saído de Inglaterra, Griffin tornara-se o seu braço-direito, o seu bom companheiro, o seu irmão de sangue.

Mas Daisy ficara só.

Se concordasse com o plano idiota que ela delineara – não que alguma vez concordasse, pois apenas a sua sugestão fizera-o ter vontade de esmurrar uma parede –, ela casar-se-ia com Geoffrey Trevelyan ou com alguém semelhante. Trevelyan não estava minimamente interessado na sensualidade. Se tivessem filhos seria um milagre.

Se havia uma coisa de que estava certo, era que morreria antes de permitir que Daisy fizesse amor com alguém, exceto consigo próprio.

– Passa-se alguma coisa?

– Não quero casar-me com o tipo de mulher de que falas – disse imediatamente. – E podes pensar que te queres casar com o Trevelyan, mas acharias incrivelmente desagradável ir para a cama com ele. Muito pior do que imaginarias se fosses comigo.

– Talvez – disse ela. – Mas... embora nunca tenha dito nada acerca de Geoffrey ser um possível consorte... ele compreenderia a minha pouca inclinação para me submeter ao tipo de abraços febris que preferes. Julgo mesmo – acrescentou, pensativa – que o Geoffrey coloca as mesmas objeções que eu às relações conjugais.

– «Relações conjugais»?

Ela ignorou a interjeição.

– Geoffrey e eu somos adultos. Desagradáveis ou não, envolver-nos-íamos em relações carnais por serem necessárias para procria. De facto, diria que eu e Geoffrey somos parecidos nesse aspeto. Não é que pense não me inclinar para os desportos do leito, mas sim que sou incapaz de corresponder da forma que desejas. Não posso continuar casada contigo, James. Creio que isso daria cabo de mim.

James pensava o mais depressa que podia, como se estivesse no calor de uma batalha. Nenhuma das suas leituras a bordo do navio – Maquiavel, as artes da guerra, a filosofia dos antigos gregos – o ajudava no momento mais crucial de toda a sua vida. Poderia ter soltado imprecações com medo e raiva reprimidos, mas resolveu fechar os olhos e ignorar Theo por momentos.

Depois tentou examinar os laços de vergonha, culpa, raiva e – sim – amor que os ligavam. Havia uma razão para ele falar do pai apenas com Daisy. Havia uma razão para ser capaz de lhe confessar, apenas a ela, o desprezo que sentia por si próprio e sentir-se limpo e perdoado, olhando-lhe apenas para a covinha na face.

Estavam ligados e, provavelmente, assim tinham estado desde o verão em que ele ficara cego e ela se transformara nos seus olhos.

Nem conseguia imaginar como pudera viver sem ela durante sete anos. Daisy era o sol. O alimento e a bebida da vida.

Dirigiu-se-lhe concentrando nela todo o seu corpo. Ela era dele. Era tudo o que ele desejava, embora durante algum tempo tivesse perdido o rasto dessa verdade.

– James – disse ela, com uma leva advertência na voz.

Com as mãos, ele apertou-lhe ao de leve a cintura esguia e obrigou-a a ficar de pé, tomando cuidado para não afastar o lençol.

– Quero-te – afirmou ele pela primeira vez e a sua voz alterada parecia a antiga. Deveria rugir para a mulher que não o queria, que pensava nunca mais querer ir com ele para a cama. O som era adequado.

Não queria que ela dissesse mais do que aquelas palavras que a prendiam como barras de ferro, por isso inclinou a cabeça para os lábios dela. Eram exuberantes e doces conforme se recordava – e recordava-se, mesmo tantos anos depois. Nunca se esquecera do primeiro beijo.

Quase perdeu a cabeça, mas dominou-se. Tinha de a pôr à vontade, tinha afinal de agir com o macho castrado que ela pensava desejar.

Griffin pensaria que aquilo era a coisa mais estúpida de que ouvira falar. Mas Griffin não era uma mulher que tivesse experimentado dois dias de vida conjugal sete anos atrás.

Griffin não era a sua adorável, controlada e rígida Daisy.

Ela empurrou-o e ele recuou imediatamente, lembrando-se de sorrir.


Vinte e Nove


–Devo dizer-te uma coisa que não compreendes – afirmou James.

A expressão dele inquietou Theo. Apertou mais o lençol junto aos seios.

– O que não compreendo é por que razão a minha criada Amélie não apareceu. Toquei a chamá-la há muito tempo.

– Disse-lhe que fosse para casa; é o aniversário da mãe.

– Mas... – Theo deteve-se. Não sabia que a mãe de Amélie fazia anos naquele dia, mas, se fosse importante, certamente Amélie ter-lhe-ia pedido o dia de folga. Theo orgulhava-se de nunca ser pouco razoável quando a criadagem lhe fazia qualquer pedido em relação à sua vida particular.

– Suspeito que ela não quisesse alterar a tua rotina.

– Não haveria qualquer alteração – explicou ela. – Quando a Amélie tem o seu meio-dia de folga, a Mary ajuda-me. Está muito bem ensinada.

– Também mandei a Mary para casa.

Theo franziu a testa.

– Uma delas está sempre comigo. Os meus vestidos não são como a roupa dos cavalheiros. Geralmente, não me preocupo com espartilhos, mas, se tivesse posto um por baixo do vestido, ainda o teria.

– Não precisas de espartilho – comentou James com um olhar francamente apreciador.

– Pois sim – continuou Theo. – Também não espero que compreendas. Terei de chamar uma das outras criadas.

Ele abanou a cabeça.

– Não te atreveste! – Voltou a sentar-se no banco.

– Pensei que seria o momento perfeito de fazer uma boa surpresa à criadagem. Quero que gostem de mim, sabes. E é muito desagradável para eles estarem dentro de uma casa cercada.

– Gostarão de ti desde que lhes pagues os salários. Não os deixaste ir todos para casa, pois não?

– Exceto o Maydrop e os criados que estão a guardar a casa.

– Estás louco? E quem nos traz a comida? Quem... – Olhou em volta aflita.

Ele sorriu.

– O Maydrop meteu o pessoal nas carruagens para enganar os mexeriqueiros.

– Como nos vestiremos para as visitas amanhã de manhã? – perguntou. – Não estarás à espera que eu apareça no salão com ar desmazelado.

– As visitas que poderemos receber serão de pessoas a implorar para ver de perto a minha tatuagem. Não vou receber ninguém e tu também não. Mandei mesmo o Maydrop retirar a aldraba da porta. Espero que entre a confusão causada pelo pessoal a partir em várias carruagens e a porta sem aldraba, as hordas que nos perseguem cheguem à conclusão que os conseguimos enganar e fugimos para o campo.

Theo esquecera-se de como a sociedade tentaria avidamente admirar um duque pirata. Era estranho, mas parecia-se cada vez mais com o antigo James.

– Bom, talvez seja melhor ficarmos aqui – disse, um tanto relutante. O dia seguinte seria uma provação, mas melhor do que servir de anfitriã a uma multidão de visitas curiosas. – Tens razão – disse ela dando razão a quem a tinha. – Seria uma terrível confusão quando as pessoas começassem a vir visitar-nos.

– Sim. – Ele estava encostado à parede de um modo que nenhum cavalheiro faria, parecendo levemente divertido com a situação.

– Se me permites – disse Theo, mudando de assunto. – Gostaria de ter alguma privacidade para tomar banho.

– Como estamos praticamente sós em casa, queria esclarecer um erro que estás a cometer – respondeu. – Acreditas que eu sou o mesmo jovem com quem fizeste amor há sete anos, com os mesmos desejos e necessidades que eu tinha na altura. – Ela começou a falar, mas ele ergueu a mão. – Em mil oitocentos e nove fizemos amor porque estávamos apaixonados.

Theo acenou afirmativamente. Todo aquele vapor humedecia-lhe o cabelo e as madeixas caíam-lhe já sobre os olhos. Recordou-se do muito que ele gostava dos seus caracóis e alisou-os imediatamente, afastando-os da testa.

– Entretanto, mudaste – afirmou James.

– Obviamente – disse ela, afastando a ideia da sua pessoa sobre ele, provocando-o com o cabelo como uma vagabunda. Devia ter estado louca.

– O que tenho estado a tentar dizer-te é que não permites a possibilidade de também eu ter mudado e garanto-te que mudei. Já não sou um rapazinho.

– Ainda não tens trinta anos.

– Com a idade comecei a controlar-me. – Tinha um sorriso um pouco presunçoso, mas ela não achou delicado fazer-lho notar. – Hoje senti-me furioso várias vezes, mas não perdi a cabeça.

– Reparei. Foi um feito notável, dado a tua herança de família – sugeriu ela.

– Todos temos lados bons e lados maus – suspirou. Se ela não o conhecesse pensaria que estava a ser melodramático. Porém, não havia um pingo de melodrama em James.

Começava a doer-lhe o traseiro de estar sentada no banquinho duro, por isso levantou-se. Amélie sentava-se muitas vezes a coser à espera que Theo terminasse o banho. O banquinho seria muito mais confortável se tivesse um assento almofadado. Fez uma nota mental.

– Vamos praticamente viver como selvagens nos próximos dias – observou ela mudando de assunto. – Mas as novas experiências são sempre dignas de nota.

James soltou uma gargalhada e, antes que ela o pudesse impedir, atravessou o aposento, passou-lhe o braço por detrás dos joelhos e ergueu-a de novo de encontro ao seu peito.

– Tens mesmo de parar com isto! – exclamou. Mas ele abria já a porta do quarto dela com o pé. Era estranho estar nos braços dele. Ainda não tinha reparado, mas os músculos dos seus antebraços eram como cordas. Ou talvez já tivesse reparado.

– Daisy – disse ele, com voz severa e divertida ao mesmo tempo. – Pensas mesmo que viveremos como selvagens tendo em conta o esplendor do teu quarto, já para não falar no resto da casa?

Claro que o quarto estava luxuosamente mobilado. Os reposteiros de seda veneziana davam-lhe um toque particularmente elegante.

– Não temos criados – disse, fazendo-o notar o óbvio. – A vida sem criados é terrivelmente desconfortável. Por favor, põe-me no chão, James.

– Ainda não – respondeu ele. – Gosto de pegar em ti ao colo. Depois fez uma coisa estranhíssima: baixou a cabeça e poisou-lhe um beijo no nariz.

Foi tão suave como o toque de uma borboleta e tão ténue. Porém todo o corpo dela estremeceu.

Nesse momento, viu o seu jovem e elegante marido de há sete anos e o pirata enorme de agora.

A qualquer momento, mostraria aquela expressão ávida no olhar. Começou a debater-se seriamente.

– Põe-me no chão!

Ele obedeceu.

– Eis o que tento dizer-te – começou ele, rapidamente, antes que Theo pudesse falar. – Já não sou tão jovem como dantes, Daisy. Não tenho o mesmo tipo de desejos incontroláveis. Sim, gostaria de fazer amor com a minha mulher. Quero ter filhos. Mas queres saber exatamente com quantas mulheres este pirata fez amor?

Ele fez um gesto zangado.

– Não!

– Três – disse ele. – Três. E houve muitos meses, mais precisamente oito, que passava sem ver uma delas. E não as amava. No último ano não dormi com nenhuma. De facto – prosseguiu, pensativo –, já passaram dezasseis meses. Griffin e eu fomos para a China e depois íamos a caminho da Índia quando fomos atacados. Levei meses a recuperar da ferida da garganta.

Theo olhou para a cicatriz e estremeceu.

– Ouviste o que disse, Daisy?

– Não és então o mulherengo que o detetive descreveu? – perguntou com ar humilde.

– Com o domínio da ira vem o domínio do desejo. Um não é possível sem o outro.

– Porque não?

Ele encolheu os ombros.

– Apenas posso dizer que não tenho qualquer desejo particular pelo tipo de fervorosos encontros que partilhámos quando casámos. Certamente não quererei fazer amor na sala ou noutro sítio que não tenha a completa privacidade debaixo das cobertas de uma cama confortável.

– Não faço questão em fazer amor – disse ela, semicerrando os olhos num esforço para ver se ele dizia a verdade.

– Como disse, quero ter filhos. E quero-te ao meu lado, Daisy. Domino perfeitamente os meus apetites e, para o caso de te interessar, não voltarei a ser-te infiel. Nunca arranjarei uma amante.

Mesmo sem querer uma leve esperança surgiu no coração de Theo. Seria muito bom ter James de volta, se não tivesse de se preocupar com as atividades no quarto de dormir.

Mas não acreditava muito nele.

– Estou certa de que li qualquer coisa no teu rosto.

– Quando? – perguntou ele num tom que parecia sonolento, tranquilo e perfeitamente descontraído.

Talvez estivesse enganada. Talvez o que ele quisesse dizer fosse que preferia os corpos sensuais e redondos daquelas suas amantes. Dominar-se-ia com ela porque estava habituado a mulheres muito belas.

Theo mordeu o lábio.

– Posso provar-to – afirmou ele.

– Podes?

– Toma o banho e eu faço de tua criada.

– Não!

– Porque não? Sabes que nunca te obrigaria a fazer nada, Theo. Tens de o saber. – Olhou-a nos olhos. – Posso ter casado contigo por falsas razões, mas nunca te disse nada que não sentisse. Quando fizemos amor, disse-te tudo o que sentia.

– Creio que seja verdade.

– Cantei para ti.

Theo soltou uma gargalhada. O horror com que o dissera era mesmo dele. Se ele não quisesse reacender todo aquele disparate erótico, então Theo gostaria de continuar casada com ele, tatuagem e tudo.

– Deixas crescer de novo o cabelo?

James franziu a testa.

– Se assim o desejas. Mas cantar não. Já não consigo cantar.

– Já percebi – sentiu-se triste, mas ele sorria, por isso só ela se importava.

– Gostaria de ter filhos teus – repetiu ele e Theo viu a franqueza nos olhos dele. – Embora te tenhas tornado tão rígida como a estaca de uma sebe, ainda és a minha melhor amiga e a pessoa que mais admiro neste mundo. E, quem sabe? Talvez aprendas a descontrair-te.

– Não. Não o farei – respondeu. – Vais entendê-lo se viveres algum tempo comigo. Levo tempo a pensar na melhor maneira de fazer as coisas, porque desse modo não preciso pensar mais nesse problema.

Ele encolheu de novo os ombros.

– Acredito no que dizes – despiu o casaco.

– Mas o que estás a fazer?

– Nu, podes dizer se te digo ou não a verdade – disse ele parecendo razoável, mas louco.

– Não podes pura e simplesmente despir-te... oh, meu Deus. Outra cicatriz? – Theo avançou um passo. Ia do ombro direito até ao estômago. Era branca e tensa sobre a pele cor de mel-escuro.

– Foi uma baioneta – referiu James, alegremente. Curvou-se para tirar as botas e ela foi subitamente presenteada com a visão de uns ombros largos que levavam a umas poderosas costas masculinas. James era muito belo. Isto é, ainda era muito belo. O seu corpo era como uma máquina poderosa. Os músculos moviam-se suavemente por baixo da pele de um modo que fazia com que Theo sentisse vontade de lhes tocar.

– Outra! – exclamou sufocada, ao ver um corte branco a meio da cintura.

– O corte de um sabre – disse James retirando a outra bota e depois as meias. – A recordação de um francês idiota que pensou que combatia num duelo. Dei-lhe um tiro.

– Quantas vezes estiveste quase a morrer? – perguntou Theo, ouvindo fraqueza na sua própria voz.

– Apenas uma vez – respondeu alegremente, pondo as mãos nas calças.

– Espera – disse ela, mas a voz saiu-lhe ofegante e não decidida e ele tirou calças e cuecas sem a mínima hesitação.

E ali estava ele. Todo ele maior. Certamente não seria tão grande há sete anos atrás. Não.

Afastou o olhar.

– Pensei que dominavas a tua luxúria – disse ela em tom acusador. Só de olhar para ele, ficou com vontade de fugir para outro aposento: havia uma chave na porta da biblioteca. Ali...

Mas o olhar dele continuava tranquilo.

– E domino.

– Então porque é que...? – acenou com a cabeça na direção do baixo-ventre dele.

– Oh! Isto? – Deu-lhe uma palmada descuidada. – Lembras-te disto?

– Lembro. E deveria estar... deveria estar para baixo.

– Para baixo? – James ergueu uma sobrancelha. Lembras-te de alguma vez estar para baixo?

Theo fez uma expressão zangada.

– Talvez não. Mas tenho a certeza de que deveria estar para baixo.

– O meu não – afirmou ele dando outra palmada em si próprio. – Estou sempre levantado. – Já lhe voltara as costas para se dirigir à casa de banho.

Ela ficou a olhá-lo perfeitamente confundida. As nádegas de James eram do mesmo tom de castanho cor de mel que os seus braços. Como seria possível? Recordava-se distintamente de que ele tinha o traseiro branco de neve. Agora era melhor definido e de uma cor diferente, como se tivesse estado ao sol sem roupa. A curiosidade obrigou-a a segui-lo.

James bombeava água quente para a banheira pela terceira vez e experimentava a temperatura com um dedo.

– Como disseste que querias a água?

– Não demasiado quente – respondeu ela cautelosa. De facto, o corpo dele era muito estranho. Qualquer daquelas feridas poderia tê-lo matado se tivesse apanhado uma infeção.

– As tuas feridas infetaram alguma vez? – perguntou.

– Algumas – respondeu ele sem se voltar. Ela sentiu um arrepio na espinha. Sabia o que era uma infeção. Uma das criadas da cozinha morrera depois de ter cortado um dedo. Um dos trabalhadores da cerâmica morrera depois de se ter queimado acidentalmente.

– Podias ter morrido – declarou. E depois, porque precisava de conseguir a atenção dele para que a entendesse, foi ter com ele. Theo era uma mulher alta, mas ao lado de James sentia-se pequena. Quase delicada, o que era uma piada, porque nunca ninguém lhe chamara delicada.

Ele endireitou-se e sorriu-lhe, o que fez com que a papoila por baixo do olho se movimentasse levemente, como se fosse uma verdadeira flor agitada por uma suave brisa.

– Pois penso que sim, mas não morri. Parece que tenho a constituição de um boi. Como está a água.

Ela inclinou-se e meteu um dedo lá dentro, estava perfeita.

– Posso segurar-lhe no lençol, senhora duquesa?

Ela olhou de novo, com ar desconfiado, para o membro dele. Estava erguido, como sempre, se acreditasse nele. E, quando lhe olhou o rosto, ele devolveu-lhe um olhar límpido, com uma expressão quase aborrecida.

– Muito bem – murmurou.

Todos sabiam que os homens eram compulsivamente sensuais. Um homem não podia evitar uma onda de desejo se avistasse meramente os seios de uma mulher.

Mas talvez se os seios da mulher fossem muito pequenos... se a mulher fosse magra e não tivesse curvas...

Theo suspirou e deixou cair o lençol. Recusava-se a ser mais uma vez humilhada pela sua aparência. Aprendera que, se fingisse ser um cisne, poderia enganar a maioria das pessoas.

Mas talvez isso não acontecesse sem roupa.

Sem mais demoras, despiu as calcinhas, entrou na banheira e sentou-se. Antes de pedir uma enorme mão masculina estendeu-lhe o sabonete. Era de verbena e usava-o sempre nos seus banhos, por isso aceitou-o. Mas, quando ia começar a ensaboar-se, ele retirou-lho da mão.

Admirada, Theo ergueu os olhos. James estava muito mais próximo do que o que pensava, ajoelhado junto à banheira.

– Não era preciso – começou ela a dizer.

– De que outra maneira verias como estou calmo e nada afetado? Não tens razão para me recear, Daisy. Sinto-me perfeitamente dominado.

Theo engoliu em seco. Não lhe parecia a melhor coisa do mundo aperceber-se de que o marido ficava impávido a olhar para a forma do seu corpo. Mas a vida era assim, ou não?

Pelo menos, não teria de fazer aquelas coisas esquisitas que ele lhe pedira quando se sentira atraído por ela. Muito antes de ter conhecido donzelas sombrias nas ilhas com curvas como as das mulheres de Ticiano.

– Muito bem – disse ela, lançando outro olhar por entre as pernas dele. Senhores! O membro dele era enorme. E vermelho. Parecia-lhe doloroso, tão rígido como se fosse rebentar. Mas, provavelmente, seria sempre assim num homem.

Estendeu automaticamente o braço, porque Amélie lhe banhava a parte superior do corpo (embora não os seios, claro) e depois o cabelo. Theo lavava as suas partes íntimas.

James foi muito metódico a lavar-lhe os braços. Gostou de ser tocada. Desde que a mãe morrera, ninguém lhe tocara fosse por que razão fosse, exceto Amélie.

Afinal era condessa. As pessoas não se abraçavam a uma condessa e nada mais faziam que tocar com a mão enluvada num brevíssimo beijo. Sentia a falta...

Sentia a falta de simples toques.

Por isso, deixou a cabeça cair para a frente e não falou. Limitou-se a desfrutar do toque que parecia tão pouco exigente e, ao mesmo tempo, tão agradável. Era bom desfrutar do toque de James, enquanto era patético ser reconfortada por Amélie. Ela pagava a Amélie.

James ensaboou-lhe um braço e depois os ombros.

– Comparadas com as tuas, as minhas costas são incrivelmente magras – disse ela sentindo-se pouco à vontade. – Tens tanto músculo.

– Creio que sim.

– Posso perguntar-te se te dói a garganta?

– Não. Porque perguntas?

– Pareceste-me tão rouco há pouco. Como se te doesse. Por isso sinto-me feliz por não te doer – acrescentou imediatamente.

As mãos de James eram tão grandes que, abertas, lhe cobriam as costas e os seus dedos ensaboados faziam-na sentir extremamente sensível, como se cada toque lhe deixasse um leve beijo pelo caminho. Graças a Deus que nunca o sentira com Amélie.

Inclinou-se levemente para diante, para que ele não se apercebesse de que sentia os mamilos duros. Ele não estava realmente afetado pela nudez dela; respirava normalmente, tal como antes.

Lembrava-se bem dos seus jogos na cama anos antes. Quando ele estava excitado, a sua respiração era rápida e o seu peito erguia-se. Os olhos brilhavam-lhe como fogo e os dedos tremiam-lhe. Theo baixou os olhos. Ele ensaboava-lhe o pulso esquerdo com as mãos perfeitamente firmes. Soltou um pequeno suspiro.

Assim era a vida.

No dia em que a sua vida se desmoronara, Theo aprendera que a sua vida não se desmoronara. Uma mulher pode sobreviver se o marido partir, se a mãe morrer e se for conhecida nas Ilhas Britânicas como sendo feia. A tudo isso se sobrevivia. Era difícil e desmoralizante, mas suportável.

– A tua perna, por favor – disse James, com uma voz que ainda parecia dolorosamente rouca. Mas não voltaria a dizer-lho.

Amélie nunca a tocara abaixo da cintura, mas Theo endireitou a perna e, de qualquer forma, colocou-lhe o tornozelo na mão. Afinal, as pernas eram o que ela tinha de mais belo: esguias, com joelhos arredondados e tornozelos delicadamente torneados. Era uma coisa estúpida agarrar-se a isso, mas, quando uma pessoa não tinha muito a que se agarrar no que dizia respeito a atributos físicos, os tornozelos importavam. James começou a ensaboar vagarosamente um deles.

Ele dissera-lhe uma vez que ela tinha belos tornozelos.

– Gosto dos meus tornozelos – disse ela querendo que ele reparasse. Ele passou-lhe um dedo pela planta do pé e fê-la gritar. Era uma brincadeira agradável.

Theo teve de engolir em seco, porque aquilo não teria sido tão tolo anos atrás.

– Está muito calor aqui – comentou James, limpando o rosto com o antebraço. E estava bastante vermelho.

– Posso fazer o resto – decidiu Theo, puxando o pé da mão dele. – Provaste o que querias dizer, James. Já percebi.

– Percebeste o quê?

– Que não te sentes atraído por mim. Por isso dá-me o sabonete.

Theo estendeu a não, mas ele afastou-o dela.

– Não estás a levar isto a sério.

– Claro que estou – respondeu ela de repente. Tomara-o tão a sério quanto possível, sem começar a queixar-se num tom de feminilidade ofendida.

James revirou os olhos.

– Se eu não te lavar toda, Theo, terás sempre questões no teu espírito. Quero que continuemos casados. – Estendeu a mão ensaboada e pegou-lhe no queixo. – Os nossos filhos serão provavelmente informados a partir do momento em que passem a usar fraldas, mas, mesmo assim, quero que sejas a mãe deles.

Theo sentiu um sorriso inclinar-lhe a boca.

– Oh, obrigada. – James usara duas vezes mais sabonete do que Amélie e as bolhas deslizavam-lhe pelo peito enquanto ela se inclinava para ele.

Baixaram ambos os olhos no mesmo momento. As bolhas desciam pelas encostas dos seios de Theo.

– Ora pronto – disse James e depois passou para trás dela e soltou um ruído abafado, quase um gemido.

– Sentes-te bem?

– Não estou habituado a ajoelhar-me no chão de azulejo – confessou ele. Havia de novo uma nota divertida na sua voz. – Se fosse criada particular, levaria a vida a queixar-me.

– A Amélie não anda de joelhos em volta da banheira – informou Theo. – Então... – calou-se. As mãos de James deslizaram ao de leve por cima dos ombros dela e depois mais à frente. O toque acendeu-lhe um fogo no estômago, mesmo antes de ele lhe tocar nos seios.

– Não creio que isto seja necessário – disse ela sufocada. Ele cobrira-lhe os seios com as mãos.

– Seios são apenas seios – comentou ele. – Claro que os teus... – a voz dele desvaneceu-se.

Os mamilos de Theo pareciam botões de rosa pálidos espreitando por entre os seus dedos morenos. Ela pensou que eram bonitos. Depois ele passou lentamente os polegares por cada um deles e a sensação foi tão extraordinária que ela susteve a respiração e esqueceu-se de ver se James estava ou não excitado, porque ela estava. De facto, deixou cair a cabeça sobre o braço dele e fechou os olhos, porque o que ele fazia com os polegares nada tinha a ver com a limpeza.

Era como se um raio a atravessasse, eletrificando partes de si que não haviam sido tocadas durante sete anos. Até a parte íntima entre as suas pernas pareceu acordar para dizer que ainda ali estava.

No momento em que se apercebeu disso, as mãos dela apertaram as dele.

– O que estás a fazer?

– Disseste que eu não me sinto atraído por ti, Daisy. – Passou-lhe os lábios pelas orelhas. – Estás completamente enganada. Sempre me senti enlouquecido pelos teus seios e tu sabe-lo bem. – Nesse momento, Theo pensava no que lhe fizera o simples toque dos lábios dele. – Não te lembras? – murmurou, beijando-lhe de novo a orelha.

– Sim – assentiu ela em voz fraca. – À mesa da casa de jantar.

– Costumava sentar-me lá e sonhar em tocar-te assim – recordou ele numa voz que a acariciava. – Ouvia-te falar e pensava em como eras bela e inteligente, mas, para ser franco, os meus olhos voltavam sempre para os teus seios. Havia ocasiões em que pensava que perderia o domínio, ali mesmo na casa de jantar.

Theo manteve as mãos na mesma posição, mas encostou-se de novo a ele.

– Com certeza que não o farias.

James soltou uma gargalhada entrecortada, mas afinal tão sensual como sempre. Talvez ainda mais.

– Juro-te que era assim. Era capaz de fantasiar acerca da tua pessoa durante os quatro pratos. Depois da sobremesa afastava-me da mesa com dificuldade.

E, por baixo das mãos dela, movia suavemente os polegares, acariciando-lhe os mamilos.

Theo sentia os dedos dos pés dobrarem-se e, se tinha dificuldade em recordar o seu nome, ainda mais tinha de se lembrar da figura de James como jovem esfomeado do outro lado da mesa.

– Queres dizer que podes ter problemas em te endireitar? – perguntou ela, conseguindo pronunciar por fim uma frase. Parecia estar a perder a força nos membros. O que explicava a razão pela qual afastara as mãos das dele, deixando-o brincar à vontade com os seus seios.

Houve um momento de silêncio.

– Disse-te que agora me dominava, Daisy, mas tens de me deixar prová-lo.

Theo começava a sentir-se febril e, embora soubesse que aquilo era muito confuso, fingiu que o que ele dizia fazia sentido.

– Provar como? – murmurou.

Uma das mãos de James deslizou sobre a película de sabonete que cobria o ventre dela, mergulhou na água até lhe chegar entre as pernas, ao local onde ela se sentia aberta, vulnerável e macia.

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– Assim. – A voz dele passara de entrecortada a gutural. O próprio som fê-la sentir um tronco em brasa, prestes a arder.

– Posso tocar-te? – perguntou James. Não esperou por resposta, mas fez algo íntimo com os dedos. A resposta dela perdeu-se numa exclamação sufocada.

– Só para provar o meu autodomínio – acrescentou ele.

Ela poderia ter-lhe afirmado que não sofria de demência. Que sabia o que era uma desculpa. Mas o seu espírito ficara obscurecido e ávido e o gemido do seu peito transformou-se num pequeno soluço. Empurrou-lhe os dedos, pensando, Com mais força, aí, por favor, aí! E, como se ele a pudesse ouvir, um dedo largo pressionou-a e outro fez qualquer outra coisa, invadindo-a da maneira devida.

Assim, Theo reagiu com um pequeno grito e o choque do seu corpo fê-la arquear-se e quase sair da água. Quase nem ouviu a água ensaboada escorrer para o chão, porque tudo nela se concentrava nas ondas de calor que se espalhavam pelo seu corpo.

Depois os dedos de James deslizaram para fora e puxou-a com um pouco mais de firmeza de encontro ao seu braço. Enquanto ela ainda estremecia, ele inclinou-se para lhe murmurara ao ouvido:

– Se a Amélie te presta este serviço, despeço-a amanhã.

Theo soltou uma pequena gargalhada.

– Não sejas absurdo. – Sentia-se sem forças, inchada e quente entre as pernas.

– De facto, ninguém te pode tocar assim, se não eu – acrescentou ele e a sua voz não parecia natural, mas extremamente possessiva.

Antes de ela poder responder, ele pôs-se de pé, inclinou-se e tomou-a nos braços.

Agora que estavam ambos nus tudo parecia diferente. A pele dele ardia contra a dela.

– Devo ser pesada – murmurou, lançando-lhe um olhar ao rosto. Contra todo o bom senso, queria vê-lo excitado.

Mas não.

Em vez de responder, James poisou-a no chão e esfregou-a bruscamente com a toalha. Até o toque do tecido áspero lhe provocou uma pulsação de prazer lascivo.

O maxilar de James parecia rígido, mas depois olhou para ela a sorrir. Ela estendeu a mão e pegou no roupão e atou-o com força.

James lançou a toalha para o lado e, como se ela não soubesse andar, pegou-lhe mais uma vez e levou-a para a cama.

– Não sorrias mais para mim – disse ela, cansada, voltando o rosto para o peito dele e fechando os olhos. – Já aprendi a lição.

– A lição? – perguntou confundido.

– Não corres perigo de sucumbir à luxúria. Compreendo. – Não era excessivamente doloroso reconhecê-lo em voz alta.

Ele deixou-a cair na cama e franziu a testa.

– É o que tu queres.

Theo voltou-se, pôs-se de pé e fez-lhe um aceno com a mão.

– Não importa. Preciso que me ajudes a fazer a cama. Não consigo descansar numa cama com lençóis amarrotados e, claro, o lençol de cima já cá nem está.

Ele pestanejou.

– Que dizes tu?

– Temos de voltar a fazer a cama – respondeu ela com grande cautela. – Chamaria uma criada, mas mandaste-as embora a todas.

– Claro. Se me desculpas, tenho uma coisa a fazer. – Theo baixou os olhos e viu que ele tinha uma mão sobre as suas partes íntimas, como se estivesse com dores. Passou por ela para se dirigir à casa de banho sem dizer mais nada. Não fora muito delicado.

Theo não tinha a mínima ideia de como se fazia uma cama, mas certamente seria capaz de o conseguir. Retirou as restantes cobertas e tratou de que o lençol debaixo pendesse nos quatro cantos precisamente à mesma altura: calculou que seriam doze centímetros, mas claro que sem poder medir era difícil saber.

Aconchegou o lençol na cabeceira da cama. Era difícil, pois tinha de chegar a meio da cama. Ouviu de novo a água a correr na banheira, o que a distraiu, mas não a preocupou demasiadamente. O serviço «pessoal» de James, por falta de palavra melhor, fizera-a sentir-se muito feliz.

Passou para o lado e conseguiu prender devidamente o lençol.

Começara com o outro lado quando a porta se abriu uma vez mais. Estava inclinada sobre a cama, tentando assegurar-se de que o lençol não formaria rugas quando prendia.

– Ora bem – disse ela, olhando por cima do ombro. O membro de James estava descaído, como ela pensava que deveria estar.

– Queres ajudar-me? – perguntou, encolhendo mentalmente os ombros. – É impossível fazer isto sozinha. Não sei como as criadas conseguem. – Dirigiu-se aos pés da cama e inclinou-se de novo, tentando alisar os lençóis para que não houvesse rugas.

Ouviu um ruído estranho, semelhante a um profundo gemido, mas, quando olhou de novo para James, este dirigia-se, obediente, para ela. O seu pénis erguia-se de novo. Assim, ele dizia a verdade acerca de ser aquele o seu estado normal.

Theo continuou a pensar no assunto durante todo o tempo em que ambos tentaram fazer a cama, assegurando-se de que o lençol de cima estava perfeitamente liso, antes de colocarem o resto das cobertas.

De vez em quando, Theo lançava um olhar a James. Sentia-se envergonhada por vestir apenas um roupão, sem calças ou camisa, mas ele parecia impassível.

Quando terminaram de fazer a cama, ela meteu-se entre os lençóis, sem despir o roupão, pois não suportava a ideia de, mais uma vez, ficar nua diante dele.

James ficou junto da cama com o tal sorriso irritante no rosto.

– Tens fome? Vou pedir ao Maydrop que nos mande alguma coisa para comermos por um dos criados. Julgo que, se comermos aqui, será mais fácil para ele, devido à falta do pessoal da cozinha.

– Nunca como na cama. – Mas, de facto, estava esfomeada.

A expressão divertida desapareceu-lhe do rosto.

– Mas vais comer esta noite. Nem penses em sair da cama. Não vou tocar outra vez nesses malditos lençóis.

Era aborrecido, mas parecia mostrar mais emoção acerca da cama do que de qualquer outra coisa. Tal como acerca da mulher que estava deitada, quase nua, entre os lençóis.

As emoções no peito de Theo eram tão tumultuosas que nem sequer franziu a testa quando ele pronunciou a blasfémia, nem ao ver-lhe o queixo rígido. Havia um homem nu no seu quarto, olhando-a com ar beligerante e de braços cruzados.

Retomou o fio dos seus pensamentos. Tinha um pirata nu no quarto e não estava de modo algum assustada. E mais, deixava que os seus olhos passeassem por aquele corpo musculoso e cheio de cicatrizes, e não se coibia de admitir que essa visão fazia com que o seu sentisse desejo. Não sabia porquê, mas cada cicatriz enviava-lhe um arrepio até aos dedos dos pés. Olhou para a escandalosa tatuagem e esta fê-la sentir uma onda de ardente desejo.

James – transformado em Jack Hawk – olhava como se ela não passasse da cativa de um pirata. Theo sentiu um pequeno sorriso arquear-lhe os lábios com a ideia. Fora sempre uma espécie de prisioneira. Não de James, mas do seu próprio medo.

Percorreu a antiga recordação do que se passara na biblioteca, experimentando o afastamento de sete anos. Era embaraçosa. Mas, de repente, recordou-se da beleza do corpo de James, esguio e jovem. Do modo como lançara a cabeça para trás, maravilhado. Dos gemidos que lhe haviam saído dos lábios quando ela o acariciara.

– Então? – perguntou ele.

O seu marido era um pirata. Mas era também um homem que a amava profundamente. Que lhe dera prazer e que sucumbira feliz à sedução dela.

– Então, o quê? – perguntou Theo, incapaz de se lembrar de que ele falava. O seu espírito não parava. Por momentos, recordou-se do desgosto de que lhe chamassem feia, mas este dissolveu-se como o sabonete que desaparecia pelo cano. Dissera a si própria um milhão de vezes que poderia ser humilhada apenas se o permitisse: agora precisava de acreditar nisso.

O mesmo se passava com a intimidade... com o casamento. Fora prisioneira, mas não de um pirata. Ficara cativa do seu próprio medo. De facto, não passava de uma cobarde.

Sem pensar mais, Theo despiu o roupão, baixando-o lentamente abaixo dos seios.

James observava-a, de rosto impassível, mas ela apercebeu-se de uma profunda centelha naqueles olhos azuis: choque, talvez, e um toque de esperança.

Entregou-lhe o roupão com o seu sorriso mais doce.

– Não te importavas de pendurar isto, pois não? Não há mais ninguém aqui que o faça por mim.

O som que ele emitiu poderia ser o de um gemido. Fez com que Theo se sentisse um pouco melhor e ainda mais porque ele olhou-a, sentada na cama com o lençol mal lhe cobrindo os mamilos, e depois saiu do quarto.

– Veste qualquer coisa – disse ela. – Não quero que o Maydrop fique horrorizado ao ver tantas cicatrizes.

A única resposta foi um som surdo quando ele fechou firmemente a porta. Ela saltou imediatamente da cama e lavou os dentes, depois penteou o cabelo.

Quando ouviu passos a subir a escada, voltou para a cama, esquecendo o desagrado de se meter numa cama em desalinho. Quem haveria de dizer que dava tanto trabalho fazer uma cama? James entrou com um cesto e pousou-o sobre o toucador. Depois agarrou na garrafa de vinho e bebeu um gole da própria garrafa.

Theo também gostaria de beber, mas naquele momento não poderia dizê-lo.

Ele serviu-lhe um copo da mesma garrafa.

– Não posso – disse ela, delicadamente.

– Foi um dia dos diabos – comentou ele, obrigando-a a aceitar o copo. Depois semicerrou os olhos. – Estás a dizer isso porque eu bebi da garrafa, não é verdade?

– Todos temos padrões diferentes de higiene – respondeu ela num tom que até aos seus ouvidos pareceu presumido.

– Tens medo da minha boca? Do meu cuspo?

– Só que...

Ele inclinou-se rapidamente, passou-lhe a mão pela nuca e puxou-a para si. Theo fechou os olhos instintivamente quando a boca dele tocou na sua. Mas não era o beijo que interessava James: a língua dele invadiu-lhe a boca, quente, húmida e agressiva.

Theo não sentia qualquer interesse na lição que ele lhe dava acerca de cuspo e garrafas de vinho. Queria que ele a olhasse com os olhos a brilhar, como costumava fazer anos atrás, por isso passou-lhe os braços em redor do pescoço e retribuiu-lhe o beijo. Perseguia a promessa da língua dele, pois esta recordava ao seu corpo um prazer profundo.

Pouco depois soltou um pequeno suspiro entrecortado. James endireitou-se, parecendo relutante e voltou as costas. Assim, com ele de costas voltadas, Theo saboreou-lhe a curva das nádegas e o peso musculoso das coxas. E o facto de ele estremecer ligeiramente.

Quando se voltou de novo, James já se dominara.

– Bem – disse alegremente. – Que tal um pouco de frango?

Theo olhou para a garrafa de vinho e pensou em como seria agradável bater-lhe com ela na cabeça, para lhe retirar do rosto aquela expressão simpática. Porém, preferiu fazer algo que era tão estranho ao seu caráter como atirar um rubi pela borda fora seria ao de um pirata.

Estendeu o braço, pegou na garrafa e levou-a à boca. O vinho era maravilhoso. Sabia a pêssegos e a verão e ao cheiro ativo de flores esmagadas.

Seria provavelmente o melhor vinho que saboreara na sua vida. Durante o beijo deixara de segurar o lençol e, quando se recostou, sentiu os seios livres. Não se incomodou em cobrir-se de novo com o lençol. Instalou-se melhor sobre as almofadas e bebeu outro gole daquele vinho delicioso. Com os olhos fechados.

Por fim, não tinha de se preocupar com os seus convidados para ver se a casta estava a ser agradavelmente apreciada. Não tinha de analisar o sabor para ter a certeza que estava de acordo com o prato que servia.

Pelo contrário, bebia unicamente por prazer. O vinho fresco deslizava-lhe pela garganta como se fosse pisado de estrelas cadentes.


Trinta

Claro que James já sentira dores, mas não se lembrava de alguma vez ter estado em tal agonia como naquele momento. Theo recostada num monte de almofadas, os seus seios maravilhosos e rosados voltados para ele como a mais preciosa das doçuras que o céu lhe poderia oferecer e ele tinha de ficar do seu lado da cama. Tinha mesmo.

Aquilo era um cerco, uma longa batalha. Obrigou-se a pensar quanto tempo levara a prender aqueles malditos lençóis; o seu desejo arrefeceu uma quantidade infinitesimal. Embora, claro, o seu pénis não fosse a parte alguma e os testículos lhe caíssem provavelmente na manhã seguinte.

Algum tempo depois afastou dela a garrafa. Viu-lhe os olhos um pouco vidrados e suspeitou que ela não tivesse bebido mais que um pequeno gole de vinho em todos aqueles anos. Se tanto.

– Frango – disse ele, metendo-lhe um pouco de carne na mão. – Come isto.

Ver os lábios sensuais de Theo fecharem-se em redor de uma perna de frango qual marinheiro bebendo água fresca depois de meses no mar, obrigou-o a dar uma pancada forte em si próprio. A dor permitiu-lhe pelo menos recuperar autodomínio.

– Não te dói fazeres isso? – perguntou ela, olhando-o de cima a baixo e ele tratou de ficar deitado de lado, como um romano decadente nas termas. Sentia-se um idiota, mas, se ela gostasse do que via, valia a pena.

Theo descobriria de novo o desejo. Não poderia ter desaparecido permanentemente, aquela onda enorme de doçura e alegria que os enchera a ambos quando tinham feito amor sete anos atrás.

– Nem por isso – respondeu.

– Fala-me mais do que é ser pirata – pediu Theo. Tendo despachado a perna de frango, estendeu a mão para uma empadinha de presunto.

James engoliu em seco. Tinha de deixar de pensar nos seios dela e na cor dos seus lábios e em quão insuportavelmente desejável ela era com o cabelo puxado assim para trás, pondo-lhe em evidência as maçãs do rosto, a boca carnuda e as pestanas sedosas.

– Disse-te que nunca fui pirata – esclareceu ele, quase como se pedisse desculpa. – É por isso que não estou preocupado com a possibilidade de uma prisão. Quando recuperávamos objetos de um tesouro real, devolvíamo-los e, ao fazê-lo, conseguíamos documentos que nos permitiam navegar sob bandeiras de Espanha, Holanda e Sicília.

– Não será duas vezes mais arriscado atacar piratas perigosos? – Terminara a empadinha de presunto e preparava-se para comer outra. James esquecera-se do apetite que ela tinha: era capaz de comer um boi, sem aumentar um grama.

– É semelhante a pertencer à Marinha. – Afastou penosamente o olhar dos lábios brilhantes. – Assim que identificamos os alvos, geralmente porque se dão a conhecer erguendo a bandeira da caveira e das tíbias, abatíamo-los.

– Uma marinha de dois navios – disse ela pensativa. – Quais eram os navios mais difíceis de derrotar?

– Os navios negreiros – disse ele sem hesitar.

Navios negreiros? Os piratas traficavam escravos? A boca dela formou um círculo perfeito.

Aquilo não ia dar resultado. Mais cedo ou mais tarde, daria por si a implorar-lhe que fizesse aquilo que ela nunca mais queria fazer.

– Os piratas abordam os navios negreiros – disse ele, respirando fundo. – Como a carga é humana, não transferem simplesmente os escravos para os seus navios. Transferem sim parte da tripulação para o navio negreiro e levam-no para um porto em que a carga possa ser transformada em dinheiro. Atacávamos qualquer navio que pudéssemos identificar como negreiro, pirata ou não.

A boca de Theo era agora uma linha fina e dura e ela pousou a empada que ainda não acabara de comer.

– Perfeitamente repreensível. Revoltante até. Odeio todo esse negócio. É um crime tantos países hesitarem seguir a Inglaterra na sua abolição desse comércio.

– Concordo.

Os olhos dela iluminaram-se, divertidos.

– Ainda bem que o oiço, porque o duque de Ashbrook, ou antes, os seus domínios, têm apoiado os esforços para tornar ilegal a posse de escravos e não apenas o seu comércio. É triste dizer que nos tem custado centenas de libras em subornos.

James acenou com a cabeça. Mas havia uma coisa que queria dizer-lhe.

– Theo... – usou deliberadamente o nome. – Vejo que administraste esta casa de maneira espantosa. Mas podes dizer-me, em nome de Deus, como conseguiste levar estes domínios que estavam quase na penúria ao ponto de podermos dispor de centenas de libras, mesmo que tenha sido para a melhor das causas?

– Comecei com os tecelões – disse ela a sorrir. – Lembras-te da minha ideia de lhes pedir que reproduzissem os panos do Renascimento, aqueles tecidos antigos de padrões figurativos que são tão difíceis de encontrar hoje em dia?

– Sim. Mas recordo-me que o Reede não estava certo de que os teares pudessem criar padrões tão complicados.

– Uma das primeiras coisas que fiz foi despedir o Reede – disse Theo sem mostrar arrependimento. – E não foi apenas por aquela complicação do teu pai com o meu dote. Ele não tinha coragem para aquilo, James. Não tinha mesmo.

– A que coragem te referes?

– No princípio foi preciso corrermos certos riscos. – Theo pegou de novo na empada e começou a contar-lhe a história de como descobrira que na Tecelagem Ryburn só trabalhavam mulheres, mas que os gerentes eram todos homens. – Tinha sempre de falar com as tecelãs acerca das cores, percebes, James? O azul florentino é uma cor muito difícil de conseguir, por exemplo. Se quisermos cópias dos tecidos dos Médicis, tínhamos de os criar. Reede não conseguia aguentar.

– Não conseguia aguentar o quê?

– Por fim, mandei embora os homens – contou Theo com uma centelha de malícia no olhar. – Resolvi pôr como gerente uma mulher formidável, Mistress Alcorn. Foi uma das coisas mais inteligentes que fiz, mas quase provoquei uma apoplexia ao Reede.

– O que tinha Mistress Alcorn de tão formidável?

– Bom, para começar, conseguiu contrabandear um tear que veio de Lyon.

– Contrabandear?

– Não conseguíamos fazer seda changeant. Mas, afinal, ela tinha um primo, que tinha um amigo, que tinha um irmão francês... e, antes que eu desse por isso, tínhamos o tear.

De súbito, James soltou uma gargalhada.

– Então, nenhum de nós fez dinheiro de modo inteiramente legal.

– A Tecelagem Ryburn está longe de ser pirata – afirmou Theo altiva.

– E a companhia de cerâmica? Como conseguiste levantá-la? Roubaste alguém à Wedgwood, como o Reede sugeriu?

– Oh, não. Não foi preciso roubar.

James inclinou-se para diante, apreciando a expressão combativa dos olhos dela e o tom complacente da sua voz.

– Diz-me lá.

– Ofereci-lhes salários decentes – disse Theo a sorrir. – Vieram ter comigo sem necessidade de os roubar ou de lhes oferecer subornos. Receio que o pessoal da Wedgwood tenha ficado terrivelmente perturbado, mas, de facto, nada tive a ver com isso. Foi uma decisão tomada completamente pelos homens em questão. Não contactei uma única pessoa na Wedgwood. Mas, se os trabalhadores descobriram o que eu pagava e partilharam essa informação com os amigos, é uma coisa de que dificilmente me podem culpar.

James desatou a rir.

– Desde o princípio que tive os melhores artesãos a trabalhar nos nossos fornos – declarou terminando a empada. – Decidi que nos especializaríamos em cerâmica com padrões gregos e romanos e, por sorte, estas peças tornaram-se muito populares em Londres.

– É semelhante à tua ideia dos tecidos – retorquiu James fascinado. – Tecidos renascentistas, cerâmica grega...

Theo saltou da cama e correu pelo quarto. James esqueceu-se imediatamente do assunto da conversa. Por trás, a mulher era uma revelação: pernas longas e graciosas, um traseiro suave e firme, ombros tão elegantes como o resto.

A luxúria invadiu-lhe o corpo como se ele mais não fosse do que um feixe de raminhos de árvore atingido por um incêndio florestal. Sentiu vidrarem-se-lhe os olhos quando ela saltou de novo para a cama, agarrada a uma pasta enorme.

Sentou-se de lado, cobriu as pernas esguias com o lençol e abriu o livro.

– Aqui tens as amostras de tecido da Tecelagem Ryburn para este ano – indicou. – Estás a ver isto? – Apontou para um tecido e ele esforçou-se por dar atenção. Era negro. Para além da folha do livro, o lençol resvalara e ele conseguia ver um pouco de pele, tão doce e delicada que teve vontade de a lamber.

– É um padrão de pássaros em voo – explicou-lhe Theo. – Não consegues ver a repetição, a menos que olhes muito de perto.

– Maravilhoso – James conseguiu dizer.

– Uma das tecelãs perdeu o bebé – contou Theo em voz baixa. – Desenhou isto porque queria pensar que a filhinha tinha voado para um lugar melhor.

– Um verdadeiro encanto – elogiou James. E desta vez falava a sério.

– Vendemos treze rolos numa semana depois de o primeiro-ministro ter sido assassinado – esclareceu Theo, o seu tom de voz agora prático.

– Foi? – James ergueu uma sobrancelha. – Como se chamava? Quando?

– Spencer Perceval – replicou Theo, surpreendida. – Foi assassinado em treze. Não recebeste notícias enquanto estavas fora, James?

– Muito poucas. Estou desejoso de voltar a ler os jornais todos os dias.

– Mostra um lado triste de nos preocuparmos com os negócios – disse Theo. – A verdade é que o pobre homem tinha treze filhos e a viúva gostou do padrão. De repente, toda a gente usava os nossos tecidos. Senti-me triste e triunfante ao mesmo tempo. – Hesitou. – Deves ter sentido o mesmo de vez em quando, James.

Ele assentiu.

– Os navios negreiros eram angustiantes, não por causa da luta, mas pelo que encontrávamos nos navios quando os aprisionávamos.

– Li sobre o assunto. Porões nojentos e malcheirosos, cheios de seres humanos, mortos e vivos, nenhum deles decentemente alimentado, sem receberem luz e sem ventilação. Incrível!

A voz dela estremecia e ele amou-a ainda mais nesse momento do que o que julgava ser possível. A sua Daisy podia ser rígida, mas as suas noções de ética estavam no mais profundo do seu ser.

No mesmo momento, lembrou-se se poderia aproveitar-se dessa decência.

– Dávamos cabo dos traficantes de escravos durante a batalha e depois oferecíamos aos homens e mulheres a bordo a possibilidade de navegarem nesse navio até ao país de onde eram originários, oferecendo-lhes também uma boa quantidade de moedas de ouro. Poderiam também continuar connosco e deixá-los-íamos no porto seguinte, igualmente com o tesouro que tivéssemos encontrado no navio pirata. – Lançou-lhe um olhar piedoso e depois susteve a respiração, à espera.

Claro que Theo se inclinou e colou os seus lábios aos dele na versão infantil de um beijo. Em resposta, James voltou-se para ficar de costas e, com igual cuidado, puxou-a para cima de si.

Ela olhou-o surpreendida, mas ele abriu a boca e recebeu-a. A língua aveludada de Theo emaranhou-se timidamente na dele. Embora James sentisse o seu corpo em brasa, conseguiu manter o beijo descontraído e fácil.

– Gosto de te beijar – murmurou ela algum tempo depois, com os lábios já vermelhos, cor de rubi.

– Não tanto como eu gosto de te beijar – disse ele, com toda a franqueza.

Ela passou-lhe um dedo pela testa.

– Se isso fosse verdade, nunca terias ficado fora sete anos.

– Estive prestes a regressar após dois ou três anos. Tinha no meu camarote um monte de tecido confiscado aos piratas para te oferecer. Não conseguia deixar de sonhar contigo. Estava constantemente a pensar no que deveria ter dito depois de teres ouvido aquela conversa com o meu pai. Grande parte das minhas soluções tinha a ver com fechar o quarto à chave e fazer amor contigo até estarmos ambos insensíveis.

Nos lábios dele tremeu um sorriso.

– Nessa altura não teria dado resultado.

– E teria dado resultado se eu tivesse regressado dois ou três anos depois?

Ela ficou por momentos em silêncio, passando-lhe o dedo com insuportável ternura pela forma da tatuagem.

– Talvez. Porque não regressaste?

– O meu pai morreu e eu não estava com ele.

– Oh, percebo. – Poisou um beijo no local por onde passara o dedo.

– Caí de uma espécie de rochedo – referiu James com uma careta. – Sei que o meu pai era idiota e desonesto. Passei a minha juventude a escapar de objetos voadores que me lançava e a tentar ignorar os seus esquemas estranhos. Quando saí de Inglaterra, pensei que seria uma bênção nunca mais o ver. Para mim, ele trocara a minha felicidade por dinheiro roubado.

– Mas...?

– Pensei que o faria sofrer se ele morresse sem saber se eu estava morto ou vivo. À sua maneira, gostava muito de mim.

Theo baixou os olhos.

– Morreu a perguntar por mim? – A voz de James parecia ferro a roçar ferro.

Theo passou-lhe a mão pela face.

– Estava muito confuso. Perguntou por ti, por isso disse-lhe que tinhas saído por momentos, mas que estarias ali quando ele acordasse. Adormeceu com um sorriso nos lábios. E não acordou.

Nesse momento, James esperou até conseguir dominar-se.

– O meu pai era um criminoso, e um louco e tudo o mais. Mas gostava de mim. Era o seu único filho e a única coisa que o ligava à minha mãe. Apesar de dizer que o seu casamento fora meramente prudente, também a amava.

Theo acenou com a cabeça e poisou novo beijo precisamente sobre a tatuagem.

– Não sei o que me aconteceu – disse James, procurando instintivamente com as mãos o traseiro redondo de Theo e instalando-a melhor sobre as suas pernas. – Creio que perdi o juízo. Rapei a cabeça. Arranjei uma amante e depois mais duas, porque, na minha ideia, eu era uma pessoa tão indigna que era melhor trair-te do que regressar a Inglaterra.

Ela deu-lhe outro beijo. Desta vez nos lábios.

– Matei o James Ryburn – explicou com simplicidade. – Transformei-me no Jack Hawk e jurei nunca mais voltar.

– Até te cortarem a garganta.

– Sim. – James olhou-a e hesitou, com a verdade na ponta da língua. Mas ela ainda não estava preparada. – Quando sobrevivi, contra todas as probabilidades, apercebi-me de que queria regressar a casa. Claro que, nessa ocasião, Griffin e eu éramos corsários muito bem-sucedidos. Tenho um tesouro pirata no sótão e outros em vários bancos, pelo mundo fora. Mas queria voltar para Inglaterra sem estar em perigo todos os dias.

– Para terminar a tua carreira no mar – disse Theo a sorrir – será mais provável que o Governo britânico te arme cavaleiro pelos serviços prestados ao império do que te prenda por pirataria.

– Sim. – Uma enorme paz descia sobre o coração de James.

– Podias ter morrido a libertar os escravos – referiu Theo e o seu rosto tomou aquela seriedade estranha que lhe era tão frequente. – Estou orgulhosa de ser tua mulher.

Ele preferiu beijar-lhe com força a covinha e puxou-lhe o rosto para si para o fazer. Quando estavam ambos ofegantes, James disse-lhe:

– Daisy, fazer amor não precisa de incluir aquelas partes de que não gostas, porque há partes de que não gostas.

Ela mordeu o lábio.

– Gostaste que eu te tocasse no banho – declarou ele em voz doce.

Ela sorriu, surpreendendo-o.

– Só uma idiota não gostaria.

– E gostas de beijar...

– Terei de repetir? Não sou idiota.

– Nunca mais te pedirei para andares por casa sem calcinhas.

– Porque me pediste uma coisa dessas? – perguntou ela, verdadeiramente curiosa.

– Estava louco de luxúria por ti e embriagado pelo facto de corresponderes. Tinha uma espécie de ideia incipiente de que faríamos amor por toda a tua casa, na escada, na despensa, nos assentos das janelas, e que seria mais fácil sem calcinhas, porque poderia simplesmente subir-te as saias. Era estúpido. Mas era o tipo de coisa com que um jovem sonha.

O dedo dela percorria-lhe de novo a tatuagem. Ele gostava. Mas ao mesmo tempo começava a perder o equilíbrio. O corpo dela, tão macio junto ao seu, estava a perturbá-lo demasiado. Tentou de novo refrear a sua luxúria. Se lhe desse a perceber como se sentia ela fugiria porta fora.

Preferiu então mostrar-lhe uma expressão sonolenta e divertida que cobrisse tudo o resto.

– Acho que sim – disse ela. – Mas havia descontentamento no seu tom de voz.

– E queria beijar-te naquele teu sítio – revelou ele, sucumbindo à verdade. – Que diabo, também quis beijar o de Bella, mas ela nunca o permitiu. Adoro essa parte da mulher, principalmente a tua. És macia, rosada e saborosa, Daisy.

– Theo –, mas disse-o em voz terna.

– Tens de te recordar que tinha apenas dezanove anos. Não fazia ideia do que faziam as pessoas casadas até o meu pai ter dito aquelas coisas. Os homens não falam desse tipo de coisas. E eu não costumava ter amizades muito íntimas com outros rapazes.

Ela assentiu.

– Tinha-te sempre a ti. – Olhou-a de perto, observando-lhe os olhos de cada vez que ela pestanejava. – Nunca teria pedido nada que te ofendesse. Quando te ofereceste para me beijar na biblioteca, foi a coisa mais sensual que jamais me aconteceu. Nunca me ocorreu recusar. Ter-me-ia despido em Kingston Square, se mo tivesses pedido. Estava apaixonado por ti e também dominado pelo amor ao teu corpo e fascinado por poder fazer amor contigo.

– Então também tudo era novidade para ti?

Ele assentiu.

– A Bella foi minha amante cerca de um mês, creio. Permitia que eu passasse algum tempo com cada um dos seios dela e depois era altura de fazer aquilo por que lhe pagava. E pronto.

– Valha-me Deus!

– Os seios dela nem sequer me agradavam. Faziam-me recear afogar-me em toda aquela carne, enquanto os teus... sabes o que penso dos teus seios.

James gostou do sorriso dos olhos dela. Gostou tanto que passaria toda a sua vida a tentar que ela lhe sorrisse assim. Mas havia algo que o incomodava e sabia que tinha de lho confessar antes que fizessem amor.

– Tenho de te contar uma coisa de que não vais gostar.

– Oh? – A tristeza do olhar dela substituiu o sorriso tão depressa como uma trovoada de verão.

– Apostei com o Griffin que iria para a cama com a minha mulher antes que ele fosse com a dele.

Ela afastou-se e pôs-se de joelhos.

– Como?

– Apostei com o Griffin...

– Eu ouvi. Mas por que diabo fizeste uma coisa dessas?

Ela olhou-o com um ar de reprovação e censura. Mas James percebeu que não estava horrorizada. Não estava horrorizada.

– Porque sou um idiota. Inventei uma razão para te procurar, Daisy. Mas a verdade é que te queria reaver. Vim para casa por ti.

Era tudo muito complicado. James dizia que a queria, mas depois fazia apostas acerca da possibilidade de ela o aceitar na cama. Theo rodeou os joelhos com os braços, apercebendo-se chocada de que o lençol deslizara e que havia algum tempo que estava nua, mesmo sem o notar.

Fazia agora uma ideia diferente das ações que, no dia anterior, lhe tinham parecido ofensivas e horríveis. Claro que sabia o que se passava. Apaixonara-se de novo, tão estúpida e desesperadamente, como um rato que cai numa ratoeira.

James continuava a falar.

– Vais gostar de saber que posso agora ajudar-te a administrar os domínios. Administrei as minhas finanças e as do Griffin.

– As tais contas bancárias?

– Ouro – respondeu ele, sentando-se e encostando-se à cabeceira da cama. – Joias. Cinco contas bancárias em vários países. Um cetro. Esse tipo de coisas.

Theo esticou as pernas e levantou-se da cama.

– Isto está numa completa desordem – declarou olhando para os restos do piquenique, com as mãos na curva da cintura.

James não podia estar mais excitado, mas conseguiu dominar-se enquanto olhava para ela.

– Ainda tens fome – perguntou ela.

– Sim – disse ele, sem sequer ouvir.

– De comida – esclareceu Theo.

– Não.

– Ainda bem. – Pegou nos pratos e arrumou-os sobre o toucador. Depois pegou na garrafa de vinho e nos copos, nos guardanapos e nos bolinhos em que não haviam tocado e acrescentou tudo ao monte que havia sobre a mesa. – Tens de sair daí – informou-o.

James saiu da cama, dizendo para consigo que, provavelmente, levaria grande parte da vida a receber ordens. E a fazer camas. Mas não importava. Não trocaria uma das ordens dela por um momento de liberdade de volta à pirataria.

– Agora vamos arranjar este lençol – declarou.

Ele olhou-a.

– Acho que deveríamos ir para essa tal ilha que é nossa e viver numa cabana sem poço, com apenas um ribeiro e também sem lençóis.

– Não creio – disse ela. – Se ficares desse lado, podemos arranjar tudo isto de novo.

James obedeceu.

– E depois?

– Depois estenderemos também a coberta.

– E?

Ela olhou-o e a expressão dos seus olhos fê-lo sentir uma onda de calor no baixo-ventre.

– Depois vamos fazer amor como fazem os casais respeitavelmente casados.

– Vamos? – A voz dele saiu-lhe num gemido e lançou imediatamente a coberta por cima da cama como se um tornado tivesse entrado no quarto.

– E como é isso?

– Debaixo das cobertas – declarou Theo. – Às escuras.

– Certo. – James não queria saber onde ou como teria lugar desde que ela pensasse em permitir deixá-lo voltar a entrar no seu maravilhoso corpo.

Minutos depois, apercebeu-se de que quando a mulher dizia «às escuras», era mesmo assim. Apagou as velas e baixou o candeeiro que ficou com uma luz muito ténue. Depois teve de voltar para a cama no escuro.

James ouviu um ruído surdo e um «raios» que o fez sorrir. Por seu lado, ajustou rapidamente os olhos; estava habituado a entrar nos navios na escuridão da noite. Quando ela se meteu debaixo das cobertas, James tremia de desejo mal contido.

Mas tinha uma última coisa a dizer-lhe.

– Amo-te – murmurou-lhe na escuridão, passando-lhe as mãos pelo cabelo sedoso. – És demasiado elegante para mim, e demasiado bela e demasiado inteligente, mas, mesmo assim, amo-te, mesmo com todas essas contingências.

Ela soltou uma exclamação de desprezo, mas voltou a cabeça e beijou-lhe o pulso. Ele aceitou-o.

James estava certo de uma coisa. Os lençóis ficariam por cima da cabeça de ambos, se fosse esse o desejo dela. Não precisava de luz. Precisava apenas do seu calor, de um corpo docemente perfumado girando nas suas mãos.

Apreciou o modo como ela se arqueou para ele com um suspiro de alívio quando os seus lábios encontraram os dela e o pequeno grito de prazer quando ele lhe passou os dedos pelo interior da coxa, o seu gemido quando os dedos dele encontraram uma zona mais quente e mais húmida.

De cada vez que os movimentos de ambos afastavam os lençóis, ele puxava-os de novo. Não trocaram palavras, até começar a beijar-lhe o estômago.

– Vais... não vais fazer isso, pois não?

Foi gratificante para ele notar que a voz dela estava um pouco ofegante.

– Sim – disse, tentando falar em voz suave e desprendida, mas sem o conseguir. – Vou. Tenho de o fazer, Daisy. Nunca disseste que te era desagradável.

Pareceu-lhe que ela murmurava qualquer coisa, mas não o fazia no seu tom de Theo, por isso tomou-o como um sim. Decerto que de vez em quando seria Daisy para ele. Pelo menos entre os lençóis.

Sabia ao mais doce néctar que um deus poderia desejar. Lambeu, brincou e fez tudo o que levara sete anos a sonhar fazer. Abriu-lhe as pernas para ter mais espaço e poder explorar até sentir a tensão invadir o corpo dela. Quando ela lhe pareceu tensa como um arame, com a respiração em pequenos gemidos, abrandou para a atormentar.

E, quando sentiu que ela estava à beira do orgasmo, ergueu a cabeça e disse debaixo do lençol.

– Não creio que devamos ter filhos, Daisy.

Ouviu um resmungo obsceno.

– Não pares! – exigiu imediatamente.

– Mas tenho de te dizer uma coisa – insistiu ele. – Como te disse, acho que não devemos ter filhos. Mudei de ideias. – Soprou sobre ela e passou-lhe o polegar pela pele sedosa.

Ela estremeceu nas mãos dele e depois arrancou o lençol para o lado e exclamou:

– Que foi que disseste?

– Não quero filhos – afirmou, inserindo o dedo na passagem tão apertada, húmida e quente que ele quase atingiu o orgasmo sobre a cama, coisa que não lhe acontecia desde os dezasseis anos. Abafou um gemido e baixou a mão para se dominar.

– Porquê – perguntou ela num murmúrio rouco.

– Nunca serei capaz de amar outra pessoa como te amo a ti. Não creio que alguma vez tenha amado assim. Sou uma pessoa limitada. Não gostaria de fazer com que uma criança não se sinta amada. – Estava a ser um pouco manipulador, mas, até certo ponto, era verdade. Não imaginava ter amor que chegasse para um bebé.

Fez deslizar outro dedo para dentro dela. Theo soltou um pequeno grito.

– Não será melhor puxares o lençol? – perguntou ele, erguendo de novo a cabeça.

– Tu! – exclamou ela e a ordem agitou-lhe até os ossos. – Não pares.

Ele obedeceu à ordem.

Quando viu que Theo soluçava e tremia, avançou pelo corpo dela e murmurou:

– Não estarias mais confortável se eu me deitasse de costas?

Ela não parecia pensar com clareza, por isso ele voltou-se na cama ergueu-a no ar e colou-a suavemente em posição.

– Posso pedir-te que te baixes um pouco – perguntou delicadamente. Mantinha as mãos soltas sobre os braços dela, embora nada mais desejasse do que puxá-la para baixo e entrar no seu calor húmido.

– Sim, claro – respondeu num tom um pouco estranho.

– Não demoro muito – disse ele, ofegante, enquanto ela deslizava.

Theo parou.

– Daisy? – As mãos de James tremiam, por isso largou-lhe os braços e agarrou o lençol. Não podia assustá-la. Não podia provocar nela o desagrado.

Maldição, ela afastava-se. Soltou um gemido surdo. Aquilo era uma pura agonia.

– Quero o candeeiro – retorquiu ela, tropeçando para sair da cama. Um cavalheiro talvez se tivesse levantado para a ajudar, mas James não se sentia cavalheiro. Sentia-se um ex-pirata, sedento de sangue com os testículos inchados. Um ex-pirata prestes a perder todo o domínio que tinha sobre a sua pessoa, porque aquilo já durava demasiado.

Theo conseguiu encontrar o candeeiro e aumentou a chama. A luz espalhou-se pelo corpo dela fazendo com que os seus membros brilhassem como alabastro. Como ela não voltasse imediatamente para a cama, James sentou-se gemendo um pouco; naquele momento o seu corpo não queria dobrar-se daquela maneira.

– Não voltas? – A sua voz parecia um gemido rouco.

Theo estava junto à lareira, de novo com as mãos nas ancas.

– Que se passa? – perguntou ele, evitando acrescentar «agora».

– Isto – disse ela, acenando com a mão. Talvez apontasse para ele ou possivelmente para a cama. – Não é a mesma coisa. – Os olhos dela pareciam lagos de luz suave como a própria escuridão. Os lábios carnudos e sensuais. – Não te parece tudo diferente?

– Pois bem, agora és muito mais bonita do que quando eras muito jovem – respondeu ele, escondendo a sua impaciência. – E eu sou mais experiente.

Ela abriu a boca, mas deteve-se.

– Certo. – Fez uma pausa. – Não. Temos de acertar isto.

– Faço o que quiseres – disse ele, imediatamente. – Não deveria... ou antes, deveria... ter-te deixado...

– Não! – gritou-lhe ela.

– O quê?

– Não sejas assim!

James aclarou a garganta. Pela primeira vez não teve a certeza de que pudesse ser o homem que ela precisava ou queria. O que significava que não tinha a certeza de poder continuar casado com ela.

Nesse momento, uma explosão de fúria invadiu-lhe todo o corpo, atiçada pelas horas de ereção que o estava a enlouquecer. Imediatamente foi para junto dela e poisou-lhe as mãos nos braços.

– És a minha mulher! – vociferou.

Ela ergueu a cabeça e inclinou-a para trás para lhe ver o rosto, pondo em evidência a linha elegante do seu pescoço. Ele teve vontade de o morder. Queria mordê-la toda, transpirar sobre ela e mergulhar nela. Lambê-la da cabeça aos pés.

Queria usar-lhe o corpo. Queria que ela usasse o seu.

– Gostaste da maneira como fizemos amor. Não. Adoraste. Não posso transformar-me numa espécie de cãozinho amestrado só para que vás para a cama comigo! – Esta declaração foi feita num grito digno do pai.

Ela não pareceu importar-se. No seu rosto surgiu uma expressão parecida com alívio e ela lançou-lhe os braços ao pescoço e tentou puxar-lhe a boca para os seus lábios.

James não lho permitiu. Pegou nela e quase a atirou para a cama, subindo depois para cima dela, nitidamente consciente do seu tamanho e do músculo poisado sobre ela.

– Tenho uma tatuagem, tenho cicatrizes e sou enorme – recordou-lhe, quando ela nada disse.

O sorriso que lhe abriu os lábios era de pura cobiça. Sentiu uma leve esperança.

– Estou a ver – ronronou. Deixou de tentar puxar a cabeça dele para a sua e acariciou-lhe os braços com os dedos.

– Tens medo?

Ela riu-se e ele sentiu-se mais à vontade, mas ainda tinha algo para lhe dizer.

– Não quero saber para nada do que vestes por baixo das saias, mas, se vestires calcinhas, posso rasgar-tas na despensa. Neste momento, desejo-te tanto que sinto que perdi o juízo. Na verdade, foste a única mulher que eu sempre quis. – Respirou fundo. – As minhas amantes foram meros sinais de como eu estava morto. Morto para ti, morto para o mundo, morto para mim mesmo.

Os olhos dela tinham uma expressão mais doce e ela acariciou-lhe o rosto.

– Mas agora voltaste.

– Sim. Voltei. Mas não voltei como um cãozinho de companhia, Daisy. Não posso fingir mais ser uma versão pálida e tímida de mim mesmo. Não posso ser o Trevelyan.

– Nem eu queria que fosses.

– Também eu preciso que voltes. – Tinha de ser muito claro. Tudo dependia disso.

Theo franziu as sobrancelhas.

– Preciso que tenhas a coragem que tinhas quando eras a minha Daisy – escolheu as palavras com a maior precisão possível. – Morri para mim... e para ti... durante alguns anos, mas uma parte de ti também morreu. Não te permites sentir alegria.

– Sinto alegria – objetou ela. – Por vezes.

– A vida é complicada. Complicada, malcheirosa e embaraçosa também. Não há nada no teu corpo que me desagrade. E não me importo absolutamente nada com o que a sociedade pense que devemos fazer no nosso leito conjugal.

Os lábios dela tremiam e James não sabia se seria bom ou mau sinal, por isso continuou.

– Podes fazer amor comigo como te apetecer e eu nunca to negarei. Pela minha parte, quero beijar-te toda. Sempre quis e esse desejo não desapareceu. É ainda mais forte. Podemos estar a jantar com o próprio Regente e eu olharei para ti e pensarei onde e como te vou beijar.

As lágrimas brilharam nos olhos dela.

– Aqui – disse ele, passando-lhe o dedo pelo lábio inferior. – Aqui. – Envolveu um dos seios dela com uma mão possessiva. Este enchia-lhe a mão e um breve som saiu-lhe dos lábios. Mas ainda não terminara. – Aqui. – Sem desviar o olhar dela, passou-lhe rapidamente os dedos pelo ventre até chegar ao tufo de pelos ambarinos entre as pernas dela. Theo estava húmida, quente e aberta.

Mas ele não se deteve.

– Aqui – disse ele fazendo deslizar os dedos para lhe acariciar a parte mais íntima.

Ela soltou um gemido sufocado e ele viu uma sombra de prazer no rosto dela, mesmo quando se afastou do seu toque. – Não há um lugar do teu corpo que eu não queira beijar, Daisy. Em que eu não pense com desejo. Porque este é o seio mais belo do mundo. – Inclinou a cabeça e beijou-lhe e lambeu-lhe o mamilo. – E este é o mais...

Ele começara a descer para sul, mas ela ria já por entre as lágrimas e puxava-o para cima.

Porém, James ainda não tinha terminado.

– Se me deixares, beijo-te até na sala do Regente. És a única para mim. Foi por ti que voltei dos mortos, Daisy. Duas vezes.

– Sinto-me tão feliz por teres voltado para mim – murmurou ela. Uma lágrima, líquida como cristal, deslizou-lhe pela face, desaparecendo-lhe no cabelo.

– Nunca te deveria ter deixado.

Mais lágrimas. Ele acariciou-lhe o rosto molhado com o polegar, apertando-a de encontro ao peito.

– Amo-te – murmurou James para dentro do cabelo dela, pois Theo escondera o rosto no peito dele. – Ainda não me disseste o mesmo – continuou. – Por isso vou dizê-lo por ti. Também me amas. – Depois, como há limites de tempo até para o mais contido dos homens, e porque ele já os atingira, ergueu-se sobre ela e disse: – Vou tratar da minha duquesa. Fala agora ou cala as tuas dúvidas para sempre.

James viu uma chama de prazer nos olhos dela, e foi o que tomou como resposta, por isso separou-lhe os joelhos e investiu.

Ela arqueou-se contra ele com um gemido sufocado, agarrando-lhe os braços.

– Outra vez, por favor, James. Por favor.

Ele obedeceu.

– Oh, é tão bom!

James respirou fundo e tentou dominar-se.

– Não posse ser sempre um perfeito cavalheiro – vociferou, afirmando algo mais. – Não sou assim tão domado. Não posso ser domado assim. Sinto-me um idiota a fingir-me sempre divertido como faz o Trevelyan. – E o queixo dele endureceu, só de pronunciar o nome.

Theo olhou para o marido e sentiu o coração quase a rebentar. James não era nada parecido com Geoffrey. Era poderoso e dominador. Tinha uma tatuagem debaixo de um olho e nunca estaria sentado no salão da casa. Era desorganizado e desarrumado e atirava os jornais para o chão. Não sabia fazer camas. Faria sempre troça das Regras dela, embora a respeitasse. Queria beijá-la em todas as partes que não devia.

Não seria delicado e por vezes nem cortês.

Nesse preciso momento agarrava-lhe as ancas e investia profundamente e com força dentro dela.

O grito de Theo veio de um sítio tão escondido no seu corpo que até ela ignorava existir. A única resposta dele foi inclinar-se, encostar o nariz ao dela e declarar.

– Tenho a minha pila enterrada em ti, Daisy. É uma palavra que as damas não gostam, mas tu gostas, não é verdade?

Theo acenou com a cabeça. E ele fletiu-lhe de novo as ancas.

E ela gostou. E gritou.

– Não se trata de uma relação amorosa ou de um interlúdio carnal – disse-lhe James com o queixo apertado, como se tentasse recuperar o domínio (embora não o conseguisse). – Isto é um Ato vergonhoso. E. Nós. Não. Temos. Vergonha.

Depois, o duque passou a demonstrar à sua duquesa quase todos os termos que conhecia para denominar o desporto de Vénus. Era um pirata. Sabia muitos.

Nessa noite, meteram-se na cama e amarfanharam os lençóis. Copularam, fornicaram e comeram-se. Algum tempo depois, começaram a inventar descrições para os jogos suados, desordenados e alegres que praticavam.

A senhora duquesa provou ter um jeito especial para arranjar expressões próprias e continuaram até quase desfalecerem. O lençol há muito que caíra para o chão, mas nenhum deles dera por isso.

Fizeram um ao outro vários serviços particulares, respiraram fundo, gritaram e descontrolaram-se completamente. Por vezes tudo ao mesmo tempo.

Afinal, o duque e a duquesa de Ashbrook não saíram do quarto durante quatro dias. Passaram grande parte do tempo na cama. Mas também fizeram amor na banheira, no banquinho e no chão.

Uma manhã, a criada quase apanhou os patrões a fazer amor quando veio acender a lareira; Sua Graça lançou um lençol para cima da mulher que ria descontroladamente a ponto de a cama estremecer.

Em determinada ocasião, o duque decidiu fazer uma declaração acerca da beleza da mulher e, antes que ela o pudesse impedir, lançou uma capa de desenho parisiense, que valia uma pequena fortuna, pela janela. Caiu no jardim e ficou presa numa sebe, com o forro de seda cor-de-rosa a brilhar ao sol.

– Tal como já aconteceu – disse um dos criados a Maydrop. – Há sete anos, o vestido de noiva da senhora duquesa também foi lançado pela janela. Nenhum deles percebia porquê.

Maydrop mandou regressar a criadagem e o duque disse-lhe – sotto voce – que podia pagar aos homens que tinha subornado para se fingirem de jornalistas.

No final da semana, a duquesa estava praticamente habituada a andar despenteada e mal-arranjada, pelo menos grande parte do tempo. Resignara-se ao facto de o marido teimosamente a considerar tão bela agora como era aos dezassete anos, do mesmo modo que James nunca entendera o que a roupa fazia a uma mulher – ou a um homem. Porém, era especialista em falta de roupa.

Theo sentia-se muito, mas muito feliz.

E continuava casada.


Um Epílogo Muito Longo


Baile do Regente

Maio de 1817

Como todos os casais na história dos casais consorciados descobriram, a vida de casados nem sempre eram um mar de rosas.

Era a tarde em que o Regente devia atribuir a Ordem do Banho a James. Horas antes, Theo gritara com ele porque derrubara um peixe de jaspe, delicadamente equilibrado sobre a cauda e que era simplesmente uma maravilha proveniente dos artesãos da Cerâmica Ashbrook.

James retribuíra também com gritos dizendo que colocar uma coluna esguia de mármore junto da porta da biblioteca era uma tolice, pois alguém poderia entrar no aposento, tal como ele fizera, com consequências calamitosas.

– A minha vida era muito mais fácil quando os únicos peixes que via tinham escamas!

– Ainda bem! – ripostara Theo aos gritos. – Podes ir ter com os teus amigos peixes.

Ao ouvir vozes alteradas, Maydrop afastou a criadagem da porta da biblioteca. A experiência ensinara-lhe que o duque e a duquesa precisavam por vezes de privacidade fora dos seus aposentos conjugais.

Claro que, quando uma hora depois a duquesa apareceu, tinha o cabelo em desalinho e o fecho do colar pendia-lhe sobre o colo. E também não apareceu pelo seu pé.

O duque gostava de andar com a mulher ao colo. «Para exercitar aqueles belos músculos que tem», diziam as criadas perdidas de riso.

O casamento não era fácil, mas tinha as suas recompensas. De facto, James sorrira toda a tarde após o desaparecimento do peixe de porcelana, embora receasse a noite. Receberia uma comenda por serviços meritórios prestados à Coroa em relação ao infeliz caso do comércio de escravos e à cerimónia seguir-se-ia um baile. Odiava aquelas celebrações, mas se colocar uma faixa e vestir um traje absurdo por uma noite o ajudavam a conseguir o voto para abolir a escravatura (e não apenas o comércio de escravos) em todo o Império Britânico, aquilo era o mínimo que poderia fazer. Pelo menos, tinham desistido do ritual de purificação pelo banho; e sentia-se grato por isso.

Além do mais, Theo desejava que ele o aceitasse e o que Theo desejava James dava-lhe. Mesmo que isso significasse sentir-se ridículo como uma pavão com uma estola de veludo.

Assim estava agora no quarto, enquanto Gosffens, seu criado particular, andava de volta dele. Já lhe vestira um gibão bordado a pérolas, uma capa de tecido escocês vermelho, forrada e debruada a tafetá branco, tudo seguido da faixa branca, o que já era muito desagradável. E agora Gosffens trouxera-lhe as botas enfeitadas com enormes esporas douradas particamente do tamanho de rodas de carruagens.

James espreitou-as com uma expressão de desagrado.

– De onde vêm estas porcarias tão vulgares?

– São feitas especialmente para os Cavaleiros do Banho – afirmou o criado.

James enfiou os pés nas botas.

– E agora o Manto da Ordem – disse Gosffens em voz contida. Sacudiu reverente o manto da mesma cor que a capa e atou-o em redor do pescoço de James com um cordão de renda branca.

James olhou-se ao espelho como se o desafiasse a partir-se ao meio.

– Renda branca, Gosffens? Renda branca? Pareço um estafermo.

Gosffens levantava a tampa de outra caixa. James olhou para dentro dela e apercebeu-se de que o criado retirava de lá uma touca vermelha. Uma touca?

Aceitara muita coisa no que dizia respeito à indumentária. A mulher tinha opiniões muito marcadas e não havia nada que mais lhe agradasse do que vesti-lo de veludo e seda, com cores pouco vulgares nos homens e por vezes bordados com flores; dizia que quanto mais extravagante fosse a roupa dele, mais manteria o aspeto de pirata. Assim que James descobrira que a sua duquesa achava sedutor o seu ar de pirata, tinha-se até deixado ver envergando um casaco num subtil tom de cor-de-rosa.

Mas uma touca era demasiado. James estendeu a mão sem dizer mais nada. Gosffens entregou-lha e viu, com expressão trágica, James rasgá-la ao meio e atirá-la pela janela.

– A touca da cerimónia – gemeu o criado.

– Vou deixar que ponhas a cabeleira – prometeu James, como compromisso.

A seguir, Gosffens trouxe-lhe um alfinete de gravata com um diamante do tamanho de uma uva grande.

– De onde veio essa monstruosidade? – perguntou James, afastando-o.

O criado esboçou um sorriso enfatuado.

– É um presente da senhora duquesa, em honra da vossa investidura como Cavaleiro da Ordem do Banho.

James suspirou e Gosffens espetou-o num manto escarlate.

– Afinal, Vossa Graça é um duque pirata – lembrou o criado. – Não podemos desapontar quem vos admira.

Pela sua parte, James sentir-se-ia perfeitamente feliz por desapontar quem fosse suficientemente estúpido para se preocupar com o que ele vestia.

– Suponho que a duquesa estará esta noite especialmente magnífica.

– Creio que começou a vestir-se à uma hora – afirmou Gosffens. O criado de James sentia que parte da sua autoestima provinha do facto de viver debaixo do mesmo teto da mulher mais elegante de Londres. A uma hora soara três horas atrás e James calculou que Daisy só estaria pronta dentro de mais outra.

Afinal, a cerimónia não foi demasiado insuportável. O Regente foi felizmente breve em conferir-lhe a Ordem do Banho. No baile que se seguiu, James aceitou as felicitações de onze cavaleiros imbecis, convencido que os doze eram a nata do reino. Conseguindo conter o impulso de soltar uma estrondosa gargalhada, usou a sua nova influência de cavaleiro para insistir com Sir Flanner (armado cavaleiro por serviços prestados na guerra) para que este apoiasse a sua lei antiescravatura, de modo que a cerimónia teve as suas vantagens.

Nessa altura, James tinha perdido o rasto da sua duquesa. Theo era muito procurada pela alta sociedade. Os jornais descreviam todas as suas opiniões e novos vestidos; ele próprio parecia nunca conseguir sair a porta de sua casa sem se cruzar com um ou outro membro da imprensa à espera de ver a sua mulher.

Demasiadas vezes para o seu gosto, um repórter enfadado divertia-se a escrever uma descrição do duque pirata com a sua tatuagem «brutal». Esses artigos terminavam invariavelmente com uma variação do mesmo tema: ninguém entendia como a mulher mais elegante de Londres tolerava o casamento com o homem mais bizarro da aristocracia.

Mas, ao mesmo tempo, ninguém podia discutir que era óbvio que Sua Graça adorava o marido. A duquesa não sorria muitas vezes, mas sorria para o duque.

Pessoalmente, James pensava que o rosto dela em repouso era muito belo, mas quando sorria – especialmente para ele – era extraordinário.

A pensar nisso, foi procurá-la mais empenhadamente. Estavam ali havia pelo menos duas horas e meia e ele e Theo tinham negociado um limite de três horas para as ocasiões sociais que envolvessem mais de dez pessoas. (A duquesa podia ter abandonado as suas Regras no quarto de dormir, mas ainda as seguia noutros aspetos da sua vida. E em breve ele deixaria de deitar os jornais para o chão à hora do pequeno-almoço.)

Meteu a cabeça pela porta do salão, mas da mulher nem sinal. Procurou na sala de jogo e no salão de baile e ela também não parecia lá estar. Não teria outro remédio senão estender a busca ao andar de cima.

Percorria a longa galeria observando os retratos da pomposa realeza, quando ouviu a pronúncia rolada de Geoffrey Trevelyan a uma esquina. Embora James desprezasse o homem, Theo insistia em dançar com ele de vez em quando. James era de opinião que ela o fazia simplesmente por saber que o irritava.

No momento em que os seus pés, calçados nas botas com esporas, davam meia volta para seguir noutra direção – evitava a presença de Sir Geoffrey com artísticos subterfúgios – apercebeu-se do que Trevelyan dizia no seu habitual tom arrogante.

– A duquesa feia poderia até envergar os trajes novos de um imperador – dizia com desdém. – Nem as vestes mais belas do mundo lhe dariam uma figura ou um perfil de mulher. Penso de facto que deve ser um homem. Sabem da reputação que têm os piratas...

Neste preciso momento, James dobrou a esquina. Trevelyan surpreendido fechou imediatamente a boca.

Lá porque um homem tivesse aprendido a dominar o seu temperamento, não significava que não fosse capaz de perder a cabeça quando as circunstâncias assim o exigissem. James enrolou a gravata do seu antigo colega em redor da mão, ergueu-o no ar, encostou-o à parede e gritou a plenos pulmões:

– Como te atreves a dizer uma coisa dessas acerca da minha mulher? Tu, um bocado de lixo podre e malicioso. Tu, um canalha, indigno de estares na presença dela.

O rosto de Trevelyan tinha agora uma interessante cor de ameixa e ele parecia pouco inclinado a responder, possivelmente porque a gravata lhe cortasse o abastecimento de ar. Não fazia mal. A pergunta de James era retórica.

Atirou mais uma vez Trevelyan contra a parede.

– Ela é a mais bela – trás! – requintada – trás! – mulher em toda a cidade de Londres. – Neste momento, já James ouvia gente a correr pela escada a cima, mas não se importou. – Nem na China vi uma mulher mais bela – trás! – Nem nas Índias – trás! – E muito menos nas Ilhas Britânicas. Mais importante ainda, é incrivelmente bondosa. Disso é testemunha o tempo que perde a conversar contigo, meu verme encolhido e desprezível. – Trás! Trás! Trás!

Uma mão tocou-lhe na manga e ele voltou-se como uma fúria. Era Theo.

– Meu amor – disse ela e, com aquelas duas palavras, a raiva desapareceu e largou Trevelyan como uma peça de roupa suja.

O verme desprezível começou instantaneamente a afastar-se de gatas.

– Olha! – vociferou James precisamente no mesmo tom de voz que usava para soltar um grito de guerra quando saltava a amurada de um navio.

Trevelyan olhou e entendeu. Ficou imóvel.

– Se pronuncias uma palavra acerca da minha mulher, que seja menos do que um elogio, não te lançarei contra uma parede, mas sim pela janela. E não pela janela do rés do chão.

James não esperou resposta; quem espera que o lixo responda? Ofereceu o braço à mulher.

Quando se voltaram, viram que a galeria estava repleta.

– A minha duquesa – declarou James, lançando à multidão um olhar próprio de quem comanda os mares. – A minha duquesa não é um cisne, porque tal implicaria ter sido anteriormente um patinho feio.

Olhou para Theo. Esta pintara um traço exótico nos cantos dos olhos. As maçãs do rosto eram extraordinárias e o lábio inferior tinha uma perfeita cor vermelha que o tornava ainda mais desejável para beijar. Os seios pequenos, mas sensuais, da cor do luar, erguiam-se acima da cintura que cabia na mão de um homem.

Mas nada disso importava, comparado com a bondade inata dos seus olhos, a curva alegre dos seus lábios, a inteligência feroz com que enfrentava todos os dias.

Isso era muito belo.

Sem mais palavras, percorreram a longa galeria. Os dedos de Theo poisados na manga dele, a multidão abrindo alas como o mar Vermelho quando se aproximaram. James leu aprovação no rosto de todos e depois alguém começou a aplaudir. Provavelmente o próprio Regente.

Duas mãos aplaudindo transformaram-se em várias e depois em mais. Por fim, desceram a escadaria ao som dos aplausos dos seus pares que enchiam o salão de baile.

Já dentro da carruagem, enquanto eram conduzidos para casa, Theo conseguiu deixar de chorar. James perguntou-lhe se se sentia bem, mas as palavras estavam tão emaranhadas no seu coração que nem conseguia pronunciá-las, limitando-se a acenar com a cabeça e a apertar muito a mão do marido.

Uma vez em casa, entregou a capa a Maydrop, deu a mão a James antes mesmo de este ter tirado o casacão e, sem pronunciar palavra, conduziu-o à escada. Ele seguiu-a, ainda com o casaco vestido, soltando uma enorme gargalhada.

Theo manteve-se em silêncio já no quarto e com a porta fechada. Durante um precioso momento permitiu-se a olhar para o seu pirata. As feições elegantes de James ainda lá estavam. A tatuagem acentuava-lhe o tamanho das pestanas, a curva dos lábios e o arco das maçãs do rosto.

Quando despiu o casacão, Theo puxou-lhe a cabeleira e atirou-a para o lado. James era enorme e muito belo, com uma força dentro de si que fizera com que um navio cheio de piratas – e um salão cheio de Lordes – concordasse com tudo o que ele propunha.

E aquele homem era seu.

– Estás zangada por eu ter empurrado um pouco o Trevelyan? – perguntou James, embora não se importasse nada com o que ela pensava do assunto e seria capaz de o repetir num instante.

Theo levou um instante a encontrar as palavras certas.

– Disseste a toda a gente que, para ti, eu era muito bela.

– E és – disse ele, simplesmente. – E não o és só para mim.

As lágrimas ameaçavam cair de novo, mas mais uma vez ela conteve-as. James estava encostado à porta como o rei pirata que era, com uma expressão maliciosa e terna, ao mesmo tempo.

– Sempre pensei – disse ela hesitante – que tinhas começado a amar-me quando estiveste cego aos doze anos. Porque não podias ver-me.

Ele ergueu imediatamente as sobrancelhas.

– Que disparate. Já te amava havia muito tempo.

– Deveras?

– No ano antes, quando a minha mãe morreu. Nessa noite foste ter comigo, não te lembras? Ainda dormias numa cama pequena no quarto das crianças e eu passara já para uma cama maior no quarto ao lado. Foste ter comigo sem dizer uma palavra depois de a ama se ter ido deitar, e meteste-te na cama ao meu lado. Eu comecei então a chorar e solucei até já não ter mais lágrimas.

– Tinha-me esquecido disso – disse Theo, recordando-se do que se passara.

– Mas sabes por que razão me apaixonei por ti?

Havia uma impiedosa centelha de alegria nos olhos dele. Theo abanou a cabeça.

– Porque levaste para a minha cama oito lenços. Oito. E precisamente oito lenços engomados depois, fui capaz de enfrentar um novo dia.

Ela não pôde deixar de sorrir.

– Gosto de estar preparada.

– Conhecias-me. – O olhar dele era despido e vulnerável. – Durante toda a minha vida foste o meu íman natural, a chave do meu coração. Perdi-te por algum tempo, Daisy – endireitou-se e dirigiu-se a ela. – Não suportaria perder-te de novo.

– Não perdes – murmurou ela, puxando a cabeça dele para a sua.

Um dos momentos que Theo – ou Daisy, como o marido insistia em chamar-lhe – nunca esqueceria em toda a sua vida aconteceu nessa mesma noite.

Estavam ambos na cama. Como de costume, um lençol escorregara já para o chão. A duquesa tinha o cabelo levantado de um lado. O duque queixava-se de que distendera um músculo da anca esquerda e que a culpa era dela porque «nenhum homem devia dobrar-se daquela maneira».

Theo beijou o marido e disse-lhe um segredo que guardara aninhado no seu coração, à espera de uma certeza absoluta.

– E tu – declarou – serás o pai mais maravilhoso que este bebé poderia ter.

James não conseguia encontrar palavras. Ficou a olhá-la por um momento, depois sentou-se recostado à cabeceira da cama e colocou-a suavemente entre as suas pernas, poisando-lhe no ventre as suas mãos enormes.

Enquanto Theo descansava feliz, encostada ao ombro dele, para seu grande espanto James começou a cantar. Não era a sua antiga voz clara, de tenor. Era a voz de um homem que andara no mar; tinha o som do brande e do pecado.

– Dança comigo – cantou ele. – Até ao fim da vida.

James fez uma pausa no final do verso e murmurou-lhe ao ouvido.

– Isto significa que tu e eu dançaremos juntos pela nossa vida e talvez depois. – Beijou-lhe o nariz e continuou a cantar, com as mãos poisadas no ventre dela, ainda liso. – Dança comigo e com os nossos filhos que estão à espera de nascer.

Theo engoliu as lágrimas e ergueu a voz para cantar com ele, a sua voz de soprano entretecida no baixo imperfeito – mas tão belo – da voz dele.

– Dança comigo – cantaram ambos. – Até ao fim da vida.

Foi a primeira de muitas canções que James cantou ao seu primogénito e ao segundo filho e ao terceiro e ao quarto que veio acompanhado. As crianças sabiam que o pai não gostava de cantar. Mas também sabiam que se a mãe lhe pedisse... bom, o papá nunca lhe dizia que não.

Por isso, a família dançava e cantava – um pirata e uma duquesa, um duque e uma artista, um homem e uma mulher – pelos muitos dias e caminhos de uma vida longa e feliz.


Nota Histórica

Todos os meus romances retiraram a inspiração de uma combinação de ficção literária, factos históricos e elementos da minha própria vida (o meu marido seria o primeiro a afirmar que o desejo de Theo catalogar as fitas é semelhante àquilo que faço com as minhas prateleiras).

A Duquesa Feia segue obviamente esse padrão. E a minha maior dívida é aqui para com o conto «O Patinho Feio» escrita pelo poeta e contista dinamarquês Hans Christian Andersen. Esse conto de fadas foi publicado em 1843, por isso foi um anacronismo utilizá-lo aqui e, como tal, apresento as minhas desculpas. Queria situar a história no período da Regência e queria mais precisamente que Theo se encontrasse em Paris depois do Tratado de Fontainebleau em 1814.

Ao mesmo tempo, este romance foi o primeiro a ser inspirado numa pessoa real exterior à minha própria família (não estou a contar com Sir Justin Fiebvre em Duas Irmãs e Um Duque; enquanto Justin Bieber serve obviamente de inspiração a muitos, Sir Justin era uma personagem secundária). Há algum tempo, chamou-me a atenção um artigo que descrevia as «Regras» criadas pela fascinante, eclética e simplesmente maravilhosa Iris Apfel. Theo surgiu com regras adaptadas ao seu tempo e lugar, mas as de Iris (Visit the Animal Kingdom) serviram de ponto de partida.

Outra fonte de inspiração para os conselhos de moda foi A Guide To Elegance: For Every Woman who Wants to be Well and Properly Dressed on all Ocasions, de Genevieve Antoine Dariaux. A elegância, diz Dariaux, é harmonia, uma lição que Theo seguia à risca.

Quero acrescentar que o capítulo situado na Câmara dos Lordes deve muito a uma cena semelhante descrita no romance Clouds of Witness (1926), de Dorothy Sayers. E, por fim, Sir Griffin Barry foi criado a partir de um pirata, que realmente viveu durante o Renascimento, um jovem réprobo, dramaturgo e cavalheiro, mas, mesmo assim, pirata.


Eloisa James
tem o prazer de vos oferecer este conto:


Para Sempre...


Londres

31 de dezembro de 1812

Baile de Ano Novo de Lady Bracknell

Na opinião atenta, embora cínica, de Ms. Violet Leighton, os contos de fadas eram conversa fiada. Como não haveriam de ser? O pai despedira os moços de cavalariça; os sapos capazes de serem beijados apareciam cada vez menos; e os cavalheiros que conhecera pareciam mais apropriados a uma farsa do que a um conto de fadas.

Resumindo: o casamento era para sempre, sem a promessa de felizes, ideia assustadora que a levara a recusar sete propostas.

Aos vinte anos, o pai considerava-a uma teimosa desesperada. Por outro lado, a irmã mais nova, Millicent, via-a como uma romântica inveterada, ainda à espera da chegada do príncipe.

Violet considerava-se solteirona. Para... sempre.

– Ele está aqui! – Millie chegou audivelmente ofegante junto de Violet, com os olhos a brilhar de entusiasmo.

O coração de Violet deu um salto, mas lançou à irmã um olhar de censura, voltou-se para o lado e dirigiu um sorriso encantador ao cavalheiro com quem conversava. Nem por sombras desejava parecer uma tolinha ansiosa por se elevar diante de um líder da sociedade.

– Peço perdão – disse. – Não percebi o que me disse acerca das golas.

– Gules, não golas – corrigiu Sir Dauphine La Foole no tom pomposo de um mestre-escola. – Mencionei apenas que sou descendente direto dos La Foole franceses. Embora tivesse sido armado cavaleiro na Irlanda, uso as cores hereditárias no meu brasão talhado azure e gules, o que, minha querida Miss Leighton, é uma cor heráldica e pode ser descrita como vermelho-escuro. – Alisou a manga do casaco cor de vinho.

– Violet! – Millie puxou-lhe o braço. – Não me ouviste? Na entrada... já chegou!

– Tenho a felicidade de as cores da minha pele condizerem com as do brasão de família. – La Foole olhou para Violet de um modo calculista. – A sua cor, Miss Leighton, ficaria maravilhosamente com o azure.

– Estás a embaraçar-me – sussurrou Violet a Millie. – Vai-te embora, estás a ser indelicada.

Com uma exclamação irritada, a irmã afastou-se. Mas, para mortificação de Violet, La Foole ouvira tudo.

– Creio ter de a devolver à sua acompanhante, Miss Leighton, para que possa dar as boas-vindas ao misterioso recém-chegado. – O seu olhar era levemente trocista sob a franja de caracóis amarelos que lhe cobriam a testa. – Poder-se-ia pensar que estava a esconder um noivo, pela ansiedade do tom de voz da sua irmã.

– Que tolice – disse Violet levemente irritada. – Millicent está simplesmente a implicar comigo, como o fazem todas as irmãs. Quando eu era ainda pequena, uma criança, afinal, senti uma breve paixoneta por um amigo do meu irmão que há anos anda a viajar. Hoje de manhã soubemos que ele regressara por fim a Inglaterra e os meus irmãos troçam de mim por isso mesmo. Claro que, entretanto, nunca o vi nem pensei nele.

Era mentira, mas seria difícil confessar que o homem que lhe partira o coração estava prestes a entrar no salão de baile.

– Quanto tempo esteve fora esse cavalheiro?

– Cerca de quatro anos. Realmente, Sir Dauphine, creio que todo este tema é de facto enfadonho...

– Pelo contrário – interrompeu-a ele. – Acho que será muito interessante. Vamos ver se consegue conhecê-lo. Não há a mínima dúvida de que a menina melhorou desde os seus dias de infância; ele não terá qualquer dificuldade em reconhecê-la. – Para surpresa de Violet, havia nos olhos dele uma centelha de admiração.

Violet sentiu o coração apertado. Aparentemente, aqui estava outro pretendente que não poderia aceitar. O pai sofreria, sem dúvida, uma apoplexia.

Uma onda de emoção espalhou-se no lado oposto do salão de baile e o mordomo anunciou em voz sonora:

– O senhor duque de Cambridge.

Ela e La Foole não teriam de se afastar muito para avistarem o homem que lhe partira o coração. Pelos vistos, acabara de entrar.

Violet sentiu-se arrepiada com uma combinação de ansiedade e embaraço. Desejava ver Rothwell Talbot, duque de Cambridge; ao mesmo tempo, desagradava-lhe a ideia de que ele tivesse regressado das suas viagens para encontrar uma solteirona de vinte anos, enlanguescendo no perímetro de um salão de baile.

Lançou deliberadamente a Sir Dauphine um olhar derretido por baixo das pestanas. La Foole tinha extensas propriedades, já para não falar nas tais gules; era melhor que nada. Talvez que ela o devesse seriamente ter em conta.

– É muito simpático da sua parte – murmurou.

Ele reagiu afastando com dois dedos uma madeixa de cabelo da testa.

– Vamos sair daqui para beber qualquer coisa? – perguntou, inclinando-se. – Esta sala está insuportavelmente cheia de gente.

– Será um prazer – replicou Violet. Poisou os dedos sobre a manga do casaco dele e permitiu que a conduzisse em direção à porta.

Enquanto saíam do salão de baile, ela mantinha os olhos no rosto de La Foole, assustada só de pensar que, se olhasse para a direita ou para a esquerda, ele pudesse ver Rothwell. Porém, não havia dúvida de que o melhor seria levar a cabo esse primeiro encontro.

Talvez ele não a reconhecesse, mas La Foole tinha a certeza de que não seria assim. Violet tinha apenas dezasseis anos quando se haviam visto pela última vez e mudara em todos esses anos. Fora tão confiante, tão apaixonada, tão desesperadamente ingénua. Agora já não era uma jovem tola e inexperiente; era uma beleza reconhecida pela alta sociedade, uma mulher que recusara sete propostas de casamento, três das quais feitas por titulares. Embora, claro, nenhuma ao nível de um duque.

Repetir silenciosamente esse número não fazia qualquer diferença.

A ideia de que Rothwell estava próximo fazia-a sentir-se levemente nauseada. Quatro anos antes, quando tinha apenas dezasseis anos, o irmão trouxera o seu amigo Rothwell para passar lá em casa uma breve interrupção das aulas da Universidade de Oxford. Mas o irmão apanhara sarampo e Rothwell ficara de quarentena, sem poder sair de lá.

E então Violet e Rothwell percorreram juntos, ilicitamente, os domínios, arriscando-se ao escândalo por se afastarem de casa – e dos pais de Violet.

Em vez de ficar uma semana, ele ficara um mês. As conversas conduziram aos beijos e duas pessoas podem beijar-se muito durante trinta dias. (Beijos e algo mais, pensou ela tristemente.)

No dia anterior à sua partida, Rothwell levara-a para apanhar morangos silvestres e dissera-lhe que os lábios dela eram mais vermelhos que as pequenas bagas que tinham encontrado. Essa recordação fê-la sentir o gosto agridoce desse último beijo.

La Foole ofereceu-lhe um copo de orchata e depois, com um gesto brusco, quase doloroso, afastou da testa uma madeixa de cabelo.

– Tem de me contar mais acerca dessa sua misteriosa paixão de infância – disse alegremente.

Que deveria dizer-lhe? Tinham passado anos desde que Rothwell abandonara a Grã-Bretanha para o seu grand tour. Deveria ter regressado um ou dois anos depois, mas não o fizera. Prometera-lhe escrever todas as semanas, mas também não o fizera. E agora, depois da trágica perda dos seus dois irmãos num acidente de barco, era duque.

Desesperadamente acima de uma simples jovem como ela.

Não que ela o quisesse, mesmo que ele se oferecesse. Não, pois apenas lhe tinha escrito duas cartas e ambas no primeiro mês da sua ausência.

Esquecera-a rapidamente. Pensaria certamente – se é que isso o preocupava – que ela já estaria casada. E certamente poderia estar.

Só que não aceitara ninguém. Continuara a comparar os seus muitos e variados pretendentes com o pérfido Rothwell, com o homem que era diferente de todos na sociedade. Esta observação não era um elogio especial. O irmão troçara do amigo chamando-lhe pedreiro pelos seus músculos, ombros quadrados e feições duras e severas.

Não tinha o rosto de um aristocrata. Nada como a refinada estrutura óssea de La Foole. Comparado com Sir Dauphine, Rothwell parecia um touro.

– A menina dança com muito requinte – elogiou La Foole na sua pronúncia rolada. – Mas já o deve saber, pois toda a cidade de Londres fala na sua inefável graciosidade.

– As suas palavras honram-me muitíssimo – murmurou Violet.

– Calculo que não tenha visto o homem por entre a multidão. Crê que o reconhecerá? Se tem andado a viajar poderá estar muito gasto. As viagens são extraordinariamente cansativas. Até mesmo um homem antes dos trinta anos pode parecer um octogenário.

Violet não pôde deixar de rir. Aquele homem era mesmo tonto.

– Nesse caso, procurarei um viajante prematuramente envelhecido.

– E pode ter sido ferido – continuou La Foole acenando com a mão. As viagens ao estrangeiro são perigosas, pelo menos é o que dizem. Não sabe se ele visitou o Nilo, pois não?

– Creio que tencionava viajar para o Egito – respondeu Violet.

– Bem, então prepare-se – avisou La Foole em voz trémula. – Pode mesmo ter perdido uma mão ou talvez uma perna.

– Comido por um crocodilo? – perguntou Violet, sem conseguir conter uma série de gargalhadinhas histéricas.

– Talvez um elefante! – disse La Foole, abrindo muito os olhos para acentuar o que dissera. – Parece que todos os dias esses monstros caem sobre as pessoas, o que leva, segundo os relatos, a inúmeras amputações. Resumindo, Miss Leighton, o aspeto do seu amor de infância provavelmente vai chocá-la e desiludi-la.

Violet assentiu.

– Cabelo branco... falta de membros...

– Rugas! – exclamou La Foole. – Todo esse sol é terrível. Como a casca de uma avelã, imagino. Velho, grisalho, sem pernas. Pode conseguir melhor, Miss Leighton.

Não dava lugar a dúvidas quem considerava ser a melhor alternativa. Olhava para ela com a mesma avidez com que olharia para uma gule que desejasse acrescentar ao brasão da família

Violet desviou o olhar e o seu riso desvaneceu-se de súbito.

Rothwell estava apenas à distância de algumas pessoas e vinha direito a ela. Ao contrário dos vulgares mortais, como ela própria, não tinha de se voltar para atravessar um salão cheio de gente. Vendo um duque com uma magnífica casaca cor-de-rosa bordada a fio de ouro, a multidão afastava-se em sinal de respeito, se não de medo.

Era bastante mais alto do que fora aos vinte anos e parecia muito mais entroncado. Também o seu cabelo mudara: estava mais claro, um pouco mais loiro, como se o sol o tivesse dourado. Mas os seus olhos verdes e queixo largo eram iguais. Contra sua vontade, Violet sentiu o coração acelerado. Sentira aquela poderosa masculinidade irresistível aos dezasseis anos. Mas claro que agora já não era uma menina. As paixonetas eram para as crianças.

Rothwell deteve-se diante dela. Violet conteve-se e fez uma profunda reverência.

– Senhor duque.

Quando a mão dela lhe escorregou do braço, La Foole olhou para o duque e curvou-se também, de tal forma que o cabelo lhe caiu para diante e depois se ergueu como uma onda.

– Andei um ou dois anos depois de Vossa Graça em Eton. Lamento muito o que se passou com os vossos irmãos. Mesmo muito.

– Muito obrigado – agradeceu Rothwell, sem olhar para Sir Dauphine. – Miss Leighton – declarou logo a seguir –, é um prazer vê-la de novo.

Violet sentiu que algo lhe doía no peito, como se tivesse sido atacada. Mas aquela formalidade era exatamente o que esperava. No passado tratara-a por Violet, mas nunca usaria o seu nome próprio em público, claro.

– Alegro-me de ver que o senhor duque está no pleno uso das suas pernas – declarou ela, incapaz de pensar o que dizer. Na verdade, Rothwell não passara os últimos quatro anos da sua vida incólume. O seu rosto alterara-se; havia algo nele um pouco mais implacável, como se tivesse vivido brutalmente ou entre gente violenta.

– Os elefantes rolavam sobre as pessoas que estavam à minha esquerda e à minha direita, mas consegui escapar – replicou Rothwell secamente, embora nem sequer olhasse para Sir Dauphine.

– Quer dançar comigo, Miss Leighton?

– Acontece que íamos dançar a valsa – declarou La Foole, como se não tivesse apreciado a referência impassível de Rothwell. – Creio que já oiço os músicos a afinar os instrumentos.

Rothwell voltou a cabeça e lançou ao idiota ao lado de Violet um olhar tal que o obrigou a recuar um passo.

Depois voltou-se para Violet. Era ainda mais requintada do que fora aos dezasseis anos. Envergava um vestido simples de cor creme, sem folhos e rendas exageradas que as outras mulheres usavam, mas ela não precisava de adornos pois ficaria maravilhosa mesmo coberta de farrapos.

Procurara-a primeiro no salão de baile, mas não a viu em parte alguma. Depois, quando a avistou, ficou com as pernas fracas por momentos. Aos dezasseis anos, Violet era muito bela, como um espírito irrequieto, de pernas esguias como as de um potro. Mas agora... agora estava madura, desde os seus lábios cor de cereja aos seus seios sensuais. Todos os homens na sala o sabiam. Ele sentia os olhos deles sobre ela.

Daria uma requintada duquesa, embora isso não fosse importante.

Queria Violet por outras razões e não apenas pela furiosa luxúria que sentira ao localizá-la no meio daquela ignorante multidão, nem pelo ardor da posse que sentira no momento em que outros homens sentiram precisamente essa mesma emoção.

Estar com ela, ao lado dela, faria sarar a dor solitária e inquieta que sentira no peito desde que a deixara e que se tornara mais forte com o passar dos anos. Os olhos dela recordavam-lhe a cor do ar quando o Sol estava prestes a mergulhar na água, quando, de súbito, a luz se torna azul-arroxeada. Ela era tão rara como esse momento.

– Agradeço o convite a Vossa Graça, mas prometi a valsa a Sir Dauphine. – O sorriso de Violet era tão frio que se poderia cortar com uma faca. Não havia dúvida que estava furiosa com ele. A mãe já o avisara quando, na véspera, chegara a casa. A culpa era apenas sua por ser um rematado idiota.

– Podemos dançar mais tarde – afirmou nervosamente o idiota que estava ao lado dela. Rothwell assentiu. Pelo menos, havia quem entendesse que ele regressara a Inglaterra por uma razão e apenas uma.

Respirou fundo e pensava que seria mais fácil pegar nela e sair da sala quando a mãe apareceu de súbito junto dele.

– Miss Leighton, Sir Dauphine – disse calorosamente, tocando-lhe com os dedos no braço em sinal de aviso. Maldição. A mãe aparecia como se ele continuasse a fazer as mesmas asneiras que fazia aos cinco anos. Sempre tivera essa habilidade.

Violet fez uma profunda reverência, o que significou que ele pôde espreitar-lhe o decote do vestido. A hora em que, anos atrás, ela lhe permitira que a despisse no atalho ficara-lhe guardada na memória. Os seios dela eram pequenos com mamilos tímidos como morangos. Agora os montes generosos e pálidos faziam com que um fogo ávido lhe invadisse o baixo-ventre. Como pudera deixar passar os anos sem voltar a vê-la? Como pudera deixá-la?

– Senhora duquesa – Violet dirigiu-se à mãe dele. – É um prazer vê-la de novo.

Ele sabia perfeitamente que elas se encontravam, como todas as mulheres, em chás e em peças de teatro. A mãe nunca deixara de lhe contar o que sabia acerca de Violet, escrevendo-lhe carta após carta, mesmo durante os meses e os anos em que ele não respondia.

Se tivesse ficado em casa, teria casado com Violet. Mas, se tivesse ficado em casa, teria ido passear com os irmãos no barco à vela, porque era isso que faziam todos os domingos. E se tivesse ficado em casa, Violet teria ido com eles. Prometera ensinar-lhe a velejar; cortejara-a com histórias do ar salgado, a simples ideia fazia com que uma sensação de raiva e impotência se apoderassem da sua garganta.

A mãe dizia algo a Violet acerca de um musical. Rothwell olhou por cima do cabelo brilhante de Violet para o salão cheio de gente. As joias cintilavam por todo o lado; no cabelo das damas, nos alfinetes de gravata dos cavalheiros. Alguns tontos pareciam até ter botões de pedras preciosas.

O salão parecia um guarda joias perfumado e a sensação de estar encurralado era superior ao que podia aguentar. Dentro das suas luvas infernais esticava e encolhia os dedos. Não era bonito, não era próprio de um cavalheiro.

Estava habituado ao ar rarefeito do cimo da montanha, onde o único som que ouvia era o da própria respiração. A pressão dos corpos sobreaquecidos em seu redor faziam-no sentir-se possuído, como uma espécie de animal selvagem. Tudo o que desejava era estar só com Violet, falar com ela. Mas a mãe fora insistente: tinha de fingir apaixonar-se à primeira vista para proteger a reputação de Violet. Tinha de a cumprimentar e de dançar com ela duas vezes antes de ter autorização para a levar a passear aos jardins.

Rothwell baixou os olhos e avistou o mais belo lóbulo de orelha que jamais vira. Não era ator. Não conseguia fingir que se apaixonaria por uma pessoa a quem já amava desesperadamente.

– Violet – disse ele em voz rouca e entrecortada. Não era a voz de um cavalheiro. Não era a voz de um duque, embora só Deus soubesse que nunca quisera e ainda não queria ser duque.

A seu lado, a mãe ficou imóvel. Do ponto de vista dela, acabara de quebrar as regras.

Ignorou-a. Violet era a única pessoa que lhe interessava.

– Por favor, vem dar um passeio comigo. – Pusera o seu coração naquelas palavras. Sem afastar os olhos dos dela, descalçou uma luva que o fazia sentir um animal enjaulado, deixou-a cair no chão e estendeu a mão nua. – Por favor.

Ela fez uma pausa por um momento que a ele pareceu a vida inteira... depois estendeu o braço e pegou-lhe na mão.

Fizera-se quase completo silêncio quando saíram da sala. Violet era incapaz de pensar claramente. Apercebeu-se dos olhos felizes e brilhantes da irmã mais nova; dos olhos avidamente curiosos de Lady Whistlebury; dos olhos invejosos de uma jovem que não conhecia.

Rothwell apertava-lhe a mão de tal maneira que quase a magoava. Não era próprio andarem de mãos dadas. Não era próprio...

Nada daquilo era próprio.

Caminharam no mais completo silêncio pelo corredor e entraram noutra sala de onde saíram para os jardins. O relvado das traseiras da casa de Lady Bracknell era sombrio, e apenas vagamente verde, à luz que se escoava pelas janelas do salão de baile.

Mesmo assim, Rothwell não disse uma palavra, puxou-a apenas para um atalho cuja curva ficava fora das vistas.

– Onde vamos? – perguntou ela, por fim.

– Até ao fim do jardim – replicou. – Há um portão. Podemos sair e dar um pequeno passeio. – Ela abriu a boca para responder, mas ele olhou-a com uma expressão de desejo tal que Violet pestanejou. Sentiu-se como se um turbilhão a tivesse arrebatado do salão de baile.

– A minha mãe... começou a dizer.

– A minha mãe falará com ela.

Por detrás dos arbustos havia um muro que tomara para si o brilho do luar. Violet retirou a mão. Tinha de manter a compostura.

– Rothwell, não quero ir passear contigo. Nunca me escreveste. Passou muito tempo e agora és duque. Eu mudei e tu, certamente, também.

Ele tirava a tranca do portão e nem sequer olhou para trás.

– Não sirvo para escrever. Disse-to nas minhas cartas.

Pelos vistos, percorrera o mundo durante quatro anos, perfeitamente certo de que ela esperaria por ele. E, louca como era, esperara. Agora pensava que ela lhe cairia nos braços num paroxismo de felicidade só de o ver.

Violet esperou que ele abrisse o portão e olhou-o depois com os olhos semicerrados.

– O quê? Na segunda das duas cartas? Não me recordo de ler nada a dizer que ias desistir da arte epistolar. – Cruzou os braços.

– Escrevi quatro cartas. – Descalçou a outra luva e atirou-a para o lado.

– Recebi apenas duas curtas missivas, ambas escritas no primeiro mês das tuas viagens.

Rothwell estava ainda mais bem-parecido do que aos vinte anos. Como se poderia ela ter esquecido da sua insuportável arrogância? Era demasiado – grande: nada elegante, nada gracioso... indómito.

Masculino.

– Vim para casa por ti – disse, como se fosse tudo o que importava. Ela quase se derreteu com o olhar dele.

Mas as recordações de noites cheias de lágrimas detiveram-na. Rothwell não poderia esperar que ela se mantivesse solteira. Poderia ter aceitado o pedido de Lorde Bristelow, por exemplo. A recusa partira o coração do pai. Uma filha mais obediente teria aceitado e Rothwell poderia ter voltado para a encontrar já com filhos.

– Podia ter-me casado – afirmou. – A esta hora já podia ter filhos.

– Sabia que não o farias – replicou. Encostara-se ao muro e o luar cintilava no seu rosto de pedreiro com a masculinidade teimosa evidente em cada feição do rosto.

Teria assim tantas certezas? Vê-la-ia como uma louca, tão apaixonada que nunca duvidara que ela se guardara para ele. Violet ficou rosada de fúria tanto por causa dele como por si.

– Tive várias propostas! Poderia ter casado uma semana depois de ter sido apresentada à sociedade.

Sem responder, Rothwell pegou-lhe na mão e começou a desapertar-lhe os botões das luvas.

– Ouviste-me? – perguntou. – Não tinhas o direito de concluir que eu ficaria solteira. Principalmente porque nunca escreveste! Quatro cartas em quatro anos?

Conseguiu descalçar-lhe uma luva e ela permitiu-o. Como ele não erguesse os olhos, limitou-se a esperar com o coração a bater-lhe no peito a um ritmo alucinante. Aceitaria a mão de um homem tão arrogante que, pelos vistos, acreditava que ela esperaria por ele para sempre?

O silêncio era intolerável.

– E se nunca te tivesses dado ao trabalho de regressar? Deveria ter casado há anos!

Rothwell ocupou-se então da segunda luva, agora com a cabeça curvada sobre a mão esquerda de Violet. Esta esperava que ele erguesse o rosto para olhar para ela. Mas ele não o fez e, quando falou, fê-lo numa voz calma e comedida.

– Se tivesses aceitado uma proposta, os meus advogados tinham ordens de me mandar chamar e de fazer ao teu pai, por procuração, um pedido de casamento.

Ela ficou sufocada.

– Tens a arrogância de pensar que eu aceitaria o pedido feito por um advogado? Desapareceste durante anos para fazer sabe Deus o quê e agora pensas que te podes simplesmente casar comigo como se tivesses saído de Inglaterra ontem?

Ambas as luvas tinham desaparecido e ele tomou-lhe também a mão direita. Mesmo contra a sua vontade, ela apertou os dedos em redor dos dele. Por fim, Rothwell ergueu os olhos e a expressão dos olhos dele deixou-a sem respiração. Havia desejo e angústia e algo que reconheceu como amor, mesmo através da névoa da sua raiva.

– Amo-te, Violet. Nunca pensei ficar fora tanto tempo. Pensei sempre em ti. Todos os dias, muitas vezes por dia.

De súbito, ela apercebeu-se do silêncio em seu redor, do pipilar pensativo de uma ave noturna. Certamente que não iria ceder e aceitar a mão dele, não depois de tantas lágrimas, depois de sentir o coração partido, depois de quatro anos de silêncio.

– Não sou um partido adequado para ti – disse ela em voz fraca, procurando razões. – Agora és um duque. Deves casar-te com uma aristocrata.

Ele pegou-lhe nas mãos e levou-as à boca para as beijar, primeiro uma, depois a outra, com os olhos fixos no rosto dela.

– Não me faria diferença que fosses filha de uma vendedora de maçãs.

– Que absurdo! – Mas Violet lia a verdade nos olhos dele. Rothwell não era mentiroso. Era descuidado, não gostava de escrever, mas era sincero.

– Porque não voltaste para mim? – murmurou ela com a voz entrecortada. – Prometeste. Esperei por ti.

Rothwell puxou-a para os seus braços com um movimento rápido.

– Nunca me quis casar senão contigo – declarou ele em voz baixa e rouca. – Teria voltado mais cedo, mas foi difícil chegar ao Nilo e aconteceram várias coisas. – Fez uma pausa e engoliu em seco. – Depois chegou uma carta a dizer que os meus dois irmãos tinham morrido. Nunca te quis magoar. Nunca te magoaria, Violet.

– Lamento muito – murmurou ela, erguendo a cabeça, esquecida de tudo o resto e erguendo a mão para lhe acariciar a face. – Sei o muito que gostavas deles. O muito que os três se estimavam.

– Devia estar com eles – disse ele em voz grave.

– Não – declarou Violet, perentória. Todos sabiam que os três filhos do duque de Cambridge velejavam juntos todas as semanas.

Violet tremeu de medo nos dias seguintes a ter ouvido a notícia, embora estivesse zangada com ele... nessa ocasião, os dois anos que ele planeara viajar estavam praticamente no fim. Não lhe escrevera, mas ela ainda tinha esperança. Apenas a perdeu depois de passarem mais doze meses.

– Creio que fiquei um pouco perturbado e não queria voltar para ti nesse estado.

– Oh, Rothwell, tenho tanta pena – murmurou Violet.

– Nunca houve outras mulheres. Passei o tempo a subir a montanhas, a enfrentar tempestades no mar.

– Não o deverias ter feito!

– A única coisa que mantinha a minha sanidade mental era saber que estavas à minha espera. Mas pensava sempre que, se nos tivéssemos casado, Violet, estarias no barco comigo e com os meus irmãos. A tua vida ter-se-ia perdido tal como a deles.

– Isso não sabes, Rothwell. Ninguém pode dizer o que teria acontecido. Mas sei que a tua mãe ficaria desfeita se não tivesses voltado. Ela não...

– Bem sei. Não dormiu durante dois dias à espera que eles lhe entrassem pela porta.

A pergunta angustiante no rosto de Rothwell contava toda a sua história. Inconscientemente, Violet encostou a boca à dele.

– Também eu não teria dormido durante duas noites – murmurou.

Ele abriu a boca ou ela abriu a boca... e subitamente beijavam-se de novo e todo o afeto e doçura que o prendera a si quatro anos antes surgia de novo. Bastava o toque da língua dele para lhe enviar aos membros loucos sinais de fogo. Ele beijou-a ferozmente, puxando-a com força de encontro a si.

– Nunca houve ninguém senão tu – disse ele, pouco depois. No fundo daqueles olhos verdes havia algo... Quando se olharam, olhos nos olhos, Violet sentiu uma alegria apaixonada florir no seu coração, um sentimento diferente do desejo febril causado pelos beijos dele: era algo mais profundo, que apenas se fortaleceria com os anos.

– Perdi um ano em África e outro depois de passar a ser duque, mas sabia que voltaria para ti – afirmou Rothwell. – Nunca mais toquei noutra mulher, Violet. Juro-te. – A voz dele falava a verdade.

Um sorriso tremeu nos lábios dela quando encostou as mãos ao peito dele.

– Não sabia...

– Como podias não saber? – perguntou ele. – Amei-te no momento em que te vi. E disse-to. Cortejei-te.

– Com morangos – disse ela com o riso preso na garganta.

– Dei-te o meu coração.

– Oh – suspirou Violet.

– Nunca sequer desejei outra mulher. Nunca depois de ti. – O fantasma de um sorriso passou-lhe pelos lábios. – Nunca depois dos morangos.

As lágrimas assomaram aos olhos de Violet, que as engoliu convulsivamente.

– Nunca pude pensar num marido que não fosses tu. Quase enlouqueci o meu pai recusando os pedidos.

O brilho possessivo dos olhos dele suavizou a dor daqueles tristes anos.

– Estávamos então num estado semelhante – comentou ele e a satisfação percorria-lhe a voz rica como a nata pesada.

Puxou-a para si para lhe dar um beijo ardente, com a boca aberta. Depois desceu as mãos rodeando-lhe o traseiro.

– Não faças isso – murmurou ela. Mas em vez de o empurrar, pôs-se na ponta dos pés para lhe passar a língua pela profunda linha do seu lábio inferior. Ele cheirava tão bem, como um jardim noturno, e ela desejara-o tanto.

– A minha carruagem está junto ao portão – murmurou-lhe ao ouvido. – Por favor, vem comigo, Violet.

– Não posso... a minha mãe morreria de vergonha.

Como resposta ele tomou-a nos seus braços. Ela riu.

– Vais raptar-me?

– Certamente que a tua mãe já saberá que serás duquesa amanhã à noite. O teu pai e a minha mãe já a terão informado.

– O meu pai?

Uma enorme carruagem negra com o escudo ducal gravado na porta esperava-os no caminho. Um lacaio de libré abriu a porta assim que os viu. Rothwell colocou Violet no assento estofado e depois endireitou-se.

– Segue! – Ouviu-o ela dizer. – Dentro de precisamente uma hora leva-nos à porta da frente dos Bracknell.

A porta da carruagem bateu e seguiram viagem com um solavanco. Não estavam na escuridão. Dois pequenos candeeiros fixos na parede lançavam uma luz dourada sobre os assentos.

Violet sentiu-se estilhaçada, como se tivesse perdido o juízo. O que pensariam as pessoas da maneira como saíra do salão de mão dada com o duque? Que estariam a dize naquele momento?

Mas depois ergueu os olhos e Rothwell estava ali, por fim, diante dela. Deixou que a maravilhosa verdade lhe chegasse ao coração: ele estava em Inglaterra; voltara para ela. Os olhos dele ardiam de desejo e, mesmo assim, sentado na sua frente, esperava, nervoso, que ela lhe dissesse alguma coisa. Que fizesse alguma coisa.

A certeza de tudo aquilo ressoava no peito de Violet. Deixou que os seus lábios esboçassem um sorriso que lá não existira durante quatro anos, desde o dia maravilhoso no atalho dos morangos.

– Rothwell – murmurou. E abriu os braços.

No segundo seguinte estava encostada ao assento e o corpo dele instalara-se sobre as suas curvas.

– Passaram quatro anos, Violet – murmurou com a voz suave como veludo. – Posso descontrolar-me.

Ela lançou-lhe os braços ao pescoço e aninhou-se contra ele. O calor e os músculos que a prendiam ao assento eram maravilhosos. A felicidade invadiu-a com a brusquidão com que um rio inunda as margens durante as cheias da primavera.

– Quero-te – disse ela, sem rodeios, passando-lhe os lábios pelo pescoço.

A mão esquerda de Rothwell deslizava-lhe pela perna, por cima da seda fina das meias, dirigindo-se a um lugar mais íntimo que apenas uma vez fora partilhado no atalho dos morangos.

– Um cavalheiro não o faria – disse ele, com desespero na voz. – Arranjei a carruagem porque pensei que precisássemos de privacidade para conversar; sabia que estavas zangada comigo. Mas não queria...

A voz dele desvaneceu-se. Descobria que o vestido de Violet lhe escorregara do ombro e que o seu feitio estreito excluía o uso do espartilho. O seio dela surgia, luminoso, sobre o brilho suave dos candeeiros.

– És tão bela – disse ele em voz rouca.

– Sou muito maior do que quando tinha dezasseis anos – respondeu Violet sufocando o riso na garganta ao ver-lhe os olhos extasiados. Mas os dedos dele desceram da curva do seio para o mamilo e um som abafado substituiu-lhe as palavras, enquanto o desejo os invadia.

Violet sentia-se inflamada pelo peso sensual do corpo pesado que tinha entre as pernas e, quando a boca dele substituiu a mão, um grito soltou-se-lhe da garganta. Depois descobriu que a camisa de Rothwell se soltara das calças e que podia meter uma mão para lha passar sobre a pele quente e sedosa.

A cada momento sentia-se mais repleta de uma felicidade ousada, do tipo de emoção que desafiava as regras da sociedade e de tudo o que lhe haviam ensinado em pequena.

– Pensei que não voltasses. Pensei que nunca mais sentiria isto contigo. – Arqueou o corpo junto ao dele, transformando-o numa carícia.

– Por acaso pensavas que eu, tendo feito amor contigo, não regressaria? Que quebraria as minhas promessas? Que poderia fazer uma coisa dessas? Ou que o faria?

– Não me escreveste. – Mas não conseguia que as suas queixas fossem convincentes. Acariciava-lhe os músculos fortes que não se encontravam ali quatro anos antes.

– Estás diferente – murmurou.

– Nunca fui muito bom com as palavras. – Imobilizou os dedos que acariciavam a perna dela, mas não era o que ela queria. – Pensei que sabias o que eu sentia.

Ela abriu um pouco mais as coxas para o encorajar a subir.

– Não faz mal – disse ela, beijando-lhe o pescoço.

– Vou passar o resto da minha vida a tentar compensar-te. – Rothwell capturou-lhe a boca mais uma vez. O beijo foi uma promessa e ela bebeu todas as palavras arrebatadas daquele voto silencioso.

Continuavam a beijar-se quando a mão dele lhe subiu acima da liga, incendiando-lhe a pele e se dirigiu à sua parte mais íntima, fazendo-a gritar com o toque dos seus dedos.

– Como poderia eu querer estar com outra pessoa? – perguntou, erguendo os olhos do seio para o rosto dela. – Depois de ti, não houve mais ninguém. O teu sabor, o teu toque... estou cansado da minha mão, Violet, passaram quatro anos.

Ela soltou uma gargalhada abafada, embora tivesse de cerrar os dentes para não gemer. As mãos dele eram calejadas e fortes, as mãos de um homem que andara no mar... e voltara para casa.

– Não devíamos fazer isto – disse ela ofegante. A sensação dos dedos a acariciarem-na era tão dominadora que lhe cravou as unhas na pele.

– Caso contigo amanhã com uma licença especial. Cheguei a casa ontem à noite; arranjei a licença esta manhã; fui falar com o teu pai esta tarde.

Por momentos aquilo afastou-a da névoa do desejo.

– O quê? Esqueci-me de que falaste nele. O meu pai sabe? E não disse nada à minha mãe?

– Não podia dizer nada à tua mãe ou à tua irmã mais nova, pois não seriam capazes de guardar segredo. A minha mãe insistiu para que fosse um segredo. Quis ir a tua casa às seis da manhã, mas ela não me deixou.

– Porquê? Porque não? – Um delicioso arrebatamento invadiu o corpo de Violet. Uma mão empurrou-lhe o joelho e ela perdeu toda a postura senhoril e permitiu que a sua perna se afastasse do assento, deixando-a aberta e completamente vulnerável. Já não desejava comportar-se como uma dama.

– A minha mãe comentou que a sociedade nunca nos viu juntos – gemeu Rothwell. O seu corpo quente ergueu-se e afastou-se do dela e Violet percebeu que ele abria as calças. – Pensou que eu deveria fingir apaixonar-me por ti à primeira vista, para que não houvesse escândalo.

– Vai haver um escândalo – comentou Violet, sem se preocupar e puxando-o de novo para si. – Pegaste-me na mão. Saímos juntos. – Fechou os olhos por isso apenas via o veludo cor de cereja e sentia simplesmente o que ele fazia com o seu polegar... com os seus dedos...

Depois beijava-a de novo, com força e docemente ao mesmo tempo. Sentia um turbilhão no seu espírito ao pensar que Rothwell voltara, que a tocava, que a amava... A passagem de um polegar calejado pelo seu mamilo e o prazer inundou-a de tal forma que gritou.

– Por favor – exclamou junto aos lábios dele. – Agora!

– Da última vez tinha uma camisa-de-vénus – lembrou Rothwell em voz baixa e entrecortada. – Desta vez podes ficar de esperanças, Violet. Tens a certeza de que me perdoas?

O sorriso dela espalhou-se no dele. Rothwell equilibrou-se sobre ela, deu-lhe um beijo na boca e chegou lá.

A sensação foi tão maravilhosa que as lágrimas lhe chegaram aos olhos. Violet ouviu-o murmurar algo... o nome dela?

Era de mais. Todo aquele calor, o fogo, a glória e a felicidade.

– Senti a tua falta – declarou em voz abafada. – Pensei morrer quando não voltaste nem me escreveste.

Rothwell imobilizou-se e depois beijou-lhe os seios.

– Sou um idiota. Apenas posso dizer que te fui fiel, que fui estúpido e que pensei...

– Pensaste que eu compreenderia.

– Sabia que eras minha. – Respirou fundo e entrou nela lentamente mas com força. Soltaram ambos exclamações de prazer e por momentos apenas se ouviu o ruído das rodas da carruagem. Rothwell voltou atrás, investiu de novo e falou por entre os dentes cerrados.

– Fui demasiado estúpido para ver as coisas do teu ponto de vista.

Uma e outra vez.

– Tinha a certeza de que o advogado nunca me diria que tinhas aceitado casar com outro homem. És minha, Violet. Amas-me. Sempre o soube.

Violet teria respondido – tinha coisas para dizer – mas tinha uma vida inteira para isso. Lançou-lhe os braços ao pescoço e deixou-se ficar a ouvir a sua própria respiração a soluçar-lhe no peito, sentindo como o prazer a invadia enquanto ele se movia cada vez mais depressa, até que, de súbito, perdeu toda a objetividade e deu por si perdida num turbilhão de cor, como se a escuridão tivesse subitamente explodido com as estrelas.

Voltou a si tão anónima e humilde como qualquer outra criatura de Deus.

Nenhum deles se mexeu durante algum tempo. Depois Rothwell beijou-lhe o pescoço, a testa e, por fim, os lábios.

– Habibti – murmurou.

– Como? – perguntou ela, passando-lhe os lábios pelo maxilar.

– Meu amor, como dizem no Egito. Aprendi isto no ano passado para to poder dizer.

Ela sentiu um soluço subir-lhe no peito e respondeu-lhe com um beijo.

– Ainda estou a tremer – comentou ele algum tempo depois, afastando-se suavemente dos braços dela e sentando-se. Apresentou-lhe um enorme lenço de linho.

Violet nunca se sentira tão feliz na sua vida. Recostou-se no assento, sem energia e deixou que ele cuidasse da sua pessoa. Rothwell alisou-lhe e baixou-lhe as saias e colocou-lhe o corpo do vestido no lugar. Por fim, sentou-a suavemente, no momento exato em que a carruagem parou.

– A minha mãe deve estar fora de si – disse Violet, sonhadora.

– Por sorte estás tão bela como sempre. – Inclinou-se para diante e abriu a porta. Um segundo depois, ergueu-a do assento e pô-la no chão.

– Vem, minha querida. Espera-nos o baile de Lady Bracknell.

– Não podemos! – protestou Violet. Mas Rothwell conduziu-a simplesmente e passaram pelo mordomo que estava diante da porta aberta. Ela tocou nervosamente no cabelo que, por milagre, estava ainda preso com os ganchos. – As minhas luvas! – disse sufocada, olhando para a carruagem.

Mas logo a seguir detiveram-se no cimo dos degraus que levavam ao salão de baile. Fez-se silêncio. Rothwell ajudou-a a descer os degraus. Depois voltou-se e, com um movimento suave, pôs o joelho em terra.

– Miss Violet Leighton – disse em voz clara e firme. – Dá-me a honra de vir a ser a minha duquesa?

– Oh! – exclamou Violet ofegante, olhando impotente, enquanto ele lhe metia no dedo uma pedra preciosa.

– Uma opal de fogo rodeada de diamantes – disse ele, ainda de joelhos. – Foi a única coisa que vi em quatro anos que me pareceu quase tão bela como tu.

Violet mal olhou para o anel. Inclinou-se e poisou-lhe as mãos nas faces. Ele era tão alto que quase não precisou dobrar-se.

– A honra é toda minha – disse do fundo do coração.

E depois, porque o sorriso dos olhos dele era para Violet e para mais ninguém, beijou-o na boca, em público, diante de mais de cem pessoas. Ele fora o único homem que a beijara e seria o único homem que ela beijaria.

E esse beijo foi a promessa que disse tudo o que ela não queria dizer em público.

Quando o duque se pôs de pé e puxou para si a sua amada, escandalizando extraordinariamente os que os rodeavam, o seu beijo devolveu a Violet todos os votos que ela, em silêncio, lhe fizera.

Cada beijo prometia um para sempre.

Felizes.

Eloisa James

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